Belmiro
Valverde Jobim Castor é professor universitário
e diretor do Instituto Ciência e Fé.
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n l i n e |
Janeiro
de 2004 |
Artigo
A criança e a água do banho
Belmiro
Valverde
Meus
amigos e professores honorários Ario Taborda Dergint de Rawicz
e Francisco Borja Batista de Magalhães Filho, na mão de
quem gerações e gerações aprenderam a entender
os fundamentos da economia brasileira, diziam nos anos 60 que a economia
paranaense era “primária e reflexa”. Se escrevessem
sobre ela hoje, acredito que, apesar de todas as alterações
estruturais experimentadas nos últimos anos, poderiam dizer que
a economia paranaense é “agro-industrial e reflexa”.
Ou seja, mudou a composição do produto interno, a urbanização
tomou conta do Estado inteiro, o setor industrial moderno está
em fase de consolidação, o comércio e os serviços
se diversificaram, mas ainda é a terra e sua exploração
que têm um papel predominante no nosso processo de geração
de riquezas e de oportunidades sociais, sendo responsável pela
maior parte da renda e dos empregos gerados e por parcela significativa
da inovação tecnológica e gerencial aqui desenvolvidas.
Esta dependência do agro-negócio seria um atributo indesejável
e um indicativo de anacronismo e de vulnerabilidade? Para alguns, parece
que sim. A agro-indústria nunca gozou de — por assim dizer
— prestígio intelectual junto a técnicos e políticos,
sendo considerada como uma industrialização de segunda categoria,
uma evolução inevitável da lavoura e da pecuária.
Para tais espíritos, deveríamos ansiar pelo dia em que a
periferia de nossas cidades se transformassem em novos ABC’s paulistas.
Por sua vez, a nossa dependência de capitais do exterior continua
a ser encarada como uma bête noire pelos críticos, que vêem
nas multinacionais que aqui se instalaram nos últimos anos uma
faceta modernizada do imperialismo. Parece existir em algumas lideranças
políticas a convicção de que é possível
e desejável que o Paraná se transforme em uma ilha de resistência
ao capital “alienígena” — um último baluarte
contra a invasão dos invasores globalizantes. (No meu tempo de
estudante, quando alguém queria ofender gravemente um adversário
político, rotulava-o como “agente do capitalismo ianque”.
Agora, é mais específico e chama-o de “vendido à
Monsanto”) .
No entanto, não é possível desconhecer que o agro-negócio
e os capitais estrangeiros foram em boa parte responsáveis pela
formação da economia e da sociedade modernas que hoje ostentamos.
E é por isto que dois elementos da prática governamental
atual são altamente preocupadores: primeiro, a irresponsabilidade
da política agrária (se é que se pode chamá-la
de tal) que consiste na omissão complacente do poder público
à ação dos chamados “movimentos sociais”
que promovem ocupações de fazendas produtivas no Paraná.
As estatísticas demonstram que somos o segundo foco de maior inquietação
agrária no País (ao lado de Pernambuco), o que não
deixa de ser irônico, por colocar, na mesma escala de conflitos,
um Estado como o nosso, cujo modelo agrícola é baseado na
propriedade média e pequena ao lado de outro, dominado pelo latifúndio
secular e imobilista que remonta à lavoura canavieira do século
16. O segundo elemento preocupante é uma visível antipatia
governamental pelas empresas e pelos negócios transnacionais, como
se estes fossem uma constante ameaça à nossa soberania.
No primeiro caso, inibe-se a capacidade investidora dos segmentos empresariais
locais; no segundo, a hostilização surda prejudica nossa
capacidade de atrair novos capitais externos num momento em que as fontes
internas de poupança e investimento estão profundamente
anêmicas.
Diria o Conselheiro Acácio que o atributo fundamental de uma economia
capitalista é a prévia existência de capital que seja
multiplicado e reproduzido pela acumulação de lucros. E,
sob este aspecto, o capitalismo brasileiro apresenta algumas características
singulares pois, na sua gênese, está o modelo primário-exportador
que, por si mesmo, não leva à acumulação local
da riqueza e, conseqüentemente, à possibilidade de sua reaplicação
e multiplicação progressiva. Este modelo, dominante por
mais de quatro séculos na economia brasileira, resultou na sistemática
transferência dos resultados da atividade econômica para o
exterior e/ou para as elites vinculadas à exportação
de matérias-primas. Como assinalou Caio Prado Júnior, toda
a economia brasileira teve como motivação fundamental e
permanente a extração de recursos e a transferência
dos lucros assim obtidos para outras atividades não-reprodutivas.
Mesmo a agricultura, dizia Prado Júnior, era vista como uma atividade
de extração, cujos investimentos na própria modernização
e tecnificação eram muito pequenos. Fossem tais elites tradicionais
brasileiras imbuídas de espírito empreendedor e estes resultados
da atividade agrícola seriam reinvestidas na modernização
da atividade primária, e na consolidação de uma economia
agro-industrial, na ampliação do setor de comércio
e serviços e, por último, mas não menos importante,
na criação e desenvolvimento de um mercado de capitais.
