Aroldo
Murá Gomes Haygert é jornalista
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Janeiro
de 2004 |
Ensaio
As mutantes fronteiras do sagrado
Aroldo
Murá G. Haygert
Novos
e velhos espaços religiosos na vida paranaense; anotações
sobre itinerários do transcendental; quês e porquês
de um cardápio religioso multifacetado.
“A
imaginação e a fé são a mesma coisa,
elas conferem substância a nossas esperanças
e realidade ao que é invisível”
(John V. Taylor, bispo anglicano).
Um
estudioso do fenômeno religioso no Brasil conta, em uma das suas
mais recentes obras, a respeito da mulher que havia aderido, no Rio, a
uma grande e poderosa igreja da linha neopentecostal. Mas que confessava,
sem conflitos de fé, continuar fazendo novena para Santo Antônio,
a quem jurara fidelidade eterna. Uma ambigüidade que os antropólogos
e outros estudiosos da alma brasileira já haviam detectado a mancheias.
O Rio Grande do Sul, por exemplo, de origem portuguesa e formado também
por grandes levas de imigrantes alemães e italianos, um Estado
basicamente católico e com forte presença luterana em suas
História, tem sido o campo fértil para a expansão
do umbandismo . Estatisticamente é uma presença afro em
terras sulinas bem maior do que aquela que o IBGE identifica na sincrética
Bahia.
Entender o Brasil e sua alma é também compreender um pouco
do que pensa o povo dos seus deuses e como se relaciona com eles, numa
intimidade dificilmente encontrável em outras culturas. É
compreender as muitas dimensões do espaço sagrado na vida
brasileira .Esse entendimento passa pela compreensão de uma série
ampla de mudanças, a maior delas a provocada pelas migrações
rurais para os grandes centros.
Dada a amplitude do tema religião do povo brasileiro, vamos nos
fixar nos anos mais recentes – do começo do século
XX aos dias de hoje -, acompanhando as tendências demográficas
que mostram ocupação desordenada das cidades, resultante
do abandono do campo e do interior. Uma mudança geográfica
acompanhada, ao mesmo tempo, de numa espécie de redefinição
biográfica de homens e mulheres, tendo como ponto mais saliente
a adoção de novas religiões. O que causa baixas sobretudo
na armada do papa.
Armada católica que até os anos 70 representava mais ou
menos (quem sabe com exatidão?) 90% dos brasileiros;hoje, 2003,
seriam – segundo o IBGE, Censo 2000 – 73,7% os católicos
no Brasil. Já os evangélicos, segundo o mesmo censo, eram
15,4% da população brasileira no mesmo ano. Os sem religião
ganharam visibilidade: 7,4% da população.
De qualquer maneira, ainda é impressionante o majoritarismo católico:
124,9 milhões de seguidores no Brasil. Dos grandes agrupamentos
religiosos, aparecem ainda: Assembléia de Deus com 8,4 milhões
de fiéis; igrejas batistas, 3,1 milhões de membros; Congregação
Cristã no Brasil com 2,4 milhões de seguidores e a Igreja
Universal do Reino de Deus com 2,1 milhões.
“BORN-
AGAIN” NATIVOS
Os chamados “born- again”da cultura religiosa norte-mericana
têm muito a ver com os “ renascidos” religiosos do Brasil
de hoje, aqueles que na maioria se desfizeram da identidade católica.
(Lá, o renascimento é em na maioria das vezes um reencontro
com o evangelismo). Pois aqui os segmentos que mais poderosamente ajudam
a mudar – de maneira brusca, até – o mapa das crenças
do brasileiro têm suas origens, na maioria das vezes, nos Estados
Unidos. Segmentos como a Assembléia de Deus, aqui chegando via
suecos, com passagem pelo pentecostalismo norte-americano; e a Congregação
Cristã no Brasil, vinda de Chicaco, via ítalo-americanos.
As duas aqui começam no início do século 20, encontrando
campo fértil nos trópicos. As igrejas históricas,
o chamado protestantismo de missão, já atuavam no país
e com missionários norte-americanos, e eles continuariam a chegar
em números expressivos até pelo menos o final dos 60s.
Neste capítulo das missões evangélicas, caberia um
capítulo à parte o exame da grande concentração
de recursos humanos e materiais em trabalhos de cristianização
de índios brasileiros. Duas organizações ganham relevo:
a Missão Novas Tribos, e a do Summer Institute, ambos grupos de
linhas fundamentalistas. O Summer foi nos anos 70s proibido de atuar no
Brasil, como resultado de visões militares que o apontavam como
interessado em espionar reservas e riquezas nacionais a mando de corporações
norte-americanas. As acusações nunca se comprovaram. As
duas organizações prestaram algum serviço,ao traduzirem
parte das escrituras bíblicas para línguas dos nativos.
Voltando aos primórdios do pentecostalismo no país: a Congregação
Cristã – os chamados “glórias”- começa
em Santo Antônio da Platina, PR, Norte Velho do Paraná; há
autores que a dão como nascida em São Paulo, ao se produzirem
conversões de famílias italianas. Uma delas, a dos industriais
Spina, da área do papel e celulose. A despeito de a Congregação
ter sido, e assim se manter, um castelo forte de operários, artesãos
e pequenos autônomos da construção civil, porteiros
de edifícios, seguranças, empregados domésticos.
Predominância, pois, nas camadas C e D da população
. É uma igreja centralizada, controlada por um clero não
remunerado mas que exerce forte controle sobre sua membresia, com uma
leitura literal das escrituras judaico-cristãs ( calcada na inerrância
da Bíblia). Mais ou menos de acordo com a declaração
“dos fundamentos da fé”, dogmas decretados por evangélicos
norte-americanos dos anos em 1895, na antológica Declaração
de Niagara Falls, e popularizados no início dos anos 20s do século
passado. Dogmas reafirmados pela Declaração de Chicago,
do final dos anos 80s.
Poder-se-ia ir longe na análise do moderno evangelismo que encontra
muitos pontos comuns (mas não é um fac-símile, fique
claro) com a Christian Coalition e Moral Majority, dos Estados Unidos,
estas linhas identificadas hoje com falcões do Governo Bush. Mas,
deixando essas marchas da História de lado – dadas como conhecidas
-,o que ocorre no Brasil é aceitação já não
mais a grande aceitação do protestantismo histórico
(metodismo, presbiterianismo, batistas, episcopalismo) nem do evangelismo
étnico (luteranismo, vindo com os alemãs). A grande guinada
nas fronteiras da fé processa-se a partir da segunda metade do
século vinte. Em tudo está ligada à mudança
geográfica do brasileiro que, a partir dos anos 60s, começa
a longa jornada de abandono do interior. Muda-se para os centros maiores,
as cidades verticais. De início, pode-se até admitir –
tal como vemos nos primeiros estudos acadêmicos sobre o pentecostalismo,
feitos por Beatriz Souza, da USP – que esses migrantes buscariam
reproduzir laços de solidariedade, de ajuda fraterna e pontos de
reunião que tinham no campo.
Com o passar dos anos, no entanto, outros elementos se colocaram como
objetos de exame dessas impressionantes redefinições religiosas.
Até porque já se está numa segunda geração
de crentes evangélicos (e também Segunda onda pentecostal
se inaugurando) vivendo ou nascidos nos centros urbanos. E ainda porque
o chamado pentecostalismo da primeira onda – Assembléia e
Congregação Cristã do Brasil – foi, em parte,
dando lugar a uma teologia mais “ aggiornada”, mais urbana
e gradativamente se liberando da ênfase dos usos e costumes dos
estereotipados crentes (já podem cortar cabelos, as mulheres, e
ir a cinema ou tocar música pop homens e mulheres). Hoje, a propósito,
o que se vê é a poderosa Assembléia de Deus claramente
dividida entre congregações presas ao conservadorismo de
costumes e outras bem abertas, próximas das igrejas históricas.
A Igreja Betesda, de origem assembleiana, dirigida por um dos mais preparados
e ativos teólogos evangélicos, pastor Ricardo Godim, é
referencial dessa nova maneira de ser crente`. Na Congregação
Cristã, as mulheres, no entanto, continuam não cortando
os cabelos, dispensam jóias, e só usam vestidos compridos;
em compensação, podem tomar pílulas contraceptiva
e usar preservativos os seus membros casados.
