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Belmiro Valverde Jobim Castor
Prof. titular do Dep. de Adm. Geral Aplicada da UFPR; doutor em Filosofia (PhD) em Adm. Pública pela University Southern California, LA; ganhador do Prêmio Henry Reining, conferido pela University Southern California à melhor dissertação doutoral em Adm. Pública; consultor empresarial de diversas entidades públicas e privadas; ex-dietor superintendente do Banco Bamerindus do Brasil; ex-diretor internacional do Banco Bamerindus; Secretário de Estado do Planejamento - PR (1974-78 e 1983-84). Têm participado de vários congressos internacionais como conferencista entre outras atividades ligadas ao desenvolvimento do Cone-Sul (Mercosul), modernização mercadológica bancária e tecnológica das instituições financeiras, modernização do Estado, etc. Publicou O Brasil não é para Amadores - Estado, Governo e Burocracia na terra do jeitinho e participou
como co-autor de Burocracia e Reforma do Estado (Edições Loyola).
C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e

OPINIÃO
As lições que vêm da Malásia


Belmiro Valverde Jobim Castor

A crise argentina está longe de um desfecho, mas já é possível fazer um balanço dos danos: junto com o modelo de conversibilidade, foram por água abaixo o comércio internacional argentino, a estabilidade institucional, o respeito dos cidadãos pelo Judiciário e a classe política, que - ao não se mostrar à altura da crise - sai do episódio totalmente desmoralizada.

Fazer autópsias é mais fácil do que realizar prognósticos e agora a imprensa está repleta de análises "ex-post-facto" das razões pelas quais, desde o primeiro momento, a criação da dupla Cavallo/Menem estava fadada ao fracasso... Até pouco tempo, no entanto, muitos ainda apostavam na sobrevivências do modelo, tanto assim que o FMI injetou mais oito milhões de dólares nas contas argentinas há poucos meses.

O mais importante, agora, é extrair da crise argentina, lições fundamentais. A primeira diz respeito à incrível fragilidade decorrente da uma forte dependência de capitais internacionais para equilibrar contas externas e para financiar o desenvolvimento, trágico equívoco que levou a Argentina à bancarrota e com o qual convivemos há anos. No Brasil, com a persistência de déficits comerciais e de serviços, estamos permanentemente no limiar de crises cambiais, pelo que a debacle argentina deveria nos preocupar seriamente.


Os mesmos investidores que acorrem pressurosos para "participar do processo de desenvolvimento nacional", quando a situação é tranqülia e a confiança geral é ilimitada, são extremamente rápidos para cair fora ao primeiro sinal de que as coisas já não vão tão bem como antes. E de repente, o país endividado, se vê às voltas com aquilo que os especialistas chamam de "self-fulfilling prophecies", as profecias auto-realizáveis: por acreditarem que haverá uma crise, os investidores se retraem e, assim fazendo, provocam a crise que temiam.

A segunda lição não vem da Argentina, mas poderia ter sido muito útil para ela se aprendida a tempo: vem da Malásia, uma das vítimas da crise financeira asiática de 1998. Essa lição pode ser assim resumida:a adoção de um modelo de desenvolvimento francamente favorável ao capital internacional, de natureza essencialmente privativista, não é incompatível com a imposição de um conjunto de controles sobre os capitais externos, como querem fazer crer os defensores do nosso modelo atual.

Recapitulando: a Malásia é um país de 23 milhões de habitantes que, em menos de trinta anos, passou da condição de país exportador de óleo de palma, borracha e estanho para a de um dos países industrializados de porte superior, exportando 80 bilhões de dólares anuais, 2/3 dos quais em bens de tecnologia sofisticada. Conseguiu isso, mediante um programa de desenvolvimento baseado na atração de capitais externos, respeito às patentes, privatizações etc.

No entanto, como subproduto de sua internacionalização, a Malásia tornou-se um magneto para os capitais dos "hedge-funds" e dos especuladores internacionais. Com a crise asiática, a especulação financeira internacional contra a moeda malaia, o ringgit, foi gigantesca e o país ficou na corda bamba com sua economia fragilizada.

Inicialmente, a Malásia respondeu à crise com as medidas típicas do FMI: juros elevados e o corte dos gastos públicos. Mas então, desiludido, o déspota esclarecido malaio, Mahathir Mohamad, rompeu com o FMI e com a comunidade finaceira internacional, acusando o primeiro de advogar políticas contracionistas, que só levavam ao empobrecimento do país, e os banqueiros de especularem para tirar proveito da desgraça malaia.

Ato contínuo, impôs severos controles cambiais e financeiros, que foram recebidos com ceticismo e ironia pelos "investidores internacionais", como "receita de desastre" que iria levar "o país ao fundo do poço". Coisa estranha: passado o choque inicial, a especulação foi domada, a economia voltou a crescer, os investidores industriais continuaram a construir e ampliar fábricas, a balança de pagamentos recuperou seu vigor. Quando relaxados os controles, os capitais que poderiam sair não o fizeram e, ao contrário, muitos dos que haviam deixado o país iniciaram o caminho de volta.

Passados três anos da heresia de Mahathir Mohamad, até o FMI já vê o exemplo malaio com olhos mais favoráveis, como demonstra sua literatura mais recente. Quem sabe, valha a advertência de Bernard Shaw: "Toda verdade começa como blasfêmia".

Publicado na Gazeta do Povo, 06 de janeiro de 2002

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