Leonardo
Boff, escritor e professor, cursou Filosofia em Curitiba-PR
e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Filosofia da Religião,
pelo Instituto de Filosofia e Ciências sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha,
em 1970. É doutor honoris causa em Política pela universidade
de Turim (Itália) e em Teologia pela universidade de Lund (Suíça),
e autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade,
Filosofia, Antropologia e Mística.
lboff@uol.com.br
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d e C i ê n c i a
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JANEIRO
DE 2005 |
Artigo
E Deus com isso tudo?
Leonardo
Boff
Face
à convulsão elementar da natureza no sudeste asiático
com milhões de vítimas, especialmente de inocentes, não
são poucos que, angustiados, se perguntam: E Deus nisso tudo? Ele
não é bom e onipotente como anunciam as religiões?
Se é onipotente, pode tudo. Se pode tudo, porque não evitou
o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não
é onipotente ou não é bom. Como disse um poeta-cantador:
se é para desfazer, por que que fez?
Desde que o ser humano discerniu a presença de Deus no universo
e em sua vida, esta contradição representa uma chaga aberta.
Os teólogos cristãos inventaram a teodicéia, vale
dizer, a argumentação que procura isentar Deus das desgraças
do mundo e ainda esclarecer o sofrimento. E fracassaram rotundamente,
porque esclarecer o sofrimento não acaba com ele, assim como ler
receitas culinárias não faz matar a fome. Daí entendemos
a contundência de Jó, o eterno protestante, contra todos
os seus "amigos" (e aí incluo a mim como teólogo
e todas as religiões) que lhe queriam explicar o sentido da dor:
"Vós não sois senão charlatães e médicos
de mentiras. Se ao menos vos calásseis, as pessoas tomar-vos-iam
por sábios". E continuamos a não nos calar….
Face a esta situação dilaceradora podemos alimentar, penso
eu, três atitudes: de revolta, de resignação e de
esperança contra todo absurdo.
A revolta se expressa por uma negação. Muitos dizem: Deus
não existe. E se existir, é inaceitável, pois teríamos
mais perguntas a fazer a Ele do que Ele a nós. Eu me recuso eternamente
a aceitar uma criação de Deus na qual as crianças
tenham que sofrer inocentemente. Este questionamento é compreensível
e lógico. Mas ele não elimina o mal, pois este continua.
Críticos, perguntamos: a razão é tudo? Deus pode
ser aquilo que não podemos entender.
Se a revolta não responde, talvez a resignação? Esta
realisticamente constata: a realidade é feita de bem e mal. É
ilusório buscar a superação do mal, pois bem e mal
vêm sempre juntos como a luz e a sombra. Sabedoria é buscar
o equilíbrio e a aprender a viver sem uma esperança final.
Freud e os sábios do Primeiro Testamento aconselham: "Aceita
o princípio de realidade, modere o princípio do desejo;
acolha o que te acontecer, mostre grandeza na dor". Esta atitude
é nobre, modifica a pessoa mas não muda a realidade brutal.
A terceira atitude é a da esperança apesar de tudo. Parte
reconhecendo claramente: o mal é um mistério indecifrável.
Ele está aí não para ser compreendido mas para ser
combatido. Por isso não é uma teoria que lhe dará
sentido, senão uma prática. Desta nasce a esperança
de que em tudo deve haver um sentido secreto para além do escândalo
da razão. Ele se manifesta, por exemplo, no milagre de uma criança
de três meses que se salva sobre um colchão que flutua nas
águas revoltas ou na solidariedade do mundo todo para com as vítimas.
A solidariedade não elimina a dor, cria a irmandade dos sofrentes
que impede a solidão e o desespero. Os cristãos e os budistas
dizem: Deus não ficou indiferente ao sofrimento. Ele sofre junto.
Andando no exílio da encarnação, gritou: "Meu
Deus, por que me abandonaste"? A paixão de Deus na paixão
do mundo nos faz crer que a esperança tem mais futuro que a brutalidade
dos fatos. Deus prometeu que "não haverá mais pranto,
nem luto nem morte porque tudo isso passou". No entanto, o mistério
continua mistério e como dói!
Transcrito do JB 06/01/05
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