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Seu artigo é atualíssimo e expressa um pouco a visão “de fora” da Suíça. Todo o processo de propaganda antes da votação, que normalmente envolve cartazes e outdoors, além de distribuição de folhetos, flyers e artigos de jornal com prós e contras levava a crer que a iniciativa certamente não sairia vitoriosa. A certeza era tão grande (o Parlamento nacional se posicionou claramente contra), que a propaganda contra a iniciativa praticamente não aconteceu. Os outdoors favoráveis mostravam uma sombra de mulher com o manto preto cobrindo a cabeça e parte do rosto, uma minareta preta com um “x” vermelho e o texto “Sim à iniciativa das Mineretas”. O cartaz lembrava muito a propaganda nazista e era tão absurdo que não podia ser verdade. Em Basileia esse tipo de outdoor é proibido, o que significa que nas cidades em torno esses cartazes se multiplicaram. Tinha um aqui na frente de casa.
Os grupos contrários à iniciativa fizeram um cartaz lindo no qual aparecia um céu azul, várias torres, representando todas as crenças e as palavras: “O céu da Suíça é grande que chega”. Foi uma pena que essa propaganda não foi mais difundida (NR: Essa imagem ilustra o topo do artigo de Aroldo Murá G. Haygert. Veja aqui.) O espanto da vitória da iniciativa mostrou algumas coisas: a forte influência e capacidade do partido de extrema-direita, o SVP (Schweizerische Volkspartei - Partido Popular da Suíça) para mobilizar seus partidários a votar; a falta de mobilização dos partidos de esquerda para enfrentar questões desta natureza; o descaso de quem “tem alguma coisa na cabeça” em relação às votações; o medo da “islamização” da Europa. Todo esse conflito interno, somado às reações internacionais em relação ao resultado da votação, provocou uma discussão muito mais fundamental e importante: o valor e o poder da democracia popular suíça. O Parlamento Nacional e vários grupos/partidos de esquerda, assim como juristas de renome, começaram a questionar a legitimidade do voto popular e a capacidade do povo de tomar decisões desta amplitude, que têm implicações nas relação da Suíça com o resto do mundo e que ferem direitos humanos fundamentais. Um dos argumentos dos pró-iniciativa é que o culto muçulmano continua liberado, o que está proibida é a construção das torres. Esse grupo, sustentado por algumas correntes da imprensa, traz à tona estudos secretos que dão conta da existência de grupos muçulmanos extremistas na Suíça, que poderiam se fortalecer com os minaretes. Da parte dos “contra” discute-se a limitação do poder popular, estabelecendo regras sobre o que deve ir a plebiscito e o que não deve. Questões ligadas aos direitos humanos e questões de amplitude internacional não iriam à votação. Haveria uma espécie de pré-seleção dos temas a serem levados a plebiscito. No momento, é necessário recolher, num período de 18 meses, 100 mil assinaturas de pessoas capacitadas a votarem para poder levar ao Parlamento uma proposta de Plebiscito para alterar a Constituição ou estabelecer uma nova regra nacional. No caso da iniciativa das mineretas foram recolhidas 113.540 assinaturas. O que foi assustador foi que a medida foi aprovada por 57.4% dos votantes e obteve o “sim” em praticamente todos os cantões. Somente em Genebra, Basileia, Valis e Neuenburg venceu o “não”. Vale dizer que 53,4% dos eleitores deram seu voto e que no cantão de Zurique a vitória do “sim” foi “raspando”. De qualquer forma essa votação deixou marcas mais profundas na história atual da democracia suíça e terá efeitos mais duradouros do que os próprios propositores imaginavam. Uma outra iniciativa que está em discussão no Parlamento, a de expulsão sumária de estrangeiros que cometam infrações graves, está também dando “pano para manga”. Nos outdoors desta campanha aparecem três ovelhas brancas empurrando para fora uma ovelha preta (o desenho também teve impacto internacional). Numa primeira votação a proposta não passou e agora a direita quer votar de novo. Essa história ainda não terminou e ainda não dá para dizer como serão os próximos capítulos. LEIA TAMBÉM
o artigo "Os minaretes
da discórdia", |
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