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IMAGO Aroldo Murá G. Haygert
Wilson Ferro Delara, 48 anos, contradisse a dita lógica fatalista reinante na época, e em grande parte imperante ainda hoje: tinha tudo para ser um comandado, no máximo um microempresário. Filho de um taxista de Curitiba, assassinado por ladrão, em 1965, ficou órfão aos 10 anos, virando a partir dos 12 anos uma espécie de arrimo de família: ajudava a manter o lar, composto por ele, a mãe e uma irmã. Com exceção do chamado “terceirão”, porta de entrada para a universidade, todos os estudos primário e secundário desse curitibano do Bigorrilho foram em escola pública, o Colégio Rio Branco. Nunca estudou no exterior, formou-se em economia aqui, na PUC-PR, e depois fez diversas pós-graduações e especializações. Jamais leu Babbitt, de Sinclair Lewis, mas, tal como o personagem do romance, é um sólido self-made man, cuja fisionomia serena, atenciosa, sem sofisticações, acaba revelando ao interlocutor um entrepreneur de rara garra e sem os tiques do s chamados vencedores ou de tantos que apenas se imaginam como tal: é o maior acionista individual (20%) da maior empresa de logística da América Latina, a América Latina Logística do Brasil (inicialmente, ALL Delara), cujo capital social é de US$ 450 milhões, uma das três únicas empresas brasileiras a abrirem seu capital nestes últimos cinco anos no País (as outras duas foram a Natura Cosméticos e a Gol Linhas Aéreas). E a caminho de ter ações na Bolsa de Nova Iorque. Delara é o presidente do Conselho de Administração da ALL Logística do Brasil. Ao contrário do que se poderia esperar, deixou de lado a “natural” posição de representação da empresa e assumiu o principal papel de comando da ALL. É o comandante diuturno da organização.
Afável e apaixonado pelo ramo logístico, nos amplos painéis de controle da sede da empresa, em Vilas Oficinas, pode, num segundo, parar um trem de carga no PR, SC, RS e São Paulo, ou Argentina e Paraguai. São 15.000 vagões e 17 mil quilômetros de linha da empresa monitorados por ele e sua equipe jovem — os mais velhos têm 40 anos. Monitoramento por satélite que se estende aos dois mil caminhões da ALL que percorrem o Cone Sul e o Brasil de Norte a Sul. Tem sob seu comando 3.500 empregados. Nada mau para quem começou tudo no início da adolescência — sem tempo para ser “aborrecente”, qualificativo dado aos inquietos juvenis, adjetivo que deles tudo desculpa, nos dias de hoje. Acompanhava a carga e descarga de navios, como office-boy, em Paranaguá e Antonina, como gente grande. É dos raros brasileiros que podem citar ter sócios homens como o bilionário americano Roger Pensky, patrocinador da Fórmula Indy e dono de multinacional de logística. Com Delara define-se a história da logística na América Latina, e a própria natureza da atividade confunde-se no Brasil com o nome dele. É desbravador de um segmento empresarial com poucos anos de conformação no Brasil. O perfil discreto Ele não se esconde de ninguém. Mas também não faz o gênero “arroz-de-festa”. Não se expõe desnecessariamente. Não aparece entre os socialites, nem freqüenta colunas de gossips ou assemelhadas. Anda de táxi e/ou dirige o próprio carro. Neste caso, pode ser o motorista do filho, Mário Neto, 13 anos, a levar o rebento ao colégio bilíngüe onde faz a Junior high school. Assim sobra tempo para conversas de homem para homem, como diriam os psicólogos. A mulher, a quem carinhosamente chama de Rô, Rosângela, é a companheira inestimável, de 25 anos de casamento. Em comum têm tudo — semelhantes origens sociais provenientes de uma média classe média, raízes não afetadas pela fortuna (a melhor fábrica dos sempre risíveis nouveaux riches), mais o filho e a filha Paula, de 21 anos, estudante de direito. E juntos compartilham de uma saudade imensa de Cláudia, a filha morta aos 13 anos por um choque anafilático. Presidente da Fundação Iniciativa, de amparo a menores carentes em casas-lares, Rosângela foi por 20 anos funcionária da Caixa Econômica. Da vida discreta da família, há alguns passos previsíveis, como o diário caminhar do casal, no jogging obrigatório em parques da cidade. Sem seguranças. “Guiados por Deus”, proclama dela, sem tons místicos, apenas transparecendo uma fé profunda.
