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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
FEVEREIRO DE 2005

IMAGO
ZIMMERMANN
O pintor do cotidiano hiper-real

Aroldo Murá G. Haygert


(foto Diego Singh)

A mão obediente e amestrada trabalha o cotidiano das descobertas visuais. Os movimentos são comparáveis aos de um cirurgião habilidosíssimo, aquele que exerce a ars curandi em incisões sempre precisas, e assim assumindo parentesco com divindades curadoras.

Essa mão sinaliza o fiat gerador de envelopes; pacotes; às vezes, as desfocadas urnas funerárias — pompas fúnebres que restam, pacificadas, no universo do artista;as sibilinas letras do alfabeto grego; as pegadas em paisagens milimetricamente percorridas; o rosto fidelíssimo do gato de estimação, Luxor (um olho azul, outro amarelo), de origem egípcia e aplomb milenar; o elegante movimentar-se da fiel Tebas, a cadela de procedência inglesa, cujos ancestrais são conhecidos por protegerem caravanas nos desertos do Oriente Médio.


Não há fantasmas — nem segundas intenções — escondidos por detrás da técnica e das traduções plásticas de Carlos Eduardo Zimmermann. E tem sido assim, desde a primeira exposição em 1972: é um comunicador de redescobertas, trabalhadas em telas e acrílico, preferencialmente. Trabalhadas sob o comando de irreprimível impulso do registrar, parecendo partícipe do primeiro dia da Criação. Não tem preferência por técnicas, expressa-se também em esculturas, desenhos, colagens, gravuras. Faz arte abstrata e figurativa, não há contradições, há interações.

Jamais um artista plástico de ocasião, Zimmermann é, isto sim, o eleito de uma crítica exigente — vide Olívio Tavares de Araújo, Roberto Pontual, Adalice Araújo — e de público refinado, homens e mulheres de uma sociedade cosmopolita e culta (e não novo-riquista), que enxerga muito além do adorno numa arte sem rachaduras e sem genuflexões ao momento. Uma arte de imponente técnica, de domínio pleno de espaços vazios. Eloqüentes e infinitos espaços nus, dóceis à modelagem que Zimmermann pode imprimir-lhes. O Zimmermann fidelíssimo às imagens que habitam em sua alma, atento aos logos (palavras) que o Pneuma (Espírito) vai sugerindo. E a tudo recebe, percebe e traduz, como se fosse um moderno Terapeuta do Deserto, a cultivar a transcendência — que é também hiper-real —, em traços e cores infinitos.


O artista e parte de sua obra: hiper-realismo do dia-a-dia.
(foto Diego Singh)

No princípio, Viaro

Dona Ludi Azim Zimmermann, a mãe, era orientadora da escolinha do Centro Juvenil de Artes Plásticas da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), domínio absoluto do mestre Guido Viaro. De 1961 a 1969, levava o filho Carlos Eduardo àquela schola, iniciação às artes plásticas, marco que se tornaria o grande prêmio na biografia de Carlos Eduardo e nas de muitos outros artistas.

O aprendizado com o grande mestre da pintura paranaense (discipulado estendido à Escola de Belas Artes) por oito anos, de quem receberia as bases para uma técnica inconfundível, foi o sólido ponto de partida. Depois, a vida dividida entre o curso de medicina e a carreira nas artes plásticas. Em 1972, faz a primeira exposição, na galeria de artes do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, ao lado de Bia Wouk. A seguir, uma biografia de prêmios e reconhecimentos, começando por participações em 1973 e 1975 na Bienal de São Paulo.Três anos depois, já diplomado médico, consegue uma das 30 vagas — entre 800 candidatos do mundo todo — ao Curso do Royal College of Art, de Londres, onde fica por dois anos.

Quem tem em suas coleções preciosidades daqueles tempos, como os roteiros do metrô de Londres (the London underground), apropriadas pela criatividade de Zimmermann em gravuras eloqüentes? E os primeiros envelopes?

