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Aroldo Murá Gomes Haygert é jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Janeiro de 2004

Religião
Novos e velhos caminhos explicam o tempo do sagrado

Aroldo Murá G. Haygert

No atual cenário em Curitiba, a igreja católica é majoritária, mas não hegemônica. Ao longo das décadas, mudou a relação dos curitibanos com a fé e, conseqüentemente, com as igrejas.

De que maneira mudou nos últimos decênios o relacionamento do curitibano com o divino? Mudaram muito, os curitibanos e as expressões de sua fé. Na Curitiba de 1953, ano do Centenário da Emancipação Política do Paraná, por exemplo, o mundo do sagrado tinha total visibilidade a partir da Praça Tiradentes, na Catedral Metropolitana. Era um tempo de catolicismo majoritário, tridentino (Concílio de Trento), de pouco espaço para outros cultos. Dogmas marianos cultuados amplamente eram algumas das expressões de certezas, assim como a infalibilidade do magistério católico.

Numa população que se professava católica em 95% de seu total, Dom Manuel da Silveira D'Elboux, o arcebispo, era a autoridade das coisas celestes, numa comunicação com o transcendental que não se contestava. Ele pontificava em seu palácio episcopal na Rua Mateus Leme, defronte da metalúrgica que deu lugar a um shopping. Sua palavra era a do magister dixit, da Roma locuta, causa finita, acatada, acolhida sem contestações, "sabiamente" aceita também pelos homens da política, sem dúvidas.

Os caminhos do transcendental de hoje são totalmente diversos: mostram a franca ascensão dos movimentos pentecostais, com destaque para o neopentecostalismo cujo exemplar mais notável é a jovem Igreja Universal do Reino de Deus. Braços pentecostais, alguns mais tradicionais, como as assembléias de Deus (Ministério Madureira, Betesda e Assembléia do Brasil) e Congregação Cristã no Brasil (esta nasceu no Norte do Paraná), que tem origem no começo do século 20, agora experimentam crescimento moderado aqui. As preferências de uma multidão sequiosa por novas formas de bênçãos e milagres e do "religare" voltam-se claramente para o segmento mais forte do neopentecostalismo. Esta prega a Teologia da Prosperidade: "você tem direito a reclamar riqueza, saúde, felicidade a Deus". Origem nos Estados Unidos, século 20. É um acréscimo à doutrina do falar em línguas e dons do Espírito Santo – cura, profecia, etc – revelados em Topeka, por Parhan, e Seymour, na Azuza Street, Los Angeles. E com acréscimos como aquele espécie de mantra – pare de sofrer.

Um templo imenso, moderno, conhecido por Catedral da Fé, na Avenida Sete de Setembro, circundado por estacionamentos para centenas de carros de seus fiéis, é o exemplo mais visível dessa mudança do norte religioso de uma boa parcela dos curitibanos. Dali a Igreja Universal comanda projetos espirituais e também temporais, como sua inserção na política partidária: nas últimas eleições elegeu um deputado federal, um estadual e um vereador, com votos de Curitiba basicamente.

Um mundo previsível

Na Curitiba de 1953 e nos imediatamente anos seguintes, políticos católicos tinham eleitorado cativo, como Elias Karam, Edgar Távora, Ivan Luz, Antônio Lopes Júnior, padre Janeiko, ocupando tribunas estaduais e federais. Na verdade, todo político tinha como primeira – "e mais inteligente" – a opção católica, que era a da nação. O próprio governador do Centenário, Bento Munhoz da Rocha Neto, pode ser inscrito entre os representantes de uma sólida tradição católica na política.

Hoje a Igreja, em Curitiba, que veda a eleição de membros de seu clero a cargos públicos, dá preferência a uma nova maneira de formar líderes, seguindo programas de pastorais de conjunto. A massificação do evangelizar tem de vir com olhar mais atento ao entorno, na busca de mudá-lo. As chamadas pastorais tomaram o lugar das associações de outrora e dos movimentos que aglutinaram e formaram o apostolado católico. As congregações marianas, que tiveram seu auge com a Congregação da Catedral (e da qual até o crítico literário e hoje agnóstico Wilson Martins foi membro), deixaram de ter importância numérica e influência comunitária. A Ação Católica, nos anos 50 e 60, formadora de legiões de militantes, particularmente universitários (via JUC), virou só lembranças. O Ver, o Julgar e o Agir da AC acabaram, com outros conteúdos, roupagens e acentos, se transferindo para as comunidades eclesias de base, CEBs, de modestos resultados entre nós. E também para outras opções populares, empurradas pelo espírito da Teologia da Libertação.

Se a Igreja Católica em Curitiba parcialmente se inseriu nos chamados movimentos populares – CEBs, pastorais, centros de estudos bíblicos, trabalhos em áreas periféricas da cidade –, também aceitou e viu surgirem e crescerem outras formas de ser Igreja, algumas delas identificadas pelo olhar vertical (espiritualizante). São expressões que não se enquadram no chamado tradicionalismo (integristas que não aceitam as reformas do Concílio) e nem vinculadas à Teologia da Libertação e assemelhados.

