Roberto
Romano, 57, é professor titular de ética e filosofia
política na Unicamp e autor de "Moral e Ciência -
a Monstruosidade no Século XVIII" (ed. Senac/São
Paulo), entre outras obras.
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o m u n i c a ç ã
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d e C i ê n c i a
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n l i n e |
Janeiro
de 2004 |
Opinião
Ética na política!
Roberto
Romano
Muitos
petistas afirmavam que a ética morava só no PT. Arrogância
é letal em política
Certa
feita , na biblioteca da Unicamp, eu lia os pensadores antigos, como recomenda
Maquiavel. Toca o telefone. Era o responsável pelo boletim periódico
do PT, de circulação interna. Após os salamaleques
veio o pedido: "Queremos um artigo seu sobre ética na política".
Estranhei o convite: "Não sou filiado ao partido, melhor falar
com acadêmicos militantes". Réplica: "Desejamos
que o texto seja feito por alguém exterior aos quadros partidários,
para maior isenção".
Fui levado, na sede do partido, para uma sala cheia de papéis,
jornais antigos etc. No meio do aposento, majestosa pilha na qual se equilibravam
pastas de tamanhos variados. Pediram-me que abrisse qualquer uma delas.
Fi-lo e percorri o conteúdo da maior parte. Estupefato, segui a
ladainha das cartas enviadas por militantes: "Nunca pensei que no
PT ocorressem tais coisas". E seguiam denúncias em administrações
petistas. Uma pasta reunia casos de Santo André. Nada contra Celso
Daniel, pela primeira vez na prefeitura, mas denúncias sobre integrantes
de seu governo.
Escrevi um texto amplo, no qual afirmava que agremiações
humanas erram. Mesmo no PT poderia existir falta de ética. O artigo
suscitou interesse e foi citado por Carlito Maia para potenciar sua crítica
de outros militantes. Muitos petistas afirmavam que a ética morava
só no PT. Os demais partidos? "Farinha do mesmo saco."
Arrogância é letal em política. Publiquei vários
textos nesta Folha advertindo contra o angelismo do partido.
Logo depois ocorreu o seminário "O PT e o Marxismo".
Os organizadores, após o evento, levaram-me para o almoço.
Aproveitei para lhes perguntar sobre as denúncias que li. "Não
peço explicações de ordem sociológica, digam
apenas o que imaginam ser a causa do fenômeno." A resposta
foi honesta e forneceu algum sentido lógico: "Veja, professor,
muitos de nossos políticos têm origem humilde, recebem salários
pequenos, não possuem casas próprias. De repente, encontram-se
nos cargos, recebem o título de Excelência, carros são
postos ao seu dispor, o pagamento triplica etc. No primeiro mandato, normalmente,
recusam meios errados para se reeleger. Mas perdem as eleições,
recaem na penúria. Aprendem".
Essa conversa ocorreu bem antes do poder abençoar o PT . Muitos
"aprenderam a lição". A pista ajuda a identificar
a origem dos que hoje ascendem na escala social usando o antigo Partido
dos Trabalhadores, hoje "Partido dos Cargos em Comissão".
E também a definir o que Francisco de Oliveira indicou como o "ornitorrinco".
O aparelhamento do Estado serve aos fins dos atuais governantes, mas favorece
os arrivistas que ontem foram operários, bancários etc.
A sua voracidade foi potenciada ao máximo com o controle dos palácios.
Se eles constituem uma nova classe é incerto. Mas o tamanho de
sua goela mede-se pela violência dos atos que protagonizam.O Brasil
não tem mobilidade social. O "andar de cima" (sigo Elio
Gaspari) é hermético. O governo oferece vias de acesso.
O poder gera insensibilidade aos sofrimentos deixados nas periferias.
O escalador social age pior do que os antigos palacianos. As medidas recentes
contra idosos centenários, obrigando-os às filas para exibir
sua existência, provam a anestesia ética dos nossos poderosos
com alma de Barry Lindon em figura de Macunaíma.
Extenso número de petistas neófitos, velhos partícipes
da vida pública brasileira, engrossam (em todos os sentidos) a
"base aliada". Se militantes heróicos escreviam cartas
contra a quebra da ética em administrações do PT,
hoje a tendência segue o rumo do pior. Existem na agremiação
pessoas honradas que ocupam cargos em governos e Legislativos e operam
na cúpula partidária. Conheço várias delas
pessoalmente.
Mas é impossível olvidar (e não por moralismo) as
zonas cinzentas que obnubilam o vermelho do partido. As reações,
nos inquéritos sobre a morte de Celso Daniel, são melancólicas.
Ministério Público e Justiça devem ser incentivados
pelos líderes partidários. Caso oposto, ficaremos no lugar-comum:
"o medo venceu a esperança".
Mas ainda acredito na esperança que levou o eleitorado a votar
nas mudanças éticas prometidas pelo PT.
Publicado
na Folha de São Paulo, 22/01/04
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