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Arodo Murá G. Haygert
é jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
Abril de 2004

Perfil
De quando pregar é preciso,
mesmo que no deserto

por Aroldo Murá G. Haygert


BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
Poucos no Paraná desses últimos 40 anos terão tido uma participação tão fértil, quanto ele, na montagem de projetos e planejamentos públicos. E menos ainda os que, como ele, interagiram tão decisivamente na vida paranaense, ajudando a fundamentar as bases de um Estado moderno. Sua ação foi mais notável nos governos Emílio Gomes e Jaime Canet Jr. Mas o homem público, o professor, o pensador, o ser humano diferenciado continuam atuantes e influenciando gerações e plasmando idéias. Na primeira pessoa.


Nas raízes longínquas, há as sementes deixadas por um cura d’almas de origem portuguesa, no Rio Grande do Sul do século 18. O padre está nos troncos dos Jobim. Daquele ramo (spes messe in semine est – a esperança da messe está na semente), ficam descendências em múltiplas áreas, nos séculos seguintes, um cardápio amplo de vocações e expressões culturais que também nos ajudam a melhor entender – de alguma forma - o personagem Belmiro Valverde Jobim Castor.

Os Jobim vieram de um vilarejo português. Seriam Jubin, com entonações francofônicas, na grafia primitiva. Firmaram-se na terra adotiva e depois definitiva, os pampas, o Rio Grande dos gaúchos mais representativos, muito antes de se pensar em correntes migratórias européias (não ibéricas).Terra dos gaúchos das coxilhas, e de Santana do Livramento. Depois, por direito de conquista, vão se espalhando e assumindo posições de liderança no Estado até adquirirem ampla visibilidade naquele terreno em que os gaúchos sempre se mostraram muito competentes: o comando de homens e idéias.

Um primo não distante de Belmiro será o novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim; Walter Jobim foi governador do Rio Grande, nos anos 50s e outros da linhagem preencheram vários postos de relevância nos legislativos e executivos do Sul.

Mas talvez o Jobim mais notável da vida nacional – tio em primeiro grau de Belmiro, irmão de dona Maria da Glória Jobim Castor – foi Danton Jobim. Jornalista com tiradas panfletárias, um dos condestáveis do mais retumbante jornal brasileiro dos anos 60s, a Última Hora, ele preencheu por anos o noticiário político nacional, ora na presidência da então poderosa ABI- Associação Brasileira de Imprensa,e por muitos anos como representante dos cariocas no Senado, com decisiva influência em todo o país. Não conhecia outro espaço senão o dos palcos das grande decisões nacionais, em que era dos atores principais e, muitas vezes , o “meteur en-scène”.

E há o intelectual embaixador José Jobim, irmão de Danton, humanista, exemplar raro de homem público, vocação da “carrière” então formada sob o império dos conhecimentos clássicos . O tio José, de Belmiro Valverde Jobim Castor , ocupou na diplomacia muitas posições, a última delas, a de embaixador na Santa Sé.
Ah, não se pode esquecer o Antônio Carlos Jobim, o Tom, resumo do que de melhor a alma nacional é capaz de produzir em criatividade,poesia, ritmo e musicalidade. Primo também de Belmiro, Tom é a encarnação do exercício lúdico, uma concessão a que às vezes alguns ramos da grande família se concedem.

O PRAÇA E O GENERAL:
A FORJA FOI O SERTÃO

Do lado Castor há a fibra do pai, o general Carlos Castor, um paraibano egresso da faina do campo e que um dia deixou o sertão para servir ao Exército, como praça de pré, em João Pessoa. Chegou à Capital ainda um jovem de poucas letras e limitadas habilidades urbanas. “Fez carreira“ – como se dizia antigamente -, no Exército. Queria superar a sina a que parecia destinado, de viver do solo estéril e da terra sem horizontes, tendo o sol de rachar como testemunha da falta de futuro.

