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IPÊ AMARELO Evaristo Eduardo de Miranda
Em pleno inverno o ipê amarelo
anuncia a fecundidade Agosto mês do desgosto, diz o provérbio
popular. Em nossas regiões, os meses secos de inverno são
mesmo um desgosto, retratado na natureza. É tempo de estiagem,
de dias curtos, com muita poeira e fumaça de queimadas, domina
o tom cinza, feito mortalha estendida na paisagem. Nessa época
de estiagem e adversidade floresce o ipê amarelo. Num cenário
desolado, o ipê amarelo entrega seus cachos de ouro, luminosos,
sinal de glória e esperança. Não é a chuva, nem a terra fértil que induzem
a florada dos ipês. É a estiagem e a adversidade exterior.
Em pleno inverno, essa árvore retorcida, sem folhas, isolada
e despojada de tudo, reveste-se de flores resplandecentes graças
a seus recursos interiores. Como o ipê amarelo, temos a possibilidade
de buscar as fontes das provações e limites no interior
de nós mesmos, ao invés de encontrar um bode expiatório
no exterior. Provas e adversidades podem ser transformadas em jóias, únicas
e de infinito valor. Isso é possível pela vida espiritual,
pelo trabalho do Espírito, do Hálito Celeste. Mas não é fácil.
A ajuda externa é quase inútil. Ninguém pode se
colocar no lugar do outro, nem na plenitude de sua dor ou sofrimento.
Os limites ensinam a existência na vida de passagens irredutíveis
e intransferíveis, chamados diferenciadores, únicos como
o nosso próprio ser. Eles chegam como oportunidade de um novo
caminho, próprio e apropriado, para irmos à descoberta
de nós mesmos na perspectiva do Absoluto. No húmus das dificuldades, derrotas e fracassos ocorre a verticalização
das árvores humanas. Quem sabe crescer, elevar-se no solo dos
limites, faz deles um adubo. Quem se deixa hipnotizar, paralisar e
horizontalizar pelas derrotas e limites, faz neles um túmulo.
Nas vidas dos santos e santas de Deus temos exemplos e paradigmas da
possível e necessária elevação do humano,
através das provações, mesmo se prosaica e tortuosa. Na história da salvação encontramos um princípio
que preside a maioria das artes marciais: o adversário nunca é visto
como um inimigo. Ele é aquele que se opõe a um homem
para que neste, face a essa resistência, surja uma nova dimensão
de si mesmo. O adversário e as adversidades são oportunidades
de crescimento. Cada humano possui um potencial imenso de desenvolvimento.
Cada um é sempre o portador de uma outra realidade, uma outra
possibilidade, invisível, infinita, cósmica. Essa outra
realidade constitui-se de forças contrárias: uma exige,
a outra impede. Exterior e interior do Humano são pólos de uma mesma
realidade. Nós vivemos o que somos. Não por punição,
karma ou castigo divino mas para nomear o que se passava em nós
de forma inconsciente e que até então nos escapava totalmente.
Nomear e assumir as adversidades para ampliar nossas dimensões
e caminhar para o Infinito. As obras e a fé de quem vive assim, anunciam a fecundidade e
a proximidade da primavera, como faz o ipê amarelo em pleno inverno.
Esses cristos são capazes de dar fruto em qualquer tempo, como
cobrou um Jesus faminto diante de uma figueira estéril, numa época
que não era a de frutificação (Mc 11,12-20). Dar
frutos, ser fecundos, o tempo todo e, sobretudo, quando ele não é propício.
Num mundo dominado pelo deserto da ilusão e do neopaganismo,
quem procede dessa forma é muitas vezes o único evangelho
que seus colegas, vizinhos, familiares e adversários podem ler,
como dizia Madre Teresa de Calcutá. |
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