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Aroldo Murá Gomes Haygert é jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Janeiro de 2004

Religião
Novos e velhos caminhos explicam o tempo do sagrado
(Segunda Parte)

Aroldo Murá G. Haygert

Igreja Católica tem em Curitiba um dos mais importantes observatórios sobre o comportamento religioso. Neopentecostais estão à frente dos católicos no uso do marketing religioso

Harvey Cox, um dos mais influentes estudiosos do fenômeno religioso nos dias atuais, doutor e professor em Harvard, autor de obras monumentais como Fire From Heaven e Secular City, protestante, é sólido conhecedor do neopentecostalismo. Seus livros estão traduzidos em dezenas de línguas. Ele reconhece ser a Virgem de Guadalupe uma espécie de antídoto católico contra o avanço pentecostal. Especialmente no México. Mas qual a ligação de Cox com Curitiba?

A associação de Cox e Curitiba é sutilmente observada com a presença dos Legionários de Cristo (LC). Instalados há 10 anos em Santa Felicidade, onde educam uma centena de seminaristas, a congregação de legionários – nascida no México – propaga Guadalupe e seus milagres. Na verdade, a padroeira das Américas, anos atrás, levava multidões às portas da Rádio Colombo, onde o radialista Ervin Bonkoski promove ainda romarias anuais na pequena capela dentro da rádio.

Os legionários são tidos por muitos como "os novos jesuítas": têm disciplina castrense, apego ao estudo, vida de oração e fidelidade, sem contestações ao papa. Formam sociedade apostólica fundada há 60 anos e espalham-se em dezenas de países.

Ao lado das filhas de Madre Teresa de Calcutá, estaria entre as congregações que mais crescem. O ensino dos seminaristas privilegia a formação espiritual de jovens a partir de 12 anos. Nos estudos clássicos, ênfase no Latim. Os LCs têm um ramo feminino que vai atingindo a classe média por meio de um colégio bilíngüe (inglês e português), o Everest, no Ecoville. O movimento Regnum Christi, com suas "escolas da fé", é o esclarecido braço leigo dos legionários.

Das igrejas que chegaram para atender a grupos étnicos, a mais conhecida é a Evangélica da Confissão Luterana do Brasil, também chamada Sinodal. Os luteranos sinodais, chegados ao Brasil a partir de 1823 para acompanhar os alemães, fazem uma forte dupla com a Igreja Católica em Curitiba, atuando com voz uníssona em matérias que envolvem direitos humanos e justiça social. Nada a lembrar as disputas entre romanos e filhos da Reforma, que mantinham distância regulamentar até antes do Vaticano II. Na Rua Inácio Lustosa, uma velha capela luterana abre-se para cultos em alemão.

Os católicos ucranianos (uniatas), ligados a Roma, são maioria da sua etnia em Curitiba. Aqui têm a sede de sua Eparquia de São João Batista, equivalente à Arquidiocese no rito latino. Tornaram-se muito notados em Curitiba no início de 1950, com celebrações na igreja da Rua Martim Afonso. Os ucranianos ortodoxos, por sua vez, têm exarcado (bispado) na Rua Cândido Hartmann.

Poder-se-ia falar em igreja étnica citando a Igreja Holiness, que congrega basicamente descendentes de japoneses, com liturgia de inspiração metodista? No mapa da fé curitibana há lugar para o persistente trabalho pastoral que o septuagenário padre Chen faz entre seus compatriotas chineses, assim como a catequese em língua japonesa pelas Irmãs de N. Senhora de Nagasaki, em sua escola no Centro. Ou a paróquia católica de Santo Estanislau, na Rua Emiliano Perneta, ainda com missas em polonês. Os batistas, até certos anos atrás, tiveram congregação para atender seus fiéis vindos da Letônia.

Das congregações católicas até boa parte do século 20, os padres Carlistas cuidaram das colônias italianas. Hoje voltam-se para a pastoral dos migrantes. Os verbitas, do Verbo Divino, atuaram fortemente em colônias e núcleos predominantemente eslavos.

A fé dos árabes cristãos e seus descendentes ganha o esplendor de uma liturgia inconfundível, a ortodoxa, trazida pela Igreja Antioquiana. A Ortodoxia Grega tem seu templo no Bom Retiro para atender a uma pequena comunidade. Há ainda expressões de fé notáveis, como a Mesquita da Rua Dr. Kellers e a sinagoga Francisco Frischmann.

Marketing católico

Há dez anos, Kater Filho, um publicitário paulista, deu formas a uma Associação de Marketing Católico. O objetivo é ensinar os meandros dessa palavra mágica aos gestores da Igreja. Particularmente o uso da mídia. Neste capítulo, os neopentecostais estão na frente. O que quer dizer, numa sociedade de efeitos especiais, muito mais do que distribuir santinhos, medalhas ou fazer romarias.

