![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
|
Pe. José Carlos |
RELIGIÃO, CIÊNCIA E MÉTODO José Carlos Veloso Júnior O presente trabalho é uma comunicação preparada pelo professor doutor José Carlos Veloso Júnior para o 1º Colóquio Nacional das Ciências das Religiões, realizado em Curitiba, de 12 a pelo 13 de maio de 2009, pelo Ichthys Instituto e pela FAVI – Faculdade Vicentina (Veja reportagem publicada na edição de Maio). Ele tem em vista fazer um esboço da necessidade do método no estudo da teologia como se verificou ao longo dos últimos quarenta anos da história da teologia no Brasil e sua necessidade para ultrapassar a concepção fenomenológica da religião e despertar o mundo acadêmico para este problema.
Na primeira parte abordamos a relação entre teologia e o fenômeno religioso, tendo em vista as dificuldades do tema na modernidade onde a religião não passava de um subterfúgio da ideologia. No segundo momento apresentamos o trabalho epistemológico de Clodovis Boff, como uma experiência concreta de unir método e teologia, ciências do social e religião. Enfim, na terceira parte (que será publicada na próxima edição) demonstraremos que as disputas entre teologia e método proporcionaram o uso das ciências sociais na teologia e a valorização do aspecto teológico-religioso da fé na vida de cada indivíduo, nas Igrejas e na sociedade, possibilitando o desenvolvimento da teologia e das ciências da religião. A presente comunicação é fruto das pesquisas referentes ao método teológico no Brasil, na qual as ciências da religião têm um papel interdisciplinar e favorece a pertinência e a diversidade de objeto do tema dos demais campos que lidam com a religião, a saber, a teologia, a filosofia da religião e a ciências da religião. O presente trabalho se fundamenta na tese Ver-Julgar-Agir: o debate sobre o método da Teologia da Libertação no Brasil. Palavras Chaves: Religião – Teologia – Ciência – Metodologia teológica – Relação entre Teologia-Filosofia-Ciências – Teologia e Pós-Modernidade. 1. A teologia no Brasil e o fenômeno religioso Neste contexto as ciências da religião ainda não são valorizadas pela modernidade, mas exige de seu objeto uma mudança substancial para que se aproxime da pessoa humana e do seu próprio contexto. Assim, a teologia da libertação buscou na religiosidade popular, nas manifestações religiosas a presença de Deus Libertador e exigiu dos cristãos uma mudança de atitude. Esta atitude pastoral partia de uma reflexão baseada na religião e na busca de Deus, que fomentava a leitura orante da Palavra de Deus e dos documentos eclesiais para que depois promovesse uma ação eficaz em prol da libertação dos oprimidos, como foi a atitude de Cristo. Isto demonstra o valor e a necessidade da epistemologia para definir a pertinência de cada campo de estudo da religião, com a definição do seu objeto e sua metodologia. Assim, se por um lado as ciências humanas viam na religião somente um fenômeno, por outro a teologia tentava uma abertura para o homem e o mundo. A primeira atitude de base estruturalista somente via a religião como mais uma atividade humana e social. Portanto, esta era concebida como uma ideologia ou como uma atividade subjetiva, que somente deveria chamar atenção devido sua implicação social e cultural. A outra atitude procurava responder a modernidade e mostrava a sua prática e sua importância no contexto social. No entanto, a tentativa de modernidade por parte das religiões valorizou a situação pastoral, porém, a experiência pastoral do Brasil não permitiu a construção de um método acadêmico, nem possibilitou uma disputa intelectual como posse do saber. Mas pelo contrário, fizeram emergir a necessidade de uma articulação eclesial e pastoral, que se efetivou na organização da Igreja do Brasil, com a fundação da CNBB e seus primeiros planos pastorais e a irradiação de diversos movimentos religiosos e sociais que possibilitaram a formação de comunidades e uma “nova maneira de ser Igreja”. Enfim, constata-se a dificuldade de fontes propriamente teológicas para definição do papel da religião e nota-se uma ausência das ciências das religiões, uma vez que havia durante os anos 70 uma oposição entre modernidade e religião e a impossibilidade de uma ciência baseada no fenômeno religioso. 