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Eduardo Quirino de Oliveira Os recentes acontecimentos que abalaram os Estados Unidos e o mundo têm dado ocasião para as mais variadas opiniões, sendo algumas delas totalmente desprovidas de equilíbrio e bom senso. Os sentimentos vão do pavor ao regozijo. A espécie
humana perdeu a razão? Às vezes parece que a resposta seria
afirmativa. Porém, ainda que os enlouquecidos sejam da raça
humana, não é a raça humana que enlouqueceu. A filosofia se apresenta como uma maneira de ver o mundo e as coisas com base num conjunto de idéias que estão sempre abertas em busca da verdade, aceitando questionamentos. Uma boa filosofia não envelhece, não se impõe, mas propõe. Já a ideologia, que se apresenta como um sistema de representações para ver o mundo, se apresenta como um sistema que não admite questionamentos. Ela, só ela, se dá o direito de questionar e impor seus conceitos, sem discussão. É um sistema fechado. Os líderes comandam, os militantes obedecem. Se na filosofia há uma tendência em se moldar na busca da verdade, na ideologia há uma tentativa de moldar as coisas e os humanos a seus princípios, num total desrespeito pelos outros. As raízes
da religião se encontram na razão humana simplesmente. Ela
faz apelo às outras fontes. Oriunda do verbo latino religare, que
significa atar, unir, a palavra religião significa o ato de religar
o mundo visível com o mundo invisível, onde estão
forças poderosas e misteriosas cujas boas graças é
preciso assegurar. A religião pode também ligar os seres
humanos entre si, num grupo, propondo-lhes leis e valores comuns, dando-lhes
um modo de crer e de agir. Quando a religião ocupa o lugar da filosofia e se torna ideologia, a partir desse momento as convicções, que deveriam ter fundamentação sustentável, na verdade, passam a ser pontos de vista puramente subjetivos. Está aqui o terreno fértil para o nascimento do fundamentalismo que incrementa fanatismos. Determinados pontos de uma religião são tomados isoladamente. Todas as religiões se apresentam como verdadeiras. Mas em nenhuma delas está escrito que devem ser impostas à força. Ser muçulmano não é ser violento, intolerante e terrorista. O Islã é uma religião muito simples. Não abriga liturgias complicadas. Não é intelectua-lizada. Ela toca muito de perto os sentimentos e o coração. É uma filosofia de vida muito prática. A origem disso está no milenar antagonismo entre a cultura oriental e a cultura ocidental. A cultura oriental é muito mais antiga e sempre esteve muito ligada à religião. Já a cultura ocidental, mais nova, está muito mais ligada aos valores materiais. É uma cultura para os olhos e para o tato e não para o espírito. Os orientais procuram encaixar o mundo dentro de suas convicções religiosas. Os ocidentais procuram encaixar as coisas do espírito dentro da realidade material. Ora, os fanatismos nada mais fazem senão aumentar essas diferenças. Acrescente-se a isso tudo uma dose de falta de sensibilidade diplomática, prepotência, arrogância de poder e teremos os ingredientes que podem causar desgraças do porte daquele dia 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Como cristão, não posso me conformar com a violência e nem com a vingança. O ódio jamais serviu para construir o que quer que seja. Ódio, orgulho e prepotência são agentes de morte e dor. É preciso cultivar o respeito e o diálogo, despedindo-se de ideologias ou crenças fanáticas e procurar, a partir de agora, rumos de entendimento em que o ser humano seja realmente respeitado em si mesmo para quem não crê e como imagem e semelhança de Deus para aquele que crê. Frei Eduardo Quirino de Oliveira, OP, é professor de Filosofia e decano do Centro de Teologia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. |