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Belmiro Valverde Jobim Castor é professor universitário e diretor do Instituto Ciência e Fé. |
Opinião Belmiro Valverde O que deveria ser um direito civilizatório e universal se transforma em uma prova de resistência física e espiritual que se repete ano após ano com a monotonia dos fenômenos imutáveis. Não posso deixar de me lembrar, com uma ponta de melancolia, de duas histórias, uma contada e uma vivida, que são muito ilustrativas a esse respeito. Primeiro, a contada: meu amigo John Schulz, um misto de financista internacional, PhD em história econômica pela Universidade de Princeton e brasilianista (seus dois livros, um sobre os militares na política e o outro sobre o encilhamento sao referências obrigatórias na ciência economia e política) foi, há anos, a San Jose da Costa Rica. Como bom turista, inscreveu-se numa excursão aos pontos importantes da cidade. Na praça principal, o guia mostrou um edifício imponente e anunciou: aqui é a sede do Congresso Nacional. Apontou para outro e informou: e ali é o Palácio do Governo! Uma terceira e majestosa construção pertencia – segundo o guia – ao Supremo Tribunal. Mas havia ainda um quarto edifício, o mais majestoso de todos, coberto de mármore e dominando imponente a paisagem. Schulz, curioso (pois em sua mente as três coisas mais importantes de um país já haviam sido identificadas, perguntou ao guia o que funcionava naquele belíssimo edificio: "ali é a sede da Biblioteca Nacional!" O exemplo, obviamente, não explica tudo mas talvez ajude a entender porque a Costa Rica é uma exceção de estabilidade institucional e de qualidade de vida na América Latina. Em termos essencialmente numéricos, a Costa Rica é a autêntica República das Bananas (um de seus principais produtos de exportação), das "plantations" (o café é outra das suas exportações principais) e não se qualificaria como um país rico. Tem uma renda per-capita pouco superior à brasileira, embora seu Índice de Desenvolvimento Humano, calculado pela ONU, seja muito superior ao nosso e um dos maiores da América Latina. Mas teve uma elite capaz de entender certas coisas que seus irmãos de continente demoram ou relutam em entender. Caso vivido: um casal brasileiro chega na Roosevelt School de Santa Mônica, Califórnia, com as duas filhas a tiracolo e pergunta na secretaria se a escola tem vagas para elas. Resposta desconcertante: "que é vaga?". O brasileiro, pacientemente, explica que vaga é sinônimo de lugar para acomodar as crianças. Outra resposta desconcertante, desta vez recheada de ironia: "certamente, pois a escola ocupa um quarteirão inteiro e suas crianças não são assim tão grandes para não caber nela". O brasileiro meio encabulado informa à secretária que em seu país as coisas não são tão simples assim e que etc. etc. Finalmente, a secretária encerra a conversa "se o senhor morar nesse quadrilátero entre a rua tal e a rua qual e a avenida tal e a avenida qual, simplesmente o senhor tem direito de mandar as criancas para esta escola. Traga uma prova de residência, as crianças e pronto. "Nao esqueça nem as crianças nem a prova de residência, please". Nos dois casos e em uma multidão de outros espalhados pelo mundo todo, o que explica essa atitude diferenciada em relação à educação é a existência de elites ilustradas e de elevada qualidade cívica. Elites capazes de entender que a chave do desenvolvimento nacional não está nem nunca esteve na exploração pura e simples de recursos naturais nem no aproveitamento da mão de obra barata e sim na transformação desses recursos em riquezas pela via do conhecimento. O nosso problema de educação é pura e simplesmente uma questão de uma correta apreciação das prioridades nacionais por parte das elites e de um comprometimento sério em relação à educação de qualidade para todos. Não basta universalizar o acesso à escola se esta não for capaz de cumprir seu papel. Também não basta simplesmente melhorar os níveis de eqüidade e de facilidade de acesso. Uma escola eqüitativa mas de qualidade medíocre é exatamente isso: uma escola medíocre que trata de maneira mediocremente eqüitativa seus alunos. Precisamos de mais, muito mais: precisamos de uma mobilização nacional pela disponibilização do ensino público de qualidade, em todos os níveis e de que esse ensino de qualidade seja gratuito nos níveis fundamentais e médios. Contei essa segunda história a várias pessoas e, em alguns casos, as reações foram curiosamente equivocadas: "Ah, mas nos Estados Unidos é diferente. Lá é assim porque eles são um país rico e podem se dar a esses luxos, certo?" Errado. Eles não se dão a "esses luxos" porque são ricos, eles são ricos porque há 300 anos se "dão a esses luxos" de promover e prestigiar a educação.
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