Arodo
Murá G. Haygert
é jornalista
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Maio
de 2004 |
Perfil
Manoel Coelho e as digitais de Curitiba
por
Aroldo Murá G. Haygert

Se contados os cenários pintados às pressas, sobre papelão,
muitas vezes mostrando colunas dóricas que iriam ilustrar comerciais
ao vivo da Casa Ling, em 1961, no antigo Canal 6, Manoel Coelho terá
43 anos de envolvimento direto com Curitiba. Lá ele era artista
e artesão. Era o início da televisão em preto e branco,
nem se sonhava com cores e/ou com tapes. Foi seu primeiro envolvimento
maduro com a cidade, aquela que depois ele sinalizaria com bom gosto e
criatividade, sendo partícipe da renovação urbana
comandada por Jaime Lerner.
O emprego na televisão do grupo de Chateaubriand fora indicação
do então colega de Escola de Música e Belas Artes do Paraná
(EMBAP), Juarez Machado. Era um trabalho que envolvia – entre outras
piruetas profissionais – criar slides para comerciais: desenhava
letra por letra e figuras sobre duas chapas de vidros, em seguida coladas
em durex e “projetadas”. Trabalho “part time”,
pois o outro expediente era dado, de início, como projetista na
então poderosíssima construtora Gutierrez, Paula e Munhoz.
De novo, a indicação de colega da EMBAP( Gilda Gutierrez),
abrindo outra porta ao catarinenses recém chegado. Foi depois fiscal
de obras da empresa, fiscalizando parte da construção do
Teatro Guaíra.
Quem
conhece a história de Curitiba desses últimos 43 anos, a
das impressionantes intervenções urbanas geradas pelo Plano
Serete, sabe que o floripa Manoel Coelho, 63 anos, aqui chegado em 1960
para fazer o terceiro científico, andou junto e muito interferiu
na montagem da cidade que virou ícone do planejamento urbano. Era
a nova Curitiba que expeliu da urbe o lamentável cognome de “aldeia
sinistra”, ou coisa pior – como aquele adjetivo grotesco com
a que a alcunhou o jornalista Fernando Pessoa Ferreira.
As digitais de Manoel Coelho estão hoje nas esquinas de Curitiba,
em construções monumentais, como os campi da Unicenp e da
PUC-PR, na sinalização facilitando a circulação
urbana, nas identidades institucionais com acentos de perenidade, como
a da Rodoferroviária; no moderníssimo mobiliário
urbano (por exemplo, relógios-termômetros e abrigos de ônibus)
e em outras obras que só verdadeiros mestres cinzelam. Como aconteceu
ao produzir a síntese do brasão do Vaticano com a antiga
marca da PUC-PR, assim concebendo a eloqüente identidade visual da
Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Estas
são apenas algumas das muitas digitais de Manoel Coelho, assim
como as folhas verdes de toda terceira administração Lerner
em Curitiba. E como esquecer da marca dos 300 anos da cidade ou de outras,
igualmente loquazes, como as concebidas para o Instituto Ciência
e Fé, Uniart, FAS, Fundação Cultural de Curitiba,
Aliança Santa Casa-PUC, produtos e lojas do programa Leve Curitiba,
e toda a identificação que orienta as multidões que
acorrem diariamente ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal
do Paraná?
A CASA
TOMBADA E A
DESCOBERTA DE CURITIBA
Nada
mais apropriado para um descendente dos açoreanos que fundaram
a ilha de Florianópolis, do que a associação com
o nome São Pedro. E este era o nome do bar e restaurante de seu
Isidro Coelho e dona Leandra, os pais de Manoel. Ficava num casarão
histórico, hoje tombado pelo Patrimônio Estadual, bem no
centro, ao lado do Mercado e da alfândega, e pertinho do trapiche.
No casarão, os nove irmãos da família Coelho tinham
o exemplo do trabalho duro dos pais, atendendo ao vaivém dos clientes
que os ônibus do terminal (ali na frente) faziam se renovar às
centenas todos os dias. Esse foi o cenário de infância e
adolescência, movimentado, e, ao mesmo tempo, bucólico, aconchegante
e gerador de curiosidades e inquietações, que o jovem viveria.
