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Volnei Garrafa
é professor-titular da Universidade de Brasília e presidente da Sociedade Brasileira de Bioética

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Maio de 2003

Artigo
Ciência, progresso e exclusão

Volnei Garrafa

Contradições éticas do desenvolvimento tecnocientífico.

O progresso científico e tecnológico não deve ser nem demonizado, nem endeusado: deve ser compreendido e controlado

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi um dos documentos democráticos mais importantes produzidos no século XX.

Teses vencedoras, como aquela que determinou a igualdade entre todos os seres humanos e que já haviam sido introduzidas pelo Código de Nüremberg no pós-guerra imediato, atravessaram o restante do século passado como pano de fundo das discussões relacionadas à liberdade e à cidadania.

No entanto, profundas transformações verificadas nos últimos anos em relação às novas formas de nascimento, vida e morte de pessoas, animais e plantas, passaram a exigir da humanidade reflexões e posicionamentos mais sensatos e responsáveis sobre os fatos e seus possíveis desdobramentos.

O acelerado desenvolvimento científico e tecnológico criou uma realidade completamente diversa daquela com que o mundo estava habituado a conviver, alterando profundamente as antigas referências éticas estabelecidas para o equilíbrio do convívio societário.

Dentro desse contexto, há que se considerar as crescentes intervenções sobre a natureza que vêm sendo divulgadas diariamente pela imprensa internacional, a maioria delas de modo completamente descontrolado.

A história, que até pouco tempo era conhecida por suas narrativas longas, com a descoberta das novas técnicas reprodutivas nos campos animal, vegetal e humano, passou a obedecer narrativas curtas, fragmentadas.

Desmentindo Francis Fukuyama e sua teoria sobre 'o fim da história', a tecnociência nos proporcionou uma nova história.

As reflexões morais relacionadas com a compreensão e a aceitação das mudanças, contudo, foram atropeladas.

O tempo natural de 'amadurecimento moral' para assimilação dos novos conflitos foi praticamente tolhido da humanidade.

Na pauta básica dos temas do século XXI, muitos tópicos eram inimagináveis até pouco tempo atrás. Entre muitos outros, os assuntos de hoje compreendem, por exemplo:

a) a fecundação assistida, o aborto ou a clonagem, em relação ao início da vida;

b) os transplantes de órgãos e tecidos humanos e animais, a ingestão de alimentos transgênicos ou terapia gênica, considerando o transcurso da vida;

c) a eutanásia, o suicídio assistido e até mesmo o congelamento corpóreo, no que se refere ao final da vida. Para todos esses temas e suas decorrentes implicações morais, pela velocidade como as coisas aconteceram, a humanidade não está suficientemente informada e/ou preparada para decidir.

Tudo isso, todavia, não deve levar as pessoas ao medo ou ao obscurantismo contra a ciência. São flagrantes as evidências de que a qualidade da vida humana melhorou substancialmente no século passado.

Comparando o final dos dois últimos séculos, a expectativa média de vida ao nascer passou dos 40 para mais de 65 anos de idade, contradizendo a Encíclica Evangelium Vitae, que chama o século XX de 'século da morte' devido às duas grandes guerras mundiais, a liberalização exagerada dos costumes, a disseminação das drogas, a prostituição, as grandes endemias... Graças à ciência, o século XX foi o 'século da vida'.

Se os cérebros dos cientistas foram ou não guiados pela mão de Deus, é outra discussão. Agora, entretanto, resta-nos entender melhor o que está acontecendo e preparar-nos convenientemente para o futuro.

O progresso científico e tecnológico não deve ser nem demonizado, nem endeusado: deve ser compreendido e controlado. A mesma energia atômica que pode destruir a terra já salvou milhõesde vidas. Com as intervenções sobre a natureza ou com a clonagem, sucede o mesmo.

O aumento dos níveis futuros de bem-estar e felicidade dependerá da capacidade humana em construir mecanismos que regulem adequadamente não só o estudo e a aplicação, mas principalmente a justa distribuição das novas tecnologias.

Em relação a esse último aspecto, não pode deixar de ser mencionado que todo processo desenvolvimentista que o mundo vem experimentando tem sido altamente excludente.

Mais de 2/3 da população mundial não possui renda para adquirir os benefícios proporcionados pelas descobertas.

Enquanto a expectativa média de vida dos cidadãos africanos de Serra Leoa, Malawi ou Burkina Fasso mal chega aos 40 anos, japoneses, norte-americanos e europeus ocidentais já passam dos 80.

"Contradições éticas do desenvolvimento tecnocientífico" publicado na Gazeta Mercantil, 8/5/03

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