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IMAGO Aroldo Murá G. Haygert
Um sorriso naquele faciens carrancudo é quase um prêmio para o interlocutor que, diante do rápido esboço facial do personagem, poderá se achar contemplado por “especial graça”. Mas ele nasceu assim, só parece ter aperfeiçoado, ao longo dos anos, essa capacidade de manter distância — muito própria de um analista — daqueles com quem dialoga. E aperfeiçoou também, garantem velhos amigos, a imersão quase total na escuta do outro. É a materialização do adágio “calar é ouro, falar é prata”. Procuram-se testemunhas de expansões afetivas que denunciem fortes emoções deste personagem ímpar da política. Devem existir. Velhos amigos, que vão encontrá-lo nas comemorações dos 50 anos de formatura da turma de farmácia e bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), poderão até arriscar palpites. Alguns dirão que esse ítalo-gaúcho nascido em 16 de setembro de 1932, em Nova Prata, criado em Guaporé, forjado homem público a partir de 1959, no Sudoeste do Paraná, é fruto de uma espartana disciplina, a da sólida Escola dos Maristas do Colégio Nossa Senhora do Rosário, de Porto Alegre, anos 40 e 50. Será então resultado da ação de sábios educadores, como o irmão Arnulfo? Ou do filósofo irmão Ottão, depois histórico reitor da PUCRS? Ou do disciplinador irmão Eduardo, francês, professor da língua de Molière e de Matemática, e cuja impressionante presença decretando silêncio na sala de aula tornava altissonante a mera passagem de uma mosca? Ou, quem sabe ainda, teria Euclides Scalco sido marcado pelo espírito contemporizador, democrático, jamais opressivo, encarnado pelo irmão Ivo? O mais correto seria entendê-lo como alguém que foi aluno exemplar da insuperável escola religiosa, moral, ética e intelectual dos Irmãos Maristas, de origem francesa, que no século 20 educaram boa parte da elite cultural do Brasil. Da imersão quase total nos estudos do curso científico, no Rosário, como interno, Scalco confessa outra aquisição preciosíssima: a disciplina, às vezes parecendo estoicismo. A primeira eleição A primeira eleição, jamais o político esquece. A de Scalco foi lá na serra gaúcha, a dos italianos, na Guaporé da qual o pai — hoteleiro — seria um dia prefeito. Elias, o pai, que seria o sobrenatural padrão a guiar seus passos, vida adentro. A escolha foi aos dez anos de idade, e ligada ao sagrado: presidente da Cruzada Eucarística da cidade. Uma honra. Responsabilidade com o peso do eterno, entregue ao infantil zelador de almas mirins. Guaporé, às margens do Rio Jaguari, terra de Terezinha, a primeira e única namorada, com quem casaria ao fim de seis anos de namoro em 1956 (e de cujo casamento vieram quatro filhos). O encantamento mútuo nasceu na inauguração da torre da Igreja Matriz da cidade, festa de Nossa Senhora de Lourdes, devoção dos ancestrais italianos, dele e dela. Terezinha é natural do distrito de Muçum (hoje cidade), berço italiano, e de onde se pode divisar — cruzando o rio — o início de outra realidade gaúcha da colonização européia não-ibérica: os alemães e seus descendentes de Roca Salles, Estrela e outras cidades. Lá, Scalco teve farmácia por dois anos, depois compraria outra, em Bento Gonçalves. Nova Prata, Guaporé, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, este amplo espectro geoeconômico feito poderoso e rico pelos colonos italianos. Foi também o grande horizonte de matrizes de Euclides, os avós paternos Girólamo e Ana Scalco. Chegaram em 1891 em Nova Prata, vindos de Vicenza, no Vêneto, íntimos do cultivo da terra. Os imensos parreirais, a cantina (ou vinícola) de qualidade e bom porte, as criações variadas, a terra bem lavrada, fizeram do patriarca Girólamo um homem bemsucedido. E com dez filhos, que depois espalhariam ampla descendência em Santa Rosa, Bento Gonçalves, Caxias, Paraná... Os pais de Scalco, Elias e Adélia, escolheram Guaporé para criar Scalco e o irmão, a mãe dirigindo a cozinha do Hotel Bela Vista, propriedade da família de 1939 a 1948. Com a segunda eleição o próprio Scalco ficou surpreso: o jovem do interior, 17 anos, em 1949 torna-se presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora do Rosário, escola ainda hoje endereço do crème de la crème de parte da juventude gaúcha, em Porto Alegre. O grêmio não tinha ações políticas, defendia o associativismo, as atividades culturais, o aperfeiçoamento escolar. A presidência era indicativo de