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Jamil Snege
nasceu em Curitiba, PR, onde vivia.

Era formado em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência.

Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo.

Era o escritor mais reconhecido pela classe literária curitibana, autor de mais de dez obras, entre as quais Tempo sujo (1968), Ficção Onívora (1978), Para Uma Sociologia das Práticas Simbólicas (ensaio, 1985), O Jardim, a Tempestade (minicontos, 1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) Viver é Prejudicial à Saúde (1998), Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Maio de 2003

Para matar um grande amor...

Jamil Snege

Muito se louvou a arte do encontro,
mas poucos louvaram a arte do adeus.
No entanto, não há gesto tão profundamente
humano quanto uma despedida.
É aquele momento em que renunciamos não apenas
à pessoa amada, mas a nós mesmos,
ao mundo, ao universo inteiro.
O amor relativiza; a renúncia absolutiza.
E não há sentimento mais absoluto do que a solidão
em que somos lançados após o derradeiro abraço,
o último e desesperado entrelaçar de mãos.

Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam.
Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar,
podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados
de amor, mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro.
Falta-lhes exatamente o dom da finitude, abrupta e intempestiva.
Qualidade só encontrável nos amores que
infundem medo e temor de destruição.

Não se vive o amor, sofre-se o amor.
Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas
cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido
e domesticado como um animal de estimação.
Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate,
e por fim se extingue e nos extingue com ele.
Aponta numa única direção: o rompimento.
Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos
sentidos o objeto dessa desvairada paixão.

Mas não se pense que esse é um gesto de covardia.
O grande amor exige isso.
O rompimento é sua parte complementar.
Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia,
ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes.
Morrer um pouco para se continuar vivendo.
E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura,
em que a voz falseia, as mãos se abandonam e
cada qual vê o outro se afastar como se através de
uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.

Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações,
construído pela literatura e pelo cinema.
O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto
( remember Casablanca), um entroncamento rodoviário.
Pode ser uma praça ou uma praia deserta.
Falésias ou ruínas de uma cidade perdida.
Pode estar garoando ou nevando,
mas vento é imprescindível.
As nuvens devem revolutear no horizonte,
como a sugerir a volubilidade do destino.
Os cabelos da amada, longos e escuros,
fustigam de leve seus lábios entreabertos.
Há sutis crispações, um discreto arfar de seios.
E os olhos, ah!, os olhos...
A visão é o último e o mais frágil dos sentidos
que ainda nos une ao que acabamos de perder.

Uma grande dor, uma solidão cósmica,
um imenso sentimento de desterro.
Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar,
desses feitos para durar uma vida inteira...

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Senhor

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