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Alzeli Basseti é escritora, co-fundadora e vice-presidente do Instituto Ciência e Fé. |
Opinião Alzeli Basseti Tal como em seu poema "Eterno Ausente", a maga da palavra Helena Kolody cerrou mansamente as portas da morada e partiu. Poeta, mestra, inspetora de ensino, musa inspiradora e exemplo de cidadã, ela dizia ser "pingo de chuva no mar" e deve estar escolhendo seu nome entre as estrelas distantes. Por que não chamar-se humildade, virtude que dá consciência da própria fraqueza humana? A humildade em Helena Kolody era flagrante nos gestos, no caminhar, no atender e no falar. Transparecia também em atos e atitudes. Com os auspiciosos ventos da conscientização e da participação político-social feminina, trazidos no início da década de 90, surgira nesta bucólica Curitiba a oportunidade de fazer cair por terra o tabu da exclusão da mulher nas hostes da Academia Paranaense de Letras. A ausculta inicial revelara pouca resistência ao nome da pioneira educadora Pompília Lopes dos Santos, então lucidamente vivenciando a Quarta Idade e que fôra partícipe do movimento de criação da citada entidade. Os resistentes insistiam em fazer de Helena a nova acadêmica. Meiga, porém enfática, fitando esta "pesquisadora" através das janelas azuis com que via o mundo e captava a alma humana, a poeta colocou ponto final na celeuma. Não merecia tal honra, segundo ela, não era afeita a vaidades que tais e, caso consultada, faria declaração pública de que caberia "à Pompília querida" a distinção. Numa segunda oportunidade, lhe cabiam vez e hora de se tornar acadêmica por unanimidade. A resistência foi tenaz. Em vão buscou-se argumentar quão importante seria a presença dela para as mulheres intelectuais, para as mestras, para as alunas... A tudo se recusava apontando prontamente outros nomes de valor. O último argumento, todavia, sensibilizou-a sobremaneira. – Helena, Deus dotou-a de talento, carisma, sensibilidade, aperfeiçoados por você diuturnamente, não somente para seu uso e gozo exclusivo. Tampouco para uso interno. Ele quer que seu canto poético seja ouvido amplamente. Você evangeliza com seus versos e Ele quer ver seu testemunho na academia, com a naturalidade e a sensibilidade que lhe são inatas. Pensou ainda outro tanto e finalmente aceitou. Dignificou a missão enquanto lhe restaram forças. Após ter compilado em extensa matéria a vida e um estudo da obra kolodyana, com fotos de épocas distintas e uma entrevista informal, esta escriba remeteu-a à Revista Brasília (DF), não tendo sido surpresa o retumbante sucesso naquelas plagas. Convites para lançamento de livros, noites de autógrafos, tertúlias, palestras e confraternizações variadas na capital brasileira tornaram-se comuns. Era a possibilidade de um vôo extenso e um pouso relevante. A poeta-ternura foi irredutível: "Não quero deixar Curitiba, meu estado do Paraná, meus amigos, alunos, colegas de escola e dos centros de cultura. Não quero migrar para outra terra!" Incólume na comunicação, na arte da percepção, na acuidade, na sensibilidade, as quais lhe permitiam observar o mundo com imenso coração de bondade e descrevê-lo com talento inestimável, Helena foi artífice e intérprete da beleza do universo, da audição humana, da alma, do real e do simbólico, do afeto e do desamor tão reais. A fé profunda fazia-a supor ser a outra vida algo "formidável". Ela, que como ninguém soube louvar a grandeza quantitativa do pequeno, do acessível e do compreensível, foi ouvida em sua bela oração: "Conceda-me, Senhor, a graça de ser boa / de ser o coração singelo...../ e de tirar d´alma alheia o espírito que magoa". Descanse em paz, amiga querida. Publicado na Gazeta do Povo, 02/03/2004 |
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