A segunda onda pentecostal se mostra crescente sobretudo a partir dos
anos 50/60, muito influenciada por evangelistas originários dos
Estados Unidos, portadores de uma pregação que cai no gosto
do brasileiro que começava a ocupar ou a erguer os grandes centros
urbanos. São notáveis nessa onda os trabalhos da Cruzada
Nacional de Evangelização (Igreja do Evangelho Quadrangular)
e da Igreja Vida Nova. No caso da Quadrangular, há que se notar
ter ela introduzido o acesso da mulher ao ministério evangélico
e desenvolver uma luta continuada na recuperação de drogados,
além de ser pioneira também no criar nichos de atração
da classe média urbana. Um exemplo é a Associação
dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno (ADHONEP).
Manoel de Mello,pernambucano, simples operário da construção
civil, quase analfabeto, funda em São Paulo a Igreja Brasil para
Cristo, no final dos anos 50s. Foi muito forte, sofreu cisões,
e teve alguma participação no Conselho Mundial das Igrejas,
manifestando-se contra o regime militar brasileiro. Certos estudiosos
a colocam na segunda onda. O engajamento na linha da justiça e
paz durou poucos anos.
Há cerca de 23 anos, vem a chamada terceira onda, com sua Teologia
da Prosperidade, gerada via USA, de que são melhores representantes,
no Paraná, particularmente, e no Brasil, a Igreja Universal do
Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça, a Igreja Renascer
em Cristo, e um sem número de pequenas comunidades que no conjunto
formariam o chamado neopentecostalismo. No Paraná, avulta a liderança
de um político bem articulado, que fortalece seu partido no Estado,
o pastor Oliveira, carioca, ex-taxista. Ele é conhecido menos como
pastor, mais como operário do parlamento. Como a maioria dos quadros
dirigentes da Universal, não se notabiliza por formação
acadêmica secular ou aprofundamento teológico. É um
linha de frente da IURD, um pregador por excelência, como quase
sempre o são os da linhagem pentecostal/neopentecostal.
“CANSAÇO
DO MATERIAL”
Para padre Oscar Beozzo, de Lins, SP, uma dos melhores quadros da Igreja
no Brasil, historiador, doutor em Teologia e ex-editor internacional da
progressista revista Concilium, sua Igreja não teria infra-estrutura,
nas cidades grandes, para atender à demanda de uma população
crescente, sempre sequiosa do religioso. A Igreja Católica –
disse-me ele em uma de suas visitas a Curitiba, quando fez conferências
para o Instituto Ciência e Fé – foi praticamente montada
(colégios, seminários, igrejas, capelas, santuários)
para o meio rural, para as cidades do interior, as cidades pequenas. Com
o que fazia certo, até uma determinada época, pois sua “clientela
maior ”lá vivia, fundamentalmente.
Para Beozzo, vai demorar a mudança dessa realidade, com a chegada
da infra-estrutura necessária ao atendimento do novo homem e da
nova mulher das cidades e suas regiões metropolitanas.
Claro que tal realidade não pode ser debitada só à
falta de meios físicos para atender ao público-alvo. Há
outros fatores, particularmente no Paraná. Como o catolicismo,
no Brasil, se preparou para atender à cidade vertical, para responder
à urbanização que hoje concentra em 82% da população
nas cidades?
O homem que deixa o interior despe-se também do controle social
que os pequenos núcleos religiosos, ligados à família
e vizinhança, exerciam sobre ele. A liberdade de escolha e o ser
senhor de suas próprias decisões na forma de adorar a Deus,
contam nessa opção de desvencilhamento do catolicismo. Sem
eliminar a verdade de que a expulsão do campo/interior faz do cidadão
da grande cidade um anônimo em busca de apoios emocionais e espirituais
próximos, com manifestações concretas de fé.
Mais que isso: estaria o novo homem das cidades sendo confrontado com
um certo cansaço do “material”, no caso, o culto católico.
Ainda rígido, hierático, apesar das reformas trazidas pelo
Vaticano II, o louvor a Deus católico não daria “os
resultados”, ao contrário dos experimentados e tão
propalados pelos renascidos do pentecostalismo/ neopentecostalismo. A
distância dos santos e o distanciamento mantido entre clero e leigos,
seriam outros elementos a pesar contra o catolicismo. O clero, como maioria,
não teria se despido da velha roupagem que tanto deu consistência
a uma velha maneira de ser padre – ares e ações autoritários.
Insucesso, pois,na implantação do Concílio, neste
ponto.
Há os que apontam a “intransigência”da Igreja
Católica em não arredar pé de definições
dogmáticas (e que seriam sua própria essência, como
lembrou dias atrás o padre Jesus Hortal, reitor da PUC-RJ, em entrevista
à Globo News), como as questões do aborto, do homossexualismo,
do divórcio, da eutanásia. O celibato do clero diocesano
é questão disciplinar, enquanto que a castidade dos chamados
religiosos é condição básica para a existência
desse estado, mesmo em outros contextos que não católicos
romanos (budistas, católicos ortodoxos, hinduísta).
No pentecostalismo/neopentecostalismo há uma forte cultura do acolhimento.
No caso mais clássico citado pelos estudiosos desse amplo mundo
religioso, há o da inegável abertura para todo tipo de excluídos
e desgraçados sociais - travestis, bêbados,mendigos, as prostitutas,
os drogados, os delinqüentes, os presidiários. Neste capítulo,
embora alvo de constantes e continuadas críticas acadêmicas
e dos meios de comunicação sobre seu relacionamento com
o dinheiro e seu projeto político, a Universal do Reino de Deus
é apontada, quase sempre, como exemplar no chamado ministério
da acolhida, pelos que a estudam sem preconceitos. Mas não forma
comunidades permanentes, ao contrário dos outros neopentecostais.
No maravilhoso pentecostal prevalece o sacerdócio universal do
crente e todos podem ser partícipes – em tese – de
processos como o falar em línguas (glossolalia), dons de cura,
profecia, batismo no Espírito Santo, a pregação da
Palavra, a interpretação das escrituras,etc. Qualquer um
pode mesmo fundar sua própria Igreja.( Um contador evangélico,
relata no número de julho/2003, da revista protestante Ecclésia,
que com menos de R$ 300,00 é possível fundar uma igreja,
do ponto de vista legal). Embora o controle da hierarquia seja muito forte,
no entanto, em igrejas centralizadoras, como a Universal e Assembléia.
E também na Igreja Deus é Amor, fundada nos 60s por David
Miranda.
A igreja de Miranda tem total inserção nas camadas mais
pobres e menos escolarizadas dos centros urbanos. Ênfase nas curas
físicas e libertação de espíritos danosos.
Televisão, cinema, e lazeres do “mundo”são condenados.
Em Curitiba a Deus é Amor vai montando seu templo central num imóvel
privilegiado, a antiga sede das lojas Hermes Macedo, na João Negrão
com Visconde de Guarapuava, adquirido em leilão. Observadores do
mundo pentecostal dizem que a Deus é Amor está com crescimento
zero, e a causa seria o fato de manter sua membresia vivendo como se estivesse
numa sociedade pré-moderna e fundamentalmente afastada das benesses
da cidade vertical. Vivendo quase como se em guetos, indo contra o fato
consumado da urbanização, a cujos benefícios os crentes,
mesmos os de correntes mais fechadas, devem ter o mínimo de acesso.
DEMOCRATIZAR O EXORCISMO
Um
estudo à parte mereceria a questão da cura e sua relação
inseparável com a religião. É o sagrado dos gregos,
do deus da cura,de Asclépio, o Esculápio dos latinos, com
o ábaton, o lugar da cura. Cura e religião que estão
também nos primórdios do cristianismo, com Jesus operando
a cura de cegos, coxos, paralíticos. As curas realizadas pelos
santos médicos dos primeiros dias do cristianismo, trabalho dos
anargyroi (os sem-dinheiro), a mesma cura que na idade Média era
procurada nos 14 grandes santuários especialmente sancionados pela
Igreja Católica.
Com certeza um dos aspectos mais notáveis trazidos pelo pentecostalismo/neopentecostalismo
está nesta realidade: a cura dos males físicos e a libertação
dos maus espíritos são democratizadas, num tempo de medicina
desumanizada e fortemente mercantilizada. O que antes, no cristianismo,
era privilégio das castas sacerdotais (aí incluindo ortodoxos
e anglicanos) passa a ser acessível a todo o crente, reproduz-se
em quaisquer igrejas, nos lares, em múltiplos cenários.
As chamadas possessões demoníacas, que, com seus inúmeros
apelos dramáticos, nos romances e filmes, sempre foram controladas
pelos padres, vulgarizam-se. Mas a Igreja Católica, talvez compelida
pelo avanço científico e reconhecendo as “diabruras”e
talentos do inconsciente, restringe o espaço das possessões.
A tal ponto que hoje o bispo designa apenas um padre para expulsar demônios
e afins, em cada diocese.