Esperava bem servir à pátria com a farda verde-oliva: estudou, e paralelamente à caserna, formou-se em Direito e, ao ir para a reserva, nos anos 60s, já general e contabilizando muitos serviços Brasil afora, ainda lembrava o jovem espartano. Era o homem de marcantes austeridades e formalidades, traços dos varões de seu tempo, e sublinhados pela severa vida castrense.

DOUTOR VALVERDE,
AVÔ E MESTRE MAIOR

Para Buffon, o estilo será sempre o homem, não é novidade.

Em Belmiro Valverde Jobim Castor, por quatro vezes secretário de Planejamento do Paraná e uma vez secretário estadual de Educação , introduzido ao planejamento na França,PHd em Administração Pública pela USC, Estados Unidos, mestre de gerações na FAE e na Universidade Federal do Paraná, o seu estilo pode ser entendido, em boa parte, ao se examinar suas ancestralidades.

E na composição de seu “ DNA psicológico” talvez a impressão digital mais forte, e que mais ajude a entender o homem público Belmiro esteja no médico Belmiro Valverde, seu avô materno, de quem herdou o nome e a obstinação e em cuja sombra se formou.

Com o doutor Valverde, que passou à história como integralista fidelíssimo ao nacionalismo de Plínio Salgado, e de oposição tenaz a Vargas (por isto, tantos vezes e anos nos calabouços da ditadura dos anos 30s), o neto recolheu as lições vitais. A primeira delas, a disciplina para o estudo, a formação religiosa (aplainada pelos padres agostinianos do Colégio Santo Agostinho, do Rio), o apego ao fascinante da lógica.

O menino que parecia perdido no casarão carioca, cercado de adultos, nos anos 50s, desde os dez anos de idade, talvez “perdesse” ali a infância. Mas com certeza amadureceu antes do tempo. Daquele “casulo” saiu formado em Direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e com reservas espirituais e intelectuais sem fim, para a insuperável aventura da vida.

A criança não é, porventura, o pai do homem?

“O MAIS PARANAENSE
DOS CARIOCAS” NASCEU
NAS MINAS GERAIS

O Paraná dos últimos 40 anos foi aprendendo a ouvir com respeito a opinião desse personagem a quem o jornalista Fábio Campana classifica de “o mais paranaense dos cariocas”. Isso mesmo: um “carioca” de criação, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, há 63 anos. Aos quatro anos veio para o Paraná, com a família, que fora morar em Rio Negro. Dos 10 anos em diante, até 1964, ficaria no Rio, haurindo ensinamentos do avô e se preparando para viver e contribuir para a Era que depois viria, a do Conhecimento.

O batismo paranaense de Belmiro adulto foi como franco observador de um momento histórico: a convenção estadual do antigo Partido Democrata Cristão (liderado por Paulo de Tarso, Franco Montoro e Ney Braga, nacionalmente), realizada no Guairinha, o pequeno auditório do Teatro Guaira, em 1964.

Ney,o poderoso governador do Estado, teve, no entanto, não poucas dificuldades para controlar o grupo de Affonso Camargo (apoiado pela articuladíssima Juventude Democrata Cristã,JDC, com Giovanetti, os irmãos Paulo e Cleon Ricardo dos Santos, José Richa). Ney apoiou Paulo Pimentel, que acabou eleito governador.

Foi a primeira crise paranaense que testemunhei, recorda Belmiro, deixando encadeado o complemento: “ de uma séria que seguiria...”

COM ALÍPIO, O APRENDIZADO DO
PARANÁ E DE SEUS CONTORNOS

E o seu primeiro “laboratório” de Paraná foi na antiga Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas, ao lado do estrategista Alipio Ayres de Carvalho, maranhense que conhecia como ninguém os meandros do Estado que Ney Braga iria modernizar e dar unidade, ao montar uma infra-estrutura essencial de rodovias, financiamento (BADEP),comunicações (TELEPAR), sistema elétrico(COPEL), educação e os esboços do planejamento público (PLADEP).Ao fundo, a influência discreta do grupo Economia e Humanismo, do padre Lebret, personagem internacional que Ney atraira ao Estado, e que antes passara pelo assessoramento ao governo paulista.

