Sérgio
Feldman é professor adjunto de História Antiga
do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná
e doutorando em História pela UFPR.
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Abril
de 2003
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Isidoro
de Sevilha:
o patrono da Internet
Sérgio
Feldman
Algum dos
leitores sabe quem é Isidoro de Sevilha? Alguém já
leu algo sobre ele. Em enquête pública, a Igreja Católica,
acabou aceitando a consagração informal de Isidoro de Sevilha,
como patrono da Internet. Por que? Talvez poucos saibam o motivo. Isidoro
viveu na Espanha visigótica entre os anos 560-636. De acordo a
alguns autores, nascido em Sevilha, foi bispo nesta cidade de 600 a 636.
Viveu no período que sucedeu a queda do Império Romano do
Ocidente, no qual monarquias bárbaras se espalharam pela Europa
Ocidental, tendo curta ou média duração. Foi uma
época difícil. A crise econômica havia abalado o Império
(ainda mais na parte Ocidental), desde o III e IV século da Era
Comum.
Com a queda do Império Ocidental, as poucas cidades que sobreviveram,
minguaram e se esvaziaram. O comércio se reduziu drasticamente
e a mão de obra era difícil de ser obtida. Escravos eram
poucos, caros e disputados. O mundo em crise muda sua face cultural: antes
de questões culturais, trata-se de investir em obtenção
de alimentos, segurança (escassa) e estabilidade. Ninguém
tinha excedentes para investir na cultura. A pobreza e a fome eram agudas.
Isso acentuou a ignorância e o analfabetismo. Poucos sabiam ler
e escrever. Muitos nobres e reis eram analfabetos e outros semi alfabetizados.
O clero não era diferente: na sua maioria eram mal alfabetizados.
Isidoro viu como uma das metas de sua vida preservar algumas coisas, entre
elas a cultura e a Verdade da Fé cristã. Investiu toda sua
vida e sua vasta cultura, na tentativa de sintetizar o saber do mundo
antigo, depurado por uma ótica cristã e filtrado pelos princípios
da Igreja, para que não se perdesse tanto saber. Leu a maioria
dos autores pagãos e cristãos e elaborou sínteses
e coletâneas deste saber em diversos livros e numa famosa enciclopédia
medieval: o Livro das Etimologias. Uma enciclopédia medieval do
saber clássico e cristão, para servir aos que quisessem
um dia, saber o que pensavam os sábios e os grandes teólogos
(denominados Padres da Igreja). Uma condensação para consulta,
que propiciava para os leigos em certos temas, poder entender algo e serem
introduzidos no saber. Este saber que foi preservado pelos copistas dos
mosteiros e que veio a renascer séculos mais tarde.
O saber seria resgatado na Baixa Idade Média quando renasceram
as cidades, o comércio, reapareceu a moeda e os burgueses povoaram
as estradas e os mercados, produzindo, vendendo e comprando. Nos séculos
do Medievo, Isidoro com suas Etimologias foi “Internet medieval”,
oferecendo um saber fácil e acessível, mas tal qual a Internet,
falho, impreciso, incompleto e por vezes simples demais. Uma vulgarização
do saber, sem controle. Nossos filhos ligam a Internet e fazem uma pesquisa.
Não sabem o site que contém informações mais
apuradas e possivelmente mais precisas. Buscam, lêem (ou nem o fazem),
marcam com o mouse, copiam, colam e imprimem. Será que esta é
uma cultura ou apenas uma superficial maneira de acessar o saber e sobreviver
num mundo de competição, pouca reflexão e pouquíssimo
tempo e leituras!!!
Isidoro! O que isto interessa para um jornal da comunidade judaica? Um
bispo do século VII, na Espanha visigótica, tem algo a ver
com os judeus e o judaísmo? Parece que sim. Estou elaborando uma
pesquisa de doutorado na UFPR, relacionando e discutindo a postura dos
reis visigodos em relação aos judeus. Em cerca de um século,
promoveram leis restritivas, controle da vida e do cotidiano judaico,
conversões forçadas de judeus ao Cristianismo, somadas a
uma violenta repressão e a tentativa de “limpar a Espanha
de judeus”. Muitos aspectos e semelhanças com outras historias
antigas e recentes. De certa maneira os visigodos são os precursores
e inspiradores de perseguições e conversões forçadas
ocorridas em outras épocas e lugares.