A “descoberta” da logística — Vivemos a década da logística, diz Wilson Delara, introduzindo o tema de sua vocação empresarial. Lançado no mundo do trabalho muito cedo, ganhando desde os 12 anos o pão com o suor do rosto — conforme o anátema-bíblico —, o destino colocou Wilson no primeiro emprego na extinta Transplata, empresa argentina de transporte marítimo. Trabalhava na sede da empresa, na Marechal Deodoro com Barão do Rio Branco em Curitiba. Primeira e grande introdução à realidade que depois seria entendida como parte da logística. Ia a Paranaguá e Antonina para acompanhar os despachos de cargas e acabou conhecendo um mundo de empresários. Um dos que davam atenção ao jovem interessadíssimo nas suas funções era o madeireiro Miguel Zattar, recorda Wilson Delara. Aos 18 anos, fechada a empresa argentina, foi vender caminhões e acessórios na Irmãos Gulin, onde acabou um dia — por golpe de sorte — tendo de fazer sala para Raul Randon e seu entourage, que esperavam por Alfredo Gulin, na loja. O ítalo-gaúcho de Caxias, impressionado com a recepção dispensada e os conhecimentos mostrados pelo jovem vendedor, ofereceu-lhe salário 12 vezes maior do que o que ganhava. Delara aceitou, foi para o Rio Grande, recebeu treinamento e até os 25 anos chefiou a Randon em Curitiba, vendendo carrocerias de caminhões, bem assalariado e bem comissionado. Depois veio a experiência em construção civil, com um sócio, no que se saiu apenas relativamente bem. Mas — “estava escrito” — teria de voltar ao segmento de carga, grande aprendizado para a realidade com que Wilson surpreenderia seus conhecidos, em 2001, ao associar-se à ALL, a empresa de logística com faturamento de US$ 400 milhões/ano, a quinta maior empresa do Paraná. Mas antes, teria de passar pela experiência de, com um sócio, ser um dos donos de uma transportadora rodoviária (tinha 10% do capital). Desfeita em 1988 a sociedade iniciada em 1983, recebeu como parte do negócio quatro caminhões com os quais iria fazer a multiplicação dos pães numa viagem solo. Assim nascia a Delara Transporte e Logística, que teria em 2001 quatro mil caminhões, sede oficial em Curitiba, na CIC, mas de fato servindo e crescendo junto com a clientela a partir de São Paulo. Atendia a clientes de porte, como a Ford do Brasil. Logística impôs-se. A tradução da palavra embutia renovação em administração de negócios no início dos anos 90. Delara, experiente e já bem-sucedido no ramo, ampliou investimentos no seu negócio a partir do Plano Real, em 1994. A reorganização da economia, os ganhos com o trabalho e o pouco atrativo das aplicações financeiras indicavam que o caminho por ele escolhido estava certo. Afinal, sua empresa de transporte de cargas e logística àquela altura já tinha um faturamento mais que respeitável, US$ 100 milhões/ano, um case de consolidação empresarial exibido Brasil afora quando apenas tinha completado 10 anos de existência.
O grande capital Para chegar à associação com a América Latina Logística em 2001, Wilson Delara tinha, além de caminhões e clientes em todo o Brasil, largo know-how empresarial específico. Ninguém me lhor do que ele encarnava aqui a palavra logística, preciosa num novo tempo da economia. Há anos Delara vinha vendendo logística: e a partir de 1994, não havia mais lugar, numa economia estabilizada, para o transporte atuar separadamente de controle de estoques, movimentação, armazenamento e embalagem. Esse trabalho conjunto era a bússola para a redução de custos e o ganho de mercado. Se a Delara Transporte e Logística ia muito bem, por que vendê-la à ALL? O caminho seria associar-se ao empreendimento de gigantes que ganhara concorrência para explorar os serviços da antiga Rede Ferroviária ou enfrentar uma relação até difícil com megaoperadores da logística mundial, como a Ryder (fatura US$ 10 bilhões/ano), a AXEL, a CAT (dos franceses da Renault) a Pensky Logística (fatura US$ 6 bilhões/ano). Essas estavam a partir de 1999 “descobrindo” o Brasil, chegando com know-how sólido, de economias consolidadas, e clientes internacionais também. Vinham a todo vapor. Depois de examinar várias alternativas locais e internacionais, em 1999 — tendo ele mesmo um portfólio de clientes peso pesado, como a Ambev, White Martins, Scânia do Brasil e Ford do Brasil —, Wilson Delara apresentou as iniciais propostas à ALL, então voltada basicamente ao transporte ferroviário (ainda com o nome Sul Atlântico). Em 2000, formalizou à hoje ALL a intenção da junção dos serviços de trem, rodoviários e de armazéns numa só empresa. A conversa prospera em 2001, consumando-se a formação da ALL Delara Logística (sendo sócios o Credit Suisse, a GP Investimentos e a ex-Delara).