A DECISIVA “MADAME”
HÉLÈNE , A CEPAL E A USC

Belmiro denuncia no discurso uma entonação francesa de dissecar a vida – um certo sarcasmo polido, com alfinetadas capazes de provocar mortais efeitos nas “vítimas” – convivendo com o pragmatismo dos “scholars” americanos na busca de estatísticas para confirmar resultados de suas teses.

O lado francês pode ser identificado a partir dos anos 60s, quando caiu nas graças da então poderosíssima madame Hélène Garfunkel (mãe de Maria Francisca Rischbieter, a Fanchette, e casada com o pintor Paul Garfunkel). Da Praça Osório, no edifício Santa Julia, dirigindo a Aliança Francesa, ela era o epicentro em torno do qual girava uma penca de talentos em direção a múltiplos horizontes: Jaime Lerner, Maurício Schulman, Saul Raiz, Ario Derginte, Marilena Zicarelli, Juca Zockner, Rafael Dely,etc.

Uma das ambicionadas bolsas de estudos da disputada Cooperation Technique garantiu a Belmiro oito meses em França, para estudar Economia e Planejamento públicos. Depois, imersão nas teorias da Cepal e América Latina, e os posteriores (a partir de 1979) mestrado e doutorado em Administração Pública, na USC, Califórnia, solidificaram as bases acadêmicas do pensador-planejador. Uma passagem produtiva que lhe rendeu o primeiro grande prêmio que a USC destinou a um brasileiro por classificar-se com excelência no seu Curso de Doutorado.

Talvez o mais valioso, no fundo, lhe tenha sido a amizade solidificada com o antológico sociólogo professor Guerreiro Ramos, que na USC vivia um frutuoso exílio intelectual, influenciando novas gerações universitárias, com audiência privilegiada entre futuras lideranças latino-americanas e respeitabilidade no mundo acadêmico dos Estados Unidos.

...E NASCEU E O SISTEMA
ESTADUAL DE PLANEJAMENTO

Pensar e planejar o desenvolvimento do Paraná seriam a partir daquela primeira experiência com Alípio, em 64, um certo moto contínuo na vida de Belmiro, pois nunca mais se desvincularia dessa meta.

A grande crise trazida pela queda do governador Haroldo Leon Perez, no final de 1971, encontrou Belmiro trabalhando com Luiz Forte Neto. Integrava um grupo escolhido a dedo por Forte para montar o PDU – Plano de Desenvolvimento Urbano, patrocinado pela extinta SUDESUL (Superintendência de Desenvolvimento do Sul). Dividia conhecimentos e experiências com Ario Taborda Derginte, Cássio Bittencourt de Macedo, Vicente de Castro Neto, Ragindra Ramalho, entre outros.

- A queda de Leon Perez, sob acusação de corrupção, pegou-nos a todos de surpresa. Mas o PDU estava pronto, era o primeiro plano regional de desenvolvimento do Paraná, recorda Belmiro.

Foi decisivo na carreira de Belmiro (e para o Paraná) o encontro que teve em dezembro de 71, no Palácio Iguaçu, com aquele que seria peça chave no governo seguinte (o de Pedro Viriato Parigot de Souza), o engenheiro Ivo Simas Moreira.

Copeliano (oriundo da COPEL) como Parigot, e um dos discípulos mais diletos do novo governador, Ivo convidou Belmiro para assumir a Coordenação Estadual de Planejamento. Pelas mãos dele, então, desenvolve-se o embrião da futura secretaria de Estado do Planejamento, e partir de cujo trabalho o Paraná passou a dispor de um sistema estadual de planejamento definido e definitivo. O primeiro secretário da pasta seria Ivo Moreira.

O PRIMEIRO IMÓVEL,
PARIS E A SECRETARIA
DE PLANEJAMENTO

Na Páscoa de 1972, a doença que depois levaria Parigot à morte acaba dando sinais claros de que sob o signo dela, de altos e baixos, seria a marca do governo daquela figura longelínea, comportamento austero, feições e ares ascéticos. O vaivém dos boletins médicos, sobre as internações de Parigot, e suas muitas recaídas de saúde, ocupariam a agenda de governo. Depois, havia todo um processo político procurando desestabilizar o Governo – aproveitando-se da da morte anunciada. O que incluía até execráveis tentativas de chantagens...