Um dos padres mais respeitado pela falanges foi frei Miguel Botaccin,
capuchinho da Vila Nossa Senhora da Luz, em Curitiba. Era o exorcista
oficial da Arquidiocese, cargo que há quatro anos está vago,
com a morte do taumaturgo.
E as chamadas missas de cura estão proibidas em algumas jurisdições
católicas, como em Curitiba.
Talvez até devido a tantas restrições impostas no
catolicismo a expressões religiosas como curas e ditas expulsões
de demônios, possa se explicar, em parte, o surgimento de “igrejas
paralelas”. Em Curitiba – um em Piraquara e Colombo e outro
em Fazenda Rio Grande – dois sacerdotes suspensos ( e excomungados)
pela hierarquia romana, montaram suas próprias igrejas. Um fez-se
ordenar bispo, por prelado de igreja paralela, nada tendo a ver com hierarcas
das grandes tradições ortodoxas (pode até usar o
adjetivo ortodoxo)... Os dois centram sua ação no universo
do maravilhoso – curas e exorcismos. Para uma fonte da Arquidiocese
de Curitiba, “essa gente está pescando no aquário.
É fácil pescar no aquário...”
Neste aspecto, o do controle do sagrado, caberia analisar – em contexto
não católico - o surgimento nos últimos 20 anos das
chamadas “comunidades evangélicas”, em todo o Brasil,
geralmente fundadas por egressos de grandes ou médias igrejas,
e que procuram não mais repetir modelos eclesiásticos já
clássicos. As comunidades buscam experiências mais íntimas
de congregações, um modelo tipo Igreja Primitiva. Alguma
coisa como as reuniões dos primeiros grupos de cristãos.
Numa linha geralmente neopentecostal.
O exemplo de a quanto pode ir a falta de controle eclesiástico
– acentuando o tema - é o de um líder pentecostal
que criou uma forte igreja em Maringá, foi acusado de falcatruas
pela próspera congregação e de ter fugido com o caixa
dos fiéis, em 2002. A questão está sub judice, mas
a situação mostra a facilidade com que essa liberdade de
culto, sem amarras canônicos – ao contrário das igrejas
históricas – pode gerar situações de conflito.
E cisões eclesiásticas.
Enfim, o projeto pentecostal/neopentecostal se abre como uma novidade
inteira, imensa, rica, a oferecer ao crente uma realidade que lhe é
apresentada como apostólica e bíblica, de fácil acesso.
Maravilhas que lhe tinham sido sonegadas, exclama esse novo homem, o renascido.
Mas que a Renovação Carismática Católica –
de que nos ocuparemos mais adiante – em grande parte tornou acessível
à Igreja Católica.
TEOLOGIA
DE RESULTADOS
É
sabido que o catolicismo esteve fortemente ligado ao poder do Estado,
no Brasil, desde a Descoberta. Os padres e bispos eram funcionários
da coroa, dentro do chamado regime do Padroado.. Mas o final do Império
e início dos anos republicanos foi – na verdade –período
de perseguições à Igreja Católica. Delas resultaram
embates como a chamada Questão Religiosa, capitaneada por Dom Vital,
de confronto com o poder do Estado..
Mas a capacidade de sobrevivência de uma longa tradição
não poderia ser subestimada. Dessa forma vemos, por exemplo, em
plena Era Vargas, Dom Sebastião Leme comandando todo um processo
de alianças com o Estado; sem esquecer a Liga Eleitoral Católica
(LEC) e seus “non potest” e “nihil obstat”, dizendo
em quem se poderia ou não votar. O que se repete hoje em certas
cidadelas pentecostais/neopentecostais.
O catolicismo não era mais a religião do Estado, mas continuava
a contar com todas as benesses dele. “Roma semper eadem”-
sempre a mesma Roma- diziam seus críticos de vários naipes.
Não sem ouvirem defesas ardorosas do catolicismo pelos apologéticos
– e irados - livros do padre Julio Maria, fundador da Congregação
dos Sacramentinos de Nossa Senhora, de Manhumirim, Minas. Ou a defesa
da cátedra de Pedro pela voz do jesuíta Leonel Franca, solidamente
embasada numa rigorosa tradição, na exegese bíblica
indo às fontes.
Um bom exemplo dos poderes reassumidos pela Igreja dos anos 30 a 50, pode
ser identificado num dos marcos do moderno catolicismo voltado hoje para
a área social, o mosteiro jesuíta de Itaicí, SP,
onde se reúne a muito bem articulada Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil – CNBB. O mosteiro, ao ser erguido, com milhares
de metros quadrados de área construída, teve apoio maciço
do sempre suspeito Governo Adhemar de Barros, sob influência de
dona Leonor Mendes de Barros, ela um nome honrado. Eram tempos de muitas
vocações religiosas e a Igreja usando o peso de sua influência
popular junto aos donos do poder (o que se repete, hoje, em certos segmentos
do mundo evangélico, sem tirar nem pôr).
Assim como é impossível perpassar a História da Igreja
Católica no Brasil sem examinar a importância que nela assumiram
religiosos, leigos e movimentos. Tal como aconteceu com a Ação
Católica, visível sobretudo na JUC (Juventude Universitária
Católica), responsável por toda uma guinada católica
para a questão social, e no qual nomes como os de Dom Helder Câmara,
e de notáveis líderes estudantis pré- 1964 (Vinicius
Caldeira Brandt, Luiz Eduardo Wanderley, Herbert de Souza – o Betinho
– Luiz Alberto Gomes de Souza, Aldo Arantes) têm papel capital.
No fundo, todos resultam do pensamento e ação do padre Lebret
(Economia e Humanismo, que foi importantíssimo na montagem das
metas do primeiro Governo de Ney Braga), Congar, Lubac, Mounier, Chenu.
Da JUC gerou-se a AP (Ação Popular), cisão do grupo
católico, e impregnada da visão marxista. O o pensamento
lúcido do mineiro padre Lima Vaz, falecido ano passado, foi das
influências mais caras à JUC e, indiretamente, à AP.
HOMEM
PARANAENSE
No
caso do homem paranaense e sua experiência religiosa, contam-se
alguns fatores importantíssimos a marcar o catolicismo 1) no Norte
do Paraná, grande influência do catolicismo ibérico
trazido pelas inúmeras levas de mineiros e nordestinos que para
lá foram em busca do então chamado ouro verde (o café),
e também graças a um clero bem formado, a exemplo dos padres
palotinos de origem alemã( dirigentes do histórico Colégio
Cristo Rei, de Jacarezinho); ou com o de notáveis acentos populares,dos
freis capuchinhos de origem italiana e sua mensagem em todo o Norte Velho.
2) Nas regiões Oeste e Sudoeste – particularmente na segunda
– a grande população de gaúchos que para lá
se muda leva usos e costumes (sal grosso e churrasco, centros de tradições
gaúchas, áreas em que se falam dialetos italianos e alemães
ao lado do português) e também sua fé católica.
Sem contar um apreciável número de missionários belgas,
franceses e italianos que escolheram aquelas paragens para seu trabalho.
O surgimento de lideranças políticas notáveis, que
depois ganhariam projeção e respeito nacionais, é
um caso bem concreto, resultado do trabalho de padres belgas Missionários
dos Sagrados Corações. Euclides Scalco, em Francisco Beltrão,
um dos quadros formados e pós-graduado (na Bélgica) ,pela
instituição católica, depois espalharia escolas do
campo nos moldes do projetado pelos sacerdotes flamengos. Scalco, resultado
desse trabalho dos anos 50,60 e 70, seria deputado federal constituinte
(88), secretário de Estado (Richa, 1983), diretor-geral da Binacional
Itaipu e ministro secretário da Presidência das República
(2002).
Se Scalco poderia ser considerado um progressista e oposição
à direita constituída pelo movimento de 1964, o catolicismo
no Paraná havia gerado, no entanto , alguns políticos fortemente
alimentados pelo espírito e letra tridentinos (Concílio
de Trento), como Edgard Távora, Antonio Lopes Junior, padre (e
deputado estadual) Haneiko, Ivan Luz, entre outros. Nota-se aqui a influência
de integralistas. O Integralismo, no Paraná e no plano nacional,
havia se fortalecido com a adesão de lideranças católicas.