“Seu” Antônio, ídolo “Seu” Antônio Delara é filho de portugueses, comerciante bem-sucedido em Rio Branco do Sul, hoje octogenário. Na falta do pai — Mário Delara —, Wilson elegeu este avô seu ídolo. Por anos, o avô foi conselheiro. Homem de outra geração, com o pé no freio e temeroso de crescimentos acelerados em negócios, dono de um conservadorismo empresarial até compreensível, Antônio a cada visita do neto queria detalhes dos seus negócios.Tendo por princípio falar a verdade em qualquer ocasião, Wilson viu, a certo momento, diante do olhar e do tom surpreso de “seu” Antônio, ao responder-lhe sobre seus negócios, “que deveria frear a realidade para o bom velho”. Foi assim, para não causar comoções e preocupações desnecessárias ao ídolo, substituto do pai, que Wilson decidiu “estancar” seu crescimento empresarial. “Num certo momento, resolvi não passar de 40 caminhões”. Para o bem dos dois, a piedosa mentira deu certo, e as longas conversas voltaram ao equilíbrio da troca de afeto e respeito. O avô, como os que gozam da intimidade de Wilson Delara, o chamam de “El Cid”, uma referência ao cavaleiro medieval de empreitadas épicas, cujos traços de guerreiro intrépido dizem encontrar em Wilson. Marcas que começam pela origem ibérica — Ferro e Lara. Boa parte do staff de auxiliares imediatos o chama de Wilson, dispensando os títulos e mesuras esperáveis em empresa de tal porte. Com eles passa de 10 a 12 horas/dia. Nas quintas-feiras, joga futebol com os colaboradores, ali mesmo, na cancha da sede. De lá, pode divisar o amplo bosque natural que mandou preservar e montar lá a Casa do Meio Ambiente. Trata-se de espaço pedagógico para alunos das escolas públicas da vizinhança. São as mesmas crianças que projetos da SOCIALL (o braço social da ALL Delara Logística) atendem, centenas de escolares. Dois vagões que lembram românticos trens dos anos 20 do século passado estão ali mesmo. Neles Delara recebe visitas para café da manhã. Vagões que podem, de repente, ser deslocados, por exemplo, para uma viagem com estudantes universitários ou empresários. Como aconteceu meses atrás, quando o trem, com Delara a bordo, foi até Uruguaiana, RS, fronteira com a Argentina. Tempo para ler muitas revistas especializadas, isto ele sempre acha, assim como não dispensa clipping diário dos principais jornais do mundo, centrado em economia. E até a leitura de romances policiais. Boa parte de sua vida semanal é gasta em avião: viaja toda a semana para um roteiro obrigatório, a que se impôs como vice-presiente da Associação Nacional de Transporte Ferroviário e dirigente da ALL Delara Logística. Vai principalmente a São Paulo, Argentina (onde a ALL Delara é dona de duas ferrovias) e Brasília.Vai em busca de clientes, consolidar negócios, e mostrar a autoridades a importância do setor. — Tenho confiança no governo federal, e temos sido infatigáveis em mostrar ao Planalto como o nosso setor cresce. Ao mesmo tempo, essas viagens, indo a campo, nos levam a interagir na áreas que fazem a ALL girar, explica Delara. Ágil, esbelto, a “própria imagem da saúde”, diz um auxiliar de Wilson, ele vai mostrando tudo da sede. Desde os painéis de controle que lembram filmes futurísticos, às assépticas salas de aula da Universidade ALL, que só no ano passado serviram para aulas e treinamentos de alguns milhares de funcionários e de familiares de funcionários. As mesmas equipadíssimas salas em que se desenvolve o MBA de Logística no qual, acredita-se, Delara deve ser o reitor. Perfil mais apropriado, impossível. — Aqui tudo é transparente, tudo auditado pela Price, vai dizendo Wilson Delara enquanto explica os quadros com os targets, os alvos de cada setor. A maioria absoluta com o sinal verde, indicando o cumprimento de objetivos. Tal como aconteceu com o ainda jovem empresário, que “sempre quis ser isso mesmo, um empreendedor”. Só não diz se sonhava em chegar ao que chegou. Nem fala de futuro — “este eu faço todos os dias”, completa, no melhor tom de quem coloca na vida pessoal princípios de logística. Que, afinal, são caminhos férreos, rodoviários e marítimos dos quais é íntimo e referencial na América Latina. Transcrita da Revista Idéias edição 215, outubro de 2004 |
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