Assim, examinando o catolicismo, ainda amplamente majoritário (hoje 72% dos curitibanos), observa-se que a Igreja de Pedro esboça reações. Ou simplesmente deixa à mostra seu discipulado com novas pedagogias, levando em conta uma sociedade em que não mais é hegemônica; e na qual, além de ter de dividir espaço do sagrado com novas denominações religiosas, também convive com forte secularismo e crescente agnosticismo.

A reação católica ganha, pois, contornos na Renovação Carismática Católica (RCC) e seus grupos de oração na Arquidiocese. Seriam 80 mil os militantes carismáticos da capital. São novas formas de ser Igreja, observáveis na ação de homens e mulheres de comunidades leigas ditas "de vida" e "aliança", como a Shallom, no Barigüi, e a AMI, em Almirante Tamandaré, ou aquela que se reúne sob a liderança de um rezador muito solicitado – de nome Lázaro – em Orleans. Naquele bairro se erguerá o futuro Santuário de Nossa Senhora do Equilíbrio (terreno cedido em comodato pela Arquidiocese, num incontestável endosso da hierarquia à sua ação). Há que registrar igualmente a espiritualidade de Chiara Lubich, com os focolares. Alegres no apostolado leigo, eles vão espalhando idéias novas de viver a fé, como a doutrina chamada de Economia de Participação, vivida em Curitiba por famílias como a Tortelli. É nova forma cristã de dividir trabalhos e riquezas.

Os Cursilhos da Cristandade, que há 30 anos monopolizavam os interesses das chamadas elites curitibanas, vivem hoje só parte daquele brilho.

Há casos de feliz casamento entre a chamada inserção em comunidades populares e a imersão numa vida de retiros, orações e apostolado na periferia. É o que vivem os Missionários de Damasco, instituto religioso diocesano fundado em Curitiba pelo padre italiano Giovanni Roccia (João Rocha). Prioridade à formação cultural de seus membros. Fica no mesmo bairro em que as CEBs floresceram com todo um envolvimento social no Centro Irmã Araújo, anos 80, e com ações como as desenvolvidas pelo ex-vereador Silvio Miranda, um desiludido da política partidária.

Há outros movimentos sólidos, como a Prelazia do Opus Dei, implantada nos anos 70 na Rua Saldanha Marinho, com seguros programas de formação católica de universitários e profissionais liberais, em centros culturais masculinos e femininos. Padre Manuel Correa, que na Espanha foi médico cardiologista, é o mais paradigmático representante dessa instituição visível sobretudo entre os grupos de influência da sociedade, e cuja pregação enfatiza a madura vivência cristã no mundo do trabalho.

Não apenas no catolicismo vão surgindo novas formas de viver a fé. Nos meios evangélicos – seguindo uma tendência mundial –, as cisões no protestantismo não mais estão gerando novas igrejas. Na maioria das vezes, as dissensões resultam nas chamadas "comunidades evangélicas", em pequenos grupos, microigrejas sob o pastoreio de uma liderança carismática. Na opinião de um pastor evangélico, "é o calor dos pequenos grupos que facilita esta nova expressão do evangelho". Também vão crescendo as chamadas "igrejas em células", espécies de igrejas domésticas que, sem se desvincular da igreja-mãe, servem de pontos de oração e adoração, nos lares dos crentes. Têm algumas semelhanças com as CEBs.

Os arautos do Evangelho

No mundo católico, na capital, já se vêem jovens usando hábitos que lembram roupagens de cavaleiros medievais, botas compridas, instrumentos de sopro a acompanhar-lhes nas apresentações musicais em atos litúrgicos ou seculares. E que igualmente cantam o bom gregoriano. Têm casa masculina no bairro Santo Inácio, e a feminina, no Bom Retiro. São os arautos do Evangelho, o primeiro movimento leigo a ganhar o status de "direito pontifício do Milênio", dado pelo Vaticano, em 2001.

Com devoção especial à Virgem na invocação de Fátima, os arautos arrebanham moças e rapazes preferencialmente em escolas, festas, em locais públicos. Para os rapazes, as atrações nesta "pescaria" são as lutas marciais, os esportes em geral, a música e, sobretudo, um ambiente fraterno e cristão que os discípulos de João Clá vão oferecendo às novas gerações.

Clá, um advogado paulistano, criou os Arautos há 40 anos. Ele mesmo agrega ao movimento algumas marcas que foram de seu antigo agrupamento religioso, a TPF. É o caso das indumentárias a lembrar cavaleiros e seus desafios épicos. O direito de trajar a roupagem é objeto de disputa na justiça com os herdeiros de Plínio de Oliveira (TFP), segundo conta Marcos, um dos dirigentes locais do grupo. Quem terá o direito definitivo de usá-la?

> segunda parte da reportagem

Publicado na Gazeta do Povo, 18 de janeiro de 2004

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