No entanto, as elites tradicionais brasileiras foram e são essencialmente
patrimonialistas, conspicuamente consumistas e avessas ao risco comercial,
e portanto, não produziram esta multiplicação dos
capitais que acumularam na multiplicação das capacidades
produtivas. Foram os imigrantes, a partir do século 19, que trouxeram
de suas terras a tradição do arbeitkraft, da capacidade
de organização e trabalho empresarial, e que reinvestiram
sistematicamente seus ganhos na agricultura e nos seus empreendimentos
manufatureiros.
Se nos preocuparmos apenas com os aspectos quantitativos, as duas fontes
preponderantes de capital empresarial na economia brasileira foram o Estado
(direta ou indiretamente) e o capital estrangeiro de grande porte, sendo
que este último se beneficiou significativamente da nossa incapacidade
de gerar poupança internamente no setor privado. Subsídios,
proteções, preços artificialmente estabelecidos,
que foram os instrumentos preferenciais do modelo desenvolvimentista que
prevaleceu no Brasil por 60 anos — a partir de 1930 — beneficiaram
igualmente os empresários nacionais que procuravam se consolidar
e, da mesma forma, as empresas que se instalaram no Brasil para “apoiar
o nosso desenvolvimento local”. Junto ao investimento dos segmentos
médios da economia, principalmente dos segmentos direta e indiretamente
ligados à agricultura e à indústria, estas duas fontes
foram as principais responsáveis pela formação de
capitais no Estado durante o século 20.
No caso do Paraná, o processo de formação de capital
que possibilitou a criação de sua economia moderna bebeu
nas três fontes: a estatal e a internacional e a empresarial local.
Até o advento da cafeicultura, as elites econômicas tradicionais
do Estado simplesmente repetiram o exemplo das elites tradicionais brasileiras
em geral: desenvolveram suas atividades econômicas em setores específicos,
como a extração do mate e da madeira e a exploração
da pecuária tradicional, fruindo da abundância dos recursos
naturais pré-existentes até que eles se esgotassem ou tivessem
sua produtividade seriamente diminuída pela falta de investimentos.
Este panorama se alterou com a ocupação das terras setentrionais
pelo café, fruto direto da expansão da lavoura cafeeira
paulista. É bem conhecido que, a partir do início do século
20, o Brasil havia implementado uma política cafeeira intervencionista,
cujos objetivos econômicos eram a proteção dos preços
do café, principal produto brasileiro, enquanto que os grandes
beneficiários políticos foram os cafeicultores paulistas.
Esta política era baseada em um binômio cujo primeiro termo
era o controle da comercialização externa por parte do governo
associado à manutenção de preços internos
atrativos aos produtores. Estas políticas insulavam a cafeicultura
das flutuações normais do mercado de café no mundo
e permitiam a sua evolução dentro de um quadro de relativa
estabilidade; o segundo termo do binômio seria o controle da oferta
do produto para regular os níveis de oferta. A primeira parte do
binômio funcionou com relativa perfeição por décadas:
controlando e regulando o processo de comercialização interna
e externa, o governo federal criava um colchão de proteção
entre produtores e as flutuações do mercado interno, evitando
que as quedas de preços internacionais afetasse negativamente a
cafeicultura brasileira. No entanto, a segunda parte do binômio,
que previa a limitação forçada da oferta de café,
não foi implementada — a não ser muito mais tarde.
A expansão da cafeicultura, transbordando o território paulista
e entrando pelo território paranaense, é um fenômeno
intimamente vinculado a este desregramento da oferta. No entanto, como
efeito positivo, é igualmente um dos principais responsáveis
pela criação de um modelo agrícola baseado no café,
um produto perene, com alta densidade econômica que favorecia a
sobrevivência da pequena e média propriedades, e tinha grande
capacidade de distribuir a renda e gerar empregos.
Onde entra, então, o capital estrangeiro diretamente no caso paranaense?
A crônica crise financeira do Brasil, eternamente às voltas
com banqueiros estrangeiros (na época ingleses) e em busca de sucessivos
funding loans trouxe ao Brasil na década de 20 a Missão
Montagu e resultou na criação da Paraná Plantations
(que se transformou posteriormente na Companhia de Terras Norte do Paraná
e por fim na Companhia Melhoramentos Norte do Paraná), alavanca
fundamental para a colonização pacífica de uma área
que hoje abriga mais de três milhões de habitantes. A Companhia
recebeu do governo do Estado vários privilégios, que pareceram
a muitos ser exagerados e mesmo inaceitáveis. No entanto, foram
os investimentos em infra-estrutura regional e urbana e a aquisição
de milhares de hectares envolvidos em pendências judiciais financiados
pela Companhia que assentaram as bases para o posterior desenvolvimento
explosivo da região, onde os investimentos governamentais e privados
nacionais eram pífios.
A partir
de então, a formação de capital na cafeicultura paranaense
seguiu o modelo da agricultura dinâmica em regiões pioneiras:
o crédito bancário, os recursos injetados por empresas exportadoras
no beneficiamento e comercialização do café, os subsídios
governamentais, o aventureirismo comercial e financeiro, a sonegação
fiscal...
