![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| |
|
|
|
|
|
|
|
As
relações entre judeus e católicos Antônio Carlos Coelho
Nesta noite tratarei dos últimos 60 anos das relações judaico-cristãs, do pós-guerra até hoje. Espero que com este tema possa dar fechamento ao ciclo “Judaísmo e Cristianismo em Perspectiva” proposto por esta Universidade (PUC), pelo Círculo de Estudos Bandeirantes e pela CNBB (Pastoral da Cultura). Na face sul da catedral medieval de Strasbourg, França, encontram-se duas estátuas ladeando uma grande porta dupla. Na esquerda de quem olha está a estátua de uma bela mulher, coroada, com um cetro nas mãos, representando a Igreja Católica; na direita está a de uma mulher igualmente bela, no entanto, tem os olhos vendados, sua cabeça não está coroada e o seu cetro é um bastão partido em varias partes. Esta representa a Sinagoga. O que está representado no portal da catedral bem traduz a visão que os cristãos tinham do judaísmo. O judaísmo representava uma fé superada, de um povo derrotado, que tinha perdido o direito de herança no pacto divino por ter sido cego à revelação do Deus de Israel em Jesus Cristo. Lamentavelmente, a representação medieval serve ainda hoje, para muitos cristãos que continuam vendo o judaísmo como uma religião vencida. Esta forma de pensar deu o tom para a relação entre cristãos e judeus por quase dois mil anos. Seus desdobramentos se refletiram sobre os judeus na forma de perseguições e exclusão da vida social em muitos países da Europa e da América. Não foi por acaso que a ideologia nazista pode impor leis e promover execuções de 6 milhões de judeus e de milhares de ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, doentes, sem resistência, no mais absoluto silêncio da sociedade cristã. O que houve com os judeus nos anos 40 só veio ao conhecimento do mundo após o término da guerra e a liberação dos campos. Os livros de Primo Levi, “Se questo è um uomo”, publicado em 47 (1a. edição – 2a. edição em 58) - e de Elie Wiesel, “La Nuit” publicado em 58, foram de extrema importância para revelar ao mundo a barbárie nazista. A partir da Shoá (holocausto judeu na Segunda Guerra) levantou-se a questão: como tudo isso pode acontecer num mundo civilizado e cristão? A questão, forte e exigente, traduzia a indignação de muitos cristãos diante da Shoá e impunha sobre a sociedade cristã a responsabilidade pelo maior crime já conhecido pelo mundo, exigindo alguma forma de reparação. Reparar não era possível, como não é ainda hoje. A única coisa a ser feita diante da barbárie era eliminar o preconceito existente no seio da cristandade, se é que ainda podia-se considerar a Europa um continente cristão. Todavia, não eram todas as pessoas que exerciam influência dentro a Igreja e que poderiam contribuir para a mudança da mentalidade antijudaica. Além disso, havia a incapacidade de se assimilar o pecado da omissão diante da morte de seis milhões de judeus vitimados pelo nazismo. Eliminar as causas do preconceito não seria uma tarefa fácil. Embora tenha havido o silêncio diante da morte por parte da maioria cristã, houve também aqueles que tiveram a coragem de se importar com as vítimas. Entre eles estão o Cardeal Ângelo Roncalli (Papa João XXIII), Pe. Karol Wojtyla (Papa João Paulo II) e o Pe. Benedetto, capuchinho que ficou conhecido por “pai dos perseguidos”. Eles forneceram atestados de batismo, falsificaram documentos, esconderam judeus, com o intuito de livrá-los dos nazistas. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos”. Isto causou uma grande alegria na comunidade judaica da Itália. Ainda, no mesmo ano, o Papa recebeu – pela primeira vez na história da Igreja – representantes da comunidade judaica da Itália. Entre eles estava Otto Frank, pai de Anne Frank. João XXIII os recebeu com a doçura que lhe era peculiar e, de braços abertos, disse: “Eis aqui José, o vosso irmão”, repetindo a frase de José ao encontrar seus irmãos no Egito. Se João XXIII deu um importante passo para a superação do antijudaísmo dentro da Igreja, seu sucessor, nem tanto. Este insistiu em manter a distância os judeus e o judaísmo da Igreja. Na ocasião em que visitou Israel - em janeiro de 64 - durante o Concílio Vaticano II, encontrou-se com o Patriarca greco-ortodoxo, Atenágoras, atendendo aos objetivos ecumênicos. Sua estada em Israel limitou-se ao breve roteiro das peregrinações cristãs. O Papa visitou o Santo Sepulcro, Belém e outros locais costumeiros aos cristãos menos comprometidos com o povo judeu ou muçulmano. Diante das manifestações positivas de João XXIII, o que o Papa fez foi dar passos atrás, não visitou o Muro Ocidental, o Yad Vashem (Memorial da Shoá) e não pronunciou nenhuma vez as palavras “judeus” e “Israel”. Ao retornar ao Vaticano, agradeceu a infraestrutura oferecida a sua estada em Israel ao “Presidente Zalman Shazar... Tel-Aviv”, sem mencionar o nome Israel e endereçando seu telegrama a uma cidade que não era, como não é, a capital. Até o ano de 65 o Vaticano tratou Israel como se não fosse um país, como sua população não formasse uma nação, e como seu povo não existisse. O modo de agir do Papa em relação a Israel e ao povo judeu, reforçou o sentimento amargo e doloroso de terem sido excluídos da família das nações. Apesar dos tropeços da diplomacia vaticana o Concílio Vaticano II apresentou à comunidade católica universal o documento Nostra Aetate. Neste documento a Igreja deplorou o anti-semitismo em todas as suas formas e repudiou a alegação de “deicídio”, pela qual eram culpados os judeus de todas as gerações. O documento ainda afirmou que Jesus, os apóstolos e a maioria de seus seguidores eram judeus e que Deus não havia revogado o Pacto com o povo de Israel. Posteriormente foi criada a Comissão Pontifícia para o diálogo judaico-cristão (católico), responsável pela elaboração de novos documentos voltados às relações com a Sinagoga. O documento Nostra Aetate e os documentos posteriores tiveram e têm provocado dentro da Igreja uma mudança significativa de mentalidade em relação ao judaísmo e ao povo judeu. A antipático e cego objetivo de “converter os judeus” foi sendo suprimido do âmbito católico, e a idéia medieval expressa na catedral de Strasbourg foi dando lugar a atitudes voltadas ao “rappòrto” entre as duas religiões. Recentemente (12/8/02), veio a público um documento, não-oficial, “Reflexões sobre conversão e missão”, elaborado por seminaristas norte-americanos. O documento, com citações do teólogo Walter Kasper e do Papa João Paulo II, argumenta que a não – conversão deve ser meta da Igreja: “Mediante nossa convicção de que os judeus têm um pacto eterno com Deus, nós renunciamos aos nossos esforços dirigidos a converter os judeus”. Este documento encontra-se na página da internet da Conferência dos Bispos Católicos (EUA). O Cardeal Avery Dulles, conceituado teólogo americano, contestou o documento dos seminaristas: “os católicos têm o ‘direito divino’ e a responsabilidade de converter os judeus como qualquer outra pessoa...” E concluiu o Cardeal: “A partir do momento em que abrimos uma concessão para certas pessoas, para as quais não é importante conhecer a Cristo, ser batizado e receber os sacramentos, nós levantamos questões cruciais sobre nossa própria vida religiosa”. Por outro lado, o importante e conceituado diretor de Yeshiva, o Rabino Adin Steinsaltz, durante uma conferência que fez para estudiosos judeus e católicos reunidos para aprofundar as relações entre as duas religiões, destacou que: “o preconceito ainda permanece e que a Igreja Católica estava em uma posição ‘quase insustentável’ quando veio dialogar com os judeus. É muito difícil ser herdeiro de alguém, quando este alguém ainda está vivo”. Disse ainda, “Basicamente, as religiões monoteístas não podem ser tolerantes... quando você fala de ‘verdade’... você pode falar de duas ‘verdades’?” Apesar de Steinsaltz, fundador de diversas instituições talmúdicas em Israel e na Rússia, ter destacado pontos de