Com tempo para ajudar a atender aos clientes da casa de pasto e para receber
a formação rigorosa que os jesuítas lhe davam no
tradicional Colégio Catarinense. Aliás, esta era característica
de seu Isidro: educação de primeira, a mesma da chamada
elite, para os seus filhos: as meninas no Sagrado Coração,
os rapazes no Catarinense.
Em 1960 –muda-se para Curitiba, apoiado em curta ajuda mensal do
pai. O suficiente para ir morar numa das mecas dos estudantes da época,
o Edifício Tijucas ( disputava a mesma faixa de inquilinos com
os edifícios Embassador e São Paulo). Foi para o Colégio
Ateneu, fez o terceiro científico, estudou – como “
era preciso” – no cursinho do professor Sandoval Ribas, levou
bomba no vestibular da Engenharia das Federal em 61. Entra, no mesmo ano,
no entanto, na Belas Arte, onde um novo mundo se lhe apresenta. Era o
universo dos grandes mestres, espaço de Theodoro De Bona, Guido
Viaro,Botteri, David Carneiro, Barontini, Fernando Carneiro, Waldemar
Lopes... Na música, padre Penalva, Bento Mossurunga, Henriqueta
Penido Garcez Duarte, Bianca Bianchi, os Frank... Todos “deuses”
daquele universo que era a EMBAP.
- Mesmo assim eu ainda não percebia, na sua inteireza, a nova e
importante realidade cultural, histórica mesmo, de que passava
a partilhar, confessa Coelho, entre agradecido e como que lamentando não
ter usufruído mais daqueles dias. E havia os colegas de turma,
como Juarez Machado, Abraão Assad, ao lado de veteranos como João
Osório Brzezinski e Fernando Calderari. Todos os citados podem
ser , naturalmente, verbetes em qualquer enciclopédia da história
das artes do Paraná e - por que não dizer? - do Brasil.
Como Florianópolis, naqueles anos 60s Curitiba gravitava também
em torno do seu Centro. E dali, na Escola Belas Artes, Rua Emiliano Perneta,
Coelho começa a absorver as primeiras influências que ajudariam
a definir sua verdadeira vocação:
- Brasília estava na moda, em todas as rodas de conversa, surgia
a nova capital sublinhando o otimismo de JK. Lúcio Costa e Niemeyer
se apresentavam como o capitães e arquitetos da marcha para o Oeste.
Era também a marcha para uma nova proposta de Brasil, que valorizava
a Arquitetura como arte de prever para prover espaços, e cumpridor
de papel geo-político, comenta Coelho, com o olhar distante. Parece,
por um átimo, estar ausente, a viver, num transe profundo, uma
realidade que é preciso recolher da memória; misto de nostalgia
e de represada alegria.
A PRIMEIRA
TURMA,
GRANDES INFLUÊNCIAS
Manoel
Coelho deixa bem claro: é um arquiteto que também faz design.
É o arquiteto tal como o profissional é concebido pelos
europeus. É o arquiteto que propõe símbolos que se
imporão no entendimento de qualquer idioma e nação,
aquele que declara guerra à Babel das línguas, gerando marcas,
sinais, figuras de aceitação universal. É o artista
da casa comum, o ecumênico por excelência, este operário
dos signos e dos partidos gráficos.
É o arquiteto e urbanista, lato sensu, que se orgulha da concepção
de planos diretores como o que fez para Criciúma, cidade catarinense
cuja marca, grifada por Coelho, está hoje como símbolo até
do Criciúma Futebol Clube.
As primeiras influências que Coelho absorveu , com certeza serão
identificadas naqueles tempos de efervescência dos 60s, com Brasília,
os notáveis urbanistas e seus questionamentos, os designers inigualáveis,
a exemplo de Aluísio Magalhães, fundador da ESDI –
Escola Superior de Desenho Industrial, do Rio, onde – pode-se- dizer
– tudo começou no moderno design brasileiro. E na realidade
imediata mais visível, o nascimento do Curso de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal do Paraná, em 1962, e de cuja primeira
turma participaria, via vestibular (quando desliga-se do curso de Belas
Artes).