Nós, Elizabeth e eu, também fomos atingidos na nossa vida pessoal pela crise: interrompemos as negociações de compra de nosso primeiro apartamento, pois não havia garantia de emprego, lembra Belmiro, procurando confirmação nas lembranças daquela mulher plácida, elegante, atenta, vigilante e a quem não escapa nada ao derredor. Elizabeth, esposa e por quem não esconde a paixão quase juvenil do casamento em 1964, é a silenciosa e ao mesmo tempo loquaz presença em cada instante do mundo de Belmiro.

Ela amplia o fio das recordações, quando se começa a falar do ano de 1974, “quando Belmo foi convidado a assumir a Secretaria de Planejamento”, do Governo Emílio Gomes, e em substituição a seu amigo Ivo Simas Moreira:

- E tem aquela história do “monsieur le governeur vous a telefoné...”

Foi assim: o casal estava em Paris. Com dinheiro contadíssimo, se hospedara num hotelzinho pra lá de modesto, no Quartier Latin, recebendo o usual tratamento dispensado aos comuns mortais pagantes de diárias módicas. Até que começaram a chegar telefonemas do Brasil, muitos, insistentes, que eram repassados a Belmiro ao final da tarde, quando o casal voltava dos périplos parisienses.

- Na medida em que o gerente do hotel nos informava que “o senhor governador lhe telefonou”, por dias seguidos repetindo a mesma mensagem, pois os telefonemas se sucediam, nós também éramos promovidos, ganhando direitos a mesuras e reverências e até novas e melhores acomodações na casa, conta Belmiro, entre risos e apropriadas entonações.

A casa, deve ter concluído o gerente, hospedava uma personalidade brasileira.

Foi secretário de Planejamento de 74 (Governo Emílio Gomes) e durante todo o Governo Canet (75 a janeiro de 79). Em começos de 79, muda-se para a Califórnia, onde freqüentaria a USC até 1982.

Foi também, em todo o período, o homem fortíssimo do Governo. O quê e o quanto deixou em termos de renovação e preparação da vida do Estado para os anos que se seguiriam pertencem à História. E a História é toda favorável a Belmiro.

O que se pode dizer, resumindo, é que foi trabalho fértil, inigualável, em que até executivos de planejamento tinham treinamento oferecido pelo Estado num nível que seria hoje o de MBA. E que o próprio Estado acabou patrocinando a instalação temporária em Curitiba de um mestrado em Planejamento em cooperação com universidades norte-americanas, o que acabaria fundamentalmente aperfeiçoando o funcionalismo estadual.

Foi desse período a publicação referencial sobre o Paraná, sua história, suas potencialidades, sua gente e sua riqueza, a revista “Referência em Planejamento”, feita por jornalistas e técnicos do Governo. Dentre os jornalistas: Celso Nascimento, Reinaldo Jardim, José Benedito Pires Trindade, Luiz Geraldo Mazza, Maí Nascimento Mendonça, Araton Maravalhas, Aroldo Murá, Marilu Silveira, Aramis Millarch.

POR UM PUNHADO
DE DÓLARES E A CRISE
COM OS PROFESSORES

A marca registrada do médico e político Dr.Belmiro Valverde – a austeridade - parece ter-se transferido para o neto Belmiro, cujo zelo pela coisa pública fê-lo denunciar (em 1984) irregularidades de um secretário de Fazenda do Governo Richa. O mesmo Governo ao qual Belmiro pertencia como secretário de Planejamento, posição assumida em 1983.

A chamada crise dos dólares mobilizou a opinião pública nacional, com o cidadão ganhando o direito a ver pela televisão, em transmissão direta, os debates em que acusado e acusador (Belmiro) expunham suas posições. Denúncias que tiveram o veredictum – depois de amplos estudos – de homens acima de qualquer suspeita, como o então presidente do Instituto de Engenharia do Paraná, general Luiz Carlos Tourinho. Parecer francamente favorável a Belmiro o qual, apesar disso, acabou demitido pelo governador José Richa, junto com o acusado.