tensão e de difícil superação que se encontram no fundamento dos dois credos, manifestou sua esperança na melhora das relações. Os entraves nas relações judaico-cristãs não ocorrem apenas no nível da teologia e da filosofia. A história está carregada de fatos negativos, obstáculos quase que intransponíveis. Muitos judeus ainda sentem dificuldade de acreditar que não há, da parte dos cristãos, católicos ou não, o interesse de convertê-los. Também pesam os ressentimentos dos séculos de mau relacionamento. Diante da experiência amarga imposta aos judeus no ambiente cristão não se pode exigir fácil reciprocidade no diálogo. Da parte cristã católica também surgem dificuldades: primeiramente romper o antijudaísmo cultural, já petrificado em muitas sociedades. Depois, nem todos acreditam que haja necessidade de se dialogar com os judeus ou com outras religiões, pois julgam que há coisas “mais importantes a se preocupar”. Também há aqueles que se julgam possuidores da ‘verdade’, logo, estes não estariam dispostos a aceitar que o outro tenha a sua ‘verdade’. Mas há aqueles que se esforçam em superar os entraves e acreditam que é mais importante, embora não se possa e nem se deva tentar encobrir o passado, estabelecer bases para um futuro diferente. Entre os que acreditaram e que se tornaram, pelos seus gestos e pelas suas palavras, imprescindíveis, está o Papa João Paulo II. João Paulo II é diferente. Ele viu de perto o sofrimento dos seus vizinhos e amigos judeus. Ele os viu desaparecer a cada trem que passava por sua cidade na Polônia, e sofreu por isso. Foi o seu espírito marcado pela tragédia de Auschwitz que o determinou à promoção insistente e necessária da “nova consciência” dentro da Igreja. O Papa, ele próprio, fez-se exemplo da reconciliação. Em 86 visitou a Sinagoga de Roma. Era a primeira vez que um chefe da Igreja, em 2000 anos, entrava numa sinagoga. Em 93 estabeleceu as relações diplomáticas do Vaticano com Israel. Finalmente, após 45 anos, o Vaticano reconhecia o Estado de Israel. Em 93, no livro “Carta a um amigo judeu” falou da sua amizade com Jerzy Klug, seu colega de escola em Wadovice. Em 94, em “Cruzando o Limiar da Esperança”, o Papa manifestou seu desejo de voltar à Sinagoga da sua cidade natal. Possivelmente, esse seu desejo expressa a sua profunda tristeza e frustração diante da impossibilidade de se apagar os erros cometidos pela civilização cristã. O seu desejo seria voltar, como que, se voltando, fosse possível impedir o acontecimento do “grave pecado contra a humanidade”. Durante os anos que antecederam o Jubileu 2000, o Papa fez publicar o documento “Nós Recordamos, uma reflexão sobre a Shoá”. Em março de 2000 fez a confissão das culpas no relacionamento com Israel durante a Oração Universal e, dias após, visitou Israel. O Papa esteve no Muro Ocidental onde depositou sua prece ao Deus Único, fez a sua oração particular no Yad Vashem (Memorial do Holocausto). Encontrou-se com o Presidente. Enfim, João Paulo II visitou o Estado de Israel. Apesar da boa vontade de João Paulo II, ele teve que observar algumas regras da diplomacia vaticana. Ao falar em Jerusalém, o fez de forma reforçar a idéia de internacionalização da Cidade, contemplando as três grandes religiões monoteístas. O Papa retomou a idéia de internacionalização da capital de Israel já manifestada em outros discursos. A idéia é absurda, não só porque Jerusalém é a capital histórica de Israel ou por ter sido recentemente reivindicada pelos palestinos para ser capital de um futuro estado, mas porque Jerusalém é o símbolo concreto da fé, da esperança e da unidade do povo judeu. Não se têm notícias de que a internacionalização de uma cidade tenha garantido a paz entre os seus habitantes. A idéia de internacionalização de Jerusalém é simplista demais diante da complexidade da questão que envolve os povos do Oriente Médio, ou é apenas uma maneira de evitar problemas diplomáticos com os países envolvidos. Apesar do valor do documento “Nós