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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
MAIO DE 2005

IMAGO
FREITAS NETTO
O revisitador de Curitiba

Aroldo Murá G. Haygert


Arquivo/Editora O Estado do Paraná


João Dedeus Freitas Netto, ao morrer, aos 82 anos, no final de outubro deste 2004, pode ter encerrado um ciclo de grandes testemunhas da cidade. Ciclo representado por uma certa confraria sem sede, não regida por estatutos ou quadro social, mas facilmente identificável em homens e mulheres apascentados por herança comum. A maior delas, a de terem sido testemunhas, e muitas vezes promotores, das grandes transformações sociais, urbanas, econômicas, políticas, experimentadas por Curitiba no século passado. Eram cúmplices de uma cidade em que todos se conheciam e cuja identidade primeira se amalgamava num linguajar inconfundível, esmiuçando legados comuns e entrelaçados por nomes e fatos familiares. Tudo com entonações do característico “leite quente”, pois.

Freitas Netto era dos nomes mais representativos desse universo. Educado por pais e mestres vindos do século 19, deixou suas pisadas e assinaturas no século 20 e experimentou — muitas vezes extasiado — as grandes mudanças científicas e tecnológicas desembocadas e imperantes no início do século 21.


Freitas Netto em 1971: jornalista, expedicionário,
médico, administrador público e memorialista
da cidade (Arquivo/Editora O Estado do Paraná)

Impossível localizar o homem Freitas Netto num único front da cidade. Há os que preferirão sempre vê-lo como o jornalista que, em O Estado do Paraná, implantou a renovação da imprensa do Paraná, despindo-a de seus quês românticos e assumindo feições prevalentemente técnicas; outros, o enxergarão como o memorialista, dono de um conhecimento enciclopédico sobre as curvas, chiados, murmúrios e odores da Curitiba antiga, que deu lugar cidade vertical; outros ainda, vão bordá-lo nas linhas bélicas, no hole fox (buraco da raposa) em que os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), como ele, se abrigavam, na Itália, das bombas nazistas; eu prefiro ver no leal amigo que se foi um tipo especial, um revisitador em continuada tentativa de reencontro com a Curitiba ainda casta provinciana dos anos 30, 40, 50 e 60. Mas sobretudo o defino como um marco em Curitiba.

Assim, pois, jamais deixei de identificá-lo na sua inesgotável fidelidade às raízes que tanto adubara, e até por isto, reconhecendo nele um dos melhores termômetros da cidade.

Em quem identificaremos o continuador desses conhecimentos e olhares das intimidades e da genealogia curitibanos? Luiz Geraldo Mazza é folgadamente o melhor seguidor da escola. Esqueçam-se as diferenças acidentais entre os dois tipos humanos ímpares. Fique-se com a substância.

Freitas tinha raro faro para identificar os modismos e as modificações trazidas a Curitiba pela acelerada urbanização e a afoita (e justificável) fauna humana que foi chegando. O que só ampliava nele a condição de um proustiano buscador do tempo perdido, mas sem saudosimos patológicos. Continuava o repórter inquieto, o reportador qualificado, autoridade em matéria de Curitiba, fazedor de jornais, formador de gerações de jornalistas, socrático disciplinador, conselheiro, piadista, causeur, bom orador e, não menos importante, respeitado jogador de basquete. Tão respeitado que a Associação Brasileira de Veteranos de Basquetebol promove há 14 anos, em Caiobá, o Torneio Nacional Freitas Netto de Veteranos de Basquetebol.

Naqueles tempos...

Estudou no Colégio Paranaense, o liceu formador das elites curitibanas. Naquela escola-academia, cultivou a língua e a literatura portuguesas. Lá desenvolveu o gosto pela leitura, um ler abrangente, faminto, empapado de curiosidades como que a prenunciar o jornalista sedento de informações que iria, a partir dos 16 anos, seguir as pisadas do pai — Rodrigo de Freitas —, um dos mais emblemáticos profissionais de sua geração, especialmente nas décadas de 1930 e 1940. O Freitas Netto que aos 22 anos assumiria a direção de um jornal.