Assim como o salmista (zelus domus (Dei) comedit - o zelo por tua casa me consome) Belmiro consumiu-se em zelo.

Manteve-se íntegro. No fundo, uma flama muito forte a alimentar os projetos de vida e que, no caso dele, se identificariam sempre com fidelidade às propostas públicas.

O próximo passo foi a Bamerindus: em 1984 foi ocupar a Diretoria de Planejamento e Controle Estratégico do banco, em que fica até 1987. Antes, em 85, recusara convite de Jaime Lerner para ser seu vice na chapa em que Lerner concorreu ‘a Prefeitura de Curitiba contra Requião, e por quem seria derrotado.

A derradeira experiência na administração pública do Estado foi de 1987 a 88, como secretário de Educação de Álvaro Dias. Saiu na esteira da grande greve dos professores, acusado pelo PMDB de então de ter sido intransigente em não acatar as reivindicações dos grevistas. O Governo de Álvaro acabou marcado politicamente pelo episódio em que cenas de policiais dispersando professores em piquetes seriam farto material de futuras campanhas eleitorais, exploradas na televisão. Não houve, na realidade, vitória dos professores. O Governo acabou prometendo mas não cedendo nada aos grevistas. Uma vitória de pirro, então.

LÍDER NACIONAL NO
MERCADO DE CÂMBIO

Retornando ao Bamerindus, de 1989 a 1992 chefiaria a área Internacional do banco de José Eduardo. O setor contabilizaria resultados incontestáveis: o banco paranaense chegou a líder no mercado de câmbio no Brasil, superando mesmo o Banco do Brasil, no período de 94/95. Presenças do banco com agências ou escritórios em N.York, Cayman, Londres, Hong Kong, Luxemburgo (onde criou um outro banco hoje propriedade do Itaú), Buenos Aires. Em pleno “boom” desenvolvimentista argentino, o Bamerindus chegou a assumir a liderança do financiamento no país platino.

A posição de superintendente do banco foi a etapa seguinte, de 1992 a 1996 . Deixou a instituição financeira em 96, um ano antes de seu fechamento, ato que, diz, um dia virá à tona na sua inteireza. E ficaremos sabendo de seus verdadeiros motivos, opina Belmiro.

“O BRASIL NÃO É PARA
AMADORES”, UM LIVRO,
MUITAS EXPLICAÇÕES

Em junho de 2000 Belmiro passou para livro uma série de idéias. O centro da proposta é explicar o Brasil, suas origens, suas contradições, o “jeitinho” e suas fundamentações históricas e psicológicas. Trata-se de uma profunda imersão na alma do brasileiro, examinando-o como um ser peculiar, produto de múltiplas influências, momentos históricos e contradições. O Brasil de homens e mulheres que, malgrado a propalada triste sina dos trópicos, acalentadora de tantas teses acadêmicas, precisa ser conhecido.

“O Brasil não é para amadores”, edição do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade, também pode ser comprado na versão inglesa – “Brasil is not for amateurs:patterns of governances in the land of jeitinho” -, editora Ex Libris, da Filadélfia. Vendas pela Amazon.com.

A Travessa dos Editores está preparando a segunda edição, revista, e com números atualizados, de “ O Brasil não é para amadores”.

A VOCAÇÃO MAIS FORTE
É O MAGISTÉRIO: “O CORAÇÃO
NUM CERTO LUGAR”

Na chácara em Laranjeiras, Piraquara, o espaço é amplo, o ambiente é partilhado por seu mundo imediato mais significativo: além de Elizabeth, as filhas Carolina – com mestrado stricto sensu em Literatura e Língua Inglesa obtido na Inglaterra -, e Adriana – psicóloga -, e aquele que hoje toma grande parte de suas atenções, Leonardo, o neto, 4 anos.

