
Antonio
Strano Vieira é professor
universitário;
foi Coordenador
do Curso de Jornalismo
da PUC-PR
e do Núcleo de Ética
e Legislação
em Comunicação Social da
UTP-PR. Publicou "Quinze Passos Brancos",
"O Arquiteto Incompleto" e "Elegia
da Festa do Divino";
prepara um estudo sobre as "Ordenações do Reino",
de
Portugal.
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ANO 9 - ED 108 - SETEMBRO DE 2008
ENTRE A QUEDA E A GRAÇA,
O Testamento de Lúcio Cardoso - PARTE 1
Antonio
Strano Vienira
"Deus, ai de nós, muitas
vezes assume o aspecto do mal. Deus é quase sempre tudo o que
rompe a superfície material
e dura do nosso existir cotidiano - porque Ele não é o
pecado, mas a Graça. Mais ainda : Deus
é acontecimento
e revelação. Como supô-Lo um movimento estático,
um ser de inércia e apaziguamento.
Sua lei é a da tempestade,
e não a da calma."
“Pós - Escrito numa carta
do Padre Justino", penúltimo parágrafo,
do último
capítulo,
do romance "Crônica da Casa Assassinada",
de Lúcio
Cardoso.

O pensamento cristão, sob o vínculo nítido da
presença católica, irrecusável em toda a América
Latina, nos diversos tipos de manifestações - históricas,
artísticas, sociológicas -, desde as mais ortodoxas até as
posturas mais avançadas, não precisa de rótulos
para ser identificado, especialmente no Brasil, tal a sua identidade
com o contexto cultural onde atua.
Algumas expressões, ainda, sobretudo na estética latina,
e mesmo latino-americana, podem ser lembradas como realizações
de cristãos que se ignoram - o que já se disse, malgrè lui,
do espanhol, que também trabalhou no México, Luís
Buñuel - isto é, autores que no fundo estão de
tal modo impregnados de cristianismo, que mesmo na sua negação,
assim acabam se revelando.
O caso de Lúcio Cardoso (autor de "Crônica da Casa
Assassinada"(1), provavelmente
o mais denso e mais importante romance de enredo psicológico
da literatura brasileira; e de "Poemas
Inéditos"(2), editados
postumamente pela Nova Fronteira; entre inúmeras outras obras (3))
- que não erguia bandeiras
de nenhuma teologia ou ideologia - não é, no entanto,
exatamente aquele.
Junto ao seu inconformismo, ele trazia de forma intrínseca,
implícita, à sua arte, e que por isso é uma grande
arte, o conflito e a crise - moral, ética, ideológica
- do cristão contemporâneo, do católico que se
questiona, sem negar essa condição, levando todas as
suas vicissitudes ao limite extremo do risco, expondo-se, com trágica
lucidez, entre a queda e a graça, em praticamente todas as facetas
de sua obra e de sua existência: no romance, na poesia, no teatro,
no cinema, no jornalismo - no ser multifacetado.
Ele diria em seu "Diário Completo"(4): "Acho
que Deus não se interessa em definitivo senão por aqueles
que, uma vez pelo menos, têm coragem para perder o céu." E
ainda: " Catolicamente é difícil, é terrível
viver, mas não seria a única maneira possível?
Como suportar certas contradições, certos erros, certas
deficiências e obscuridades? Como suportar essa horrível
atração do caos? Como juntar os dois eus diferentes que
me formam"?
A herança católica, queiram ou não, está entre
nós, para o nosso júbilo ou nossa culpa, no barroco da
forma e na reflexão de fundo, em obras definitivas, como em "Os
Sermões" do Padre Vieira ou na escultura e na arquitetura
do Aleijadinho; e até mesmo em realizações cultuadas
de nossa vanguarda como, por exemplo, "Terra em Transe"(5) de Glauber Rocha , cujo herói revolucionário e idealista
encontra o seu protótipo mais alto - para vermos um pouco o
outro lado do barroco - no discurso "sem plumas", austero
e "severino", como queria João Cabral de Melo Neto,
do Cristo no "Evangelho Segundo São Mateus", de Pier
Paolo Pasolini.
