Casa de Estudos e Retiros Padre Reuter Creche Ana Proveller Paslestras e Conferências Contato LInks



 



Antonio Carlos Coelho
é professor de Ecumenismo e Judaísmo do Studium Theologicum e diretor do Instituto Ciência e Fé.

Estudou em Israel arqueologia bíblica e tradição judaica. Tem artigos publicados em diversos jornais e revistas. Lançou "Encontros Marcados com Deus - Expressão da unidade do povo de Deus" pela Paulinas, em abril de 1990.

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Maio de 2003

Artigo
O Doutor Newton

Antonio Carlos Coelho


Já tinha ouvido falar nele, o grande geneticista, Freire-Maia, que às vezes até saia no jornal. Só o conheci pessoalmente no início dos anos 80. Foi no curso de teologia para leigos na paróquia do Bom Jesus. Éramos uma turma imensa e heterogênea. Tinha todos os tipos de gente: os vaidosos, os tímidos, os inconvenientes, os que levavam a sério o curso, os professores de Deus, etc.

O cientista Newton, “bicho do Paraná”, estava entre essa gente toda. Não faltava aula. Sentava-se quase sempre no mesmo lugar, na terceira fila, no canto, apoiado no seu guarda-chuva. Não anotava nada, ouvia e guardava tudo. Para ele aquilo era uma novidade. Tinha o olhar de uma criança que queria apreender. Vez ou outra fazia uma pergunta, comentava, acrescentava uma história, as das suas, aquelas de mineiro, que fala da vida, com humor e cheias de sentido. O doutor Newton participava dos grupos de estudo. Não afastava os humildes com palavras complicadas, com referências de pé de página. Aprendia como todos, aprendia com todos.

Ele me contou que no passado tinha sido ateu. Um ateu terrível, disse ele. Mas um padre o tinha convertido. Acho que não era bem verdade. Ele era ateu para uma época. Newton era crítico e questionava. Queria conhecer tudo, até os mistérios, só isso. Era como os homens santos que vivem na busca de Deus, só que ele buscava da maneira que sabia, através do método científico. Aquele tempo ele ainda não havia compreendido que mistério não se descobre na bancada do laboratório e nas mesas das bibliotecas. Mas um dia Deus o pegou desprevenido e nunca mais se separaram.

Alguns anos depois o encontrei na casa do Aroldo Murá, numa das reuniões de criação do Instituto Ciência e Fé. Lá estava ele, como sempre, sentado entre os doutores, ouvia. Desta vez estava acompanhado da sua Eleidi que, com ela, formou uma dupla indispensável na vida do Instituto. Sempre presente em todas as reuniões e eventos que ajudava a programar.

Gostava de escrever cartas. Não sei se ele se adaptou às cartas eletrônicas, mas era daqueles que escrevia para os amigos e aguardava respostas. Levava a sério a amizade e gostava que fosse correspondida. Gente rara.

Newton era um homem de Deus. Fez da genética um meio de revelar a grandeza do Criador. Mostrou, pelo seu trabalho e por sua vida, que não havia incompatibilidade entre a ciência e a religião. E tinha a coragem de afirmar que ciência não significava verdade absoluta, o que, certamente, surpreendia a muitos.

Falava da vida e da ciência com a mesma simplicidade. Falava com os grandes da mesma forma que falava com os pequenos. Uma vez eu o vi falar para as crianças de uma escola. Ele prendia a atenção de todas e as fazia querer mais e mais histórias. O cientista falava de coração todas aquelas coisas que tão bem sabia, a genética, a vida e a fé.

Era verdadeiramente humilde. Certa vez, após fazer uma exposição de um tema num dos eventos do Instituto, foi interpelado por um participante que desprezou seus conhecimentos desclassificando suas colocações. Newton ouviu, desculpou-se, como só os humildes e livres sabem fazer. Foi para casa sem levar mágoa consigo.

Ainda o vejo sentado nas reuniões, recebendo a cada um com um sorriso, com um “causo” para contar, com uma referência a uma pessoa que tinha encontrado, com um elogio a alguém. Agora, certamente, ele chegou a sua reunião definitiva, na reunião dos santos. Foi recebido com um sorriso e com o elogio do Amigo que sempre buscou.

< voltar

 

Página Inicial