
ISRAEL KLABIN é presidente da Fundação Brasileira
para o Desenvolvimento Sustentável - FBDS
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N O V E M B R O D E 2 0 0 4
ARTIGO
O
novo nome para a paz
Israel Klabin
Wangari Muta Maathai
Wangari
Muta Maathai representa todos nós os que vêm,
nos últimos vinte anos, procurando os caminhos de um novo modelo
que nos dê esperança quanto ao futuro
O
Prêmio Nobel da Paz de 2004 premiou o futuro e criticou o presente.
Abriu uma bem-vinda interrogação: por que razão o
ativismo em desenvolvimento sustentável recebeu o Prêmio
Nobel da Paz?
Os caminhos do desenvolvimento sustentável passam necessariamente
pela formação de uma consciência humanística
global, única maneira de se assegurar paz e sobrevivência
para o planeta, para os países, para as cidades e para cada um
de nós. Wangari é uma mulher, negra africana, bióloga,
humanista e, acima de tudo, uma crente de que a presença do homem
no planeta está ligada aos princípios básicos de:
justiça social, respeito à dignidade humana e, sobretudo,
a preservação dos recursos naturais, benesse que nos foi
dada no início dos tempos. Essa mulher negra africana representa
todos nós os que vêm, nos últimos vinte anos, procurando
os caminhos de um novo modelo que nos dê esperança quanto
ao futuro. Muta Maathai participou da Conferência Rio+5 em 1997,
quando foi estabelecida e confirmada a necessidade de ser acrescentado
ao vetor econômico da sustentabilidade ambiental o fator social
como destinatário final desse desenvolvimento.
Por que o Nobel da Paz premiou não apenas Wangari Muta Maathai,
mas todos aqueles que acreditam na necessidade de revisão do modelo
político-econômico que é preponderante em praticamente
todos os países do planeta? Por que, depois de Gro Brundtland,
a grande norueguesa que primeiro levantou a tese de desenvolvimento sustentável
em 1972 (tese que foi consagrada por todos os países do planeta
em 1992), tivemos outra mulher, negra e africana, a receber o reconhecimento
mundial pela sua ação de preservação do meio
ambiente e de justiça social? A visão de futuro da mulher
é sólida e carnalmente comprometida com a descendência
por ela gerada. O compromisso de preservação dos recursos
naturais se liga diretamente à herança que deixaremos para
nossa descendência. Esse é o grito do presente para aqueles
que olham para o futuro. Qual é a luta desses que, no presente,
olham para as injustiças e as inadequações do modelo
político, econômico e social que herdamos do passado?
Wangari trabalhou no campo, estudou na universidade, agiu na política
e compreendeu que o mundo não é apenas o território
no qual ela vive. O Prêmio Nobel por ela recebido extrapola o exemplo
do Quênia para o resto do planeta.
Aceitamos a convocação de Wangari para formarmos uma tribo
global, cuja missão é procurar a implementação
daquilo que hoje já sabemos o que seja: desenvolvimento sustentável.
Acrescentar ao modelo político-econômico-social elementos
de sustentabilidade somente é possível através de
lideranças esclarecidas. A presença de vozes guias é
importante, porém a transição de um modelo para outro
depende igualmente da evolução da ciência, da formação
de uma consciência pública através da educação
e da substituição de instituições públicas
e privadas por uma modernidade que inclua desenvolvimento sustentável,
ou seja, a integração de políticas públicas
com as técnicas de sustentabilidade corporativa. Na evolução
dos últimos cinqüenta anos, o planeta suportou guerras, ideologias
conflitantes, explosões demográficas, destruição
do meio ambiente e aumento incomensurável da pobreza. Por outro
lado, assistimos a instituições que foram feitas visando
à promoção do bem-estar e da justiça tornarem-se
anacrônicas e dogmáticas. Das Nações Unidas
à Organização Mundial de Comércio, do Fundo
Monetário Internacional ao Banco Mundial e aos diversos fundos
feitos pelos oito países desenvolvidos com os seus surplus econômicos,
nenhum desses instrumentos foi capaz de consolidar os conceitos de sustentabilidade
dos recursos naturais e da justiça social.
O mundo continua pendurado na idéia de que "segurança
é melhor", e que na maior parte das vezes ela só é
alcançada através de atividade militar. Isso é revelado
através das enormes
despesas militares, que já em 1991 - portanto um ano antes da Rio-92
- consumiam um trilhão de dólares, ou seja, praticamente
três bilhões de dólares por dia em orçamentos
militares. O total do orçamento militar mundial naquele ano era
idêntico à renda coletiva de metade da Humanidade.
Hoje, em 2004, o orçamento militar do planeta é muito maior
e a porcentagem da Humanidade desassistida também cresceu na mesma
proporção.
Algumas opções para a utilização de uma pequena
parcela do orçamento militar que poderiam significar um passo gigantesco
no caminho do desenvolvimento sustentável:
1) Desenvolver a agricultura
mundial, de tal forma que toda a Humanidade pudesse dormir tendo recebido
durante o dia a quantidade necessária de alimentos, custaria 40
bilhões de dólares por ano, ou seja, menos do que o custo
do Strategic Defense Initiative Program dos Estados Unidos.
2) Para que um terço da Humanidade que não tem acesso à
água ou ao saneamento básico (a água impura está
associada a 80% das doenças dos países em desenvolvimento)
passasse a deles usufruir, o custo seria de 36 bilhões de dólares
por ano. Isso é equivalente a um pouco mais do que 12 dias de despesas
militares do planeta.
3) O total gasto no desenvolvimento de novas armas (aproximadamente 120
bilhões de dólares por ano) é oito vezes maior do
que o total gasto em pesquisa sobre novas fontes de energia.
4) Para suprir globalmente programas de imunização contra
doenças epidêmicas ou pandêmicas para as crianças
de 5 anos de idade, o custo seria de 1,5 bilhão de dólares,
ou seja, o mesmo que um submarino atômico ou um dia da Guerra do
Golfo.
5) Para salvar dois milhões de crianças do mundo em desenvolvimento
que morrem a cada ano de diarréia por falta de acesso à
água pura, o custo seria de 50 milhões de dólares,
ou seja, menos do que 30 minutos de gastos nas diversas maneiras de matar
pessoas.
6) Para reverter a desertificação no planeta, o custo seria
de 12 bilhões de dólares por ano, ou seja, quatro dias de
despesa militar.
7) Para que pudesse haver um fundo de conservação das florestas
tropicais do planeta, essenciais para a manutenção do equilíbrio
climático global, o custo seria de dois bilhões de dólares
por ano, ou seja, o equivalente a 16 horas de despesas militares, ou então
o equivalente a um submarino nuclear armado*.
Como disse Willy Brandt em 1986, "a corrida armamentista está
matando pessoas sem que as armas sejam usadas".
Wangari Muta Maathai mereceu o Prêmio Nobel por ter mostrado ao
mundo, na humildade e perseverança de sua ação em
um país pobre africano, que os caminhos para a paz passam obrigatoriamente
por um novo modelo: desenvolvimento sustentável.
(*) Dados
retirados de MYERS, Norman. "Ultimate security. The environmental
basis of political stability". New York, London: W.W.Norton &
Company, 1995. P.217-25.
Transcrito
do Jornal O Globo, Ciência, 31/10/2004
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