- Não há como não agradecer àqueles mestres
e amigos, arquitetos que vieram de Minas, Rio Grande do Sul, São
Paulo, Rio de Janeiro, para formar o quadro dos primeiros professores:
Marcos Prado, Armando Strambi(MG), o casal Almir e Marlene Fernandes,
Ciro Correa de Oliveira Lira, Gustavo Gama Monteiro (Rio), Leo Grossman(
RS), Luiz Forte Neto, José Maria Gandolfi, Joel Ramalho(SP), e
o paranaense Rubens Meister, recorda Coelho, dizendo em seguida:
- Havia ainda todo um currículo complementar, extra-oficial,gerado
pelo charme que a Arquitetura tinha no Brasil daqueles dias, até
por sua identificação com artistas como Chico Buarque, um
ex-estudante de Arquitetura no Rio. Chico era must da época, uma
“coqueluche”, como se dizia então.
A CIDADE TAMBÉM DEU
IMPULSO ÀS MUDANÇAS
Sem
deixar de reconhecer o papel de Jaime Lerner, na monumental intervenção
urbana a partir de 72, e antes, de JL e os que fizeram nascer o Instituto
de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), e começaram
a implantar o Plano Diretor, em 1965, Coelho reconhece que “a cidade
foi definitiva para que se materializassem as mudanças preconizadas
pelo Plano Serete.”
- Sem os seminários denominados de Curitiba do Amanhã, impulsionados
pelo prefeito Ivo Arzua, o curitibano não teria exaustivamente
criticado e aprovado a nova era urbanística que se insinuava, garante
Coelho.
Para ele, o pano de fundo da revolução urbana, iniciada
em 1965, e que ganhou maior consistência em 72,o pneuma ( o espírito,
o sopro, dos gregos) foi o Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR. Este
se referenciava também em gente que fora forjada nas aspirações
sociais de um João Villanova Artigas, o paranaense referencial
na FAU, da USP, e em presenças como a de Paulo Mendes da Rocha
– por exemplo. Não houve geração espontânea,
mas um conjunto de fatores a determinar o futuro ícone Curitiba,
pois, opina.
- Fatores que envolviam – lembra Coelho – convivência
dos futuros arquitetos com personagens como Paulo Autran, Décio
Pignatari,Geraldo Vandré, Teresa Raquel, Hermeto Paschoal, Chico
Buarque, Paulo Leminski, entre outros. Todos suplementando, com uma visão
multifacetada do mundo, as aulas, o dia-a-dia das pranchetas e dos projetos...
E os notáveis que depois passariam a identificar a Curitiba como
modelo de desenvolvimento urbano também estavam ali mesmo, no Curso
de Arquitetura: Jaime Lerner, Lubomir Ficinski, Rafael Dely...
NO ESCRITÓRIO, AS
AULAS INAUGURAIS
Pela mãos do professor Léo Grossman entrou no quadro de
professores do Curso de Aquitetura da UFPR, do qual se aposentou há
cinco anos. Orgulha-se de ter contribuído para que ele seja hoje
um dos cursos coroados nas avaliações do MEC. Quer dizer:
dos melhores que o país tem.
Compensa a falta que sente das aulas atendendo centenas de visitantes,
estudantes de todo o Brasil, que o procuram no ateliê/escritório
localizado em espaço significativamente ecológico, defronte
ao Bosque Chico Mendes, nas Mercês. Ali, com os filhos André,
Luciano e Pedro Paulo e mais 15 funcionários, vive a profissão-arte
num espaço de ação profissional mesmerizador , incluindo
setores de biblioteca e de documentação de imagens. Equipamentos
que coloca à disposição de futuros arquitetos como
aqueles que, todos os anos, chegam da respeitadíssima Universidade
Federal de Santa Catarina para ter a aula inaugural do primeiro ano letivo
naquele ateliê/escritório.
Essa juventude com a qual Manoel Coelho partilha conhecimentos ouvirá
dele muitas lições hauridas de mestres da Arquitetura, e
que formam seu panteão de heróis e objeto de culto: Le Corbusier,
naturalmente; os citadíssimos Niemeyer, Lucio Costa e Villanova
Artigas; Frank Lloyd Wright...
Quando cita Lloyd Wright, seus olhos ganham um brilho particular, traduzindo
o que explicará em seguida: “É a minha grande identificação.
