
Aroldo
Murá G. Haygert é jornalista,
professor do Grupo Educacional Uninter, comentarista da Rádio
Banda B. É estudioso
de novos movimentos religiosos cristãos
e preside o Instituto
Ciência e Fé.
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ANO 9 - ED 106 - JULHO DE 2008
SARNELLI E A “LOUCURA”
DO
RESGATE DE VIDAS
Aroldo
Murá G. Haygert
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Pe. Patrick McGillicuddy,
o "pai dos
jovens" e fundados na capela da Comunidade Sarnelli |
R.C. tem 30 anos. Formou-se em Serviço Social,
cursa pós-graduação em Ciências Sociais
na UFPR e é assessor parlamentar. Há 12 anos, estava
nas ruas de Curitiba, tendo entrado e saído muitas vezes de
casas de apoio do estado. Em Curitiba, fora “guardador de carros”,
menino de rua viciado em drogas, autor de muitos pequenos e continuados
delitos. No corpo, traz as marcas deixadas pela violência e a “liberdade” das
ruas. O irmão fora morto pelo tráfico, deixando-o sem
ninguém por si no mundo. Analfabeto, vivia “sempre pronto
para brigar”, como ele mesmo diz.
Tudo mudou quando R.C. aceitou o convite de um gringo baixinho, de
sotaque marcante, que queria saber se ele estava disposto a mudar de
vida. O gringo era o padre redentorista irlandês Patrick McGillicuddy,
56 anos.
Ao dizer sim, R.C. foi abrigado pela Fundação Sarnelli,
Projeto Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, com sede hoje em
Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba.
O endereço é uma área ampla, com piscina, campos
de futebol e, sobretudo, uma grande biblioteca, muitos computadores,
laboratórios e salas de aula dignos de uma ótima universidade.
São milhares de metros quadrados e um corpo de professores bem
remunerado e de alta qualidade, gente que já atuou nas melhores
escolas privadas de Curitiba e que vai diariamente a
Campina Grande
para lecionar.
Lá estão hoje 30 moços de 18 e 30 anos que passam
dez horas por dia mergulhados nos estudos. “Ninguém quer
muito saber de resgatar esse jovem adulto, é um trabalho difícil”,
diz o sacerdote. Até por ser um árduo trabalho, padre
Patrick o escolheu, assim como elegeu como padroeiro da missão
o beato Januário Sarnelli, santo italiano do século 18
que deixou o conforto e a riqueza para resgatar prostitutas e desabrigados
de todo tipo. Um padroeiro que entende do riscado, pois.
Padre Patrick resgata jovens de rua: em dez anos de trabalho, 10 formaram-se
em universidades de qualidade e outros 9 ainda fazem o curso superior,
com bolsas de estudo. Muitos dos ex-meninos de ruas estão bem
empregados na Renault, no HSBC e em outras empresas de destaque. Na
casa ficam os que cursam do ensino fundamental ao médio. A ida
para a universidade não é obrigatória. Graças à boa
formação, todos os que de lá saem conseguem bons
empregos, mesmo sem o diploma.
Padre Patrick dizem seus filhos começa o trabalho por desarmar
os espíritos belicosos dos que chegam. Na casa reina a harmonia.
Não há empregados. Os internos fazem todo o serviço
doméstico e as instalações são um brinco.
Ninguém paga nada, é tudo gratuito, até roupas.
Mas há condições para viver na Fundação,
que só aceita os absolutamente pobres: empenhar-se nos estudos
e aceitar as regras rígidas (como só sair aos domingos,
regressando até as 18 horas). De resto, tudo se ajeita. Há atendimento
médico e psicológico, sem falar no espiritual, com a
marca de padre Patrick e o apoio do religioso irmão Sérgio.
A Fundação Sarnelli se beneficia da capacidade de fazer
e manter amigos do padre. Dentre eles, banqueiros nacionais e internacionais.
Um deles, colega de universidade do jovem Patrick na Europa ele mesmo,
como Sarnelli, de uma família da alta burguesia irlandesa. A
lista dos que ajudaram a instituição inclui nomes de
peso.
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Numa área verde de 1,5 alqueire e 1.400 m² de construção,
jovens cumprem uma jornada de 10 horas diárias de estudo,
orientados por bons professores. |
Depois da formação na casa de Campina Grande do Sul,
os que vão para o mercado de trabalho e os universitários
passam a morar na casa do Parolin, em Curitiba, visitada diariamente
por padre Patrick. Há ainda a clínica onde a Fundação
mantém internados dez jovens que sofrem de dependência
química.
João Vitor, 25 anos, curado de drogas e alcoolismo, e E.V.,
estudante de Relações Públicas, saem cedo da casa
do Parolin aos domingos para assistir à missa das 9 horas celebrada
pelo padre. João Vitor estava no fundo do poço quando
foi abraçado pela obra, há sete anos. Hoje cursa Economia
na PUCPR, que fornece bolsas aos discípulos de padre Patrick.
Tanto Victor como E. V. e J. J. este um rapaz de 30 anos que já esteve
jurado de morte por traficantes no Norte do Paraná traduzem
o papel do irlandês com uma frase que deve alegrá-lo: “É nosso
pai”.
Na festa do padroeiro da casa, em 7 de julho, padre Patrick, ao lado
do padre Joaquim Parron, superior dos redentoristas, anunciou para
este ano a inauguração de uma chácara que aceitará jovens
exclusivamente para desintoxicação de drogas, a 12 quilômetros
da casa de Campina Grande. Será, como toda a obra do padre,
feita sem quaisquer recursos públicos e destinada exclusivamente
aos que não podem pagar.
A obra de padre Patrick contrasta em qualidade e resultados com as
ações públicas. Para o padre, o que importa é oferecer
instrução, salvação da marginalidade e
promoção humana. Concretamente, ele dá identidade
e dignidade a quem tinha tudo para ser um mero prontuário criminal.
E dá do bom e do melhor.
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