Ademais, quem, de formação cultural latina, consegue
esquecer a seqüência de abertura do filme "A Doce Vida",
de Federico Fellini, um dos ícones mais citados da moderna cultura
ocidental: o Cristo de rosto apolíneo, como o redentor, com
os braços abertos, suspenso por um helicóptero, sobrevoando
a Roma profana e sagrada, sobre os seus terraços e coberturas
mundanas, sobre as cúpulas do Vaticano e os circunspectos padres
de batina negra que sobem as escadarias, sobre os terrenos baldios,
onde meninos marginalizados jogam futebol, e os casebres das prostitutas
que moram nas vielas inundadas?
Em seu "Diário", iniciado, aliás, quando filmava "A
Mulher de Longe"(6), registra Lúcio Cardoso: "Lembro-me
de ter dito, não sei mais onde, que não condizia comigo
uma religião que não me permitisse sentar ao lado do último
dos homens.”
Apesar de avesso a rótulos e programas de ordem, etc., no "Diário",
ele também diria, na Sexta Feira da Paixão, 1958, antes,
portanto, do Vaticano II, aberto, em 1962, pelo extraordinário
Angelo Roncalli, o Papa João XXIII , e todas as repercussões
por ele desencadeadas notadamente na América Latina e em outras
regiões do chamado terceiro mundo: "Cristianismo - ação,
conflito. Não há um Cristianismo estático.”
A igreja , no entanto, desejada por Lúcio Cardoso - o Cristo
em ação, o Cristo que não admite a estagnação
pacificadora, nem a hipocrisia apenas da pompa litúrgica ou
a alienação dos grandes espetáculos de fé,
etc. - exige, de modo imprescindível, um discernimento (característica,
aliás, inerente à sua personalidade): Lúcio Cardoso
deseja o Cristo revolucionário em sentido amplo - existencial
e poético - espiritual por excelência. Não admite
catálogos no Cristo ou siglas. Ele crê na força
da poesia e da imaginação, como transformadoras integrais
da realidade, o que significa dizer: o espírito pleno em ação
plena.
Intolerância total com a alienação, o preconceito,
a superficialidade. Lúcio exige a lucidez radical. Ele diz no "Diário": "A
pureza é uma virtude, mas a inocência é uma doença.
Não há santos inocentes. Todos os santos são reintegração
do homem na sua consciência máxima." Mas é o
mesmo Lúcio Cardoso que diz ainda: "...o homem sem a graça é um
ser amputado na sua majestade.”
"Neste jardim votado aos verões
da carne"
Em "O Jardim", um dos "Poemas Inéditos" de
Lúcio Cardoso - reunidos postumamente por Octávio de
Faria, em 1976, com primeira edição pela Nova Fronteira,
em 1982 -, esse artista de exceção, que nasceu em Curvelo,
interior de Minas Gerais, em 1913, e faleceu na cidade do Rio de Janeiro,
em 1968, diz: "Neste jardim / votado aos verões da carne/
e do sempre acontecer,/em que a palma cintila/ e é fúria,
a deflagar/ sua ácida membrana - neste jardim/ de agressivos
tinhorões, e azaléias, lianas e petúnias,/ agasalhadas
no seu oco/ de asfalto e diamante, saúdo teu ímpeto de
subir..." E depois em "Janela": "Neste jardim votado
aos verões/ da carne e do ser sempre presente..."
E, ainda, em "O Lírio": "Neste jardim votado
aos verões da carne/ e do sempre acontecer,/ em que a palma
cintila/ e a verbena fingida/ acena seus ácidos odores/ e tudo é fúria/
no ímpeto em seiva e folha; - neste jardim/ de agressivo tinhorão,/
e onde a azaléia, a liana e a petúnia .../... e amanhece
- sombra e diamante! ...”