Com ele aprendi que o projeto requer um acompanhamento pleno, o trabalho
detalhado, nos mínimos contornos, até o fim. E assim eu
procedo, concebendo até o mobiliário, quando é o
caso”. Com o minucioso olhar e a habilidade de um ourives.
Há também influências de arquitetos bem contemporâneos,
com cujas teses e propostas partilha, como o italiano Renzo Piano e o
britânico Norman Foster. Fazem parte de suas leituras diárias.
O “TEMPLO DA PAZ”,
PROFUNDA IMERSÃO
NAS SENDAS DO ESPÍRITO
O arquiteto por inteiro – aquele que também faz design –
talvez tenha alcançado seu ápice de poder criador em duas
obras monumentais, desdobradas em dezenas (marcas, mobiliário,
identificações visuais), e que são os campi da |Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e do centro universitário
Unicenp (Positivo). São centenas de milhares de metros quadrados
que os projetos de Manoel Coelho transformaram em espaços não
apenas funcionais e adequados às modernas necessidades do ensino
superior.
As duas instituições foram contempladas com aqueles requintes
que Coelho passa para o papel, como quem vai construindo catedrais, com
riscos perenes, atemporais, traços compromissados com o homem e
suas vertentes eternas. Traços que desenham futuros concretos e
também ajudam a emoldurar sonhos. Nada mais adequado para o mundo
da universitas...
Um exemplo de a quanto chega essa imersão do arquiteto em propostas
que trabalham valores, vocações e desafios materiais e espirituais?
Conheça-se (vale um tour) a capela ecumênica, denominada
de Templo da Paz, erguida no campus da Unicenp (Campo Comprido, em Curitiba).
Faz parte daqueles 100 mil metros de área construída, campus
de 420 mil metros quadrados, acolhendo a juventude e as inquietações
de 15 mil alunos.
Oriovisto Guimaraães, reitor da Unicenp, deixou de lado todo seu
notável pragmatismo de entrepeneur, ao cunhar a frase lapidar que
resume a intenção da capela: “Seja qual for o seu
caminho, este é o seu templo, o Templo da Paz”.
Ancorado num lago, visível no campus todo, o templo-monumento é
uma imensa caixa de vidro protegida de brises de alumínio. Não
interessa se abriga um crente dos credos tradicionais ou um religioso
“autônomo” ou, mesmo, um cético. Quem entra na
capela sente um hausto de paz tão forte que dispensa qualquer elemento
simbólico das tradições religiosas. O templo e seu
“clima” se bastam por si sós.
Tudo ali encaminha para a harmonia interior, exclui divisões espirituais,
quer contemplar o homem e a mulher por inteiros, oferecendo-lhes a dádiva
do espaço e do tempo para que cada um possa viver a imersão
num absoluto contemplativo.
Um padre católico, um rabino, um sheik muçulmano e um pastor
evangélico foram como que os avalistas desse diálogo acima
de religiões, em solenidade de inauguração do local,
em setembro de 2002.
BIBLIOTECA
, TEATRO
CENTRO DE CONVENÇÕES
O plano diretor do que seria o campus da Unicenp, Manoel Coelho e sua
equipe executaram-no em 30 dias, em 1999. O pedido chegou por telefone,
como a objetividade de Oriovisto Guimarães. A abrangência
de conhecimentos multidisciplinares exigida de Coelho teve resposta em
etapas como os primeiros blocos pedagógicos – azul e vermelho
- a Biblioteca Central, de 5 mil metros quadrados que, entre preciosidades
da vida contemporânea do país, abriga o acervo que formou
a biblioteca de Roberto Campos. Em dois anos, estará construído
o teatro, aberto às muitas manifestações artísticas,
podendo abrigar 2 mil espectadores. Depois virão o centro de convenções
e, mais adiante, o hotel. Tudo a ver com campus universitários
de país desenvolvido .
Na PUC-PR, a biblioteca central projetada por Coelho está num prédio
de quatro andares, 85 mil metros quadrados de área, com auditório.
O campus do Prado Velho é o início de tudo, ao lado do de
São José dos Pinhais, mas há também obras
monumentais projetadas pelo arquiteto, como a Fazenda, erguida para os
cursos de Agronomia e Veterinária, na cidade Fazenda Rio Grande,
na Região Metropolitana de Curitiba, e os campi que a universidade
pontifícia está erguendo em Londrina e Toledo.