uma liderança emergente, a despeito da timidez, que Scalco garante ter sido, por anos, forte traço de sua personalidade. Esses passos tiveram influência de mestres como os irmãos Anacleto e Hilário, homens abertos para a questão social, explica Scalco. Morte de Getúlio, a tomada de posição Estava no último ano de farmácia e bioquímica, em 1954, quando o Brasil parou, com a morte de Getúlio Vargas. Porto Alegre chorava a morte do caudilho e “grande pai”, comoção que atingiu em cheio toda uma juventude universitária, dor e perplexidade que afetaram também Scalco. Com outros jovens, alguns dos quais se tornariam nomes de expressão, muitos deles membros da Juventude Universitária Católica (JUC), Scalco assinou manifesto (24 universitários) de repúdio às causas do suicídio. Pedro Simon, senador, legenda na vida política nacional, era um dos signatários. A singular tomada de posição foi o despertar de Scalco para causas públicas. O manifesto de 54 foi rito de passagem para a militância política. O ano de 1959, o embrenhar-se nela. Foi quando, por insistência de um amigo da família — José Prollo — mudou-se com Terezinha e os dois filhos gaúchos (Prisca e Paulo) para Francisco Beltrão, para trabalhar com o Walter Pecoits, médico conterrâneo, petebista histórico, líder de amplo movimento pela legitimação da posse de terras na convulsionada região. Terra que causara o grande levante de colonos, em 1957. A questão só foi resolvida quando João Goulart criou o Grupo Executivo das Terras do Sudoeste do Paraná (GETSOP). Deni Schwartz foi decisivo no processo de medição das terras, resultando em 40 mil títulos de propriedades expedidos. Antes, muitas vidas ali tinham tombado reclamando terra e dignidade. Essa vitória de alguma forma seria “descontada” em 1964 por repressores que torturariam e cegariam de um olho Walter Pecoits, que também perdeu mandato de deputado e direitos políticos. Compromissos A escolha do curso de farmácia e bioquímica estava na lógica do servir: “Na cidade do interior, naquele tempo, a farmácia não só era o grande ponto de encontro da comunidade. Nela as pessoas procuravam o farmacêutico para a primeira assistência para sua saúde”, lembra Scalco, explicando um dos empurrões da vocação política e de serviço exercitada na botica. Foi o farmacêutico da cidadezinha Francisco Beltrão, de dois mil habitantes, de 1959, sem água e sem luz encanada, na qual iria pouco depois eleger-se vereador e prefeito. Era município imenso, e cujos desmembramentos depois gerariam seis outros, anos depois. Bom de voto, campeão de credibilidade, Scalco seria atraído pelo aprisco dos Missionários dos Sagrados Corações, padres belgas, evangelizadores e civilizadores do Sudoeste do Paraná, liderados pelo padre José Calkelbergh. Atendendo aos apelos dos sacerdotes, o Scalco católico de sólida formação, jamais um beato, deixa cargos políticos e engaja-se com os padres na criação da mais bem arregimentada instituição civil já vista no Estado, a Associação de Estudos e Orientação Rural (Assessoar), em 1966. Coordena 500 núcleos rurais na região, nos quais a instituição passaria — além de valores espirituais, como catequese familiar — orientações básicas sobre a gestão dos pequenos empreendimentos rurais e educação das novas gerações para o uso da terra. A inspiração eram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nascidas em Mossoró, Rio Grande do Norte, com o então bispo (e depois cardeal do Rio), Dom Eugênio Salles. As CEBs que, com outros tons, com o passar dos anos, foram berçário da Teologia de Libertação concebida por Boff e Gutiérrez. Não há como escrever a História do Sudoeste do Paraná no século 20 sem associá-la aos padres belgas e à Assessoar, movimento muitas vezes vigiado pelos arapongas, com olhares atentos e questionamentos sobre a obra e o padre Calkelbergh. Os anos 1970 e 1971 Scalco passa-os na Europa. Em Paris, cursaria o Instituto Lebret de Planejamento e Organização Social. Depois, na Bélgica, durante sete meses, a imersão detalhada em economia agrária, Universidade de Lovaine, formadora de larga massa crítica, hoje atuando mundo afora. O ano de 74 é outro divisor: Scalco desliga-se da Assessoar, da qual também sairiam os religiosos belgas. A instituição tomaria nítidas conotações partidárias, desembocando no núcleo gerador do PT na região. Em seguida, concorre pelo MDB e torna-se suplente do senador Leite Chaves. Daquele ano em diante, a história de Scalco