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Evaristo E. de Miranda, doutor em ecologia, autor
do livro “Guia
de curiosidades católicas”, recém editado pela
Ed. Vozes e diretor
do Instituto Ciência
e Fé. Dirige
a
EMBRAPA Monitoramento Ambiental por Satélite, Campinas/SP.



ANO 9 - ED 106 - JULHO DE 2008

IPÊ AMARELO

Evaristo Eduardo de Miranda

Em pleno inverno o ipê amarelo anuncia a fecundidade
e a proximidade da primavera

Agosto mês do desgosto, diz o provérbio popular. Em nossas regiões, os meses secos de inverno são mesmo um desgosto, retratado na natureza. É tempo de estiagem, de dias curtos, com muita poeira e fumaça de queimadas, domina o tom cinza, feito mortalha estendida na paisagem. Nessa época de estiagem e adversidade floresce o ipê amarelo. Num cenário desolado, o ipê amarelo entrega seus cachos de ouro, luminosos, sinal de glória e esperança.

Não é a chuva, nem a terra fértil que induzem a florada dos ipês. É a estiagem e a adversidade exterior. Em pleno inverno, essa árvore retorcida, sem folhas, isolada e despojada de tudo, reveste-se de flores resplandecentes graças a seus recursos interiores. Como o ipê amarelo, temos a possibilidade de buscar as fontes das provações e limites no interior de nós mesmos, ao invés de encontrar um bode expiatório no exterior.

Provas e adversidades podem ser transformadas em jóias, únicas e de infinito valor. Isso é possível pela vida espiritual, pelo trabalho do Espírito, do Hálito Celeste. Mas não é fácil. A ajuda externa é quase inútil. Ninguém pode se colocar no lugar do outro, nem na plenitude de sua dor ou sofrimento. Os limites ensinam a existência na vida de passagens irredutíveis e intransferíveis, chamados diferenciadores, únicos como o nosso próprio ser. Eles chegam como oportunidade de um novo caminho, próprio e apropriado, para irmos à descoberta de nós mesmos na perspectiva do Absoluto.

No húmus das dificuldades, derrotas e fracassos ocorre a verticalização das árvores humanas. Quem sabe crescer, elevar-se no solo dos limites, faz deles um adubo. Quem se deixa hipnotizar, paralisar e horizontalizar pelas derrotas e limites, faz neles um túmulo. Nas vidas dos santos e santas de Deus temos exemplos e paradigmas da possível e necessária elevação do humano, através das provações, mesmo se prosaica e tortuosa.

Na história da salvação encontramos um princípio que preside a maioria das artes marciais: o adversário nunca é visto como um inimigo. Ele é aquele que se opõe a um homem para que neste, face a essa resistência, surja uma nova dimensão de si mesmo. O adversário e as adversidades são oportunidades de crescimento. Cada humano possui um potencial imenso de desenvolvimento. Cada um é sempre o portador de uma outra realidade, uma outra possibilidade, invisível, infinita, cósmica. Essa outra realidade constitui-se de forças contrárias: uma exige, a outra impede.

Exterior e interior do Humano são pólos de uma mesma realidade. Nós vivemos o que somos. Não por punição, karma ou castigo divino mas para nomear o que se passava em nós de forma inconsciente e que até então nos escapava totalmente. Nomear e assumir as adversidades para ampliar nossas dimensões e caminhar para o Infinito.

As obras e a fé de quem vive assim, anunciam a fecundidade e a proximidade da primavera, como faz o ipê amarelo em pleno inverno. Esses cristos são capazes de dar fruto em qualquer tempo, como cobrou um Jesus faminto diante de uma figueira estéril, numa época que não era a de frutificação (Mc 11,12-20). Dar frutos, ser fecundos, o tempo todo e, sobretudo, quando ele não é propício. Num mundo dominado pelo deserto da ilusão e do neopaganismo, quem procede dessa forma é muitas vezes o único evangelho que seus colegas, vizinhos, familiares e adversários podem ler, como dizia Madre Teresa de Calcutá.

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