Quando fala da PUC, Manoel Coelho não contém a admiração
pelo homem a quem se deve a impressionante arrancada da universidade dos
irmãos maristas. Dele, o reitor \Clemente Ivo Juliato, tem recebido
mais que avais para os grandes vôos arquietônicos: há
o diálogo entre o administrador universitário doutorado
em centros de excelência mundiais, e a inquietude do arquiteto.
Os resultados não deixam dúvidas quanto à feliz conjugação
de idéias.
ALIANÇA VAI ABRINDO
AS PORTAS DO “ASILO”
Os mais antigos se lembram que até os anos 50s, mais ou menos,
o Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz – hoje parte
indissociável da Aliança PUC-Santa Casa de Misericórdia
de Curitiba, era popularmente chamado de “asilo”. Quando alguém
queria zombar de outrem, duvidando de sua sanidade, saia-se com esta:
“Ora, vou te mandar para o asilo...”
O “asilo” agora está se adaptando aos modernos conceitos
sobre internamento em psiquiatria, abrindo – lentamente –
suas portas. O terreno em que se localiza talvez corresponda à
maior área contínua, em mãos universitárias,
na zona central da cidade, totalizando 240 mil metros quadrados. Ali Coelho
já começou a se expor a novo julgamento da história,
ao elaborar o seu Plano Diretor. A partir dele, a Aliança vai contemplar
a área com um complexo hospitalar (também hospital- escola)
que, preservando os prédios históricos (já restaurados)
contará com sete edifícios (inicialmente) de dez pavimentos
cada. Construção ainda sem data para começar. Uma
certeza: será o grande complexo médico-hospitalar do Paraná,
abrigando os serviços da Santa Casa e abrindo-se para novas ofertas
da área médica.
A GLÓRIA
QUE FICA
E O NÃO CONSUMADO
Manoel Coelho só se revela aos poucos, na fala muitas vezes reticente,
ou assim parecendo. É muito objetivo – e até mostrando
uma espécie de ira santa – no entanto, ao abordar algumas
de suas propostas mestras que tenham sido inconvenientemente avaliadas
ou postergadas.
É o caso do Parque da Vista Alegre, nas Mercês, projeto encomendado
pela Prefeitura,e que se ergueria numa área de 102 mil metros quadrados.
As construções e o espaço ao ar livre seriam locais
para exibição de peças a introduzir o visitante na
memória urbana. Os escolares aprenderiam como funciona a cidade,
qual a lógica de suas vias expressas, de suas vias de tráfego
lento , o mobiliário urbano, os equipamentos e serviços
da urbe. O primeiro “vermelhão”, o ônibus expresso
comprado à Marcopolo, de Caxias do Sul, ali estaria para cumprir
seu papel pedagógico de peça histórica, por exemplo.
Por esses mistérios da vida, o parque não se materializou,
assim como outra menina dos olhos de Coelho, o projeto do Centro do Design,
que deveria se localizar no Parque do Passaúna.
Embora acostumado a lidar com a adversidade e as surpresas Coelho, teimosamente
português, faz poucas concessões. Projetos meramente comerciais,
por exemplo, ela sabe que muitas vezes embutem especulação
imobiliária e suas associações danosas. Especulações
que irão ferir compromissos que o empreendedor e o arquiteto devem
manter com a cidade, com o espaço urbano, com o cidadão
do hoje e do amanhã. O que não quer dizer que se feche a
trabalhos, que esteja aberto apenas a essas obras que o colocam a serviço
de propostas comunitárias – cidades, espaços culturais,universidades,
hospitais, parques, identificação urbana...
E enquanto vai folheando seu portfólio recheadíssismo, histórias
de vida, e revistas especializadas em Arquitetura de todo o país
– e nas quais é abordado em sua vida e obra -, Manoel Coelho
pode estar se indagando se, afinal, não é esta a verdadeira
glória que fica? A de ter contribuído para mudanças
essenciais de uma cidade, e ajudando a interferir na História de
um povo. É o arquiteto, enfim, conferindo as digitais muito definitivas
que o casaram com Curitiba..
Publicado
na Idéias 10, maio de 2004, Travessa dos Editores
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