E até de um bispo, Dom Helder Câmara, então no Ceará,
na sua fase de homem da direita.3) No Centro Sul, a influência da
Congregação da Missão, dos padres vicentinos, também
chamados de lazaristas, é uma benção para toda uma
ampla área de influência. Eles fundam e mantêm inteiramente,
entre o final dos 40s até o começo dos 70s, o Colégio
São Vicente de Paulo, um centro cultural sem paralelos na vida
interiorana (vide Carlos Alberto Pessoa e José Maria Oreda, entre
outros frutos intelectuais da disciplina e sabedoria dos padres Lima,
Rui, Motta, Marcello Carneiro e Nicolau). Os lazaristas de Irati, que
ainda são donos do colégio, agora arrendado ao Estado, mas
sem o brilho de outrora, vinham de uma forte tradição e
compromisso de qualidade e seriedade educacionais. Tinham raízes
no Colégio do Caraça, das Minas Gerais.Na mesma área,
não há como esquecer o papel civilizador exercido também
por outros educadores católicos(religiosos de origem alemã)
em União da Vitória e a presença dos padres basilianos
pregando e educando gerações de ucranianos e seus filhos,
tendo Prudentópolis como ponto de partida; 4)Em Curitiba, a formação
de um catolicismo esclarecido, às vezes apologético,desde
o século XIX , teria chegado a seu auge com a Congregação
Mariana da Catedral, nos anos 1940/60s, reforçado depois pelo trabalho
catequético da Ação Católica (Ver, Julgar
e Agir), na JUC e JEC; , e educação de qualidade na formação
do clero arquidiocesano, esta em boa parte fornecida pelos lazaristas
de origem francesa, aqui voltados para a formação nos seminários.
Isso sem contar a influência do Colégio Santa Maria e Internato,
Maristas. Não esquecendo que os frades franciscanos alemães
se encarregaram, há cento e poucos anos, de educar os filhos de
alemães e depois se abriram a todos, no Colégio Bom Jesus.
Os jesuitas são dos anos 50s, com o Colégio Medianeira.
Mantêm o bom nível inaciano de educação, sendo
salientáveis a contribuição de educadores como os
jesuítas Dionísio e Raimundo.]
Por dever de justiça, há que se assinalar a atuação
forte em Curitiba e Região Metropolitana de congregações
que se concentraram com seus padres e irmãos ao atendimento étnico:
os Carlistas, evangelizando e educando os italianos e seus filhos (hoje
atuando na pastoral das migrações em todo o país);
os verbitas, Congregação do Verbo Divino (SVD), com persistente
pastoreio dos de origem polonesa, assim como também fizeram os
vicentinos(ou lazaristas ou Congregação da Missão,
como queiram). Os capuchinhos também são fortes presenças
em núcleos italianos. E até freiras japonesas – de
N.S. de Nagasaki – dedicam-se em Curitiba à colônia
nipônica. Padre Cheng, missionário chinês,além
de pároco em Curitiba, há anos dedica-se ao trabalho de
capelania dos os oriundos da China Continental, Hong Kong e Taiwan residentes
no Paraná. . Assim como os padres basilianos formam religiosos
para o rito ucraniano, em amplo seminário no Batel, enquanto na
Avenida Kennedy, Vila Guaíra,os mesmos ucranianos católicos
têm sua Catedral de São João Batista e a sede da Eparquia
(correspondente a Arquidiocese); a eparquia dirige aquela expressão
católica romana eslava no Brasil. Não confundí-los
com os ucranianos ortodoxos, igreja autocéfala, que tem sua Catedral
de S.Sebastião e bispo localizados no bairro do Barigüi, em
Curitiba também.
Sob a influência desses universos religiosos formam-se em Curitiba
quadros (e alguns com passagem pela Ação Católica),
que teriam muita influência na vida cultural do Estado no século
XX. Dentre eles, o professor Ubaldo Puppi, Roaldo Koehler, José
Maria Munhoz da Rocha, Liguaru do Espírito Santo, Euro Brandão
(foi ministro da Educação), Elias Karam, Benito Parolim,
Leopoldo Scherner, o médico Regines Prochmann e esposa, Alzeli,
o antológico jurista professor Lamartine Correia de Oliveira, Leonor
Demeterco de Oliveira, Ary de Christan, Ruy Demeterco – uma generosa
e discreta presença apoiando obras sociais - , Zilda Arns Neuman
, as professoras Maria José e Maria Josefina Franco Ferreira da
Costa ; professora Natália Franco Souza,outrora animadora e conselheira
da JEC-Curitiba, hoje monja enclausurada no mosteiro Porta Coelli, em
P.Grossa; a doutora em Genética Eleidi Chautard Freire-Maia e seu
recentemente falecido marido, o cientista e ex-presidente honorário
da SBPC, Newton Freire-Maia, duas presenças cristãs no mundo
universitário; assim como a bioquímica, doutora Glacy Zancan,
ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência,
pesquisadora da UFPr; Terezinha Cortes, socióloga, atuando na JUC
dos anos 50s;o médico e professor Ruy Leal; o médico e professor
universitário Nelson Szpeiter , por anos animador do MUC, Movimento
Universitário Cristão; Ruy Lacerda (um ex-alfaiate de formação
cultural altamente superior; Manoel Linhares de Lacerda; no meio radiofônico,
o ex-deputado Ervin Bonkoski popularizou as romarias à Capela de
N.S. de Guadalupe, anualmente reunindo multidões na sua Rádio
Colombo; radialista Vicente Mikosz ;jornalista Elson Faxina, educador
universitário ; dentre os religiosos, a contribuição
ao mundo católico paranaense desses últimos 40 anos é
notável nas pessoas do arcebispo Dom Pedro Fedalto; o arcebispo
de Londrina, Dom Albano Cavallin; os atuais bispos auxiliares de Curitiba,
Dom Sérgio Braschi e Dom Ladislau Biernarski; irmão Prof.
Dr.Clemente Ivo Juliato, reitor da PUC-PR, um sólido representante
de duas instituições multisseculares, a Igreja e a Academia;
irmão José Córdun (Albano), marista; irmão
marista Rafael Martins; Monsenhor Ivo Zanlorenzi, educador universitário;
o bispo fundador da PUC-PR, Dom Jerônimo Mazzarotto, mestre de gerações
de paranaenses.
Ponta Grossa teve por anos um bispo que pode ser contado entre as melhores
vocações políticas de sua época no Estado,
Dom Geraldo Pellanda; na mesma cidade, Dom Antônio Mazzarotto, antecessor
de Pellanda, marcou sua ação por forte pregação
apostólica; Dom João Braz de Aviz, hoje arcebispo de Maringá;
frei Clodovis Boff, Ordem dos Servitas, um sábio da igreja, professor
na PUC-PR e em Roma, à disposição da Academia e formação
de teólogos, em Curitiba; padre médico Gustavo Pereira,
SJ; frei Eduardo, dominicano, biblista reputado; padre e médico
Manuel Escribano, FSF, educador de origem espanhola ;padre Pius Sidgum
(jesuíta, homem das grandes direções espirituais
e retiros); padre Afonso de Santa Cruz, SJ; madre Belém, contemplativa
de N.S. do Sion, filha do lendário comendador Arthur Franco, ela
um farol como conselheira – especialmente nos grupos de influência
comunitária- embora seus 93 anos; a beneditina Madre Chantal, suiça
que irradia sua espiritualidade em seguras orientações espirituais
há 35 anos, agora vivendo em Mandirituba, no Mosteiro do Encontro,
do qual foi fundadora e superiora; padre André Biernarski, todo
voltado para a formação do clero secular, educador; padre
José Amaury de Aviz; padre Diniz Mikosz, filósofo e educador;
os monges trapistas norte-americanos Francisco e Estevão, CSO,
fundadores do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente;
o padre da Ordem dos Servos de Maria, um dos seis conselheiros mundiais
administrativos de sua ordem, Waldir Borges, mestre em Matemática,
que desenvolve impressionante ação social e religiosa no
bairro Alto, em Curitiba;e outros ....
UMA
PIEDADE OBJETIVA
A proximidade do homem do Norte do Paraná dos grandes centros de
peregrinação católicos, como Aparecida, em São
Paulo, foi importante na manutenção de um catolicismo popular,
de piedade e culto toscos. É um catolicismo de massa,de peregrinações,
de procissões,de pagamentos de promessas (Bom Jesus da Cana Verde,
no Norte Velho, a exposição do corpo de santo Inocêncio,
mártir, em S.Antônio da Platina ). Já os gaúchos
do Sudoeste desenvolveram um trabalho mais consistente de propagação
da fé, com o apoio de congregações e ordens, como
os saletinos, embora cultivando notórias preferências em
devoções populares. É o caso das devoções
marianas sob a invocação da Senhora do Caravaggio, Senhora
de Salete.