espraiase no Paraná todo e, depois, no País. E ele e a família, mantendo casa em Beltrão, passam a viver em Curitiba. Assim, em 1975 ele planifica a vivência partidária no antigo MDB, o partido de resistência à ordem estabelecida, contraponto da Arena. Não havia alternativa ao bipartidarismo. É desse período o envolvimento com braços da resistência política visíveis em Curitiba. No caso, nomes notáveis, como o abade francês Père Felipe, beneditino, que fora soldado na II Guerra. No mosteiro na rodovia Curitiba- Paranaguá, Scalco faz-se parte daquele centro de reflexão da realidade brasileira, sob a experiente palavra do monge. Ao mesmo tempo, o mosteiro torna-se referência para intelectuais contestadores do status que dificultava a liberdade de expressão, e não facilitava associativismo. Aglutinação de homens e projetos de vida, como promovidos pelos beneditinos com os pequenos produtores rurais da região. Daí em diante, só uma ampla biografia para registrar as andanças do cruzado da social democracia. E no período,sua presença será identificada em outro fortim, o Seminário dos Padres Saletinos, em Curitiba. Dividiria ali com dezenas de notórios resistentes, como o líder operário (hoje escultor) Expedito de Oliveira Rocha, o jurista Lamartine Corrêa de Oliveira Lira e a esposa, Leonor, o geneticista Newton Freire-Maia, e padres Ângelo e Isidoro Perin (hoje superior mundial da congregação, em Roma), seminaristas como Antônio Mânfio, Ortigara e Nery Dal Prá, padre Santo, e dezenas de universitários, sonhos e idéias sobre um Brasil justo. Seminário que abrigaria fugitivos de hostes repressoras (identificadas em Osias Algauer, delegado Fleury e cia.), como o jornalista Fábio Campana que lá ficou “hospedado” por alguns dias até achar pouso seguro. O homem, o amigo, “uma peça só” Ninguém melhor para definir as pessoas que seus amigos. Padre Ernane Pinheiro, responsável pelo setor político da CNBB, é um dos melhores interlocutores de Scalco. Uma fraternal ligação nascida nos tempos da Constituinte, quando o sacerdote cearense, hoje com 67 anos, chegava a Brasília para a nova missão. “Ele é homem justo, uma peça só, sem dobradiça nem rachadura”, traça padre Ernane um breve retrato do amigo com quem partilhou lutas comuns na Constituinte, temas em defesa da vida, a questão indígena, meio ambiente, justiça social. “Ele fazia chegar ao plenário reivindicações que partiam dos quadros populares via CNBB. Sem procurar os holofotes da mídia ou da propaganda eleitoral”, garante Ernane. Contrariando o que à primeira vista se pode esperar daquela fisionomia “fechada”, padre Ernane diz: “Fico admirado como Scalco sabe gastar tempo com os amigos. Toma um ônibus, durante dez horas de viagem, para visitar um amigo que está doente. Sacrifica um lazer para ficar com um amigo no hospital”. É o mesmo Scalco — diz ainda Ernane — que mantém contato telefônico com uma “carrada de amigos”, alimentando assim idéias e trocando notícias. Garrafa, interlocutor Não é um scholar, nem se interessa em ser identificado como intelectual. É uma mente inquieta, que sobre amplas realidades se informa e debate. Na academia, o grande interlocutor é Volney Garrafa, doutor em bioética, referência da Universidade de Brasília — área de Saúde — e presidente da Associação Brasileira de Bioética. O Garrafa a quem convidou algumas vezes para falar no Instituto Ciência e Fé, e que foi seu consultor maior sobre temas de Saúde, durante a Constituinte. Partilha com o professor da UnB questionamentos essenciais, como a defesa da utilização de células-tronco com finalidades terapêuticas. E, para a surpresa dos cristãos mais ortodoxos, Scalco diz não entender a obstinada posição da Igreja-CNBB na questão da anencefalia. Co-fundador, em 1995, com Newton Freire-Maia, Eleidi Chautard Freire-Maia, Alzeli Bassetti, Belmiro e Elizabeth Castor, Celso Ferreira do Nascimento, Luiz Carlos e Maria Aparecida Martins, Lúcia de Fátima Nórcio, Ubaldo Puppi, Paulo Piasecki e Valquíria Prochmann, Antônio Carlos Costa Coelho, Aroldo Murá G. Haygert, entre outros, do Instituto Ciência e Fé, Scalco desde então dirige a área de cursos da instituição, consolidada pelo amplo debate de temas da ciência e da religião. Duas cidadelas vitais, não excludentes. A academia tem lhe dado reconhecimentos e oportunidades de trabalho: numa das mais importantes universidades do País, a Estadual de Maringá, teve seu nome dado ao Diretório Acadêmico da Faculdade