Sim, é neste jardim, "votado aos verões da carne",
o espaço do conflito desse poeta e romancista que, de Curvelo
até o Rio de Janeiro ("tenho o Rio de Janeiro nas minhas
veias"), passa por Belo Horizonte na pré-adolescência,
adolescência e primeira mocidade, e ali se fixa, num fragmento
crucial do tempo, ao que parece, que ele levará no inconsciente
para todos os lugares, de modo inquestionável e para ele inexplicável,
como demonstram várias passagens do seu "Diário";
inclusive, talvez, também através da arquitetura própria
da cidade, com seus casarões de pedra, seus subsolos e ante-salas,
a luz e a sombra de seus sótãos e porões.
É, muito provavelmente, sim, neste ambiente - e naquela trajetória
física e psicológica - que ele encontrará os espaços
da realidade e da imaginação, as regiões presentes e distantes
do seu existir; e, principalmente, é envolto por aquela terra, por aquela
atmosfera, pelo anoitecer e pela madrugada, naquelas paisagens e naquelas cidades,
pelo asfalto e pela periferia, por "sombra e diamante", que ele mergulhará em
si mesmo e andará - em busca do mistério e da transformação
- "aos verões da carne", à sua febre e ao "sempre
acontecer" de sua existência.
Lúcio Cardoso acredita de fato no espírito - na poesia
impregnada dele - em ação sobre a realidade. O novo Cristo,
que tão ansiosamente as culturas emergentes, com suas carências
de origem ou contemporâneas, procuram, é, para Lúcio
Cardoso, o mesmo Cristo infinito e atemporal; isto é, o Cristo
sem estandartes, cuja divindade só será encontrada no âmago
do ser e da existência, no mistério que age de fato, despojado
dos gestos vazios que o deturpam, e portanto, o escondem; Lúcio
Cardoso acredita na possibilidade da divindade plena, e que só assim,
integralmente buscada ou revelada, incluirá todas as crises
humanas - o humano pleno.
Sobre esse discernimento, tão próprio de Lúcio
Cardoso - entre o que parece e o que de fato é -, ainda, em "A
Doce Vida", de Fellini, é notável a seqüência
do espetáculo da fé (com os paparazzi, os mantos de púrpura,
as famílias simplórias em pose de santidade para a televisão,
a cruel curiosidade humana, o show dos repórteres e dos cinegrafistas)
que envolve um possível milagre numa aldeia italiana, onde crianças
dizem ver a Virgem Maria - quando tudo pára, sob as luzes que
se apagam; e uma mulher austera se aproxima com seus filhos do lugar
onde teria ocorrido o "milagre", agora abandonado; e despojada
de qualquer gesto, em grave silêncio, olha e aguarda, na sombra,
com o seu drama íntimo, que ninguém conhece ou vê.
(Aliás, a produção toda de Fellini, por mais de
um crítico, é analisada junto à estética
com feição católica - com todas as antinomias
que isso possa significar - em importância semelhante a artistas
como François Mauriac, Prêmio Nobel de 1952; o Mauriac
- católico; heterodoxo, para muitos; quase herético,
para outros.)
É dentro desse contexto, talvez, que seja possível localizar
uma das leituras da obra de Lúcio Cardoso, especialmente sua poesia,
que é uma espécie de síntese, de simulacro, dos seus conflitos,
espirituais e existenciais, de sua crise, transformada em arte, desse que foi
chamado por João Etienne Filho de o "Ariel Caboclo"(7), isto é,
o anjo caído à procura da redenção, dentro dele
mesmo, e dentro de uma realidade humana e cultural - mestiça, tropical,
heterogênea - que se apresenta como um desafio a ser ultrapassado, diante
das culturas das quais descende.
Não é por acaso - e sim por afinidades históricas
incontornáveis - que muito da cultura com presença católica
no Brasil vem arraigada de pensamento europeu latino, especialmente
da França (Jacques Maritain, Georges Bernanos, Julien Green
e inúmeros) - uma das grandes mães da cultura latina;
ao lado de Roma; como indicam, entre nós, as trajetórias
de Tristão de Athayde (o Alceu Amoroso Lima), de Afonso Arinos,
de Murilo Mendes, entre outros .