E - mais fruto de iniciativa “privada”, sem muita interferência
eclesial – cresce a devoção católica à
vida e obra do padre jesuíta João Batista Reus, herança
claramente do Rio Grande do Sul. A causa de beatificação
de Padre Reus se arrasta há dezenas de anos no Vaticano, mas em
boa parte do Sul brasileiro seu nome é exemplo de santo canonizada
pelo povo. Tem repercussão em todos os níveis sociais e
culturais, com grande número de propagadores de suas virtudes cristãs.
Nada disso, no entanto, tem sido capaz de constituir um dique à
grande evasão de fiéis que a Igreja Católica passou
a experimentar também no Paraná, ao se consumar o processo
de “perda de identidade”, com a transferência do homem
rural para os centros onde ele começa a deixar claras suas aspirações
de homem urbano. Uma assimilação que envolveria até
nova identidade espiritual.
É nos grandes centros – e também bombardeado pela
maciça emissão de programas de rádio e televisão
evangélicos – que ele começa a se identificar com
o neopentecostalismo das grandes manifestações e dos cultos
contra os chamados encostos e de libertação. Não
sem antes passar, em bom número, por experiências em igrejas
históricas. O que está dentro da mobilidade religiosa criada.Envolve-se
com as correntes de oração para prosperidade, aceita sob
novas designações símbolos como os do óleo
santo, da água santificada pela oração. Aceita e
reclama seus direitos aos bens, às riquezas, à vida capitalista
que lhe são revelados pela Teologia da Prosperidade (TP). Trata-se
de uma teologia de resultados mais imediatos – acredita -, mas que,
como na relação católica, igualmente exige contrapartidas.
No caso neopentecostal, as “ofertas para Jesus”e o dízimo
são realidades bem sucedidas, explicando a boa infra-estrutura
eclesial e empresarial de certas igrejas.
Curioso
de se observar: no reconhecimento aos demônios e mazelas que diz
encontrar nos cultos afro-brasileiros, o neopentecostalismo acaba avalizando
os dogmas do sincretismo afro. Caso dos chamados encostos e maus olhados,
sem falar nos mil nomes de Satanás e espíritos malignos.
O que, também é verdade, está carregado o catolicismo
popular e, por que não dizer, também a Renovação
Carismática?.
PERDEM TAMBÉM OS PROTESTANTES
Os pentecostais/ neopentecostais não são filhos diretos
da Reforma de Lutero. São filhos da Azuza Street, a rua da Los
Angeles do começo do século passado, na qual, em 1906 nasceu
o pentecostalismo como primeira instituição eclesiástica,
obra do pastor negro Joseph Seymour.
São os pentecostais, formando um monumental bloco, a grande novidade
do cristianismo dos dias atuais. Hoje seriam os pentecostais em torno
500 milhões, no mundo inteiro. Para Harvey Cox, um dos mais respeitados
e conhecidos teólogos protestantes, nos pentecostais se vislumbraria
o crescimento real do cristianismo, para um futuro imediato. Quer dizer:
devem crescer mais, quem sabe, até tornarem-se majoritários
dentre os cristãos? Tudo indica que sim, sugere o teólogo.
Uma barreira ao fundamentalismo islâmico, por sua capacidade de
envolver espírito e o corpo do fiel? De novo, há quem veja,
nisto tudo, mesmo que indiretamente, de forma sutil, o dedo da Christian
Coalition e da Moral Majority, de que são paradigmáticos
alguns secretários do Governo Bush. Visões conspiratórias,
dirão muitos. Tudo é possível. Só que o fundamentalismo
evangélico de hoje dos norte-americanos centra-se em grande temas
religiosos mas de repercussão política (escola religiosa,
oposição às liberdades trazidas pelas mudanças
de 1968, tais como a liberação sexual, a livre expressão
do mundo gay, a legalização do aborto) e admite trabalhar
junto com católicos e hebreus.
Numa de suas obras referenciais –“ Fire from Heaven”,
ainda não encontrável em português -, lançada
no começo de 1994, o teólogo acima citado vai a fundo no
exame da questão. (Ao contrário de outros autores, Fox coloca
em Joseph Seymour, um pregador das relações interraciais,
o início do pentecostalismo como instituição, e não
com Charles Parham. Racista, Parham teria dificultado a participação
de Seymour no primeiro curso a analisar a experiência com o pentecostalismo
tida por Parham , e realizado em Topeka, Kansas, em 1901).
Harvey Fox tem encontros com personalidades do pentecostalismo mundial,
como a ex-governadora e hoje ministra Benedita da Silva, depois de subir
morros e freqüentar templos em favelas cariocas. Nem Lula (que é
católico apascentado por frei Betto, Dom Tomás Balduino,
Dom Cláudio Humes e, de certa forma, por Dom Paulo Arns) escapa
dessa ampla investigação da alma brasileira.
Se o pentecostalismo, fundado sob raízes metodistas, algumas marcas
do “spiritual,” reminiscências do quietismo e outras
manifestações identificadas por “murmúrios
do Espírito”, é uma nova catarse, há muito
a questionar. Como também pode se perguntar se é uma religião
de resultados mais presentes do que os santinhos, as promessas e os sacrifícios
católicos. Seria cedo para um “magister dixit” com
suas entonações sapienciais sobre matéria complexa.
Mas o que se vislumbra , tal como ocorre nos Estados Unidos, é
que as igrejas tradicionais são as que mais perdem com o chamado
avanço pentecostal/neopentecostal. O fogo do Espírito sopra
tão forte que as baixas nas igrejas históricas no Paraná
ficam quase nos mesmos termos nacionais: são muito grandes.
Para muitas igrejas protestantes históricas, a resposta teria sido
a adesão ao pentecostalismo, introduzindo-o em suas fileiras. Una-se
ao inimigo, se não pode vencê-lo. Assim, nasce dentro das
chamadas históricas, a linha das “avivadas ou renovadas”,
com forte concessão ao popular pentecostal e perda de sinais que
tanto as identificaram. O Paraná não é exceção.
Os reformados históricos, sobretudo, se expressaram no Paraná
através de significativas lideranças protestantes, como
o reverendo e juiz federal Sátilas do Amaral Camargo (presbiteriano
independente); Rev.Oswaldo Emerich (ainda um orador sacro que encanta
congregações nos seus oitenta e tantos anos); a família
Lenz Cezar, que gerou o Colégio Belmiro César e o desembargador
Henrique Lenz Cezar; o médico Daniel Egg; o deputado Olavo Garcia;
pastor Nilson do Amaral Fanini; a família Losso (embora adventistas
do sétimo dia, os Losso sempre tiveram nos arraial evangélico
o seu fortim), sem contar outros protestantes de expressão mais
recente, como o solidamente bem preparado Gernote Kirinus, outrora pastor
luterano, que hauriu nas fontes as bases da Teologia da Libertação
; o já morto rev.Elias Abrahão, ex-deputado federal; reverendo
Jean Carlos Seletti(presbiteriano independente) , um especialista em bioética;o
hoje deputado federal André Zakarow (batista), com marcante presença
na área social, gerindo a Faculdade Evangélica do Paraná
e Hospital Evangélico de Curitiba; pastor Pimentel de Carvalho
(talvez a mais forte liderança evangélica do PR, octogenário,
homem da Assembléia), os políticos da família Iensen,
etc.
É preciso ainda registrar, num breve parênteses: há
apenas uma grande novidade política nas hostes católicas
do Estado: a eleição, surpreendente, já que não
aparecia entre os mais cotados, para senador do Paraná, em 2002,
do ex-deputado Flávio Arns, pelo PT. Sua vitória pode ser
creditada a seu trabalho incessante na área social, há muitos
anos, ao apoio das associações de pais e amigos de excepcionais
(APAEs), a inúmeras obras sociais que com ele atuam, e a muitos
setores da Igreja Católica. Transita com facilidade em todas as
alas católicas e não se pode esquecer o peso da influência
da família Arns e o respaldo (indireto, naturalmente) da Pastoral
da Criança,com seus milhares de mensageiros voluntários.
Sem contar, por último, que esse novo senador, fruto da espiritualidade
franciscana, é um ser ecumênico por excelência.
Em
resumo: o mapa religioso indica crescimento continuado dos pentecostais/neopentecostais.
Perdem os católicos e as igrejss históricas. Das manifestações
afro-brasileiras, como a umbanda, pouco há a dizer. O umbandismo
foi sempre meio marginal, em suas diversas variáveis, no Paraná:
quer dizer, um culto paralelo, meio às escondidas, pouco aceito
socialmente, embora sua boa contribuição para a construção
do ecumenismo religioso..
É útil anotar: os católicos seriam 80% da população
do Paraná. Há estados notavelmente evangélicos, como
o Rio de Janeiro, onde eles seriam só 51% da população.