Nesta linha da boa comunicação, o pregador pentecostal é o homem da palavra, "camelô do Senhor", pregoeiro de valores como milagres e, também, salvação. Receitas bem aceitas numa sociedade solitária, empobrecida, doente e pouco solidária. Encontra campo fértil, sobretudo, entre uma multidão anônima, sem identidade, mais ou menos sem referenciais na cidade grande. Gente, em boa parte, retirada dos meios rurais, pequenas cidades e levada por muitas necessidades para a cidade vertical. Onde procura reproduzir laços de fraternidade deixados para trás. Dezenas de rádios e programas de televisão são os veículos para arrebanhar quadros e fortalecer a fé evangélica.

É verdade que a pregação pentecostal começa a atender a uma certa classe média. Os estatísticos dirão que o futuro sorri largamente para os pentecostais/neopentecostais em Curitiba, como, de resto, em todo o país. Mas fugindo das projeções estatísticas, alguns tentam entender os porquês humanos que estariam escondidos nesta sangria do dique católico. E estabelecem paralelos:

1 – A longa e exigente formação do clero católico, ao contrário do chamado sacerdócio universal evangélico, de ordenação, via de regra, sem imposições.

2 – A mensagem católica ainda presa a certa linguagem hierática, à liturgia padrão, uniforme, contida por rituais. No "maravilhoso" neopentecostal, ao contrário, a livre criatividade dá o tom dos cultos, assim como a possibilidade de multiplicação de gestos e expressões catárticas.

3 – A aceitação das realidades das Ciências, no catolicismo não estimula a existência do templo como centro de milagres. No catolicismo o espectro do milagroso ficou restrito. E, mesmo rituais de ampla simbologia e apelo, como o do exorcismo, são oficialmente controlados.

4 – A criação de liames fortes com o crente, como o dízimo, e o estabelecimento de costumes rígidos (cabelos cumpridos, saias longas, ausência de pinturas e maquiagens) – para alguns grupos, como a Igreja Deus é Amor e Congregação Cristã – exerceriam um forte apelo popular. No catolicismo, a doutrina irreversível sobre temas como aborto, contracepção, casamento indissolúvel, dificultaria a acolhida de novos conversos ou a manutenção de parte de seus quadros.

5 – O excessivo "controle" eclesiástico seria fator limitante no catolicismo. O argumento não vale, no entanto, com relação a igrejas neopentecostais como a Universal, esta igualmente centralizadora.

6 – Mas um dos aspectos que mais explicam o sucesso neopentecostal – além da Teologia da Prosperidade – está na facilidade com que incorporou vários elementos da religião popular (óleo e sal santos, encostos e maus olhados, crendices e, segundo críticos mais ferrenhos, até magias). No catolicismo pós-concílio, ao contrário, a religiosidade popular passou a ser olhada com suspeita. As exceções em Curitiba, mostram multidões freqüentando as novenas do Perpétuo Socorro, dos redentoristas, Alto da Glória e as de Santo Expedito, Santa Rita e São Judas. Na Igreja dos Capuchinhos, nas Mercês, um frade vai conseguindo uma bem-sucedida associação entre os conhecimentos em parapsicologia e fé, com curas, sobretudo de doenças de fundo psicossomático.

Enfim, a Igreja Católica, ainda sendo a primeira opção de pelo menos 123 milhões de brasileiros, tem em Curitiba um dos seus mais significativos observatórios sobre o comportamento presente e futuro de seus cidadãos em matéria de fé e religião. Particularmente porque esta é uma terra formada por boa parte de descendentes de imigrantes católicos, agora enriquecida pela multiplicidade de migrantes de todo o país.

Um formando em Teologia da PUC-PR, Otto Winck, ex-dirigente da Renovação Carismática, observa que uma das marcas registradas de Curitiba, que não mudaram nestes últimos decênios, é a presença e ação católicas em obras que cobrem a vida da cidade: freiras, padres e consagrados trabalham em hospitais, asilos, orfanatos, creches, programas de saúde e de apoio à infância e a gestantes, cadeias, associações comunitárias e ONGs.

E outro tanto de religiosos e leigos católicos envolve-se na formação de novas gerações – em colégios e universidades. Como paradigmático dessa preocupação católica com o mundo do Conhecimento cito a liderança do reitor da PUC, o irmão marista Clemente Ivo Juliatto. Este, na verdade, é visto como o moderno e bem preparado empreendedor cristão, numa área que sempre identificou a igreja, divisor de água das igrejas de cunho imediatista e as autenticamente comprometidas com a comunidade.

A Igreja pode ter adotado novas roupagens, mas mantém-se, no essencial, fiel ao "ide", trabalhando como sempre o fez. A escola católica é o melhor exemplo de seu compromisso com o ser humano, diz padre José Amauri de Aviz, pároco de Santo Antônio, do Uberaba. Duas formas novas de ser católico, "sem perder a identidade", observa, otimista.

Publicado na Gazeta do Povo, 19 de janeiro de 2004

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Leia também a primeira parte da reportagem

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