Tristão de Athayde - o pensador e escritor católico brasileiro,
infelizmente já tão pouco lembrado, e às vezes
mal compreendido, mas de inegável prestígio e influência
em nossa cultura, inclusive como crítico literário, por
praticamente todo o século XX - incluiu um significativo capítulo
sobre Lúcio Cardoso em seus "Estudos Literários"(8).
Em Julien Green, que - além do longo percurso como romancista
- publicou também um denso diário íntimo, vários
comentaristas encontraram semelhanças com Lúcio Cardoso;
o qual, no entanto, mantinha com ele manifestações alternadas,
entre aproximações e distanciamentos.
E outros, como Honoré de Balzac e André Gide - como há muito
sabemos todos -, nos quais, além de Lúcio Cardoso, vários
de nossos escritores encontraram referência ou uma linha de ascendência
- como Octávio de Faria e sua "Tragédia Burguesa"(9),
com Balzac - mas sempre, é preciso lembrar, cada um a seu modo,
na imposição de um conflito inerente às influências
legítimas; que é o de ir além das culturas que
herdamos, aqui neste outro jardim - imenso, inusitado, complexo; no
caso de Lúcio Cardoso esse embate é travado com espontâneo
gesto e profunda poesia.
Em verdade, quando um homem (seja ele um homem de exceção
como Lúcio Cardoso ou o herói anônimo das ruas)
transforma o seu interior, a realidade que o cerca também se
transforma. Esse é o mistério de uma sociologia, de uma
teologia, de uma estética -, de uma cultura imanente e dinâmica,
que redime de dentro para fora. E é por isso que o espaço
crucial de uma antropologia moderna com esse contexto, no ocidente, é a
América Latina, com todo o seu potencial - humano, filosófico,
natural, mítico, histórico, imagístico - de desafios
e de revelações.
Glauber Rocha, trazendo a sua reflexão para o nosso âmbito,
a respeito de Pasolini, diz: "Seu Cristo - que prega a intolerância
antes da piedade, que prega a violência antas da complacência,
que se revolta contra o Pai, quando, na Cruz, se vê desamparado
- é o porta voz de uma nova moral: a moral do homem subdesenvolvido
consciente. O Cristo de Pasolini é um estigma contra a alienação:
a alienação é a piedade, a complacência,
a hipocrisia, o tabu sexual, o servilismo, todos os comportamentos
que caracterizam o homem subdesenvolvido, ou melhor, o homem colonizado.
O Cristo de Pasolini é um revolucionário que sucede ao
Cristo anárquico de Buñuel." (10)
Acontece que, como toda arte de estatura incomum,
essa também é obra
de difícil catalogação; são realizações
e autores estranhos, inusitados - "são chatos, enlouquecedores,
fascinantes", como diria Pauline Kael, sobre o filme "O Cristo
Proibido", de Curzio Malaparte (11) -,
que escapam, como a autêntica
poesia, a rótulos e movimentos, de tal forma que o filme de
Pasolini foi aplaudido por marxistas de vários matizes e efusivamente
premiado pelo Vaticano.
É preciso acrescentar, talvez, que, no discurso inconformista,
intolerante com a hipocrisia e a estagnação dos valores
- que está no
Cristo vigoroso de Pasolini (às vezes colérico, como o imaginou
Lúcio Cardoso, em várias passagens) -, vem junto a pujante seqüência
de imagens do poeta-cineasta; incluindo a integridade desse discurso ao plano
da poesia pura, até o limite extremo do humano; e projetada para o transcendente,
a partir de uma estética supra-realista, com a música barroca
de Bach.
