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Artigo
Bira Menezes, talentoso artista gráfico, consultou os astros para criar o símbolo do governo Roberto Requião. Não imaginem enredos envolvendo astrólogos e outros videntes. Nem o Menezes, nem o Requião são dados a crendices, atestam os inumeráveis falantes palacianos. Menezes visitou astrônomos e obteve a carta celeste da noite de 1º de janeiro, início do novo governo. Dela, extraiu a posição exata do Cruzeiro do Sul, que estampou como representação do princípio de uma nova época. Nada mais coerente com a idéia força da coalizazão política que venceu as eleições. Ela acredita, piamente, que inaugurou novo tempo, anunciado pelas estrelas, eplo advento do Messias punidor dos ímpios e pelas boas novas. Diante do emblema, a esquerda impúbere delira revoluções. A direita adesista sorri. Mais uma vez preservou os dedos e os anéis. Já os perdedores que inventaram o bicho-papão na figura de Requião morrem de medo de sua própria invenção. Ainda mais agora que a circunstância no Paraná se confunde com a vitória do PT de Luiz Inácio Lula da Silva na República. É uma história espantosa, tocante, porém, na moral. Gerações e gerações de burguesotes e remediados foram criados na crença de que a esquerda existe para levar ao forno, além das criancinhas, qualquer anseio de bem-estar individual. A classe média lê apressadamente os jornais e os livros de história, ou não os lê de vez, e se conforma com contos da carochinha tecidos para legitimá-la como maioria privilegiada. Pois bem: a esquerda chegou ao poder no País e no Paraná, e a população espera mudanças mais significativas e palpáveis que a adoção de um novo símbolo e de uma nova retórica oficial. A equação é clara. Deu-se que a maioria votou disposta a mostrar sua contrariedade com os governos estabelecidos. Votou a favor de quem se habilitou a ser oposição. Vejam bem. O Paraná que Requião recebe agora é completamente diferente daquele que entregou a Jaime Lerner há oito anos. Da economia dependente do agro, passamos a uma economia industrial, moderna, geradora de rendas e oportunidades, muitas vezes superiores àquela da vocação agrícola. Para que se tenha uma idéia, a arrecadação do Estado decuplicou no período. Foi o que permitiu ao novo governo de Requião, por inspiração de nosso Necker, o secretário Heron Arzua, das Finanças, a primeira medida realmente eficaz, que significou reduzir a carga tributária do ICMS para beneficiar diretamente milhares de pequenos e microempresários. Embora Jaime Lerner não tenha feito as reformas esperadas, pode-se dizer que a principal transformação operada no Paraná durante o seu mandato tenha sido a redução do papel do Estado na vida social. Não só pela tímida diminuição da máquina administrativa, pela privatização do banco estatal e providências do gênero. Mas principalmente porque a economia cresceu e a sociedade começou a andar com suas próprias pernas e a decidir seu próprio destino. O tempo irá mostrar que isso não correspondia aos anseios da maior parte da população. Os paranaenses queriam mais. Muito mais. Aos oito anos de mudanças profundas na estrutura socioeconômica, provocadas pela industrialização acelerada, elegeu um governo que prometeu dividir entre todos os benefícios do crescimento econômico. A toada distributivista fez sucesso e produziu votos. O populismo ganhou força. Adicione-se ao discurso de prosperidade geral uma boa dose de moralismo e aí termos a receita da vitória das oposições em 2002. Prova de que o Paraná cresceu, desenvolveu-se, nem por isto o povo está feliz. O povo está convencido de que não recebeu a parte que lhe cabe. A cobrança é grande. Maior será a frustração se não cumpridas as promessas. A população aguarda providências imediatas que reduzam o arrocho econômico, que produzam empregos, que baixem os juros, que eliminem a miséria, que distribuam a renda, que eliminem taxas, que garantam, enfim, a felicidade geral da Nação. Se promessas de mudanças tiveram sucesso nas eleições é de se deduzir que a maioria dos paranaenses recusava a continuidade política anterior, repetem com insistência os arautos do novo tempo – que tratam de propor a derrubada do que restou dos oito anos do governo Jaime Lerner. Comportamento que não os distinguem dos talebans empenhados na destruição das imagens de Buda no Afeganistão. Gestos e raciocínios primitivos podem esconder verdades que não são de somenos. O clima era para mudanças de rumo, ninguém duvida. As pesquisas de opinião mostravam que três em cada quatro paranaenses se sentiam presos a uma política econômica que engessou as possibilidades de vida digna e de prosperidade. A contenção inflacionária já não era suficiente para justificar sacrifícios e desesperança. Os cidadãos queriam ser partícipes e beneficiários do progresso que testemunhavam. Além do quê, havia certo sentimento de perda aprofundado pela política de privatizações. A idéia de que se diminuía o Estado em proveito de um restrito círculo acirrou os ânimos e desmanchou a popularidade de um governo que, por várias vezes, se viu envolvido em escândalos e denúncias. O paradoxal é que tenha se desgastado mais no episódio da privatização que não aconteceu, a da empresa de energia, Copel. Dizia Aléxis de Tocqueville que o futuro é um juiz esclarecido e isento, mas que infelizmente chega sempre tarde demais. Que dirá o futuro do governo Jaime Lerner? Seu julgamento será provavelmente melhor e mais exato do que o de seus adversários de hoje. Lerner acertou no principal. No atacado. Promoveu nossa tardia revolução industrial. Cometeu erros no secundário, no varejo. Mas sabemos que o que conta, para a história, são as grandes transformações. Das grandes iniciativas perdidas, Jaime Lerner não realizou a reforma administrativa e a do Estado. Necessidade urgente, urgentíssima, que agora se transfere para o novo governo. A atual ordem das coisas na administração tira o couro do Paraná e ainda desperdiça boa parte do que arrebanha. O sistema vigente, herdado do Império, é escorchante, injusto, pouco eficaz e sujeito a chuvas e trovoadas da corrupção – porque é um sistema que se apóia, historicamente, em malha infindável de subsídios, taxas, favorecimentos, exceções e restrições várias, que as próprias autoridades burocráticas mexem e remexem a seu bel prazer, sem dar contas a ninguém. A constatação joga imensa responsabilidade sobre os ombros dos que entram. Realizar a reforma administrativa é fundamental. O sistema que aí está é movido a taxas, impostos, pedágios, depósitos compulsórios, juros, inflação. Estas são as peças de uma máquina que tira tudo o que pode do Paraná que trabalha e produz. A sangria extrai dos agricultores e dos industriais, pequenos, médios e grandes, dos trabalhadores, dos profissionais liberais. Em benefício de quem? Do capital financeiro e do capital especulativo, dos intermediários entre o Estado e a população, e sobretudo do imenso sistema estatal, da monstruosa mochila burocrática que puseram nas costas da sociedade. Os paranaenses têm pressa e com razão. O novo governo nem bem começou e a pressão é imensa. É o rescaldo das expectativas provocadas nos palanques de campanha eleitoral. As promessas feitas vão da retirada integral da cerca que protege o Palácio Iguaçu à distribuição gratuita de comida, do fim do pedágio nas estradas à redução das tarifas públicas, incluídas as da energia e do serviço de saneamento. Além da geração de empregos, pois aí reside a principal preocupação dos paranaenses. Que futuro
espera o Paraná depois desta virada na vida política? Pode-se
dizer que o Paraná está maduro, que o momento é propício,
o que falta é um gesto de grandeza dos governantes, dos políticos,
que permita ao povo debater e fixar livremente o seu destino. Não
há razão para crer que o faria com menos tino e responsabilidade
que os seus preceptores. |
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