Recordamos, uma reflexão sobre a Shoá”, nele há alguns pontos negativos como: contém certa apologia ao Papa Pio XII (ainda não está clara a posição tomada por Pio XII diante do regime nazista). O documento não toma posições sobre a relação que há entre o ensino da Igreja (no passado) de desprezo aos judeus e ao judaísmo e o clima cultural e político que tornou possível a Shoá; ainda, o documento ao mencionar “cristãos” ou “mundo cristão” deixa de assumir explicitamente a culpabilidade da Igreja Católica. Mesmo com os pontos negativos do “Nós Recordamos” há algo nele que chama a atenção: o uso do termo hebraico “teshuvá” – retorno, em lugar da palavra “perdão”. No termo teshuvá está implícito que a Igreja Católica pretende construir a relação com os judeus, assumindo um compromisso na eliminação das causas geradoras do sentimento antijudaico. Este termo é, no entendimento judaico, mais adequado do que a palavra “perdão”, pois pressupõe um compromisso, por parte da Igreja, de eliminar o sentimento antijudaico contido na comunidade católica. O pedido de perdão é dirigido somente a Deus e aos ofendidos, portanto, os que poderiam perdoar não estão mais no nosso convívio. Apesar dos
documentos divulgados pelo Vaticano não atenderem completamente
a algumas questões importantes para as relações judaico-cristãs,
todo o esforço da Igreja manifestado na criação de
comissões de diálogo, nas palavras dos Papas João
XXIII e João Paulo II, dos Cardeais Kasper, Cassidy, Ratzinger,
foram e são extremamente expressivos. Tudo esse esforço
deve ser valorizado e transmitido – ensinado sistematicamente -
à comunidade católica. Também é evidente a
receptividade dos judeus ao empenho da Igreja nestes anos pós Nostra
Aetate. Os judeus estão sempre atentos aos pronunciamentos papais,
aos documentos da Igreja sobre as relações judaico-católicas
e atendem aos convites para compor as comissões de diálogo
religioso, expressando do desejo de trabalharem juntos com os católicos
para um mundo melhor. Mesmo aqueles que estão mais envolvidos com as atividades pastorais nas paróquias, nas escolas religiosas ou nas universidades, pouco se dão conta da existência das orientações da Igreja para as relações inter-religiosas. Quando buscam saber alguma coisa sobre isso é porque se sentiram de alguma forma confrontados com o problema. Em algumas escolas e universidades dá-se espaço para o “estudo” das religiões em atendimento aos documentos eclesiais. Os professores, então, entregam aos alunos a responsabilidade através de um trabalho escolar, o que fatalmente, acaba recaindo sobre um especialista do assunto. Na realidade não há um interesse sério em conhecer e/ou estabelecer algum tipo de relação mais profunda com as religiões. Basta uma rápida pincelada sobre o tema e pronto, dão a missão por cumprida. Freqüentemente sou convidado para falar a grupos de católicos sobre o judaísmo. Dão-me uma hora ou uma hora e meia no máximo. Ora, uma hora ou duas para falar sobre uma religião... é piada. Pior ainda é quando a religião em foco é o judaísmo que, por ser a raiz da fé cristã, mereceria maior atenção. Conto um fato: Noutro dia uma professora ligou para a minha casa convidando-me para falar, por uma hora, sobre a religião judaica para o pessoal de um pastoral. Disse ela que queria atender o “pedido do Papa”. Ora, faz quase 40 anos que o Papa, através da Nostra Aetate “pediu” aos católicos que procurassem conhecer as suas raízes religiosas. Será que só agora esses cristãos se deram conta do pedido do Papa? Será que em uma hora será possível falar sobre a religião dos fundadores do cristianismo? Embora tenha havido o reconhecimento do Estado de Israel e a conseqüente instalação da sua sede diplomática no País, todo esforço para fortalecer as relações entre a Igreja e Israel pode ficar comprometido se continuar baseado somente no campo bíblico-teológico, pois, o diálogo somente neste nível não se completa. Quando se dialoga com o povo judeu é imprescindível