O apego à leitura “era uma questão espiritual, o pão essencial”, explicava Freitas Netto, parafraseando Milton. Por isto mesmo, repetia, abominava o homem de um só livro, às vezes deixando insinuada, nessa reprimenda, condenação às crenças fundamentalistas alicerçadas em textos únicos, cerceadores de visões reflexivas. Essa era uma posição crítica que, em parte, ajudaria a explicar seu agnosticismo e seu desinteresse pelo fenômeno religioso.

Criou-se em contato com a piazada típica da época: os filhos de poloneses, italianos, alemães, ucranianos. Ele mesmo era neto de italianos. Jogou futebol no campo da Galícia, fez muito footing na Rua XV, depois, universitário, freqüentou os chás dançantes da Engenharia, na Duque de Caxias, onde conheceu Luci Ferreira da Costa, de tradicionalíssimo berço paranaense, filha de Licínio, sobrinha de Lisymaco Ferreira da Costa.

Foi ali, na Duque, na Rua José Loureiro, esquina com a Dr. Muricy, numa noite de 1944, depois de um baile, que partiria para a Itália, com centenas de outros pracinhas da FEB saídos do Paraná. Tudo em segredo, nem a amada poderia saber. Ele só intuíra que “o dia estava chegando”. E chegou de inopino, madrugada rumo ao Rio de Janeiro para o embarque no navio que os levaria às incertezas das trincheiras.

Da II Guerra, em campos de Itália, depois de nove meses, trouxe o essencial, não se alongava em histórias, não cultivava fanfarronices, não se atribuía importância além daquela que era a que importava para ele: a de ter participado com milhares de outros pracinhas brasileiros de enfrentamentos contra os nazistas. E o fez na área de saúde, cuidando de feridos no campo de batalha, de acordo com a vocação que o já estudante de medicina esboçava.

No máximo, em momentos cruciais, muito excepcionais, uma ou duas vezes, chegou a mostrar a imensa cicatriz no peito, marcas de um petardo recebido em campo de batalha. Mas se não fazia marketing da condição de pracinha, era um dos referenciais da Legião Paranaense dos Expedicionários, onde dividia — com os poucos sobreviventes — o patrimônio moral que ajudara a FEB a conquistar. O Museu do Expedicionário tinha seu carinho, seus cuidados, pode testemunhar o major Benur Augusto Muniz, presidente daquela casa que cultiva o bélico para pregar a paz. As celebrações do Dia da Vitória tiveram Freitas, muitas vezes, como orador principal, ali na Praça do Alto da Rua XV.

E nenhum militar reagiu tão energicamente e de forma tão contundente quanto Freitas Netto ao filme Rádio auriverde, na década de 1980, do cineasta catarinense-paranaense Sylvio Back.

Freitas rebatia no rádio, na televisão, nos jornais, as críticas do filme de Back à presença brasileira nos campos de Itália. Foi das poucas vezes que se viu o velho e liberal (e Freitas era um liberal) pracinha, na prática, fazendo “a cobra fumar”. Parecia repetir a advertência — “se vos calardes, as pedras falarão...”.


Com o jovem prefeito Jaime Lerner (direita), em 1972, e com o também
jornalista Enock Lima Pereira (Arquivo/Editora O Estado do Paraná)

No jornalismo, um marco

Ao jornalismo reconhecia ter sido levado em grande parte pelo pai, Rodrigo de Freitas, dono de sólido reconhecimento profissional no Estado, o autor de editoriais e artigos antológicos, especialmente contra o Eixo e sua ideologia, em O Dia.

Na verdade, o coração de Freitas Netto ficou, de início, dividido: metade se colocou na medicina social que exerceria na Secretaria de Saúde do Estado, como médico sanitarista; outra, no jornal...

