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CIÊNCIAS DA RELIGIÃO por Claudia Gabardo Realizado em Curitiba, para discutir Espiritualidade, Educação e Ciências da Religião na Pós-modernidade, o I Colóquio Nacional de Ciências da Religião já deu mostras de que sua promoção foi uma decisão acertada. Promovido em parceria, pelo Ichthys Instituto de Psicologia e Religião e a Faculdade Vicentina (Favi), o evento reuniu no Centro de Convenções Órleans, durante dois dias, cerca de duzentos acadêmicos e estudiosos de áreas correlatas de todo o Brasil e foi definido pelo renomado filósofo, pesquisador e professor da Unicamp Oswaldo Giacóia Júnior como um dos melhores eventos do gênero dos últimos tempos. Além disso, desde já começa a fazer parte da agenda de quem se dedica ao estudo dos temas caros a essa nova área do conhecimento denominada Ciências da Religião, uma vez que já está definida sua segunda edição. Ela foi marcada para os dias 11 e 12 de maio de 2010, no mesmo auditório e, desta vez, para discutir Psicologia da Religião.
“Foi uma ousadia muito feliz”, resume a psicóloga e presidente do Ichthys Sônia Regina Lyra, que dividiu com o diretor da Favi, Luiz Balsan, a coordenadoria do colóquio. A dupla foi responsável pela idealização do evento, nascido no Congresso Nacional de Filosofia de Canela (RS), no final do ano passado, e pela vinda a Curitiba dos pensadores brasileiros Luiz Felipe de Cerqueira Silva Pondé, João Batista Libânio e Afonso Maria Ligório Soares, além de Giacóia. Ficou a cargo desses convidados de peso, respectivamente, a abordagem dos temas mística hebraica bíblica, espiritualidade no diálogo interreligioso, ensino religioso e educação para a espiritualidade e, o último, reflexões sobre o ateísmo. A justificativa para o colóquio, conta Sônia, reside exatamente na novidade representada pelas Ciências da Religião e no quanto ela pode ajudar a entender tanto o cenário mundial presente quanto o que vai se desenhando nele. Para quem ainda não se sintonizou com o que venha a ser a matéria dessa nova ciência, aí vão algumas pistas. Trata-se da área de estudo das religiões e do fenômeno religioso a partir de ciências tão diversas como Antropologia, Sociologia, História e Filosofia - para citar apenas algumas - e que num primeiro momento ainda tende a ser confundida por muitos com Teologia. Para as Ciências da Religião, cada uma delas é estudada, de maneira neutra, segundo suas mais diversas formas de manifestação. "Aqui não se questiona a verdade ou a qualidade das religiões e, sob a ótica metodológica, distingue-se da Telogia por tratá-las como sistemas de sentido fundamentalmente idênticos", frisou a psicóloga na abertura do colóquio. Paralelamente às grandes palestras, o evento abriu espaço para a apresentação de trabalhos acadêmicos sobre assuntos tão diferentes quanto doutrina espírita, educação, criacionismo e evolucionismo e representação religiosa através da arte, entre vários outros. “É uma oportunidade muito rica porque representa o início do processo de canalização de interesses, até então, dispersos e de difusão das áreas de interesse das Ciências da Religião”, constata a psicóloga, que há 2,5 anos fundou o Ichthys Instituto.
Além do sentido assumido pela religião na modernidade e na pós-modernidade, constituem áreas de interesse para pesquisa da nova ciência a interrelação entre religião e sociedade, gênero, desafios da globalização, simbologia, comportamento e símbolos e também produções simbólicas orais e literárias. Ideias - As palestras dos pensadores João Batista Libânio e Oswaldo Giacóia Júnior resumem uma parte da vasta área de interesse das Ciências da Religião. Coube ao primeiro - padre, filósofo, doutor em teologia, professor universitário e escritor mineiro - situar a espiritualidade no contexto pós-moderno. Na primeira tarde do colóquio, Libânio foi enfático ao afirmar que todas as dúvidas do homem atual sobre espiritulidade, religiões, religiosidade e fé residem no fato de ele estar em suspenso e ainda não ter aprendido a lidar com o fato da transitoriedade do chamado mundo pós-moderno: um universo repleto de novas informações e experiências que colocam em xeque antigos e, até há pouco tempo, sólidos valores e que acabam afetando o modo de se conduzir em sociedade até mesmo de quem não é dado a reflexões filosóficas.
Segundo Libânio, que já publicou cerca de sessenta livros, a humanidade foi apeada do contexto das grandes narrativas - cujas mortes veem sendo decretadas uma a uma - e lançada na cultura do caleidoscópio, da fragmentação. Isso vale para a mudança de paradigmas cada vez mais acelerada, seja no campo da ciência, da economia, das artes ou da política. Resultado: o homem médio se sente desconfortável e muito inseguro no novo cenário. Perplexo, ele questiona os valores antigos - baseados nos sentidos de permanência e de coletividade e que foram substituídos paulatinamente pelas referências dos universos particulares onde valem os ideais de prazer, beleza e dinheiro. O habitante desse novo e fluido mundo, vai alinhavando o filósofo, é o campo onde acontece o embate dessas referências. E a opção pela vivência do presente até as últimas consequências - representada pelos versos do falecido compositor brasileiro Renato Russo "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã", na canção Pais e Filhos - e ganha terreno sobre os antigos projetos de futuro. A impossibilidade de antevisão dessa fase, emenda Libânio, ajuda a entender a busca de uma parcela importante da juventude pelo uso de drogas, já definida pela acadêmica e escritora Giuglia Sissa como "felicidade de bolso". Fazendo uma analogia com a história brasileira recente, diz: "A geração anterior morreu por um futuro que não aconteceu e isso afeta profundamente os que vieram depois e se questionam, sem obter respostas, sobre o que estão fazendo aqui".
Mesmo diante desse impasse, argumenta o pensador, o jovem atual é mais religioso do que no passado, quando foi mais engajado politicamente. Daí, enfatiza, a necessidade de discutir os valores em questão via religiosidade e independente de fé ou religião. "A educação na religiosidade é o caminho para a fé, abre terreno para ela. E nesse sentido, o cristianismo é a melhor ponte para o diálogo interreligioso", diz. Oswaldo Giacóia Júnior, que fechou a programação do evento, perpassou os filósofos alemães Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche, Georg Hegel e Ludwig Feuerbach para fazer uma abordagem panorâmica do pensamento ateu no mundo contemporâneo. "O maior problema atual é que, com a desestabilização da crença em Deus, começou-se a colocar em questão outros valores. E não foi de fora da nossa tradição que o ateísmo germinou", resume. A grande questão, esmiuça o filósofo paulista, é que o ateísmo representa bem mais do que negar a existência do Deus das religiões. Muito além, equivale a deletar os valores absolutos de verdade, justiça, autonomia e fraternidade representados por aquele Deus - enfim, o sentido ético que pode ajudar a orientar as pequenas e grandes ações humanas. O absoluto e o relativo, porém, estão presentes em todos esses eventos. Como exemplo, propõe uma reflexão sobre a questão da limitação ou não do campo de ação da ciência. Afinal, se por um lado é uma face do avanço do ideal de liberdade de expressão do conhecimento mais refinado, por outro, em determinados níveis, pode ser a responsável pela deterioração da qualidade de vida no planeta e pelo seu próprio fim. |
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