| |

ANO 10 - ED 120 - SETEMBRO DE 2009
ENTREVISTA
MARCIO CAMPOS
Internet, ciência e religião
(Conclusão)
O jornalista Marcio Campos comenta, nesta entrevista iniciada na edição de agosto, a recepção que o blog Tubo de Ensaio - sobre ciência e religião, publicado por ele na Gazeta do Povo - tem entre os leitores, oferece sua visão sobre a relação entre ciência e fé e explica como a internet pode colaborar para uma recuperação da identidade católica no Brasil e no mundo.
Na próxima edição, o jornalista Marcio Antonio Campos, que esteve em Minneapolis para a 60ª conferência anual da Religion Newswriters Association (para a qual foi contemplado com uma bolsa, fará um resumo das palestras proferidas na pré-conferência, que teve como tema “Saúde e Espiritualidade”. Durante uma tarde e uma manhã, especialistas de universidades e clínicas norte-americanas dividiram com os jornalistas suas experiências sobre a importância de uma abordagem espiritual nos cuidados médicos.

Qual o papel da internet nesse processo?
Acho que graças à internet está havendo uma recuperação do respeito à hierarquia e à doutrina da Igreja. Até há algumas décadas, era possível confiar plenamente nos padres e nos bispos, que a doutrina recebida deles era correta. Da década de 70 para cá houve uma degringolada, com a ascensão do modernismo e da Teologia da Libertação. Aqui eu ressalto que, embora isso tenha ocorrido após o Concílio Vaticano II, não ocorreu por causa do Vaticano II. Especialistas que entrevistei me disseram que a crise de autoridade teria ocorrido com ou sem concílio, porque a época dos anos 60 e 70 foi marcada pela contestação da autoridade em todos os níveis. Ao longo das décadas de 70, 80 e 90 a ortodoxia perdeu a guerra de propaganda dentro da Igreja. O que Roma dizia era ignorado. Os teólogos da libertação eram (e ainda são hoje) a “referência” dos veículos de comunicação quando o assunto é religião. Basta ver quem é chamado para dar entrevista hoje: frei Betto, João Batista Libânio, José Comblin... essas pessoas conseguiram passar para a imprensa e para a sociedade a ideia de que a Igreja são eles. Os bons católicos não tinham espaço, e continuam não tendo – e é aí que a internet fez diferença. Com blogs, sites e fóruns de discussão a ortodoxia achou a sua ferramenta por excelência. O que me parece é que, enquanto os teólogos da libertação e modernistas sempre tiveram seus intereclesiais de CEBs, suas associações, seus eventos, os conservadores não eram tão gregários. A internet deu a esse grupo a chance de criar redes nacionais e internacionais de mobilização.
Quem você destacaria nesse processo?
O padre Paulo Ricardo, reitor do seminário de Cuiabá, é um exemplo de como usar a internet para espalhar a doutrina católica. Um dos melhores blogueiros católicos do Brasil é meu amigo Jorge Ferraz, do Recife, que faz o Deus lo Vult! O Presbíteros, direcionado a padres, começou com o padre Antonio Keller, que hoje é bispo no Rio Grande do Sul, e agora está com o padre Demétrio Gomes, da arquidiocese de Niterói. Temos o Veritatis Splendor, que participou de um episódio emblemático ano passado: a Campanha da Fraternidade de 2008 teve como tema a defesa da vida. No DVD oficial, produzido por um estúdio da congregação dos verbitas, incluíram um depoimento a favor do aborto, sob pretexto de ser o “outro lado” da questão – como se o “outro lado” já não tivesse espaço suficiente na imprensa o tempo todo. Algumas pessoas viram o DVD e, claro, ficaram horrorizadas. Sem a internet, teríamos apenas várias pessoas se revoltando isoladamente, até porque o escândalo não chegou à imprensa. Mas, graças à rede, a indignação ganhou volume e o Veritatis interpelou a CNBB, inclusive com carta aberta publicada no site. A CNBB acabou recolhendo o material e mandando os verbitas editarem o DVD para voltar às lojas. Particularmente não achei suficiente, porque essa retirada foi feita de forma tímida e o estrago já estava feito em muitos lugares. Ainda assim, é o tipo de coisa que, sem a internet, provavelmente não teria acontecido. E, como muitos jovens estão online, esse movimento de retomada do respeito à Igreja conquista muito sangue novo. No médio e longo prazo, acho que a ortodoxia vai ser recuperada.
Você é um crítico da Teologia da Libertação. Cabe à Igreja se preocupar também com a questão social?
Tanto cabe que o Papa acabou de escrever a encíclica Caritas in Veritate. O problema é que pessoas dentro da Igreja colocaram a parte social em primeiro lugar, como se a prioridade da Igreja fosse acabar com a fome, com o desemprego, promover a reforma agrária e defender o meio ambiente. Ainda por cima, dissociaram essas plataformas da questão religiosa. É uma inversão, porque a prioridade da Igreja é tornar seus membros santos – e bons católicos automaticamente buscarão a justiça social. Não sei quem disse que a Igreja fez a opção preferencial pelos pobres, e os pobres fizeram a opção preferencial pelos evangélicos. É a pura verdade, e reflete como a Teologia da Libertação perdeu totalmente o foco. Quando esses setores da Igreja deixaram de oferecer espiritualidade, o povo foi buscar espiritualidade em outro lugar. O erro foi fazer o social atropelar o espiritual, e ainda por cima demonizar o rico, o fazendeiro, o empresário. Claro que é dever do católico denunciar a injustiça, mas a Igreja tem de procurar levar todos à salvação.
Já que falamos do Papa, como você vê Bento XVI?
Ele é uma das pessoas mais inteligentes do nosso tempo, é uma mente fenomenal. Tanto ele quanto João Paulo II foram capazes de identificar os grandes problemas de sua época e oferecer o antídoto. No caso de João Paulo II, era o comunismo; agora, é o relativismo. Quando o Papa percebe isso e transforma o combate ao relativismo em seu “programa de governo”, está indo direto ao ponto. Curiosamente, em 4 de agosto comentei no blog que um estudo da Universidade de Michigan havia constatado que os cursos que mais minam a fé das pessoas não são os de Exatas, com viés cientificista, e sim aqueles de Humanas, baseados em uma mentalidade relativista. Então, podemos dizer que agora temos uma constatação estatística daquilo que Bento XVI já sabia antes mesmo de se tornar Papa.
LEIA TAMBÉM O INÍCIO DA ENTREVISTA
< retorna ao
sumário |

LEIA TAMBÉM
O INÍCIO DA ENTREVISTA
|