Começou no Diário da Tarde, em 1938, depois foi para O Dia e em O Estado do Paraná — então propriedade de Aristides Merhy, José Luiz Guerra Rêgo e Fernando Camargo — foi o poderoso e onipresente secretário de redação, a partir de 1951. No governo Jaime Canet Junior, nos anos 70, já aposentado do jornal, promoveria a mais impressionante modernização de um organismo público, transformando a Imprensa Oficial do Paraná numa repartição exemplar para suas similares no País.

Em São Paulo, ao mesmo tempo, um irmão de Freitas, Vandick, fazia semelhante operação na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Em jornal viu de tudo: brigas políticas, sofreu — mas não se dobrou — pressões de governadores para eliminar textos (caso de Ney Braga, que lhe foi pedir, pessoalmente, que não publicasse editorial contra seu governo), defendeu posições assumidas pelos órgãos em que trabalhava, opôs-se a desmandos, deixou suas marcas num trabalho quase artesanal: no início da carreira, a maioria dos jornalistas manuscrevia os textos, as coberturas eram feitas muitas vezes a pé ou de ônibus, os trabalhos de composição (hoje, computação) eram em chumbo (cada jornal tinha nas oficinas
uma verdadeira usina, com chumbo derretido, abastecendo as linotipos), as paginações manuais eram morosas, a diagramação inexistente nos moldes em que a conhecemos hoje (em princípio, tudo era composto em uma coluna e depois disposto na rama). E o fechamento da edição se dava com o romper da aurora, quase sempre.

Entre Lupion e Bento Munhoz da Rocha Neto ou Ney Braga, ficou sempre com sua consciência de jornalista que, entendendo as posições políticas do jornal em que trabalhava, haveria de ser manter íntegro, observando padrões éticos inegociáveis.

Nunca escondeu admiração por Barros Cassal, outro jornalista que fez escola, paradigmático, e de quem foi discípulo. O historiador Coelho Junior — com seus mitos e heróis bem trabalhados — estava entre as maiores influências recebidas por Freitas Netto e toda uma geração de jornalistas.

Freitas não escondia o respeito pelo sobrinho Hélio de Freitas Puglieli, jornalista, editorialista insuperável, poeta, contista, e filósofo que um dia dirigiu a Faculdade de Filosofia da UFPR, paranaense com inquestionável portfólio cultural (nada a ver com leitores de orelhas de livros ou repetidores de verbetes de enciclopédias ou de frases feitas). Respeito que também expressava, na família, a outro sobrinho, o Rodrigo, também jornalista.


O humor ágil definia o disciplinador e formador de
jornalistas (Arquivo/Editora O Estado do Paraná)

A docência

Nunca foi professor, no sentido formal. Mas repassou conhecimentos e modelos a vida toda.
Os jovens o escutavam com atenção no Sindicato dos Jornalistas, que outrora presidira, e de cujo Conselho de Ética continuava membro. A Casa do Jornalista recebia sua visita quase que diária, na matinal ida ao centro da cidade, com passagem pela Boca Maldita. Nos últimos anos, havia aposentado o Galaxy verde, imenso, um navio, que trocara pelo carro Golf, ultimamente estacionado na garagem. Andava de ônibus, dava receitas e sugestões médicas para os motoristas, ouvia seus reclamos, eles como que retribuíam: paravam os ônibus defronte à casa de Freitas, fora do ponto mesmo, para a entrada e o desembarque do ilustre passageiro, um herói de verdade.

Seu universo de amigos era amplo. Alguns, eram abimo corde — do fundo coração — disse-me uma vez, traindo afetividade que não gostava de mostrar. Dentre eles, médico e companheiro de basquetebol dos veteranos, 23 anos mais moço do que Freitas, José Cândido Muricy. Da confraria do basquetebol havia também o Carlos Marassi, o Narzem Castro, o Rui Britto, o Luiz Giannini, o Bruno Marquesini, o Arnaldo Ramos, o Erwin Bonkoski, o Calil Boabaid... Era uma reunião de veteranos (depois aglutinados em associação) iniciada há 30 anos, na Sociedade Thalia. Nos últimos 15, o palco era Círculo Militar, com partidas, bate-papos, bebericadas e churrasquinhos. Basquetebol que já ligava os filhos dos filhos, às quartas, sábados e domingos.