Meu estudo não é uma leitura apaixonada e parcial de um
tema. Não posso tentar compreender o problema sob uma ótica
judaica, mas como um historiador. O que movia os visigodos? Isidoro era
um líder e um pensador da Igreja visigótica e teve importância
muito grande em toda esta política. O que movia Isidoro e outros
bispos perseguir os judeus? Ódio puro e simples? Seria uma explicação
simplista e superficial. Isidoro, como todos na sua vida, era um homem
de sua época. Tinha valores e crenças. Entendia e via uma
razão de ser em tudo que existia no mundo. A Historia tem um sentido:
existe e se dirige para um tempo messiânico. Diferentemente dos
judeus, acreditava que o messias já viera e retornaria: era Cristo.
A maneira que os judeus entendiam a Historia, era para Isidoro um grave
erro e uma cegueira. Isidoro dedicou muitos estudos e deixou inúmeros
escritos sobre a interpretação do texto bíblico.
O que os judeus interpretam, tem uma maneira judaica de entender o mundo
e leva a certo tipo de interpretação. Isidoro, tal como
seus antecessores, faz uma leitura cristã do texto da Bíblia.
Entende que o Tanach (denominado pelos cristãos como Antigo Testamento=AT)
conteria profecias e o prenúncio dos fatos ocorridos e narrados
nos Evangelhos (denominado pelos cristãos como Novo Testamento=NT).
Por isso fazem uma interpretação ou exegese característica:
tudo que esta no AT se relaciona com algo do NT. Os judeus são
cegos e não perceberam que o Messias já havia chegado. Isso
cria um difícil e inevitável confronto. Ao propor uma verdade
diferente e uma interpretação diferente da Bíblia,
os judeus se transformam em inimigos da Cristandade. A crença era
que no final dos tempos, quando viesse o Messias, uma parte dos judeus
se converteria ao Cristianismo. Uma parte se manteria na sua fé
e apoiaria um personagem que encarnaria todas as qualidades opostas ao
Salvador: o Anticristo.
Segundo Isidoro e muitos nos quais se baseou (em especial o monge exegeta
Jerônimo, sábio e conhecedor profundo da Bíblia),
o Anticristo seria um judeu da tribo de Dan. O Diabo estaria na vanguarda
dos que apoiariam o Anticristo. Portanto, a associação de
judeus, Diabo e Anticristo se consuma neste período. Há
conceitos já existentes em pensadores anteriores mas em Isidoro
se desenvolve e se amplia a visão dos judeus como pessoas perigosas
e associadas com o Demônio. Através desta reflexão
Isidoro influencia reis e bispos e num curto período de um século
os judeus sofrerão violentas perseguições. O rei
Sisebuto ordena sua conversão forçada em 614 por acreditar
que o fim dos tempos e a volta de Cristo estava se aproximando. Os reis
que se seguem, são ora mais tolerantes e ora mais rígidos
com seus súditos judeus ou de origem judaica e convertidos ao cristianismo,
mas que seguem professando de maneira proibida a fé de seus antepassados.
Surge a categoria dos judeus convertidos que são ciclicamente acusados
de apostasia (voltarem a sua fé anterior) e assim profanarem o
sagrado sacramento do batismo e da conversão.
Muitos leitores diriam: essa historia esta muito parecida com a historia
dos cristãos novos ibéricos, ocorrida a partir das conversões
forçadas de 1391 e que se propagaram pelo e através dos
séculos XV e XVI, chegando até o Brasil Colonial. Essas
coincidências não são meras casualidades, mas exigem
reflexões mais profundas do que um simples artigo jornalístico.
Esta na hora de repensar muitas coisas.
Publicado
no jornal Visão Judáica, março de 2003
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