Frank Rich é crítico do New York Times
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S E T E M B R O D E 2 0 0 3
"A
paixão", de Mel Gibson,
provoca polêmica
Frank
Rich
Meu padrasto dizia: "Os judeus não mataram Cristo; apenas
o atormentaram até a morte". O alívio da minha família
judaica foi palpável quando o Vaticano nos absolveu em 1965.
Hoje, os judeus americanos não precisam se preocupar com a acusação
– ou não precisavam, até que Mel Gibson dirigisse
o filme "The Passion" (A Paixão), sobre as últimas
12 horas de vida de Jesus. Indagado se poderia desagradar, Gibson disse:
"É possível. Não é a intenção.
Acho que o objetivo é contar a verdade. Quem transgride tem que
analisar seu próprio papel ou culpa".
Os temores vêm sendo alimentados pelo fato de que Gibson financia
uma igreja católica tradicionalista que não é filiada
à arquidiocese católica apostólica romana. O catolicismo
tradicionalista é o nome dado a um movimento separatista que rejeita
o Concílio Vaticano Segundo – que inocentou os judeus da
acusação de deicídio.
O "Wall Street Journal", que derramou elogios sobre o projeto,
relatou que as fontes do filme incluem os escritos das freiras Maria de
Agreda, espanhola que viveu no século 17, e Anne Catherine Emmerich,
alemã do início do século 19. Foi depois que o rabino
Marvin Hier, do Centro Simon Wiesenthal, falou sobre o histórico
anti-semita das freiras que um agente de Gibson desmentiu que elas sejam
fontes.
Difícil imaginar o filme sendo outra coisa senão um fracasso
de bilheteria nos EUA, uma vez que não conta com astros e seja
falado em aramaico e latim. Seu verdadeiro efeito incendiário talvez
seja sentido fora do país, onde desde 11 de setembro vem ocorrendo
uma metástase do anti-semitismo e onde Gibson é um ícone
ainda maior do que é em casa.
Gibson vem exibindo uma versão a platéias convidadas, mas
nem sempre ecumênicas. A lista inclui apenas um judeu: o estudioso
Matt Drudge. Um líder judeu cujos pedidos de assistir ao filme
vêm sendo recusados é Abraham H. Foxman, da Liga de Combate
à Difamação. "Gibson faz uma seleção
daqueles que vão apoiá-lo. Se o filme é uma afirmação
de amor, como anuncia, por que não exibi-lo para você ou
para mim?", disse Foxman.
Quando pedi para assistir ao filme, fui avisado pelo assessor de Gibson,
Alan Nierob, de que o "New York Times" é uma "prioridade
baixa" para eles porque a "Times Magazine" publicou um
artigo reproduzindo suposta fala de Hutton Gibson, pai de Mel Gibson,
que teria dito que o Concílio Vaticano foi "uma conspiração
maçônica apoiada pelos judeus" e que "o Holocausto
foi uma farsa".
Um dia, o filme terá que ser visto por todas as platéias.
É torcer para que o produto não se assemelhe ao roteiro
que circulou na última primavera americana. Esse roteiro –
que, segundo Gibson, foi roubado, mas que dizem ter sido vazado por um
integrante da empresa do ator – foi desaprovado por um grupo de
nove judeus e católicos.
Eles concluíram que os judeus eram mostrados como "sedentos
de sangue, vingativos e avaros", noticiou o "Jewish Week".
Uma das integrantes, Paula Fredriksen, disse que seus colegas ficaram
chocados com a semelhança entre o roteiro e as peças antigas
sobre a Paixão de Cristo.
O mal já foi feito, e a exibição difamou os judeus.
O que ele vem fazendo é fomentar a falsa idéia de que a
chamada "elite do entretenimento" está decidida a jogar
abaixo seu filme. De acordo com buscas em bancos de dados, ninguém
criticou "The Passion" quando Gibson foi ao programa de Bill
O’Reilly para se defender contra "quaisquer pessoas" que
pudessem atacá-lo. Ninguém ainda pediu a censura do filme.
Quer responsabilize judeus ou não, a estratégia consiste
em mostrar como os judeus de hoje estão crucificando Gibson. Idéia
parecida pode ser encontrada em livro lançado por um defensor do
ator. Em "Tales from the Left Coast" (Contos da Costa Leste),
James Hirsen diz: "A visão de mundo de certas pessoas se vê
ameaçada pela soma da história de Cristo com o talento de
Gibson".
Após uma exibição fechada de "The Passion",
a Associação Nacional de Evangélicos anunciou que
"os cristãos parecem constituir uma das principais fontes
de apoio a Israel", deixando subentender que esse apoio pode desaparecer
se os líderes judaicos "correrem o risco de provocar o repúdio
de 2 bilhões de cristãos em razão de um filme".
Foxman diz que acha a declaração "ofensiva e nociva".
"Se é isso o que significa apoiar Israel, então dizemos
não, obrigado a esse apoio".
A verdadeira pergunta é por que Gibson pode querer se dar ao trabalho
de atiçar judeus e semear o conflito neste momento histórico
frágil.
(artigo traduzido por Clara Allain e publicado na Folha
de São Paulo no dia 10/08/2003)
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