Memória do Paraná

Belmiro Valverde Jobim Castor era das sólidas admirações intelectuais de Freitas. Uma admiração que se estendia também ao exemplar homem público, com quem Freitas Netto chegou a trabalhar, quando Castor foi secretário de Educação, nos anos 80. O mesmo Belmiro que, depois, o levaria a coordenar o mais ambicioso e importante projeto de levantamento da memória contemporânea do Paraná, o Memória Histórica do Paraná, que durou oito anos, estendendo-se até 1994.
O programa patrocinado pelo hoje extinto Banco Bamerindus envolveu depoimentos de umas 300 personalidades da vida paranaense — de muitos campos de ação —, gravados em videotape profissional.

Sabedoria de Belmiro: só mesmo o Freitas Netto para escolher com ampla acuidade e isenção aquele rol de notáveis, alguns dos quais passavam horas falando, mostrando fotografias, documentos, contando de suas vidas e de suas obras. Às vezes, poderiam até ter falado “demais”, mas a prudência e a fidelidade de Freitas Netto ao bom trabalho de jornalista e historiógrafo prevaleceriam. Tal como quando aquele nonagenário, numa tarde de inverno curitibano, começou a discorrer sobre a “genealogia paralela” de dois ou três nomes ilustres da cidade. Gente com filiações equivocadamente atribuídas, fatos sabidos e aceitos por poucos, mas em sigilo conservados “para o bem das partes envolvidas”.

A equipe escolhida por Belmiro e Freitas formava um experiente grupo de profissionais do jornalismo, nenhum diletante: Luiz Geraldo Mazza, Aramis Millarch, Samuel Guimarães da Costa (por curto período), Renato Schaitza, Hélio de Freitas Puglieli, Aroldo Murá G. Haygert. O acervo está hoje no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Paraná.


Com ele, a Imprensa Oficial do Paraná modernizou-se,
tornou-se referência em administração pública para o
País (Arquivo/Editora O Estado do Paraná)

O crítico aguçado

Doente nos últimos anos, não se queixava da saúde, quando muito se referia ao câncer como “aquele meu problema”. Não aceitava mais cirurgias, mas não deixou de lutar pelo direito de viver, sempre apoiado pela Luci, o genro, Milton Paulo Ross, a filha, Rosane, psicóloga, e pelo filho, o engenheiro Rodrigo Freitas Netto.

Achava tempo, em meio às sessões de radioterapia ou aos internamentos, para falar da profissão, atender estudantes em busca de entrevistas e conselhos. Tempo também para dirimir dúvidas, falar sobre a história da cidade, para os meios de comunicação, imprensa, sempre consultado.

Cultivava os amigos, com telefonemas breves, como quem dizia “conte comigo”. Dele recolhi outros momentos definidores de um tipo humano muito paranaense, e em extinção.

Até poucos anos atrás, deleitava-se em ler jornal e revista colecionando equívocos léxicos e ortográficos da imprensa, sem falar nos que encontrava, incontáveis, nas placas de propaganda comercial. Rádio e televisão, então, nem falar. Tinha fixação em anotar as pronúncias equivocadas do francês, como trois (assim lido, em lugar de “troa”) ou os “Max Ueber” dos apresentadores de tevê que, sob influência do universal inglês, não sabiam distinguir o “W” da língua alemã do “W” do inglês. Mas os que mais exasperava Freitas Netto eram as redundâncias tipo “erário público”.

Tinha um certo prazer em pronunciar corretamente nomes que tanto significaram na história de Curitiba, como a Deutsch Schule (escola alemã) ou de receitar o pumpernickel (a broa preta integral) para uma perfeita digestão. E o Clube Concórdia? Bem, ele o conhecia desde o tempo (antes da II Guerra) quando o curitibano com facilidade o identificava pelo nome original, Deutscher Sängerbund (grupo alemão de cantores).