Os umbandistas aparecem com traços nas estatística da fé
dos paranaenses.
AS
RESPOSTAS DE QUEM ESTÁ PERDENDO
Com
persistência, fortes setores da Igreja Católica insistiram
por muito anos na ênfase social, apresentando as CEBs (comunidades
eclesiais de base) como resposta para as necessidades do homem brasileiro,
mais claramente a partir dos anos 70s, num de seus enfrentamentos à
ditadura militar, e por acreditar serem sobretudo materiais e de justiça
social as carências da alma nacional. Assim, o Brasil pulou de um
catolicismo tridentino, romanizado, vertical, até repressivo sob
muitos aspectos, para uma espécie de ruptura com o sagrado classicamente
reconhecido até então (o heilig dos alemães, o sanctus
dos latinos, o hagios dos gregos). Não só os santos distanciaram-se
dos altares (logo depois do Concílio, em 1965), assim como o canto
gregoriano, o latim e o ritual que formara gerações nos
ritos romanos tradicionais começaram a dar lugar a um abrasileiramento
da Igreja. A ordem seria a chamada inculturação. Tudo em
busca de falar a linguagem do povo, assumindo suas expressões culturais.
Com ênfase, ao mesmo tempo, nas questões sociais. A Igreja,
assim, acabaria adotando (os estudiosos sabem disso) alguns dos padrões
de expressão religiosa que tinham , nos anos 40s, gerado a Igreja
Católica Apostólica Brasileira (ICAB), pelo bispo católico
romano Dom Carlos Duarte da Costa, o chamado bispo de Maura, que fôra
bispo de Botucatu.
A ICAB não teria mais do que 500 mil adeptos no Brasil e umas 20
dioceses. Na ICAB do PR destaca-se o padre Antônio Duarte,ex-seminarista
católico romano dos tradicionalistas de Campos, RJ; entre os episcopais
anglicanos, boa contribuição ao ecumenismo tem dado o reverendo
Calvani, teólogo respeitado , hoje atuando em Londrina;
A solução das CEBs, no catolicismo romano, foi entronizada
não sem poucas resistências (vide o caso dos tradicionalistas
de Campos, reconhecidos em seus direitos pelo Vaticano em 2002, ganhando
status próprio (Administração Apostólica S.João
Maria Vianney e bispo, Dom Licínio Rangel, morto este ano, e substituído
por Dom Fernando Rifan).
Mas com poucos anos de existência , encontraram as CEBs barreiras
na cúria romana, pronunciamentos do papa questionaram a Teologia
da Libertação colocando-a sob uma espécie de silêncio
obsequioso e, por fim, ocorreu seu esvaziamento pela hierarquia (os bispos).
Leonardo Boff, todos se lembram, foi punido, perdeu as prerrogativas de
teólogo católico, deixou a batina. Hoje propaga uma religiosidade
holística.
Assim, se para fazer frente ao “perigo”neopentecostal, as
igrejas históricas deram como resposta o “avivamento”-
levando o pentecostalismo para dentro delas - no catolicismo as CEBs,
como “perigo”, foram simplesmente esvaziadas. Perderam o “placet”
dos detentores do sagrado , oficiosamente, e tiveram pouca resposta do
ponto de vista numérico. Embora elas tenham trabalhado fortemente.
É de todos conhecida a ação de setores católicos
ditos “engajados”, trabalhando nas Comissões pastorais
da Terra, Conselho Indigenista Missionário e com o MST. Hoje, ao
lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, está
aquele que é um dos mais ardorosos defensores do que resta das
comunidades eclesiais de base , o diácono da Ordem dos Pregadores
(dominicanos) frei Betto. Ele é assessor especial do presidente,
com direito a gabinete no Planalto e muita acústica junto chefe(
Quando esteve a convite do Ciência e Fé, em Curitiba, em
95, deu uma conferência ao final da qual negou enfaticamente ligação
formal com o PT) . Como também ardoroso defensor das CEBs é
o bem articulado (grande vocação política) bispo
de Caxias, RJ, Dom Mauro Morelli, membro do Conselho de Segurança
Alimentar da República, que aqui já fez conferências
para instituições como o Instituto Ciência e Fé,
em 2001.
De novo, o bom observador verá , depois, a presença de lideranças
religiosas norte-americanas influenciando – mesmo que indiretamente
- o mundo do sagrado brasileiro. Isto ocorre quando chega, no começo
dos anos 70s, a Renovação Carismática Católica,
(RCC), o chamado pentecostalismo católico. Nasceu nos EUA, na Universidade
de Notre Dame, com universitários em busca de uma experiência
com o Espírito Santo, falar em línguas e recorrer a todo
o cabedal de bênçãos experimentado pelos pentecostais.
No fundo, a inspiração de David Willkerson e seu livro “A
Cruz e o Punhal”( ele um pastor pentecostal), livro largamente aceito
pelos católicos. A RCC desembarca no Brasil com o hoje ancião
jesuíta padre Haroldo Rahm, que vive em Campinas, agora preocupado
em tratar de dependentes químicos e em ensinar auto-ajuda.
Willkerson em 1971 dizia em alto tom que o pentecostalismo católico
não prosperaria, seria reprimido pela Igreja. Enganou-se, deixou
de avaliar as liberdades geradas pelo Vaticano II, dentre elas, o livre
acesso às Escrituras.
TLC,
CURSILHOS, RCC
Antes da onda RCC – hoje seriam uns 200 mil homens e mulheres sob
a influência formal e indireta da Renovação, no Paraná,
60 mil em Curitiba -, o atlas do pluralismo religioso e da luta católica
por acompanhar os reclamos da alma do brasileiro teve outros pontos salientes.
Havia um tempo, nos anos 70s, particularmente (em pleno regime autoritário)
que, brincando, os mais bem humorados diziam: “Não sei se
faço a ADESG ou o Cursilho, por primeiro...”
ADESG, o núcleo local da Escola Superior de Guerra, no caso, mantinha
cursos sobre a realidade brasileira. A inserção adesguiana
visava a atender – quase sempre – aos olhares castrenses,
donos dos raios, chuvas e trovoadas; cursilho,um movimento católico
formado na Espanha que chegara mexendo profundamente com o vazio espiritual
e a dormência religiosa de católicos jovens e dos de meia
idade ( “Deuses Dançantes”é o livro de padre
brasileiro que primeiro analisa o fenômeno Cursilho no Brasil)..
Cresceu tão rapidamente no Paraná que em poucos meses o
Cursilho da Cristandade ergueu casa de retiros para centenas de almas,
em Santa Cândida. E havia filas, listas de espera de aspirantes
a cursilhistas, coisa que exigia até padrinhos fortes. Um dos mais
poderosos era o hábil político e caráter sem máculas,
professor Guilherme Lacerda Braga Sobrinho, irmão de Ney Braga,
e seu braço mais discreto e eficiente na faina de aglutinar pessoas
e talentos. Também foi importante a atuação do político
e professor universitário, ex-secretário de Planejamento
de Ney Braga, Véspero Mendes no Cursilho.
O cursilho foi controlado em Curitiba, de início, por uma elite
econômica e política poderosíssima. Só quando
o movimento foi fraquejando, deixando de ser novidade, entram diretores
de linhas populares, e hoje vive de glórias do passado, no Paraná.
Quase nada mais que isso.
Mas além do Cursilho da Cristandade, houve outros caminhos católicos
de aglutinar seus crentes e conquistar novos no Paraná. Alguns,
como o Movimento de Irmãos, permanecem fortes; outros, quase desapareceram,
como as Equipes de Nossa Senhora (vindas dos anos 60s, fortemente influenciadas
pelo então padre Lucas Moreira Neves, depois cardeal primaz do
Brasil), Movimento de Emaús, TLC, Movimento Familiar Cristão.
O TLC, Treinamento de Liderança Cristã, de que já
pouco se ouve falar, formou lideranças no Paraná todo. Um
desses homens formados pelo TLC foi o hoje deputado Luiz Carlos Martins,
dono da audiência de rádio na Região Metropolitana
de Curitiba, ex-primeiro secretário da Assembléia. Sobraram
em Luiz as impressões digitais do TLC: capacidade de comunicação,
de falar a linguagem do povo, ouvindo-o e conferindo importância
aos seus reclamos, materiais e/ou espirituais. É uma voz aceita
sem limitações de igrejas.