considerar os aspectos fundamentais que o caracterizam como povo e religião. O judaísmo não é apenas uma crença monoteísta. Ele compreende conceito de povo, de nação, de terra (Estado de Israel), cultura e religião. Por esta razão é que o diálogo com os judeus deve abranger todos estes aspectos, afinal de contas, não se conversa com meia pessoa, mas com a pessoa inteira. Sente-se que há, por parte do Vaticano, restrições – uma certa avareza – no trato das questões políticas com Israel. Por exemplo: o reconhecimento do Estado de Israel só se fez 45 anos após a sua independência. Ora, não seria a Igreja a primeira que deveria reconhecer o direito de retorno e a construção de um país independente? O reconhecimento imediato do Estado de Israel não seria apenas um ato político, seria, antes de tudo, um ato de reabilitação teológica por parte da Igreja. Por que a Igreja não reconheceu o Estado Judeu maio de 1948? Certamente porque o Vaticano temia possíveis represálias sobre as comunidades cristãs no Oriente Médio. O reconhecimento oficial só se efetivou quando o Vaticano julgou seguro e oportuno faze-lo: após o acordo de paz entre Israel e Jordânia, Israel e Egito, e após a assinatura do falido acordo de paz com Arafat em setembro de 93. Se a o Vaticano age desta forma hoje, por que Pio XII teria agido de forma diferente com a Alemanha nazista? - Quando as relações dependem de oportunidade política dá-se margens às dúvidas. Além disso, não está havendo uma condenação explicita, por parte do Vaticano, quanto aos atentados terroristas cometidos contra civis israelenses. Condena-se de forma geral a violência, dando margem aos meios de notícias estabelecerem, ao seu modo e aos seus interesses, quem as comete. Desta forma o Papa condena e a imprensa endereça a condenação. Não houve por parte do Vaticano, ou não foi noticiada, nenhuma medida tomada em relação ao bispo que, após o atentado de 11 de setembro, participou de uma manifestação em Roma. O bispo, pelo alto-falante, agradeceu a Deus pelos atentados terroristas nos Estados Unidos e Israel, considerando os suicidas “mártires que vão à morte com se fossem a uma festa”. Este mesmo bispo já tinha sido preso em Israel por transportar armas e explosivos para militantes palestinos em sua Mercedes. Este fato foi noticiado por um dos mais importantes jornais italianos, o Corriere della Sera, em 2 de dezembro de 2002. Não se tem conhecimento de alguma medida para conter as declarações favoráveis aos atentados contra Israel e Estados Unidos feitas por religiosos através de artigos publicados nos jornais e revistas, onde, seus autores, simpáticos ao terrorismo, o legitimam como sendo o “grito dos oprimidos”. Também não se tem conhecimento de alguma reparação à recente declaração do Bispo de Porto Alegre, Dadeus Gring, quando, com palavras carregadas de anti-semitismo, banalizou a morte dos judeus na Segunda Guerra. Não se tem conhecimento da orientação dada pelos superiores religiosos quanto à participação vergonhosa e imprudente de padres, seminaristas e freiras, estas devidamente caracterizadas pelas suas vestimentas, em passeatas de cunho anti-semitas ou anti-sionistas, que é a mesma coisa. Hoje temos uma legislação bastante clara em relação os direitos humanos. Houve também uma grande conscientização sobre o respeito que se deve às minorias étnicas, raciais e religiosas. Sem dúvida, a Igreja Católica e as Igrejas Cristãs, tiveram e têm um papel importante na formação de mentalidades mais respeitosas e humanas. A doutrina do “politicamente correto” tem sido muito severa ao inibir atos que atentem contra as diferenças raciais, culturais, religiosas. Todavia, a maldade dos homens é mais hábil: disfarçou o velho anti-semitismo, baseado em argumentos religiosos e raciais, dando-lhe novo nome e nova capa, a da política. Assim, o mesmo anti-semitismo de ontem, hoje aparece com igual força no anti-sionismo. Em nome da liberdade de expressão política, o ódio e a infâmia podem ser disseminados