Não sendo um germanófilo, e tendo lutado contra a ideologia nazista, considerava, no entanto, inconcebível o que fizeram durante a II Guerra com o geógrafo e cientista Reinhard Maack, preso e acusado falsamente de quinta coluna por que — segundo maliciosos ouvidos — teria sido observado “cantando hinos nazistas” enquanto pesquisava e mapeava nosso solo... Na verdade, o cientista cantava alegres canções de sua terra.

No final do projeto Memória do Paraná, Freitas Netto confessava um “fracasso”: embora constantes apelos dele e da equipe toda, o fundador da Academia Paranaense de Letras, o ainda vivo e centenário (este ano) escritor Valfrido Pilotto se negou sistematicamente a dar depoimento. Isto sob as mais diversas e educadas desculpas. Não seria forma de evitar abordagem dos entreveros intelectuais e quase físicos com o lusófilo David Carneiro que, ao contrário de Pilotto, não atribuía importância relevante às correntes de imigrantes europeus que aqui chegaram? Ou temeria Pilotto falar sobre suas atividades de policial durante o Estado Novo?

Sempre tinha uma observação, com cores bem humanas, ligadas a Curitiba e/ou Paraná: em Manoel Ribas, um homem com pouca escolaridade, mas com momentos de estadista, apontava méritos incríveis como o de, anos-luz na frente de seu tempo, ter criado o Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas (IBPT), centro de pioneirismo na madura pesquisa científica; o mesmo “Maneco Facão” para quem Freitas Netto reclamava a urgência de o personagem ter um biógrafo à altura do papel que exerceu no Estado. Às vezes, dizia que esse biógrafo, melhor que ninguém, poderia ser o crítico Wilson Martins.


Campeonato nacional de veteranos de basquetebol,
homenageia Freitas Netto. Um craque na terceira
idade (Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo)

Pratos prediletos

O Freitas Netto da Rua Aquidaban (assim se referia às vezes à Rua Emiliano Perneta, que outrora teve esse nome) conhecia o patriciado curitibano nos seus emaranhados genealógicos. O “quem é quem de Curitiba” ele expunha com a maior naturalidade, especialmente ao entrevistar quem merecesse ser entrevistado entre seus conterrâneos. De humor fino — jamais ferino — atribuía apelidos a conhecidos e companheiros, e que acabariam pegando. Um jornalista importante, que com ele trabalhou em dois jornais, ágil e sobremaneira magérrimo, era “o Aspargo”. Pronunciava o apelido como que sorvendo certezas onomatopaicas.

Quem enxerga Freitas Netto com a medida de bom avaliador da história da imprensa paranaense é o jornalista Luiz Geraldo Mazza.

Para Mazza, a Freitas coube, como secretário de redação de O Estado do Paraná, nos anos 50 e 60, estabelecer um claro divisor de águas entre o jornalismo de pitadas românticas e panfletárias e aquele em que passa a prevalecer o técnico. O profissional, então, com Freitas Netto, toma o lugar do romântico-jornalista, assimila e difunde novas realidades das técnicas de comunicação escrita. Mas o mais valioso, segundo Mazza, é que coube a Freitas, sendo um aglutinador de talentos, fazer o contraponto a uma imprensa até então basicamente orientada pelo grupo de Moyses Lupion. Implanta uma nova concepção de jornal, que depois, no mesmo O Estado, teria ampliação com João Feder e Mussa José de Assis, e no Diário do Paraná com a escola de Adherbal Stresser e dos Diários Associados.

E vem daqueles tempos um momento pinçado no inesgotável fabulário das redações. Era uma regra enunciada por Freitas, ao prelecionar seus repórteres e redatores sobre concordância verbal e nominal:
– A primeira regra é concordar com o secretário de redação.
No caso, ele, Freitas.
Foi assim, sob inspiração socrática, com fidalga ironia, que ele fez escola.

Transcrita da Revista Idéias edição 17, dezembro de 2004

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