Nos quadros da Renovação Carismática Católica
(que estaria em plena queda numérica em todo o Brasil) tem a importância
o ex-deputado estadual Emerson Nerone (PT). Em 2002, desligado do PT,
pertencendo a um partido denominado de Humanista, foi vice da chapa petista
encabeçada pelo padre Roque Zimmermann ao Governo. A Igreja Católica,na
verdade, teve sempre forte influência em setores do PT do Paraná,
de que são exemplo o prefeito Nedson Micheletti, de Londrina; o
chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, que em Curitiba
comandou a Pastoral Operária por muitos anos.
Também é salientável a liderança que tem exercido
na RCC do Paraná um jovem, 35, casado e pai de dois filhos, estudante
de Teologia no Studium Theologicum e agora na PUC-PR, Otto Winck. Ele
é bom pregador leigo, sólida formação humanística
e teológica, um quadro renovador entre os carismáticos.
Mas se pergunta: para aonde se encaminha a renovação da
RCC, que hoje estaria “estabilizada” numericamente? Na RCC
as exceções em crescimento seriam as linhas dos padres Marcelo
Rossi e Jônas Abib. Este, originário de Lençóis
Paulista, SP, vai ganhando espaço com sua Comunidade Canção
Nova e a televisão do mesmo nome com retransmissores em dezenas
de cidades e presente em tvs por assinatura. Rossi, por seu turno, continua
contabilizando audiência no rádio e tv do país, agora
editando livros de largo consumo de massa, publicados em Curitiba.
O grande público pouco deve saber do Movimento Neo- Catecumenal,
fundado por Kiko Arguello, espanhol, trabalho também presente em
algumas paróquias paranaenses, e cujas exigências de envolvimento
com sua realidade como instituição têm causado muitas
fricções em dioceses do mundo todo. Na Inglaterra, o Neo-Catecumenal
teria “tomado de assalto” algumas paróquias, virtualmente
sob seu controle. Quase uma igreja paralela. Tem um grande seminário
internacional em Brasília e uma presença discreta em todo
o Brasil católico. Já os discípulos da octogenária
italiana Chiara Lubichi – os focolares - vivem também no
Paraná um pouco da incipiente experiência de Economia de
Comunhão (expressivo exemplo é o da família de Armando
Tortelli, e a empresa Pró-Diet Farmacêutica, em Curitiba).
Trata-se de uma nova proposta de ser cristão, na produção
e divisão dos bens e da fé. No país têm em
SP um grande centro de encontros, uma chamada Mariápolis. São
conhecidos em todo mundo pela alegria com que levam a mensagem católica
entre os jovens, em shows, espetáculos. Mas depois vão exigir
dos chamados consagrados uma absoluta devoção. Seriam, segundo
os analistas das mudanças do mapa católico, juntamente com
o pessoal do Kiko, uma maneira mais ou menos integrista que reforçar
o espaço do sagrado dentro da Igreja. No Paraná há
profissionais liberais (médicos, advogados, dentistas, engenheiros,
etc.) que ostentam em seus consultórios e escritórios mensagens
a identificá-los com a Economia de Comunhão. Já o
movimento Comunhão e Libertação está presente
no Paraná só através da circulação
de sua revista Trinta Dias. O CL seria, segundo línguas ferinas,
“a esquerda da direita católica”, e é considerado
“ïntelectualizado”nas suas abordagens da fé...
Uma tentativa de perpetuar o espírito da democracia cristã
à italiana, sob a batuta do senador Giulianni Andreotti.
Uma boa convivência entre o trabalho dito de base (CEBs, voltado
ao social de seus paroquianos) e a dimensão espiritual é
desenvolvida pela congregação dos Missionários de
Damasco (damascenos), fundada em Curitiba pelo padre italiano Giovanni
Rocchia (João Rocha), nos anos 70s. Dessa incipiente congregação
nota-se a labuta persistente de três padres jovens – Deonilson
Aparecido Rossi, Marcondes e João Batista Dinamarques. Atuam fortemente
no Boqueirão e em Guarapuava; têm boa formação
acadêmica e comprovada vivência com o dia-a- dia de suas comunidades,
instaladas nas periferias das cidades. Trabalham com movimentos católicos
dos chamados meios populares.
Forte inserção nos meios populares tem também o italiano
( (originário da Diocese de Cuneo, como João Rocchia) padre
Miguel Ângelo Ramero, que atua com CEBs no Xaxim e Boqueirão.
Por sinal, o Boqueirão foi grande centro de formação
política e de feliz casamento entre setores católicos e
PT, nos anos 60 a 80s, com relevância para o trabalho comunitário
no centro social que leva o nome de Irmã Araújo, freira
já morta, da Congregação Vicentina (Filhas da Caridade)..
Qualquer referência à ação social de grupos
católicos nos anos do regime militar – e de oposição
a ele – tem que levar em conta o mosteiro que os beneditinos franceses
mantiveram até o final dos anos 70s em fazenda na Região
Metropolitana, rodovia Curitiba-Paranaguá. Era um centro espiritual
liderado pelo ex-soldado da II Guerra, père Felipe. O mosteiro
mudou-se para Goiás Velho onde Felipe morreu em 1995, fiel à
sua vocação e às suas crenças políticas.
Curiosamente, o mosteiro beneditino de Curitiba abrigou Gerard Calvet,
padre de espírito integrista que acabaria rompendo com seus irmãos
beneditinos, rompendo também com a Igreja e fundando, com sua grande
fortuna familiar (vinícola Calvet),um mosteiro tridentino, na França.
Foi há poucos anos reintegrado à Igreja, desvinculando-se
do movimento de Dom Marcel Lefebvre, a Sociedade São Pio X,e passando
a vincular-se à Sociedade Sacerdotal São Pedro, criada pela
Santa Sé via “Ecclesia Dei”, para abrigar tradicionalistas
que não dispensam a missa de Pio V . Em sua biografia consta ter
fundado o também mosteiro beneditino tradicionalista (não
reconhecido por Roma), em Nova Friburgo, RJ, o Mosteiro da Santa Cruz,
do qual está desvinculado.
DISCRETOS,
KARDECISTAS CENTRAM-SE NA CARIDADE
Qualquer análise das crenças do paranaense tem que registrar
a presença dos kardecistas, os adeptos da doutrina de Allan Kardec.
Curitiba é sede da Federação Espírita do Paraná.
A ela filiam-se centenas e centenas de centros espíritas do Estado.
A doutrina centra-se na prática da caridade como dogma, envolve-se
toda na chamada reencarnação e faz trabalhos ditos de mesa,
ou sessões de desobsessões. Mantém em Curitiba o
Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, também um amplo albergue
noturno que abriga os passantes sem onde reclinar a cabeça, e é
dona de uma dos melhores auditórios da cidade. O neurologista Alexandre
Sech é nome representativo da doutrina espírita.
O professor Ulisséa dirige as Faculdades Reunidas Espírita
Bezerra de Menezes, no Barigüi. As faculdades inauguram no Brasil
a fase dos cursos superiores de espiritismo, reconhecidos pelo MEC.
Não se fala em kardecismo no Paraná esquecendo a família
Ghignone, cujo patriarca dos livreiros foi o grande propagador da mensagem
de Kardec desde o início do século XX.
A comunidade judaica no Paraná é pequena (seis mil pessoas?)
, mas influente. Um cristão, professor do Studium Theologicum,
com livros sobre festas judaicas publicado pelas Paulinas, ex-professor
do Colégio Sion e com cursos sobre escrituras judaicas feitos em
Jerusalém, Antônio Carlos Costa Coelho é um bom exemplo
do trabalho de diálogo religioso. Enfronhadíssimo na comunidade
judaica, ele e o rabino Sami (Curitiba) são fontes de referência
sobre a religião dos hebreus aqui. Antes, teve marcante passagem
pela Capital o rabino argentino Simon Mogulievski.
O mundo árabe tem no professor da PUC-PR, doutor em Filosofia,
Jamil Skandar, o melhor exemplo de formação acadêmica
diferenciada e liderança comunitária. Filho de libaneses,
ele preside a Sociedade Mulçumana do Paraná e é muito
respeitado no mundo acadêmico. É tradutor do filósofo
Avicena; Padre Antônio Warda, já morto, foi por anos o vigário
da Igreja Católica Ortosoxa Antioquiana, tendo como padroeiro local
São Jorge (sua origem remonta a textos do Novo Testamento), que
em Curitiba atende à comunidade cristã de árabes
e seus descendentes.
AS ELITES: COM QUEM FICAM?
Impossível sondar a “anima”do brasileiro – e,
no caso, do paranaense – sem se aprofundar na religião majoritária.
Assim, neste trabalhar com os quês e porquês, com olhos no
passado, vivendo o presente e fazendo até alguma futurologia, é
possível vislumbrar focos bem claros de resistências aos
chamados modernismos. Tudo de acordo e dentro dos cânones católicos.