à vontade e com todas as bênçãos da democracia. Com a globalização o anti-semitismo assumiu proporções inesperadas. A internet tem sido, juntamente com parte da imprensa, a grande disseminadora desse odioso sentimento. Existe, na internet, páginas e páginas neonazistas com conteúdo de agressão explicita aos judeus, negros, homossexuais, nordestinos e outras minorias disponíveis a quem interessar. Embora haja uma legislação proibindo qualquer manifestação ou divulgação de imagens, textos, símbolos de cunho racial e religioso, parece que não haver interesse por parte das autoridades em punir os seus responsáveis pelos sites e os seus provedores hospedeiros. Até hoje não se tem conhecimento de que no Brasil alguém tenha sido preso por atos desrespeitosos e de incitamento ao ódio racial. Parte da imprensa informa com a costumeira e irresponsável parcialidade. Leva fatos ao debate público com informações que orientam a opinião pública, valorizam o que não tem valor e omitem o que não há interesse em divulgar. A divulgação das notícias obedece ao interesse dos grupos econômicos e ao agrado aos anunciantes do jornal. A TV e os jornais fazem presidentes com a mesma facilidade que os derrubam, julgam e sentenciam antes dos tribunais, e os espectadores, como velhas tricoteiras ao pé da guilhotina, só aguardam a próxima vítima. Voltamos à Idade Média. Ainda se queimam bruxas, hereges e outros que tenham levados à desgraça popular. O atentado de 11 de setembro despertou o ódio irracional contra americanos, israelenses, britânicos e outros aliados política e economicamente destes países. Por outro lado, despertou o ódio e a desconfiança aos árabes que, até então, repartiam o nosso convívio. Por que? Porque os “senhores da moral e da ética” hipocritamente tornaram o odioso ato terrorista em instrumento de guerra verbal, muito mais nefasta do que a guerra convencional. A guerra ideológica é perversa. Ela atua subliminarmente na formação da mentalidade, provocando ódios e preconceitos que permanecem por gerações até mesmo nas sociedades mais adiantadas e cultas. Foi há 60 anos que aconteceu o “mais grave pecado contra a humanidade”, a Shoá, provocado pela mente perversa de um homem que encontrou apoio na predisposição preconceituosa da culta Europa dos anos 30 e 40. Hoje, parece que a vergonha antijudaica, que assistimos há seis décadas, faz parte do passado, e que os esforços para combate-la fizeram efeito. Engano nosso. Fiquemos certos de que ainda não estamos livres dessa mentalidade perversa. Ela apenas mudou de nome. È necessário estarmos atentos às novas formas do fascismo e do anti-semitismo. Por pouco não vimos serem eleitos os fascistas da França e da Áustria. O que foi feito aos judeus pode se repetir, se não contra eles, contra qualquer outro povo que seja alvo de preconceito. A razão da insistente lembrança da Shoá não é outra senão evitar que se repita tal barbárie com algum povo, seja judeu, cristão, muçulmano, negro, branco ou oriental. Para concluir, torno a repetir: as relações com os judeus não podem continuar somente com bases na religião. Ela, para que seja profunda, deve ser ampliada de forma contemplar tudo aquilo que o judaísmo significa, deve estar baseada no comprometimento incondicional com a sobrevivência e permanência do estado judeu, tomando-o como símbolo concreto da liberdade e do direito de autodeterminação de todos os povos, pois, tal comprometimento, pressupõe reconhecer o direito dos povos viverem livremente, livre da ideologia fundamentalista que fomenta o terror, sob os princípios da democracia. O empenho para estabelecer as boas relações entre as diferentes religiões responde a uma exigência do tempo em que vivemos. Ela é fundamental para combater as causas dos preconceitos contra os povos e as religiões. Este esforço que cabe a todos, católicos e não católicos, judeus e não judeus, pois assim teremos a certeza de que demos a nossa contribuição para dar ao mundo uma feição mais humana. |
|