A casa principal lembra uma confortável vivenda virginiana. O nome da chácara, que abastece de hortifrutigranjeiros a família e também a uma obra social, foi dado em homenagem a uma das maiores admirações (e devoções) do casal Castor: Santo Antônio, seguido do adjetivo “das Laranjeiras”.

Ah, há outra admiração/devoção, que os amigos conhecem bem: chama-se padre João Batista Reus, um jesuíta alemão que viveu no começo do século XX no Rio Grande do Sul,e morreu em meados daquele século com fama de taumaturgo. Admiração que pode até ser parte do legado gaúcho dos Jobim.

Talvez na sua ligação com as realidades do transcendental esteja a explicação para a fortaleza interior que olhares atentos identificarão no professor Castor. Um “religare” maduro, sem pieguices, objetivo, que não requer muitas cogitações. Uma fé que enxerga – porque tem de enxergar, e pronto – muito além do visível. Nele há muito, dirão os estudiosos do fenômeno religioso, daquela fé que sempre identificou os ibéricos. Os quais saberiam antever realidades sobrenaturais, sem temores ou tremores. Como parte do dia-a-dia.

Os comentários que faz em rádio e os artigos para a Gazeta do Povo ele parece encará-los como parte do grande processo educativo em que se envolve. Observe-se, pois, como Belmiro encara o magistério (que ele exerce no curso de Administração da UFPR e na pós Graduação da FAE):

- A gente pode estar em todos os lugares. Mas o nosso coração estará num certo lugar...

A expressão, diz, é do professor Guerreiro Ramos. E ao se socorrer dela, Belmiro afiança que seu coração esteve sempre no magistério. Um trabalho/doação, admite, que pode até mesmo ter componentes narcisistas e, em certos momentos, exige a noção do espetáculo, do teatral.

- Gostamos da idéia de que as pessoas (alunos) se inspiram em nós. E esta é uma relação clara de educação, entre o mestre e o aluno, que acaba sendo um prêmio, sublinha Belmiro.

Este educador de “nascença” está em permanente guerra contra a burocracia educacional, “que é meramente acessória”. Em decorrência da lamentável supervalorização do aparelho educacional – acredita Belmiro – acabamos no Brasil por valorizar pouco a educação.

- É preciso termos um compromisso civilizatório com a educação, esta se realizando na sala de aula, observa.

E assim, não se importando se o classificam de elitista,resume o que pensa deva ser o ensino superior: “ é mesmo para formar elites”.

Sobre a universidade pública, uma certeza: ela é refém de equívocos. O mais clamoroso deles, o que prega o ensino gratuito, “a melhor maneira, acredita Belmiro, de se perpetuarem desigualdades. Porque, no geral, os que podem pagar são os que têm acesso à universidade pública, um contra-senso.”

Outro espinho na carne da universidade, o do atendimento às democracias internas, tem a condenação frontal do professor, um anti-corporativista, por excelência. E como tal, é defensor do chamado Provão (avaliação de qualidade do ensino superior, nos moldes em que vinha sendo executado). “É um termômetro, agora destruído”.

Uma voz “clamandi in deserto”? Se preciso, assim será até o fim. É uma questão de compromisso com a vida, na qual conseguiu abarcar generosas oportunidades de crescimento em todas as dimensões. Um bafejado pelos deuses? Não. Belmiro é a soma dessas realidades em que a alma lusa, o sertão tórrido e a têmpera de homens obstinados, mais o frio minuano dos pampas se encontram. Um modelo de brasileiro em grande parte cinzelado pelo cosmopolitismo do Rio de Janeiro dos anos 50/60s. E – vital – moldado também pela escola sapiencial de sua veneração maior, o doutor Belmiro Valverde, que um dia, talvez,seja conhecido muito além dos estereótipos montados por seus opositores políticos.

Belmiro, em alguns momentos, poderá, mesmo, ser “lido” como integrante daquele multifacetado universo proposto no seu “O Brasil não é para amadores”. Lê-lo, sempre, sempre fará bem.

Publicado no Idéias 9, março de 2004, Travessa dos Editores

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