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C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Maio de 2003

Homilia
Um Homem Absurdo¹

Missa da Ressurreição
do Prof. Dr. Newton Freire Maia
(16.05.2003)

Pe. Paulo Botas, mts

“Vós sois nossa carta, escrita em nosso coração, reconhecida e lida por todos. Demonstrais ser carta de Cristo, despachada por nós, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em corações de carne” (2 Co 3, 2-3).

A vida de um homem se mede pelos seus atos e a vida de um cristão pela sua capacidade de amor fraterno. A vida do homem Newton se confunde com a vida do cristão Newton. O texto de Paulo é perfeito para exprimir este homem em que cada gesto foi escrito com a sua carne transfigurada pelo Espírito do Deus Vivo. No seu livro, Que passou e permanece, lemos a síntese de sua vida por ele mesmo, mineiro de Boa Esperança: “(...) eu já tinha acumulado mais de 35 anos de atividades. Essas foram múltiplas: desde marchar fardado pelas ruas de Belo Horizonte até descobrir e descrever novas displasias ectodérmicas em Curitiba; desde andar pelas dunas da Ilha dos Lençóis, no litoral maranhense, até participar de reuniões em Paris, Moscou, Tóquio ou Nova York; desde estudar os efeitos dos casamentos consangüíneos falando puro mineirês com as populações rurais mais pobres e sofridas de Minas Gerais até fazer conferências na Argentina, no Uruguai, nos Estados Unidos, na França, na Polônia, em Portugal, na Espanha...; desde ser professor da Universidade Federal do Paraná até ser cientista da Organização Mundial da Saúde, em Genebra; desde receber o Marechal Lott em nosso laboratório de Curitiba até tomar chá com a rainha Juliana em Haia. No meio de todas essas atividades didáticas, de pesquisa, administrativas e sociais, viajei pelo mundo dos outros e pelo meu próprio mundo, ajudei a criar uma família maravilhosa (em geral, com pouco dinheiro), comecei a ganhar netos, dei aulas para centenas de jovens, já tinha publicado cerca de 300 trabalhos científicos e oito livros”. Eis a simplicidade de um homem que nunca deixou o orgulho cobrir o seu coração e estava tanto à vontade em meio aos pobres e sofridos camponeses mineiros quanto nos salões de um palácio tomando chá com uma rainha holandesa.

Mas, é o cristão Newton, quem, nas veredas dos grandes místicos, e imerso na liberdade do Espírito, vai profetizar, antes do Concilio Ecumênico Vaticano II, a valorização do cristianismo como uma prática do amor fraterno mais do que uma pertença institucional e religiosa: “Durante todo esse tempo em que me intitulava ateu ou agnóstico, eu achava que todas as religiões se equivaliam pelo simples fato de que, juntas, não valiam nada. Eram instituições surgidas ao longo dos séculos, às vezes através de disputas nem sempre muito dignas, e que eu via como simples e equivalente amontoado de regras, de dogmas e de cerimônias. Eu não me encontrava inscrito em nenhuma dessas organizações, mas isto não significava, pelo próprio fato de que me interessava pelo problema e tentava resolvê-lo, que eu não fosse, no fundo, um homem marcado e impregnado pelo Transcendente. E mais: que Deus me via e, se eu não acreditava n’Ele, Ele seguramente acreditava em mim”.

Newton tinha uma profunda lucidez de que este mesmo Transcendente era o Deus Absconditus, o Deus Escondido. Se Deus não se escondesse não seria necessário procurá-Lo. Seria facilmente achado ou inventado como fez a institucionalização histórica da fé nas formas e expressões religiosas mais alienantes da revelação do Emmanuel: o Deus Conosco.

Escrevia com toda clareza: “O meu Deus é o Deus revelado por Cristo (...) Ter fé não é algo como, por exemplo, ter uma cadeira ou dinheiro no banco. Da mesma forma, perder a fé não significa perder um objeto de estimação. A fé não é um bloco sólido que pode ser manipulado, lançado fora ou guardado no armário para uso futuro. A fé é um processo; a conversão deve ser um elemento perene dentro dele. (...) Para nós, Deus é Amor e é esse amor de Deus que nos faz entrar num caminho infinito e poder chegar ao seu fim – que é o próprio Amor inteiramente realizado”.

Newton, homem e cristão, resistiu, “como se visse o Invisível” (Hb 11, 27). Aninhou-se vivo no seio do Pai em tempos pascais.Tempos em que celebramos o gesto de amor levado às últimas conseqüências. Como Jesus, amou até o fim e conquistou o direito de ser eterno.

Newton construiu a sua santidade de homem e cristão conseguindo, paradoxalmente, unir a fé e a ciência. Viveu a contradição humana onde, em alguns momentos, seu espírito de fé ultrapassava a ciência, mas em outros o espírito científico lhe gritava mais forte do que a fé. E nunca dissimulou isto de ninguém, nem de si mesmo. Nunca a hipocrisia, arma dos covardes, foi terreno em que pisou.

Newton nos ensinou, como Paulo, que tanto a fé como a ciência são escândalo e loucura (1 Co 1, 23), porque ambas têm em comum o absurdo. A fé é um absurdo por ser uma adesão livre a uma entrega amorosa sem medir nenhuma conseqüência. A ciência é um absurdo porque, na sua liberdade, pode sonhar o impossível e buscar vingá-lo. A fé e a ciência trabalham com horizontes nunca com limites e por esta razão são livres.

Newton foi um homem livre sem nunca permitir se transformar num permissivo pequeno burguês liberal. Sempre esteve comprometido com tudo o que fez. Pagou o seu preço como pagam os homens dignos e íntegros. Nunca, até o momento da sua morte e ressurreição, que hoje celebramos, concedeu a ninguém e a nada. Nunca consentiu no pacto da mediocridade de nenhuma instituição. Não foi desleal para fazer carreira ou subir na vida, atitudes tão convenientes nas Igrejas, nas Universidades e nos Governos.

Newton foi um místico e um cético. Foi um místico porque foi um homem de entregas. Foi um cético porque foi um cientista. Nada diferente da experiência dos grandes místicos da história do cristianismo: todo verdadeiro místico é um homem cético de si mesmo.

Equivocam-se os de senso comum que o pensam ou pensaram como um homem em crise. Ele sabia que o amor era a única possibilidade de salvação para a humanidade. Por isso mesmo sustentou, com todo o seu amor e inteligência, o seu trabalho científico para aliviar um pouco a dor humana na injustiça do mundo.

Quando estivermos juntos novamente, poderemos confirmar o que ele sempre soube: no Juízo Final, Deus não nos perguntará quantas missas assistimos, quantos rosários desfiamos ou quantas promessas cumprimos. Deus não se interessará pelos nossos pedigrees, que mais servem para as nossas divisões do que para nossas comunhões. Para Deus, de nada serve se somos católicos, luteranos, batistas, presbiterianos, umbandistas, budistas ou candomblecistas. Para o juízo de Deus só serve se formos capazes de, como homens e mulheres, amar.

Newton amou como homem e, por isso, foi cristão. Agora, no coração do Pai, ressuscitado e vivo entoa, seresteiramente, o hino da sua terra natal Boa Esperança: “Eis minha serra, eis a hora do adeus, vou me embora. Deixo a luz do olhar no teu luar, adeus”.

Newton adormece nos braços de Deus e nos vela, com alegria e ternura, preparando a hora e a vez da nossa chegada e reencontro. Foi, apenas, humano, demasiadamente humano...

1 Absurdo: “que não se enquadra em regras e condições estabelecidas”, in Dicionário Houaiss

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