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Belmiro Valverde Jobim Castor é professor universitário e diretor do Instituto Ciência e Fé.

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Janeiro de 2004

Opinião
Heróis do carnaval

Belmiro Valverde


A esta altura é razoavelmente seguro afirmar que o carnaval acabou em Salvador, Recife e cercanias. Digo "razoavelmente" porque não quero correr riscos com Carlinhos Brown, Chiclete com Banana, Daniela Mercury, Bacalhau com Batata e outros, que já empurraram o início da Quaresma para a quinta-feira e prosseguem decididos a fazê-la mudar de semana.

O carnaval, como fenômeno social, já foi exaustivamente analisado, e Roberto DaMatta, em cuja obra o título deste texto é inspirado, já chamou a atenção para o caráter unificador da festa, um dos poucos espaços verdadeiramente igualitários da sociedade brasileira. Ricos e pobres, brancos e negros, letrados e incultos, poderosos e despossuídos eliminam as barreiras sociais por horas ou dias na celebração da festa. Independentemente de condição econômica, social, cultural ou hierárquica, todos os desfilantes de uma escola de samba, bloco ou trio elétrico obedecem às ordens dos "diretores" que dão broncas homéricas nos que erram o ritmo ou atrasam o desfile, mesmo que os alvos da bronca sejam seus patrões na vida real durante os outros 360 dias do ano. Como manifestação cênica, restará sempre presente a percepção de que a festa foi totalmente descaracterizada nos últimos anos, com a consagração do grande espetáculo visual digno dos melhores cenógrafos de Las Vegas ou Hollywood e o ofuscamento da comemoração popular propriamente dita, o que é verdade.

Em termos de organização, o carnaval brasileiro é algo absolutamente espantoso. Num país em que a bagunça é a tônica, as escolas de samba, os blocos e os trios elétricos são incrivelmente bem-sucedidos no que fazem apesar da enorme complicação logística que enfrentam. São quatro, cinco mil pessoas fantasiadas, organizadas, cantando e evoluindo em conjunto, observando horários rígidos sem perder a espontaneidade, carros alegóricos gigantescos movidos a feijão (pois são impedidos de ter motores), com traquitanas complicadíssimas que giram, abrem, fecham e se movem em sincronia. Curiosamente, a parte mais difícil dessa organização está a cabo dos menos letrados, que dirigem e organizam as escolas, constroem as alegorias e carros, treinam a bateria, etc. A cargo dos letrados fica a parte aparentemente mais fácil, que é organizar a venda dos ingressos para os desfiles, o que não deve ser tão fácil assim, pois a venda invariavelmente resulta em filas que varam noites, desinformação, desorganização e pancadarias entre a polícia e os candidatos a espectadores.

Agora começa a ser percebida a dimensão econômica do carnaval, que (se estima) movimenta diretamente algo como 1 bilhão de reais e gera mais de 120 mil empregos diretos, muitos dos quais permanentes, apesar da sazonalidade da festa, para não falar nos bilhões de reais e milhares de postos de trabalho na hotelaria e na indústria da alimentação estimuladas por ele. E assim, em um ambiente em que a atividade econômica está estagnada há vários anos e os empregos rareiam, o Brasil real encontra um mínimo de condições de sobrevivência e de sustentação.

O fenômeno do carnaval deve, no entanto, inspirar algumas reflexões na medida em que a maior parte das atividades produtivas ligadas a ele ocorre na informalidade, à margem das obrigações fiscais e trabalhistas incorridas pelos que, bovina e obedientemente, se submetem às leis. Pode-se perguntar: se o restante da atividade produtiva fosse desonerada da enorme carga fiscal, trabalhista e previdenciária que carrega, o Brasil não encontraria outros espaços de geração de emprego e renda tão importantes quanto o carnaval e necessitando de tão pouco investimento público quanto ele?

Pode-se também perguntar: se uma população de iletrados, que em média passam quatro anos e meio nas escolas, é capaz de conceber e executar espetáculos de grandiosidade cênica e de complexidade logística que fazem a Marcha Triunfal da Aída parecer um desfile de circo de interior, de que seria capaz essa mesma população se lhe fosse dado acesso universal à educação de qualidade?

Mas há também uma questão perturbadora: um país que tem 40% da economia na informalidade, em que 53% da população trabalha precariamente, sem carteira assinada e sem qualquer garantia social, pode sobreviver como sociedade moderna no século da globalização dos produtos e dos sistemas produtivos, do intercâmbio livre de indivíduos e de profissões entre países, mantendo estruturas sociais tão precárias e arcaicas? Não estamos a caminho de nos transformar em uma sociedade de marginais, no sentido estrito do termo, ou seja, povoada por pessoas e organizações que vivem à margem das regras que ordenam a vida humana associada nos tempos de hoje?

Enquanto não encontramos respostas para essas questões, façamos como Chico Buarque: "Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos..."

Publicado na Gazeta do Povo, 29/02/2004

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