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IMAGO Aroldo Murá G. Haygert
Dom
Pedro Fedalto, bispo desde 1966 e arcebispo de Curitiba por 33 anos, só
foi jubilado neste 2004, aos 78. Demora que o coloca, de certa maneira,
como pastor de particular visibilidade e apreciação no Vaticano.
Nascido em Colônia Rebouças, em família tipicamente
italiana, fez seu seminário menor sob o rigor dos mestres lazaristas
mineiros, e formou-se em filosofia e teologia no exigente Seminário
do Ipiranga, SP. De sua turma, cinco foram ordenados bispos. Simples e
direto, é um conciliador, o que pode ser confundido com fraqueza.
Mas ele só quer ser fiel ao seu lema – “verdade na
caridade”, costuma dizer esse Pedro otimista, que não está
preocupado com avanços do pentecostalismo ou islamismo. Uma Igreja
com toques populares? Sim, por que não? O filho de Jacob Fedalto e Corona Marchetti Fedalto nasceu em 1926, em Colônia Rebouças, Campo Largo. Na casa modesta, eram sete irmãos. Uma casa italiana, onde a comunicação se dava em português e vêneto. É neto do nono Giuseppe Fedalto, desembarcado no Paraná em 1878, vindo de Treviso. Eram tempos em que tudo facilitava a vocação religiosa, aqueles anos das décadas de 1920 a 1940: trabalho árduo dos pais no campo, os folguedos inocentes com irmãos, primos e vizinhos. E muita oração, mesmo que missa só houvesse raramente no local. Rezavam-se muitos terços. A sociedade brasileira da época, e do Sul especialmente, com as imigrações, criava atmosfera ideal para o desabrochar da vida religiosa. Predominavam as atenções para a chamada cidade celeste, a sociedade secular apenas se esboçava. Assim, pouco sobrava para a cidade terrestre, a dos homens, e em matéria de fé havia só certezas, tudo no entorno encaminhava o homem para inabaláveis certezas. Em 1940, depois de fazer o primário na colônia, é matriculado no Seminário Menor da Arquidiocese de Curitiba. Ali, com os padres lazaristas mineiros (formados por padres franceses), notáveis mestres, começaria a carreira do futuro padre, depois bispo.
Do grupo faziam parte, ao lado do seminarista Pedro, outros meninos que, depois jovens, o acompanhariam nos estudos de filosofia e teologia, inclu indogrego, latim, português e outras disciplinas no acatadíssimo Seminário do Ipiranga, em São Paulo (teve de fazer vestibular para entrar lá, testado em traduções e versões do grego e latim. Ovídio, por exemplo, era obrigatório conhecê-lo). De sua turma de seminário de Curitiba, uma parte fôra para o seminário de São Leopoldo, no RS; a dele, para São Paulo; da turma saíram cinco bispos para a Igreja, dois muito próximos: Dom Albano Cavallin, arcebispo de Londrina, e Dom Agostinho Marochi, bispo de Presidente Prudente. De contemporâneos do Ipiranga, o total de 30 colegas, foi sagrado bispo, e seis dos seus professores também ganharam o episcopado. Pedro não fez os mestrados e doutorados que hoje sugerem ser o passaporte mais seguro para o episcopado na Igreja Católica, uma espécie de pré-requisito para ordenação episcopal nos dias atuais. Formou-se (foi ordenado em 1953), isto sim, por outra grande escola, a daquele príncipe da Igreja — clássico, conservador, cioso de sua autoridade e, ao mesmo tempo, homem de visão — Dom Manuel da Silveira D’Elboux, fundador da Universidade Católica, e a quem viria a suceder em 1971. O sotaque ítalo-eclesiástico marca a fala de Dom Pedro, nas afirmações de um homem seguro das suas verdades. Para surpresa dos que só vêem a superfície, ele não é o conservador que aparenta ser. Pois vejamos: ordenado bispo auxiliar de Curitiba em 1966, aceitou sempre sem traumas as mudanças trazidas pelo Vaticano II; acredita que o homem e a mulher católicos pós-conciliares estão agora mais bem-informados, estudam e participam mais da vida da Igreja do que antes; defende a liberdade religiosa enfocada pelo Vaticano II; não teme avanços pentecostais ou islâmicos; aceita as preocupações sociais da Igreja, embora acredite que uma “Igreja socializante” não responda às necessidades do Homem, para o qual o mais importante é a dimensão vertical (espiritual); embora latinista, apoiou integralmente a passagem da missa para o vernáculo.
