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IMAGO Aroldo Murá G. Haygert
Não é um tipo comum, pelo contrário. Dir-se-ia que é das avis raras na política brasileira. É dominado por uma força de solidariedade que mesmo muitos de seus adversários reconhecem como um patrimônio dele, produto escasso entre homens públicos de hoje em dia. Nas próximas oito semanas, Burko, 41 anos, estará deixando de ser prefeito de Guarapuava (170 mil habitantes, 30 mil vivendo em áreas rurais), que é, em território, o maior município do Paraná. Num balanço final, há pontos que ninguém jamais lhe poderá tirar. Um deles, a criação do Centro de Desenvolvimento Tecnológico de Guarapuava (CEDETEG), um espaço antes ocioso de 34 alqueires, (pertencente ao Exército), desde 1998 centro de multidisciplinaridade educacional e de pesquisa, sede da Unicentro. Virou ponto de referência a provar que aos homens e mulheres do interior não está reservado o “destino” de serem meros consumidores de avanços científicos e tecnológicos. Podem ser também artífices da boa modernidade, como ali ocorre. Nesse campo do ensino, e com apoio de uma fundação educacional municipal, Burko abriu a cidade para ter hoje 48 cursos superiores. Uma coisa parece certa: Burko não deve mudar, fazer concessões essenciais a situações transitórias em detrimento de sua identidade, em prejuízo de suas “obsessões de meta certa”, como diz um amigo de infância do político que dirige Guarapuava desde 1997. Naturalmente que todo sonho precisa de empurrões, e que o mundo onírico não se materializa em realidades com o fatal romper da aurora. Com o pai, Vitório, um gentleman, pacato aposentado da iniciativa privada, neto de ucranianos de Rio Azul, parece ter recolhido aquela aura de serenidade e olhar distante com que vai enunciando metas e falando de realizações. Da mãe, dona Maria do Rocio (neta de um presidente da Província), cartorária, ganhou o DNA da liderança e do empenho sem limites às causas humanitárias. “tia Russa”, como a chamam na cidade, é o nome mais ou menos onipresente em Guarapuava. Contra ou a favor, o nome dela circula em boa parte das análises políticas e, sobretudo, na área em que sua influência é mais presente: a ação social. Personalidade forte, “tia Russa” foi secretária de Ação Social na primeira gestão do filho. Fez um trabalho revolucionário, acabando com moradias de lona preta nos alagados, ajudando a dar dignidade a centenas de famílias antes vivendo em favelas, amparando mães e crianças em programas como os da Pastoral da Criança e Anjo da Guarda, entre outros. — Um dia, tive de demiti-la, tal a presença como se impunha na administração. Ironizavam, sugerindo que ela é que era a prefeita de fato, diz Burko, lembrando que depois da demissão, os dois passaram meses sem se falar. Enfim, tiradas as dúvidas sobre a questão autoridade, ela voltou a assessorar o filho. Com até melhor desempenho que o anterior. Mágoas a família as têm, muitas: campanhas de difamação, duros embates pré-eleitorais com adversários depois derrotados nas urnas, com saldos difíceis de conceber num centro daquele porte. Numa ocasião, a casa de Burko recebeu uma carga de tiros de arma de grosso calibre. Sem falar em telefonemas e gravações — “apócrifas, montadas”, diz a mãe — em busca de atingir a honra de Burko. Processos intimidatórios. Se há político que coloca tudo às claras, sem pactuar com meio-termo, esse é Vitor Hugo Burko, segundo o testemunho de muitos de seus auxiliares. Um deles, por anos lhe fez oposição, inclusive na Associação Comercial, que presidia. Eleito, Burko o levou, como secretário de Indústria e Comércio, para desenvolver um dos projetos mais acariciados pelo prefeito, o do empreendedorismo, que rendeu a Guarapuava o Prêmio Prefeito Empreendedor, dado pelo Sebrae nacional. O empreendedorismo é o objetivo final do programa Bairros em Ação, que oferece treinamento técnico, consultoria especializada e apoio para obtenção de crédito visando geração de emprego e renda. “Num tempo em que o Brasil todo parecia desempregado, o programa gerou, entre 2002 e 2003, mil empregos diretos e 800 projetos individuais”, diz Burko. E se pergunta: “É pouco, levando-se em conta o tamanho de nossa cidade?”. Não aceita ficar em cima do muro. E nisso é regido por uma lógica inexorável: “Se não decido, erro 100%; se decido, posso errar em 50%”, raciocina.
Quando estudante no Colégio Nossa Senhora do Belém, no fundamental, de forma discreta, diariamente entregava sua merenda a um colega pobre, bolsista da instituição católica. Chegava em casa faminto e só depois de muita indagação aos professores a mãe descobriu como a merenda “sumia”. Tratava-se de exercício de solidariedade do filho, com o que dona Rocio e familiares se acostumariam: “Havia sempre de 12 a 18 meninos, amigos dele almoçando e jantando em nossa casa; a maioria deles, carentes”, lembra o pai. Parte do segundo grau foi em escola pública, em Guarapuava mesmo. Depois, muda-se para Curitiba, completa o ensino médio no Colégio Dom Bosco, faz dois anos de engenharia civil na PUC-PR, e se forma em direto na Faculdade de Direito de Curitiba. Foi advogado “só de defesa”, ganhando quase todas as dezenas de júris em que atuou. Nunca ganhou um tostão: seus clientes eram sempre carentes. Desistiu de advogar, pois não aceitava a idéia de receber para defender alguém pedindo justiça. Mas o bom tribuno foi aprovado. Com distinção. Profissionalmente, esteve envolvido por anos com a indústria de pasta mecânica da família, trabalhando ao lado de um irmão. Hoje mora numa chácara. À direita de quem entra, estão os alicerces de uma casa que nunca conseguiu terminar. Mora na casa construída para a família do caseiro, simples mas atendida pelo essencial. Boa parte do tempo de folga divide ali com a companheira Ameriam. O que, então, inclui um bom fogão para o exercício “deste grande ato de doação que é cozinhar”, explica Burko. E ele é um bom cozinheiro. Especialidades?