Mais tarde, com a colonização e ocupação das
regiões Oeste e Sudoeste, o processo se alterou significativamente.
A agricultura moderna da soja, dos suínos, das granjas avícolas
se consolidou baseado em outro modelo, o da integração entre
grandes empresas agro-industriais (nacionais, estrangeiras e cooperativas)
e a pequena propriedade agrícola. São as empresas e cooperativas
que, mediante a concessão de créditos, o financiamento de
insumos e de matrizes, vão permitir a capitalização
de milhares de pequenos agricultores, os quais, se contassem unicamente
com seus próprios recursos, não teriam passado da agricultura
de subsistência. Esta ação empresarial direta gerou
o dinamismo inicial daquelas regiões, propiciando a difusão
de tecnologias modernas e a disseminação de padrões
internacionais de qualidade e de produtividade. Este modelo alcançou
também o Norte e Noroeste do Estado quando se deu o declínio
da cafeicultura paranaense depois da implementação dos programas
de redução forçada da oferta de café por parte
do governo militar na década de 60 e da grande geada de 1975 que
destruiu milhões de pés de café. As cooperativas
— um modelo que encontrava grandes resistências entre os cafeicultores
— se espalham, se tecnificam e passam a cumprir o papel indutor
e fomentador que antes era exclusivo das grandes empresas privadas. O
governo fez sua parte, investindo pesadamente a partir da década
de 60 na infra-estrutura e criando mecanismos de aumento de produtividade
no campo, mediante a expansão da pesquisa, o financiamento de sementes
e de insumos etc.
Dentro desse novo quadro, o capital estrangeiro está presente no
beneficiamento e comercialização da soja e posteriormente
em outras áreas do agro-negócio (rações, carnes,
avicultura) e fora dele, com a vinda de empresas para a Cidade Industrial
de Curitiba e alguns pólos do interior. A partir de 1990, o modelo
desenvolvimentista baseado no protecionismo aos produtores localizados
no Brasil e na forte presença do Estado na economia é substituído
pela doutrina de competitividade internacional, o que faz com que a década
e especialmente a sua segunda metade sejam caracterizadas pelo afluxo
de investimentos diretos em setores modernos da economia brasileira. Procurando
participar deste afluxo, o Estado do Paraná desenhou e executou
várias políticas de atração de grandes empresas,
especialmente das que hoje constituem seu pólo automotivo, consubstanciadas
na isenção e diferimento de impostos, co-participação
no capital, compra de terrenos e construção de infra-estrutura.
Embora seja impossível estimar com precisão os reais impactos
destas novas empresas na geração de renda e no emprego,
as repercussões da chegada das multinacionais na logística
de produção, na multiplicação dos serviços
industriais e na modernização dos padrões gerenciais
do empresariado paranaense são óbvias. Outro fator a ser
considerado é que a simples existência destes complexos industriais
em solo paranaense cria uma nova configuração estratégica
mundial para suas empresas proprietárias: as economias de escala
e de aglomeração aqui criadas são suficientemente
importantes para não poderem ser desconhecidas na formulação
dos seus planos estratégicos mundiais. Renault, Audi, Volkswagen
e dezenas de outras empresas multinacionais de grande porte que aqui se
instalaram nos últimos anos não podem, racionalmente em
suas decisões de investimentos no futuro, negligenciar os investimentos
já feitos: a existência uma infra-estrutura adequada, de
mão-de-obra já treinada e de quadros administrativos preparados.
Portanto, existe a possibilidade concreta de que novos investimentos venham
a se somar aos já existentes no futuro sem que o Estado tenha de
oferecer novos incentivos de qualquer tipo.
Dentro deste panorama, não é exagero alertar para o risco
existente nos dois discursos prevalentes atualmente:
o da tolerância com as invasões e o esbulho no campo; e o
da ameaça de romper contratos celebrados entre o Estado e empresas
internacionais que aqui se instalaram no passado recente. A tolerância
com as invasões restringe e inibe as decisões de investimentos
por parte dos segmentos médios, tradicionais financiadores da expansão
agro-industrial. E o discurso que pretende reverter concessões
fiscais e financeiras garantidas em contratos até aqui inquestionados,
ameaça nossa credibilidade como parceiros de relações
estratégicas de longo prazo.
Das três fontes de poupança e investimentos, já não
podíamos contar com uma: a dos recursos e subsídios governamentais,
pois a exaustão fiscal do Estado brasileiro desaconselha qualquer
expectativa favorável. Com estes dois discursos hostis aos produtores
rurais, ao agronegócio e aos capitais estrangeiros, as outras duas
fontes importantes da formação de capital no nosso Estado
estarão (ou se sentirão) ameaçadas. Os governantes
deveriam atentar para isto pois, na ânsia de corrigir políticas
que consideram equivocadas, correm o risco de jogar a criança fora
junto com a água suja do banho.
Publicado
no Caderno de Idéias, Travessa dos Editores, dezembro de 2003
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