2. A busca do método e a cientificidade da religião Esta proposta de uma metodologia própria que desse valor acadêmico e oportunidade à religião é a tentativa de Clodovis Boff. O seu método procurava dar uma resposta aos imperativos científicos e propunha a teologia como práxis, na qual o elemento religioso trabalharia com um dado não-teológico. Embora sua tese doutoral fosse valorizada e popularizada no ambiente latino-americano sua demonstração e valorização acadêmica foi mais comentada nos países ricos e gerou por parte da autoridade eclesial uma perplexidade devido a mudança do auditus fidei. Para Clodovis, a teologia deveria definir seu novo estatuto partindo do conceito de Práxis e instaurando a Teologia do Político. É a tentativa de abordar um elemento não-teológico a partir de sua própria pertinência, enriquecendo com a racionalidade moderna e levando a um aprofundamento da práxis cristã. Este processo baseia-se no processo de prática teórica de L. Althusser dando condições epistemológicas para elaborar diversas teologias particulares sobre determinados assuntos. Isto também possibilitou a mediação das ciências sociais de modo que a religião respondesse às necessidades da atualidade tal como foi realizada por Jesus no seu tempo, para que a teologia e a religião fossem também pertinentes diante da nossa situação de opressão. Como a Práxis, é o «lugar» teológico fundamental, é necessário o uso da Mediação Sócio-Analítica e da Mediação Hermenêutica. A Mediação Sócio-Analítica permite a distinção do elemento não-teológico da religião, a demonstração dos obstáculos teológicos para construção de uma teologia particular e a definição dos dois regimes da prática teológica, isto é, a autonomia e a dependência, dando lugar à teologia no contexto científico e demonstrando o objeto da religião e da teologia. Assim, Clodovis ressalta o caráter propriamente teológico-religioso da fé demonstrada pela Mediação Hermenêutica, por se tratar do «recurso teórico obrigatório e constitutivo de todo processo teológico», uma vez que a teologia tem a sua própria pertinência, o seu fundamento é o real da Salvação, enquanto o seu conhecimento se dá a partir da Revelação, porém distinguindo a transcendência da Fé e a imanência da Teologia, e porque não dizer das Religiões e com seus diversos modos de compreensão científica, doutrinal, celebrativa e mística. Porém, a tese de Clodovis sofre uma mudança mais popular e pastoral no qual mais que a elaboração de uma meta-teoria sobre a teologia foi preciso retornar à concepção de ver a realidade como uma atitude de encarnação valorizando o aspecto existencial, lúdico e simbólico. Enfim, a religião e a teologia deveriam levar a uma busca do Transcendente, retornando a uma experiência unitotalizadora da pessoa para que seja capaz de encontrar-se consigo, com Deus com os outros e com o mundo, no qual a fé forneceria as condições necessárias para ver o mundo . Por isso, tem-se uma reviravolta na atitude metodológica de Clodovis na qual o elemento místico-religioso passa a ser um elemento preponderante do método teológico e elemento fundamental a ser considerado pela teologia e que depois é desenvolvido de forma ampla pelas ciências da religião e suas manifestações. Isso também demonstra a necessidade que a teologia da libertação no Brasil retomasse a uma visão mais religiosa enquanto manifestação profética, fiducial e transformadora a partir da própria fé. Deste modo, a religião seria valorizada como uma atitude de conversão que transforma a vida das pessoas e provoca uma mudança estrutural na sociedade para manifestar a presença de Deus entre os homens e do cumprimento do mandamento do amor. Porém, de modo prático a tentativa desta metodologia não favoreceu um discurso acadêmico do tema, mas de certa forma propiciou uma abertura para o valor da religião nos diversos campos pela valorização da práxis. |
|