de Farmácia; na Universidade Federal do Paraná, nos anos 90, exercitou com maestria a sua capacidade de liderança ao presidir a Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas da UFPR. Em São Paulo, envolve-se na discussão de problemas sociais, cumprindo mandato diretivo no Instituto Jacques Maritain, a que chegou a convite do filho de Alceu Amoroso Lima, o Alceu Filho. Ele é e parece... Ruth Bolognese não é só um dos mais afiados cutelos da imprensa paranaense (Folha de Londrina), formada na escola do antigo Jornal do Brasil, Voz do Paraná, O Estado do Paraná. É também — goste ou não se goste dela — uma voz judiciosa no exame de nossas escassas reservas políticas. Com relação a Scalco, ela garante ser ele uma das unanimidades do Paraná. Para ela, os qualificativos “honesto, ético e bemarticulado politicamente” são os que bem definem o ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Euclides Scalco. “Ele mantém essa aura incontestável, num meio corrompido desde que me conheço por jornalista”, garante Ruth, sublinhando: “ Não é apenas honesto. Ele parece honesto”. Para Ruth ainda, a sisudez de Scalco é só aparência. Acha-o alegre, apreciador de gossips da política “e também é ótima fonte para os jornalistas”. E usaria de uma tática incomum: “Jamais pede a publicação de uma informação, mas quando quer, deixa passar a confidência e, conhecendo os jornalistas, o faz deliberadamente”. E não é menos firme ao completar seu testemunho: “Ele poderia fazer parte de qualquer partido, de qualquer governo. Tem o poder da unanimidade. Scalco tem o poder do Bem”. Luiz Geraldo Mazza, jornalista, gladiador sempre pronto para a arena, questionador de tudo e todos, não duvida — e nem encontra motivos para tanto — da honestidade de Scalco na condução da coisa pública. Só não o enxerga como grande mediador político tucano. “O Richa foi mais amplo na articulação política, com a capacidade de conciliação superior à de Scalco”, observa. Uma palavra que, afinal, rompe com a quase unanimidade representada pela figura de feições ascéticas que é Euclides Scalco. O ninho de alta plumagem... Liones Rocha, morto há cinco anos, fluminense, com passagem por Cascavel, repórter político radicado em Curitiba e depois correspondente da Gazeta do Povo em Brasília, uma universidade em técnica de reportagem e ética jornalística, citava certos tucanos como “de alta plumagem”. Um deles, Scalco, fundador do PSDB em 1988 num raro “ninho” de notáveis: Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Richa, Franco Montoro, Pimenta da Veiga... Não demorou para que Scalco, ex-MDB e ex-PMDB — partido pelo qual se elegeria deputado federal em 1978 (teve mais dois mandatos federais, até 1990) — assumisse posições de comando no tucanato nacional, como a sua Secretaria Geral. E mais que isso: assessorando Mário Covas, líder do PMDB, na Constituinte, mostrou a face do lutador do bom combate, em batalhas contra forças retrógradas (Centrão, por exemplo). Um eleito da imprensa De 1988 em diante, Scalco consolida-se, literalmente, como um nome nacional. Seria, para usar a linguagem de certos colunistas, um darling da mais respeitada imprensa política nacional. A escolha começara em 1986, quando os mais acatados jornalistas dos grandes eixos e canais de repercussão midiáticos — Rio, São Paulo, Brasília, Porto Alegre — descobriram força interior e coerência peculiares, além de reserva psicológica incontrastável, naquele aguerrido constituinte. Era o Scalco inquieto, com alma e coração de cruzado, às vezes quixotesco, conectado à então maior usina de notícias e de posições políticas daquele momento histórico, a CNBB. Era a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que resistira ao autoritário regime de 64, e que fazia de Scalco seu porta-voz não oficial. CNBB que, fiel à tradição milenar da Igreja, fora igualmente capaz de abrir-se a outros interlocutores, de outras envergaduras e latitudes ideológicas, como o senador Marcos Maciel, duas vezes vice-presidente da República. Scalco — provocado — vai abordando momentos de vida. Acha que o Governo Richa (1982/86), cuja Casa Civil chefiou por dois anos, foi “totalmente democrático”, cheio de obras como o programa de eletrificação rural, tendo ampliado de 80 mil para 200 mil propriedades rurais eletrificadas em quatro anos, diz. Governo que enfrentaria pacificamente a primeira invasão de terras organizada por movimento social, no Paraná, em Marmeleiro.