(A obra praticamente homônima do filme, a "Paixão
segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, perpassa
quase todo o seu roteiro, entre o humano e o espiritual, abarcando
assim a contingência toda do ser. E talvez não exista
seqüência cinematográfica que permeie o sofrimento
e a expectativa da redenção, de modo tão autêntico
e tão alto, como a de Maria, coberta de negro e cinza - personificada
pela própria mãe de Pasolini - ante o seu filho crucificado,
sob a musica de Bach.) (12)
Diz Lúcio Cardoso no "Diário": "Jesus
para mim assume um aspecto diferente - onde o vi, com que face procuro
torná-lo mais próximo de mim, lado a lado, como um companheiro?
Ou talvez não, que assim me seria muito fácil perdê-lo
- preferia senti-lo como uma nuvem de ameaça e de cólera,
pronto as nos esmagar finalmente com sua indescritível justiça
-, o Cristo - e entre tantos aspectos, onde outrora só julgava
vislumbrar pecado e esquecimento, vejo hoje cintilar a mais inquieta
das presenças."
Talvez sejam nessas últimas posturas onde especialmente o pensamento
de Lúcio Cardoso - que percorre toda a sua poesia, a qual vem
inteira e madura nos "Poemas Inéditos" - encontre
maior identidade ou aproximação (apesar das contradições
e diferenças de expressões inevitáveis) com o
do poeta e cineasta italiano; além da semelhança no rigor
poético, sem nenhuma concessão aos modismos do tempo,
das duas estéticas.
NOTAS
1 - "Crônica da Casa Assassinada"; 1ª edição
pela José Olympio, em 1959; 2ª edição, Letras
e Artes, 1963; 3ª edição, Bruguera, 1968; 4ª edição,
Nova Fronteira, 1979. Obra que é, na verdade, o ponto mais alto
do romance psicológico da literatura brasileira; todo enredo
ocorre no âmbito interior dos personagens e de suas relações;
nele, a tensão sobre ou dentro do tempo cronológico necessariamente
não precisa existir; Lúcio Cardoso usa mais a ação
da consciência junto do espaço - a atmosfera, interna
e externa -, para dar andamento aos fatos e aos fenômenos da
existência .
2 - "Poemas Inéditos"; primeira edição,
em 1982, pela Nova Fronteira; com reedições, em anos
posteriores; organização póstuma por Octávio
de Faria; com a contribuição, mais do que efetiva, afetiva,
de Maria Helena Cardoso, irmã do poeta, companheira dos seus últimos
anos de vida, autora de "Por onde andou meu Coração".
3 - Outras obras: Lúcio Cardoso escreveu Maleita (1ªed.
1931/Schmidt), aos dezesseis anos, e Salgueiro ( 1ª ed. 1932/
José Olympio) aos dezessete); sua obra, a partir daí,
até a data de sua morte, em 24 de setembro de1968, é vasta
e diversificada; abrange, além do romance e da poesia, importantes
registros no teatro, no cinema e na pintura; para uma análise
de toda essa produção seria necessário um grande
estudo, inclusive de pesquisa, talvez com autores específicos
para cada assunto.
4 - "Diário Completo"; (1ª edição,
1970) pela José Olympio, em convênio com o Instituto Nacional
do Livro; o "Diário" foi iniciado em 1949, ao que
parece, como livro de anotações de viagem, junto à produção
do filme "A Mulher de Longe". Na seqüência, o
inevitável: pensamento e emoções passaram a entremear
os acontecimentos. Trata-se de um dos "Diários" mais
importantes da língua, segundo inúmeros críticos:
pela espontaneidade e coragem do autor; revelador de inúmeras
passagens de sua existência e dos temas de sua obra.
5 - "Terra em Transe" (1967) ; celebrado filme de Glauber
Rocha; um dos altos momentos do cinema brasileiro; obra de movimentação
barroca única no cinema universal; de discurso político
e moral, integrado a imagens de inusitada poesia; em esfuziante preto
e branco, com atores cujas faces são verdadeiros arquétipos
dos caracteres que representam; numa ambientação com
paisagem e arquitetura reveladoras dos conflitos históricos
e contemporâneos brasileiros e latino-americanos.