Mas não se espere encontrar nele o defensor de propostas em voga até em setores da Igreja, como as favoráveis ao casamento de homossexuais, acesso da mulher ao sacerdócio, defesa da clonagem de embriões humanos, aborto. Com ele é assim mesmo: um divisor de águas bem claro separa o Pedro de espírito liberal, defensor de direitos humanos, da liberdade religiosa e da liberdade política, daquilo que acredita ser inadmissível em matéria de fé. Nisto se mantém firme, como pedra — “Pedro, tu és pedra...”. Embora não sendo um modernista em matérias litúrgicas, é, no entanto, entusiasta de novas pedagogias de evangelização. Aceita o tipo padre-cantor. E até apresenta um, padre Reginaldo Manziotti, 35 anos, “é melhor cantor que o padre Marcello Rossi”, como um dos que atraem multidões na Arquidiocese de Curitiba. Numa das missas celebradas por Manziotti, na Paróquia de São José Operário, em Pinhais, há pelo menos dez mil pessoas rezando, cantando e ouvindo o sacerdote, que tem programa diário na rádio da PUC, a Clube Paranaense. O templo de Pinhais já é pequeno para tantos católicos. Dom Pedro acha que tem de ser assim, a Igreja com apelos populares, sem cair, no entanto, nas tentações de uma certa teologia da prosperidade e na substituição do transcendente por curas que, em última instância, quase sempre têm a marca do psicossomático. As exceções raríssimas no caso das chamadas curas são as que podem ser explicadas como milagrosas (esta é uma posição da Igreja), depois de ampla investigação científica. Pedro aponta outro padre carismático movendo multidões em Curitiba: é o padre Alberto Kleina, da Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Boqueirão. Kleina é alguém que também faz a “Igreja dar respostas populares”.Celebra seis missas, aos domingos, e quer duplicar o templo, que já é pequeno para conter o número de devotos.
— Mas não se deve ser católico do padre fulano ou de beltrano. Somos cristãos por Jesus, adverte o arcebispo jubilado, citando o caso do padre Jair, um tipo impressionantemente popular, bom cantor, encantador de multidões, dispensador de atenções aos fiéis, membro da congregação dehonista. Ao ser transferido para São Paulo, gerou um impressionante clima de comoção em Vila Hauer e Uberaba. E surgiram muitos abaixo-assinados de fiéis pedindo sua permanência em Curitiba. Em vão. Dom Pedro, nos 33 anos de arcebispo de Curitiba, viveu momentos políticos históricos. Por ser discreto, não os detalha. Mas militantes de esquerda dos anos de chumbo do regime militar iniciado em 1964 podem testemunhar. Por exemplo, abrigou, por dias, no Arcebispado, uma militante de nome Juracilda, perseguida pelo DOPS. Teresa Urban cita sempre o apoio que teve do arcebispo, ela que fôra vitimada pela tortura e condenada à prisão por “subversão”. Alguns nomes notáveis da vida do Estado compuseram a combativa e alerta Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese de Curitiba, nos anos 70 e 80, da qual faziam parte Lafaete Neves, Newton Freire-Maia, Eduardo Rocha Virmond, criada pelo arcebispo para enfrentar o arbítrio... Governos? Sempre se deu bem com todos, mas nunca se calou em momentos que considerou essenciais. O atual governador Requião chegou a processá-lo: acusava-o de ter promovido a candidatura de Rafael Greca a prefeito na reinaguração do Albergue São João Batista, o que o arcebispo nega. Hoje o governador destina-lhe elogios, dão-se bem, o processo não deu em nada.
Com Jaime Lerner teve sempre boa convivência. Mas Pedro ficou irredutível contra a proposta de venda da Copel. Foi contra a posição do governador de então. Nada que rompesse o respeito mútuo, nessa diferença de posições. Por falar em governantes: acha Lula homem bem intencionado e seu governo com propósitos sérios. Mas o governo está vivendo — diz — a dura experiência de enfrentar as estruturas, renitentes, que não se deixam alterar. A propósito: um dos homens mais próximo de Lula, que detém a agenda presidencial, seu secretário, o ex-seminarista palotino Gilberto Carvalho, foi coordenador da pastoral operária da Arquidiocese de Curitiba, por anos seguidos. Há algumas marcas da personalidade desse Pedro que jamais negou o seu Senhor (ao contrário do outro, o apóstolo): os sermões longos. Não parece se importar com isso, acha que pregar é preciso. A agenda de aposentado é ainda ampla. Na semana desta entrevista, estava exercitando uma das especialidades milenares da Igreja: o trabalho de arbitragem de litígios. No caso, tentando convencer a proprietária de minúsculo prédio (sete metros de frente) na Travessa Oliveira Bello, a ceder uma saída de emergência para o Palácio Avenida, onde transitam e trabalham três mil pessoas/dia. O Palácio sede de um banco, e no qual funciona um teatro, pode ser interditado pelo Corpo de Bombeiros por não ter saída de emergência. Pedro Fedalto tem sido bombeiro, sem cessar, em situações em que não há diálogo. Um grupo de religiosas passionistas e autoridades da prefeitura (proprietária do imóvel) pedem que Dom Pedro ajude-os a encontrar uma congregação ou associação religiosa para cuidar do tradicionalíssimo Asilo São Vicente de Paulo (atende a idosos, Alto do Cabral). As freiras que lá estão há 75 anos, o estão deixando, sentindo-se ofendidas por injustas acusações de um suposto voluntário da casa.