FHC e Serra na agenda Se tivesse que escrever autobiografia, Scalco talvez a centrasse no seu papel de Constituinte. Nela foi vice-líder do Líder Mário Covas (e assumindo a liderança por alguns meses) e fazia a coordenação dos grandes temas, ao lado de dois pesos pesados da vida nacional, o hoje presidente do STF, Nelson Jobim, e o ex-governador do RS, Antonio Brito. Era algodão entre cristais, equilibrando posições dos rebelados contra o autoritarismo do “Grupo dos Sábios”, estes, referenciais da vida nacional que tinham a Sábios”, estes, referenciais da vida nacional que tinham a tarefa de montar o texto básico da Constituição. O desembrulhar dos exaustivos trabalhos das oito comissões básicas e 24 subcomissões era uma das tarefas de Scalco, dirigindo o “Grupo de Consenso”, aglutinação de forças à gauche, constituintes do incipiente PT, PCB, PSB. Tudo do trabalho de Scalco e seus companheiros iria para a Comissão de Sistematização presidida por Jarbas Passarinho e Fernando Henrique Cardoso, antes de ir à votação do plenário. Depois de 1990, não mais tentou voltar ao Congresso. Alega falta de cacife financeiro para uma jornada eleitoral cada vez mais cara. Essa contradição na nossa democracia, diz, pede reforma ampla, com fidelidade partidária, fim das siglas de aluguel, voto distrital misto (os legisladores são eleitos por distritos e por meio de listas partidárias), cláusula de barreira (partidos têm de obter um mínimo de 5% dos votos em âmbito nacional). A pregação de Scalco vai longe, talvez resultado da experiência com marqueteiros de rádio e televisão, com os quais conviveu muito de perto ao coordenar a reeleição de Fernando Henrique, em 1998: “Os programas eleitorais no rádio e televisão devem ser ao vivo, estimulando debates, exposição de idéias, sem as maquiagens do marketing”, pontifica o ex-diretor-geral de Itaipu. Se esta biografia, sem acidentes e sem rugas, Scalco começou a construir desde a juventude, é claro que ele, um dos exponenciais da Constituinte de 88 não ficou contente com o resultado final da Carta. Lamenta que ela seja detalhista, prevendo até licençapaternidade, assunto de lei ordinária. E que o Parlamentarismo tenha sido barrado. A Constituição, avalia, é farta em prever direitos, raquítica em tratar de deveres. O olhar é distante, a voz é firme na resposta à pergunta sobre qual a saída para o País: — O Brasil não pode continuar com a ética da oportunidade, a ética que se adapta às circunstâncias. Só tomaremos rumo como País quando tivermos partidos compromissados com as causas da Nação. E estas passam pelo respeito ao cidadão, na diminuição das desigualdades sociais, garante. Antes de se despedir, atende a dois telefonemas. Um, do senador Osmar Dias, com quem marca encontro; outro, um tucano do staff Beto Richa, a quem informa que “na semana que vem estarei em Porto Alegre, depois vou encontrar o Fernando e o Serra, em São Paulo”. É assim, por “Fernando”, sem afetações, com que Scalco se refere ao amigo FHC, “príncipe” merecedor das mais altas mesuras na linhagem tucana. Tucanos a quem os adversários acusam de pajelanças neoliberais. Mas que, ninguém duvide, já estão construindo a campanha de 2006. Afinal, o ninho deles é sobremaneira um estado de espírito de elite política ciosa do peso de seu estilo de ser, montado a partir de 1988, e no qual cabem pitadas ao centro e à esquerda. E na anunciada futura liça, a montagem de estratégias caberá certamente a cruzados do porte de Scalco. Uma ave rara. Transcrita
da Revista Idéias edição 18, janeiro de 2005 |
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