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Agostinho Baldin, doutor em Letras, autor de “Anseios do Coração, ex-educador do Colégio Marista Paranaense.
agostinhobaldin@
terra.com.br


ANO 11 - ED 122- NOVEMBRO DE 2009

O cinismo de Herodes

Prof. Agostinho Baldin

Com a notícia do nascimento de Jesus, em Belém de Judá, Herodes alvoroçou-se todo. Em segredo, convocou os magos para maquinar por meio deles um plano sinistro de dar fim ao meigo Menino recém-nascido: “Ide informar-vos com cuidado sobre esse Menino e quando o achardes, fazei-mo saber para que eu também vá adorá-lo” (Mt 2, 8).

Nos evangelhos são registradas algumas figuras que se tornaram sinônimo de cinismo: Herodes, Pilatos, Judas, os fariseus, os cobradores de impostos, os publicanos, os doutores da lei...

O cinismo dessas figuras perpetuou-se através dos séculos, em todas as vertentes, latitudes e longitudes. Não é para menos. O cinismo tipificado nessas figuras causa repulsa e asco. Herodes como infanticida; Pilatos como covarde e demagogo; Judas como traidor; os fariseus como orgulhosos; os cobradores de impostos como prepotentes; os doutores da lei como implicantes. Em todos eles, especialmente em Herodes, o cinismo beira as raias do cúmulo, uma vez que partiu de sua figura execrável, o intento autoritário, invejoso e atrabiliário: para atingir o meigo Menino de Belém; não titubeou ele em promover um dos mais ignóbeis infanticídios coletivos da história: a matança dos Santos Inocentes. Segundo seu intento malevolente, assim não escaparia com vida o novo concorrente de seu reinado. O sangue dos inocentes decapitados manchou mais ainda as páginas de seu iracundo reinado. Mas Deus haveria de preservar o novo “rei dos corações” dessa chacina sanguinolenta.

Seu cinismo era tanto que tentou subornar os reis magos, ilustres visitantes do Oriente, os quais, guiados por uma “estrela”, acorreram solícitos para homenagear o Menino da manjedoura nas cercanias de Belém.

Os reis magos devem ter tido uma impressão ascosa de Herodes e ter percebido sua maquiavélica intenção. O evangelista relata que os magos não retornaram a Herodes, pois foram advertidos, em sonhos, para não fazê-lo.

Deus é que rege os destinos humanos; a Providência divina traça caminhos seguros para o coração humano. Basta ter confiança nela e fidelidade no seguimento de suas inspirações. Assim como os magos são símbolo de retidão de coração, Herodes se tornou a personificação da ignomínia.

É assim mesmo. Ninguém consegue disfarçar os intentos iníquos tramados no âmago do coração. O cinismo transmite-se pelas palavras e se revela em todo o semblante, como se fora um periscópio, que revela por fora o que se passa por dentro.

A sinistra história da maldade humana registrou, ao longo dos séculos, outras figuras cínicas, pois o cinismo convive lado a lado com a lhaneza de coração dos “limpos de espírito” (Mt 5, 8). Como estes se tornaram credores da admiração de todos, por suas obras beneficentes, aquelas outras se imortalizaram como testemunhas execradas por sua impiedade e insolência. Não seria muito difícil arrolar uma série de nomes fulgurantes de benemerências, entre os primeiros, como também outra de nomes nefandos entre os segundos. A história é testemunha inconteste dessa convivência biforme.

A dissimulação, o faz-de-conta enganador, o embuste são uma constante em certa camada da sociedade moderna. Mente-se com o maior despudoramento, sem sequer “enrubescer a cara”. Os mais incautos caem na esparrela montada por essa casta de enganadores baratos que se gabam de mostrar o que não são. Os pobres coitados que acreditam nesses descreditados sofrem pesadas perdas sem poderem se compensar devidamente.

Assim caminha a humanidade à mercê das facécias de irresponsáveis embrulhões e esbulhadores da credulidade dos inocentes indefesos. Como é doloroso conviver nesse mundo em que tanto prevalece a malvadez sobre a ingenuidade.

Os herodes hipócritas e mentirosos sempre existiram, como também sempre existiram os reis magos que, de ingênuos nada tinham, para não se deixarem engambelar pelas palavras falaciosas do rei infanticida; eles preferiram prudentemente seguir os avisos recebidos “em sonhos” e voltarem para sua terra com a satisfação de terem adorado e presenteado a seu modo o divino Menino de Belém.

Herodes, ao invés, deve estar se roendo de raiva até hoje, em sua jactância orgulhosa, aguardando o retorno esperado dos reis magos, sábios e precavidos, que preferiram desprezar o pedido alienado do iracundo rei da Judeia.

A lealdade dos reis magos, em sua adoração ao meigo Rei-Menino de Belém é tão admirável, quanto detestável é a repugnante proposta de Herodes, mal disfarçada sob a cínica intenção de “ir também adorar o menino”.

Admiremos a lhaneza de coração dos reis magos e rejeitemos o cinismo vil do velho rei-raposo da Judeia.

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