Até o final de setembro Dom Pedro já estará instalado no Seminário São José, em Orleans. Por ora, é hóspede de seu sucessor, Dom Moacir Vitti, o novo arcebispo e que foi seu bispo auxiliar. Hospeda-se num pequeno apartamento no novo Arcebispado que ele, Pedro, construiu, na ampla área (156 mil metros quadrados) da Casa de Retiros Mossunguê, terra adquirida nos anos 50 — “graças àquele sacerdote de grande visão, padre Bernardo”. Fica do bairro chique de Curitiba, conhecido como Ecoville (na verdade, Mossunguê). Dom Pedro sofreu críticas na época da construção da casa do Arcebispado, diziam que estava construindo um “palácio” para ele viver o otium. Na verdade, quis apenas uma casa ampla e descentralizada, “e para que as visitas e o arcebispo atual e os futuros não sofram com o barulho e as dificuldades que tivemos no Alto do São Francisco”, afirma Pedro. Acha que sua presença em nada pode dificultar a ação de seu sucessor. Já ouviu falar muito de bispos que, aposentados, acabavam sendo vistos como exercendo “um governo paralelo”. Dom Moacir? Para Pedro, trata-se de um homem culturalmente preparado, com doutorado em Dogmática em Roma, um apóstolo com o perfil para atender à cidade exigente, já metrópole.
Tudo que
tem na vida está nas malas que “já mandei para o seminário”.
São livros, objetos de devoção, textos e material
de pesquisas em andamento. Sim, pesquisas: Otimista,
quase não enxerga radicalismos na Igreja. Sobre Bush: “não precisava ter feito a Guerra do Iraque, está provado”; Sobre clonagem de embriões humanos com fins terapêuticos: “A vida humana é mesmo limitada, devem se procurar caminhos de cura, mas não rompendo com a vida”; Sobre o clero curitibano: “O Studium Theologicum garante ensino de boa qualidade. Nossos padres diocesanos (formados pela Arquidiocese) e os religiosos que aqui estudam são bem preparados”; Sobre religiosidade popular: “Acompanhada de correta evangelização, dá bons frutos. Na Igreja do Perpétuo Socorro, no Alto da Glória, às quartas-feiras, 25 mil pessoas vão lá rezar”; Sobre radicalismos católicos: “acho que sobrou só a TFP, que não é um movimento de Igreja, mas composta por católicos”; Sobre justiça social: “O movimento dos Focolares, de Chiara Lubich, está nos mostrando o caminho, com a proposta chamada Economia de Participação. No mundo todo, empresários focolarinos dão exemplo de distribuição de seus lucros com os empregados”;
Um conceito de felicidade: “Meu padrinho de batismo, Antônio Marchetti, dizia que ser feliz é poder chegar ao fim da vida tendo bem encaminhado os filhos e morrer sem dívidas”. Pedro adiciona que felicidade obtém-se a partir do óbvio, atendendo-se às propostas evangélicas de amor a Deus e ao ser humano. Pedro é também o varão de dúvidas. Por exemplo, não sabe qual o caminho para a Igreja atingir o homem e a mulher da cidade vertical. Não tem modelo de pastoral urbana, “ninguém o tem”. Sabe, isso sim, que no Brasil vive-se quase que o transplante do modelo rural, na relação fiel versus paróquia. “Quem conhece Dom Pedro Fedalto identifica nele um tipo único, especial”, garante um sacerdote da Cúria de Curitiba, para lembrar que “se ele não é um intelectual, um teólogo, é o pastor com as qualidades da inteligência e do equilíbrio, homem prudente e conciliador”. E é o Santuário de N. Senhora do Equilíbrio, que ajudou a construir, em Orleans, aonde poderá ser encontrado celebrando missa, nos próximos dias. Sob a invocação da “mãe do equilíbrio”. — Meu
lema é Veritatem in caritate, não esqueça. Veritatem
é caso acusativo..., sublinha Pedro, aquele que, sendo firme como
pedra, jamais negou o seu Senhor. Transcrita
da Revista Idéias edição 14, setembro de 2004 |
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