Preferências por carnes. Lingüiça tem ali mesmo, na sua fábrica de embutidos, localizada na chácara. E há também lá a criação de ovelhas e cabras, muitas reprodutoras de rara origem, algumas frutos de matrizes im- portadas de centros internacionais reputados no ramo, como África do Sul, Austrália e Canadá. São centenas de animais, que merecem cuidados especiais e o olho treinado do criador que sempre entendeu do riscado.
Em casa teria todo o clima para se formar católico devoto e esclarecido, seguindo o exemplo e a militância na Igreja apontados pelos pais. Na verdade, entende-se apenas como um ser cristão carregado de espírito ecumênico. Acha que o mundo seria bem melhor se as religiões se entendessem e fossem bússolas de concórdia. Por isso mesmo, investiu num espaço aberto, milhares de metros quadrados, que denominou de Praça da Fé. Lá, ocorrem as manifestações de um mercado religioso em expansão, como de resto no País todo. Para inaugurá-lo, há dois anos, promoveu um show do cantor Padre Zezinho, com aplausos de padres e pastores, 30 mil pessoas presentes.
Curioso, inventivo, quando criança experimentou novas formas de cultivar a erva-mate, o que lhe rendeu atentas observações e aplausos do então Instituto de Terras, Cartografia e Florestas (ITCF). Recentemente, porém, o Ibama iria questionar o prefeito Burko sobre o Parque da Caça, por ele criado em 2002 em Guarapuava. Provocou arrepios de ecologistas de mão única. Com o Parque, Burko estava simplesmente cumprindo uma lei estadual (a Lei Khoury) que dispõe sobre a criação de reservas para caça de espécimes criadas em cativeiro, como o faisão. Visava também àquelas que se multiplicam assustadoramente, e cuja propagação sem controles — como a capivara — põem em risco também barrancas de rios e ameaçam o ecossistema. O Rio Grande do Sul não tem, por acaso, há anos, o período livre e oficial de caça?
Falar em ecologia empolga Burko, que discorre com conhecimento de causa, boa parte formada sendo “rato de bibliotecas”, como a do Centro Nacional de Florestas da Embrapa, em Colombo. Lamenta a possível extinção do tapiti, lebre nativa, pela lebre trazida da Europa, praga nos campos do imenso planalto guarapuavano. Assim como não é menos incisivo sobre os males criados pelo guaraxaim, um pequeno lobo, que vai acabando com as codornas e perdizes. Formar uma mentalidade de preservação do meio ambiente não ficou em sonho de Burko: com ele nasceu a coleta de lixo reciclável, a cooperativa de carrinheiros da reciclagem, as aulas de ecologia para escolares da cidade, o Parque Municipal das Araucárias, os viveiros de plantas nativas e de plantas medicinais. Não é pouco, quando se pensa que um trabalho como esse rompe com usos e costumes inculcados por uma cultura — especialmente na região — de utilização dos recursos naturais sob a lógica do lucro. Seu discurso — esclareça-se — é o da utilização sustentável da natureza, não o da simples conservação.
Esse orador
de discurso fácil denuncia uma formação cultural
multifacetada. Um falar que nada tem a ver com a chamada “cultura
ornamental”, característica de políticos parlapateiros,
e sobre o que tanto escreveu Fábio Campana, uma das leituras obrigatórias
de Burko. — Ele fala com a mesma empolgação para diminuto grupo quanto para uma multidão. E até fez comícios só para crianças, em suas campanhas para vereador e prefeito, recorda uma ex-secretária de Comunicação de Burko, de partido oposto ao dele, e cujo marido foi vice numa das chapas derrotadas por Burko em 1996. Para um exportador importante da cidade, amigo de infância, “Burko surpreende e encanta o ouvinte: discorre da soja aos avanços da genética, a terapia gênica, com didatismo impressionante, submetendo-se ao julgamento de especialistas, freqüentemente encontráveis na platéia, que o aplaudem”. E tudo dito — testemunha a mesma fonte — “com entonações claras, com ritmo, e muitas vezes, com pitadas poéticas”. Não poucos comparam o discurso de Burko “à eloqüência do governador Requião”. Aliás, embora desenvolva momentos de criatividade como a encontrável em Jaime Lerner, Burko diz que admira mesmo é o governador Requião....
Há um olhar amplo de Burko sobre as raízes de sua região. Assim, restaurou a Festa da Cavalhada, hoje a maior de nosso folclore no Estado, reunindo 25 mil pessoas, mil atores num espetáculo em que mouros e cristãos se defrontam. Herança lusa, no revivido Parque da Cavalhada. Tão importante para o prefeito como outros marcos que deixa, a exemplo do prêmio internacional que lhe foi atribuído pelo trabalho de conservação do Rio Jordão. Mas de todos
os esforços — incluindo os cuidados com a terceira idade
e apoio cotinuado a pequenos produtores rurais — “há
o galardão da vida”, diz. Poucos municípios poderão,
nestes tempos em que tanto se prega a preservação do meio
ambiente, ostentar — Não
se proclama que tudo é comensurável? O que mais importante
do que a vida humana para se mensurar?, indaga Vitor Hugo Burko, com isso
dizendo que “o definitivo relatório de um administrador público
tem de mostrar o peso que ele atribuiu à vida de sua comunidade”. Transcrita
da Revista Idéias edição 16, novembro de 2004 |
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