6 - "A Mulher de Longe" (1949); produção com
roteiro e direção de Lúcio Cardoso; obra inacabada,
cujo copião estaria mantido em acervo particular em São
Paulo (segundo informa a introdução da edição
do "Diário Completo" de Lúcio Cardoso, pela
José Olympio); em cinema, Lúcio Cardoso colaborou ainda
com Paulo César Sarraceni, como roteirista de "Porto das
Caixas".
7 - Ariel; personagem alado em "A Tempestade" de Shakespeare,
oposto ao monstruoso Calibã; o anjo rebelde no "Paraíso
Perdido", de John Milton e no "Fausto", de Goethe";
em hebraico também significa altar; o profeta Isaias empregava
esse nome para designar Jerusalém; na Cabala designa os anjos
revoltados (Gamma, Larousse); "lionlike men" (segundo a Britânica).
8 - "Lúcio Cardoso", em "Estudos Literários" (Nova
Aguilar), por Tristão Athayde (1893/1983), pseudônimo
de Alceu Amoroso Lima; professor , pensador, escritor; com obra vastíssima
na filosofia, na política, na economia, na sociologia, na teologia,
na pedagogia, na psicologia, na literatura; crítico propulsor
do modernismo na literatura brasileira; intelectual de ação
- pessoal e institucional - na defesa dos direitos humanos e das liberdades
civis no Brasil. Foi um dos fundadores, em Montevidéu (1957),
do Movimento Democrata Cristão na América Latina.
9 - Octávio de Faria ( 1908/1980); um dos escritores e pensadores
de feição católica mais significativos do País;
sua "Tragédia Burguesa", trabalho de vasta dimensão,
com treze volumes publicados (1937-1977), talvez ainda não tenha
tido uma interpretação à altura; a obra encontra
referência em Balzac; e semelhanças, em determinados trechos, à de
Alberto Moravia, o escritor italiano vinculado ao neo-realismo, junto
com Césare Pavese. Além de romancista, Octávio
de Faria foi também ensaísta, onde tratou de política
("Maquiavel e o Brasil") e de cinema ("Pequena introdução à história
do cinema", 1964), ( Significação do Far-West" ,
1952).
10 - Glauber Rocha, na apresentação da edição
brasileira do livro de Ado Kyrou, "Luís Buñuel" (Civilização
Brasileira, 1966, coleção Biblioteca Básica de
Cinema ), em "A Moral de um novo Cristo", comenta aspectos
da obra do cineasta espanhol Luís Buñuel e também
do italiano Pier Paolo Pasolini. É Glauber Rocha quem diz: "ao
Cristo anárquico de Buñuel, sucede o Cristo revolucionário
de Pasolini.”
11- Curzio Malaparte ( 1898/1957); romancista e cineasta
italiano, autor do romance "A Pele"; dirigiu um único filme, "O
Cristo Proibido", 1961, aclamado pela corrosiva crítica
Pauline Klee, ( "1001 noites no Cinema", org. de Sérgio
Augusto, 1999, ed. Nova Fronteira). ao seu modo, que o chamou de "chato" e "fascinante".
12 - As imagens de "O Evangelho segundo São Mateus" (
1967), de Pier Paolo Pasolini, e a música da "Paixão
segundo São Mateus" (1789), de Johan Sebastian Bach, se
integram e se contrapõe, em diferentes seqüências,
no filme do diretor italiano. Pasolini colocou o rosto doloroso de
sua mãe no papel de Maria, sob a música de Bach, ante
o flagelo da crucificação. Em 1978, com ela ainda viva,
ele morreria, trágica e barbaramente assassinado. Foi o mais
rigoroso e, talvez, o mais alto poeta do cinema italiano.
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O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 2
-O ser ao vento
-Uma angústia acabada
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 3
-O retorno de uma metáfora
-A casa e as portas
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 4 (extra)
-A reflexão cinzenta
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