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Belmiro Valverde Jobim Castor é professor universitário e diretor do Instituto Ciência e Fé.
Publicou O Brasil não é para Amadores - Estado, Governo e Burocracia na terra do jeitinho e participou
como co-autor de Burocracia e Reforma do Estado (Edições Loyola).

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Julho de 2003

Opinião
Seja razoável, peça
somente o impossível

Belmiro Valverde Jobim Castor


Na reunião do MST com o presidente Lula, o movimento apresentou ao governo três posições filosóficas de antagonismo: contra os transgênicos; contra a Alca e a favor da integração sul-americana; e o abandono do modelo de agronegócios e de agricultura de exportação e sua substituição por uma agricultura voltada para o mercado interno.

Que o MST apresente as três posições, não surpreende pois mais do que vocalizar uma opinião calcada em argumentos econômicos, técnicos ou científicos, o movimento parece querer simplesmente repetir o lema da revolta dos estudantes franceses de 1968: "Seja razoável. Peça somente o impossível". O que surpreende é que a mesma trinca de vetos seja compartilhada e defendida por setores da intelectualidade engajada nos movimentos de esquerda com base em argumentos supostamente científicos.

Os transgênicos, por exemplo, são a bola da vez do alarmismo pseudocientífico, papel em que já se encontrou o ciclamato durante quase duas décadas, acusado de provocar câncer em seus consumidores. Durante anos, "cientistas" engajados provavam por a+b que o ciclamato era cancerígeno, mesmo em doses minúsculas, como as utilizadas para adoçar cafezinhos e sucos, balela que só foi desmistificada depois de vários anos e uma gigantesca massa de pesquisa que provou serem falsas as suspeitas. Os transgênicos – a respeito do qual a maioria dos críticos tem o mesmo nível de conhecimento que Zeca Pagodinho tem do caviar ("nunca vi, nem comi, só ouvi falar", segundo o samba) – devem ser estudados, identificados e controlados, como aliás acaba de decidir a União Européia e não simplesmente proibidos como pretendem o MST e seus aliados no Brasil. Enquanto os críticos concentram suas baterias na eventual (e não provada até hoje) associação entre alimentos transgênicos e as doenças malignas, esquecem-se de mencionar os avanços obtidos no nível nutricional de alimentos submetidos a manipulações genéticas, sua maior resistência a pragas e a menor dependência de agrotóxicos, estes sim, comprovamente cancerígenos, o aumento da produtividade das safras e o conseqüente barateamento de alimentos, facilitando a luta contra a fome.

O ponto aqui não é colocar em dúvida a contribuição dos estudos científicos para o entendimento da biosfera e dos sistemas de exploração da natureza e sim enfatizar os perigos de utilizar de maneira incorreta ou incompetente a ciência para dar apoio a posições ideológicas e políticas. No passado, os adversários da Hidrelétrica de Itaipu provavam irrefutavelmente que o volume de água acumulada no reservatório iria modificar substancialmente o microclima regional, levando à ruína boa parte da agricultura do Oeste do Paraná, o que é outra tolice. No fundo, esses "cientistas" são herdeiros daqueles engenheiros e políticos udenistas dos anos 50 que, movidos pelo ódio antijuscelinista, provaram, acima de qualquer dúvida, que as comunicações por microondas seriam impossíveis em Brasília por causa da secura do ar; ou que a rodovia Belém–Brasília não teria demanda, o que os levou a sugerir que a rodovia fosse batizada de Estrada das Onças, que monopolizariam o tráfego na via. O rancor político leva muita gente qualificada a dizer bobagem.

O MST e seus apoiadores querem também o abandono das negociações da Alca e o fortalecimento da integração sul-americana. Em outras palavras, deveríamos dar as costas a um mercado anual de US$ 1.2 trilhão de importações em nome de nosso temor de ser "absorvidos" pelos Estados Unidos. Os críticos nem cogitam de estudar os resultados do modelo mexicano, que começou como um paraíso das empresas americanas donas de "maquilas" e que em dez anos fez com o país superasse o Brasil como o maior PIB latino-americano. O Mexico, com o seu Vale do Silício de Guadalajara, seus centros industriais do norte do país, laboratórios de tecnologia e com seus dez acordos bilaterais de comércio, com a Europa, a Ásia e o Oriente Médio, está longe de se caracterizar no quintal do imperialismo americano; ao contrário, está bem mais avançado que nós no caminho de se transformar em uma potência industrial sofisticada.

E para não deixar por menos, deveríamos – na visão do MST e dos cientistas engajados – desmontar um dos poucos casos de sucesso brasileiro que é a agricultura de exportação para investirmos em um modelo de agricultura centrada no mercado interno, como se fosse possível separar uma de outra. Ou será que alguém ainda desconhece que o brasileiro começou a comer mais carne de frango e mais proteína animal porque nossa produção de soja, de milho (produtos de exportação) e de seus subprodutos (as rações), cresceu exponencialmente em produção e produtividade nos últimos anos? Ou que a produção de frutas finas para a exportação é a mesmíssima que faz com que as frutas nobres como as uvas, os melões e as mangas tenham barateado o suficiente para fazer parte facilmente da dieta dos brasileiros de baixa renda?

Acho que foi Lincoln que disse que nunca se construirá a prosperidade dos pobres, arruinando os ricos. Nunca essa frase foi mais adequada ao caso brasileiro do que nos dias de hoje, em que o país vive a ressaca das ocupações e saques comandados pelos movimentos políticos radicais com o beneplácito ou a tolerância de alguns governantes.

Publicado na Gazeta do Povo, 6/7/03

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