Um exemplo é a Prelazia Particular Opus Dei. Tem seu fortim paranaense
em Curitiba e um núcleo importante no interior, pelo menos, em
Londrina. Reúne homens e mulheres (em casas e grupos absolutamente
separados) que facilmente são identificados como representantes
de uma elite cultural/universitária e econômica. Seus quadros
são arregimentados por meio de persistentes trabalhos de conquista
“a alma por alma”, na Universidade e no empresariado. Preferencialmente.
Em São Paulo, há também núcleos exclusivamente
de operários e centros femininos voltados para a formação
de empregadas domésticas. Padre Manoel Correa, um ex-cardiologista
espanhol, e o economista ítalo-paulistano Eugênio Zamperlini
foram as alavancas , no início dos anos 70s - para estabelecer
o apostolado da Opus Dei no Paraná, com casa inicial na Rua Saldanha
Marinho.
A Opus Dei, gerada por monsenhor Ecrivá, na Espanha, centra sua
prática na valorização da vida secular, que deve
ser o melhor caminho – diz – para a santificação
do cristão. Dentro da organização que arrebanha notáveis
quadros culturais e profissionais – “Totus Tuus”, assim
ela saúda o Papa João Paulo II -, cumprem-se as determinações
do Vaticano II. Mas prevalece, indicam os olhares mais atentos, uma visão
de espiritualidade mais vertical, sem engajamentos sociais, sem estímulos
a confrontos que possam a sugerir lutas de classe. Seus padres estão
reunidos numa fraternidade. A ordenação deles é escolha
exclusiva da instituição que aponta, dentre seus quadros
,celibatários que deverão ir estudar em Navarra e Roma,
para receber as ordens. A condição básica é
de que cada futuro sacerdote tenha doutorado em alguma área do
conhecimento.
Por algum motivo que ainda não conseguiu entender, boa parte dos
padres da Opus Deis é formada em Ciências Exatas ou Medicina.
Além da Opus Dei, há outros movimentos fortes no catolicismo
dos grandes centros paranaenses, reunindo ,em torno de si, massa crítica
voltada para o cultivo acentuado da dimensão vertical(espiritual),
ao contrário da tendência dita social. Assim, no bairro de
Santa Felicidade vai-se formando em Curitiba um núcleo vigorosíssimo
em torno do movimento Regnum Christi. Patrocinado pelos Legionários
de Cristo, congregação fundada por padre Marcial Maciel,
no México, o movimento envolve leigos solteiros e casados, sob
a orientação dos Legionários, que no Paraná
se aglutinam, num moderno complexo educacional para formação
de seus quadros de primeiro e segundo graus de ensino. São cerca
de 150 seminaristas. É um catolicismo fiel ao papa, sobretudo,
que prega o envolvimento com a sociedade abrangente, no chamado apostolado
católico. Já é dono (ala feminina) do Colégio
Everest, escola bilíngüe (inglês/português) cujo
projeto, em fase de implantação final fará do local
um centro de educação católica moderníssimo.
Os Legionários de Cristo formam a congregação religiosa
que proporcionalmente mais cresceu nos últimos dez anos, na Igreja
Católica.Os LC seriam, segundo o olho de aguçados analistas,
bons exemplares do que denominam de catolicismo de “retorno”:
estão dentro da Igreja, mas numa linha conservadora. Reação
a exageros cometidos em desacordo com a doutrina da Igreja, diriam tais
observadores. Ficariam no meio – “ In medio stat virtus”-
do fogo cruzado entre ultraconservadores e ditos progressistas.
Novo também, embora venha do começo dos anos 60s, o movimento
Arautos do Evangelho está aqui, conquistando suas fatias de espaço,
nas famílias e jovens. Foi o primeiro movimento leigo católico
a ganhar o título “De Direito Pontifício”, dado
pelo Vaticano neste milênio. Com bandas, orquestras, rezas do rosário,
estudos da Bíblia, partidas de futebol, contatos com escolares,
e muita fidelidade ao trono de Pedro, estabeleceu-se com casa em Curitiba
no bairro de Santo Inácio. Já está presente em 40
países e sai do anonimato para freqüentar até colunas
sociais. Dias atrás, um granfino carioca quatrocentão foi
saudado por Hildegard Angel, de O Globo, porque recebera o hábito
de irmão dos Arautos do Evangelho...
Enfim, o caminho do divino é amplo e vai em novas direções.
Alguns parece que não caíram ainda no gosto dos brasileiros
de muitos matizes, como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias, os mórmons. Mesmo sem conseguir adesões significativas,
a igreja aposta no futuro, construindo suas paróquias (ou ramos,
como eles chamam), tendo até um templo em São Paulo, um
dos raros lugares no mundo onde eles casam para a eternidade e onde são
feitos batismos pelos mortos. Têm uma teologia que requer estudos
continuados da Bíblia (e do Livro de Mórmon) e os jovens
são estimulados a trabalhar como missionários, sempre dois
a dois. Até o final dos 50s os negros e índios não
tinham acesso ao sacerdócio mórmon.Começaram no Brasil
no final dos anos 30s, em Pomerode, Santa Catarina.
Os adventistas do sétimo dia – os chamados sabatistas –
têm forte presença na educação de primeiro
e segundo graus, em todo Estado. A igreja insere-se entre as centralizadoras,
com clero regular sujeito a hierarcas. Têm um acentuado trabalho
antitabagista e pró-temperança em geral, com base na doutrina
da senhora G.White. As testemunhas de Jeovah são caracterizadas
pelo proselitismo de porta em porta sendo numericamente pouco expressivo,
até, é possível, pelas limitações que
impõem a seus fieis: não servem às forças
armas, não se sujeitam a transfusões de sangue, não
juram à bandeira do país... Têm seus “salões
do reino”em várias cidades. Centram-se numa teologia milenarista.
Diante de tantas realidades pluralistas, me disse um interlocutor, padre
diocesano católico, professor universitário, e também
um curioso sobre as estatísticas celestes “ A Igreja está
esperneando, não perdeu a luta. Às vezes tenho a impressão
que estamos num ringue de vale-tudo...”
Vale-tudo, esclareça-se, é o nome daquela luta universalizada
pela família Gracie e na qual os brasileiros são sempre
vencedores.
Seguindo
tal perspectiva, poder-se-ia perguntar se reforços como os trazidos
pelo padre Marcelo Rossi, padre de reputação ilibada, “one
man show”, não estariam sendo socorro romano a essa reação
católica?
Padre Marcelo não é resultado de caso pensado, como acreditam
alguns. Nem de geração espontânea: ele faz hoje o
que fez nos anos 50/60s frei José Mojica, antigo astro de cinema
que virou frade franciscano e arrebatador de platéias, apesar do
surrado burel. Repete o que vem fazendo há trinta anos o padre
Zezinho, SCJ. A diferença é que Marcelo é moço,
jovial, ex-professor de educação física. Mas fraco
de voz. Sobram-lhe charme e boa articulação verbal, as câmaras
da tv e um amplo mercado ,antes reprimido, a consumir seus CDs.
Conquistar multidões é tarefa de que se ocupam multidões
de colegas de pe.Marcelo. Gente que, com defeitos e alguns traços
de santidade, solidificou no Brasil - juntamente com uma legião
de freiras e irmãos consagrados - a mais bem sucedida multinacional
da fé, com 2000 anos de experiência. Uma instituição
monárquica que aglutina teologia da libertação, integristas,
CEBs, exorcistas, tridentinos, carismáticos.... E na qual o “Roma
locuta, causa finita” foi e será sempre a palavra de ordem.
Apesar dos “aggiornamentos”. Pois nela a determinação
a prevalecer é a da unidade. Até na diversidade, como recomenda
Santo Agostinho:“ In necessariis unitas, in dubiis libertas, in
omnibus caritas” ( No imprescindível unidade;na dúvida
a liberdade; em tudo o amor).
Ou seria`Roma – como apregoam tantos - uma instituição
cada vez mais dividida entre as coisas “do mundo”e as do “reino”?
Tenho
para comigo que a Igreja de João Paulo II está muito atenta
– e tenderá a assim continuar - àquela advertência
de São Bernardo de Claraval ao papa de sua época: “Não
acredites que és o sucessor de Constantino; não és
sucessor de Constantino, mas de Pedro. Teu livro fundamental não
é o Código Justiniano, mas a Sagrada Escritura”.
Palavras que têm sido repetidas à exaustão pelo onipresente
cardeal Ratzinger.
“Roma locuta”, pois...
Publicado
no Caderno de Idéias, Travessa dos Editores, dezembro de 2003
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