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Belmiro Valverde Jobim Castor é PhD em Administração Pública e professor universitário. |
Opinião
Tinha razão, pois um bom copidesque não teria deixado de "corrigir" o português de Guimarães Rosa ou de reescrever Dom Casmurro para que ficasse bem claro e explícito se Capitu traiu ou não Bentinho, sem margens para insinuações e dúvidas machadianas. E já pensaram na angústia de um copidesque ao receber de Fernando Pessoa um de seus poemas? "Olho por todo o meu passado e vejo/Que fui quem foi aquilo em torno meu/Salvo o que o vago e incógnito desejo/De ser eu mesmo de meu ser me deu". A ânsia pela objetividade teria inviabilizado "O Preço da Paz" se Túlio Vargas, rigoroso historiógrafo que é, não tivesse permitido que os realizadores do belíssimo filme paranaense sobre a tragédia do Barão do Serro Azul tomassem algumas liberdades artísticas com seu livro, no qual o filme é baseado. Mas se na arte é assim, na ciência é quase que exatamente o contrário: a objetividade é altamente desejável, quando não obrigatória. O cientista não pode se permitir liberdades poéticas; tem de pensar e agir com rigor de método. Não é o que ocorre entre nós, em que assuntos que deveriam merecer o rigor da ciência são tratados com a desenvoltura poética das convicções e das idiossincrasias pessoais de cada um. O impressionismo, o achismo e o cientificismo substituem a observação desapaixonada e a análise crítica realizadas "sine ira et studio", sem ódio nem emoção, como ensinava Max Weber. Já vivi o suficiente para ouvir muita coisa falsa ou exagerada dita com ar de verdade científica. Nos anos 50, gente muito qualificada dizia que Brasilia nunca poderia ter um sistema de microondas para a telefonia pois o ar do Planalto Central era rarefeito, enquanto que outros sábios juravam que a Rodovia Belém–Brasilia em pouco tempo seria retomada pelo mato devido à falta de tráfego, o que lhe garantia, desde então, o apelido de "Estrada das Onças". A acreditar em alguns "cientistas" dos anos 70, a represa de Itaipu teria modificado dramaticamente o microclima de toda a região de Foz do Iguaçu e do Oeste paranaense, inviabilizando a agricultura na área. O reservatório, aliás, seria um elefante branco, assoreado anualmente por milhares de toneladas de arenito carregadas pelos rios que deságuam a montante da barragem... E assim por diante. Em todas as áreas, sempre há um teórico de plantão, pronto a deitar falação sobre o que irá acontecer, apenas para ser desmentido pelos fatos. No Brasil, adoramos substituir o rigor frio da ciência pelo calor das convicções políticas ou religiosas e isso se dá em todos os assuntos, desde a economia à biologia. Os partidários da reforma tributária juram que ela não aumentará a carga fiscal da população enquanto os adversários juram exatamente o contrário. Então, porque não colocar os pressupostos e as estatísticas em que essas convicções estão alicerçadas à disposição de todos para que se saiba como eles chegaram a conclusões opostas sobre o mesmo assunto? Ou ainda, em um país em que o crime campeia absoluto e soberano, por que não enviamos gente qualificada para outros lugares do mundo, pobres como nós, com problemas sociais semelhantes (desemprego, dessocialização), para observar como fizeram para derrotar as organizações criminosas e garantir um mínimo de segurança à população, em vez de ficarmos teorizando a respeito das raízes remotas e próximas da criminalidade? Ou então, no campo das ciências naturais, por que não mandamos cientistas de verdade simplesmente observar o que aconteceu (não o que se supõe que poderá acontecer) nos países em que os alimentos geneticamente modificados são plantados em caráter extensivo há anos? Por que em vez de teorizarmos sobre os riscos ambientais presumíveis, não enviamos cientistas para observar o real impacto ambiental dessas culturas sem partidarismos nem julgamentos apriorísticos? Tratar assuntos polêmicos como esses cientificamente ajudaria a desfazer mitos, eliminar superstições e afastar receios infundados (ou identificar os riscos reais). A maioria dos avanços significativos da humanidade em todos os campos foi alcançada quando a ciência permitiu ao homem transpor barreiras de crenças, superstições, certezas e dogmas dominantes em determinados momentos da história da humanidade, retirando os problemas dos domínios do esotérico e do divino para colocá-los ao alcance da mente humana. É claro que é mais fácil atrair simpatia para nossas posições ideológicas ou doutrinárias praticando a retórica pomposa e a denúncia vistosa das hecatombes que nos esperam no futuro.O que não significa que a ciência esteja imune ao sonho, ao arroubo ou ao devaneio. Ao contrário, em todo avanço científico, há uma dose de insensatez, de inconformidade com a realidade presente e, por que não dizê-lo, de loucura. Se assim não fosse, a humanidade não teria se beneficiado das descobertas marítimas, nem das vacinas, por exemplo. Afinal, existe algo mais doido do que lançar-se ao oceano sem saber aonde (ou se) se vai chegar ou inocular-se com microorganismos patogênicos? Para entender essa ligação entre ciência e sonho, só mesmo Fernando Pessoa, livre de copidesques: "Sem a loucura que é o homem/ Mais do que a besta sadia/ Cadáver adiado que procria?" Publicado na site Gazeta do Povo 9/11/03 |
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