Não se pode falar em artes plásticas no Paraná, a partir de 1970, sem incluir Carlos Eduardo Zimmermann. É parte saliente daquela geração de notáveis, composta por gente como Bia, Osmar Chromiec, Teresa Isabel de Bakker, Rones Dumke, Elvo Benito Damo, Fernando Bini... É quase heresia desconhecê-los se pretendemos conhecer os materializadores culturais do Paraná.


Com os pais, irmãos, sobrinhos: tempo para o universo
familiar, alimento vital.

Pintura, destino

Foi Cézanne quem cunhou a expressão “pintura é destino”. Zimmermann a usa, às vezes, talvez até para encurtar respostas. Talvez acredite que não precisa explicar sua arte. Prefere convidar o interlocutor a partilhar daquele mundo esboçado ou insinuado que revela hoje um Zimmermann mais holístico, aberto a realidades que podem ir das preocupações com a física quântica às cogitações metafísicas. Não mais o religare que, por primeiro, foi-lhe comunicado pela disciplina e visão espiritual da família do engenheiro Carlos João Zimmermann (o pai), este um protestante de leitura mais ou menos fundamental das esferas sagradas tradicionais. Uma visão respeitável, mas hoje distante das certezas do artista.

A casa na Rua David Abrahão, no Barigüi, em Curitiba, veste à perfeição no personagem Zimmermann: linhas arquitetônicas modernistas, é projeto do primo (já morto) Sergio Costa Pinto. Não há excessos, o mobiliário absolutamente funcional, o espaço interior pode lembrar o de um grande loft ou sugerir uma sala de exposição de arte. O olhar do gato Luxor acompanha, discreto, recolhido, cada passo do dono no introduzir o visitante àquele universo asséptico que, ao mesmo tempo, abarca o essencial para a consolidação do ambiente levemente adocicado pelo incenso indiano massala.

O incenso e o canteiro com exclusivos trevos de quatro folhas, eles são algumas pistas de novas ligações com um mundo de valores que incluem um Senhor essencial, e leis como a do carma. Tudo aceito reverentemente, sem proselitismos ou discursos.
Mas novas verdades que acabam refletindo numa obra em movimento.


Carlos Scliar, mestre, amigo, e o filho Francisco, companheiros de
itinerário artístico de Zimmermann.

Testemunho de vida

Os gestos comedidos acentuam a fala. O sotaque é sulista. A visão é universal, pontuada em inglês e francês impecáveis (quando necessários, sem esnobismos), instrumentos de trabalho de um globe-trotter que jamais se furtou a percorrer o mundo de descobertas essenciais à sua expressão artística.

O projeto mais imediato é o livro, testemunho de vida. Não se imagine uma autobiografia a caminho. Será um grande inventário afetivo-artístico-filosófico-profissional de 52 anos de vida. Nele estarão das primeiras lembranças da infância, aos primeiros dias da casa-estúdio quando o terreno foi adquirido, no começo dos anos 80, a um verdureiro nissei — a expressões afetivas carregadas de reconhecimento. Assim, Roberto Pontual, Aramis Millarch, Olívio Tavares de Araújo, Adalice Araújo, Guido Viaro, Carlos Carlos Scliar, com lugar cativo no panteão de gratidões de Zimmermann lá estarão, em textos, fotos, expressões diversas sobre o papel que exerceram na vida do artista. Foram caminhantes essenciais na aventura de vida de Zimmermann.

Mas haverá também lugar para os cartões de visita feitos artesanalmente, manuscritos, recheados de colagens, que a amiga Martha Schulmann deu-lhe de presente. Um gesto de bom gosto com repercussões nos domínios da amizade. Lá vai estar também a receita da torta de chocolate, outra dávida de mão amiga.Nisto haveria momento de inspiração no livro de receitas de Monet? Pode ser.


Luxor, uma paixão felina, companhia discreta,
atenta, referência absoluta na casa-ateliê.

O livro contemplará amigos-partners, como Carlos Scliar, Ennio Lippmann, Antonio Maia, assim como notáveis companheiros na aventura da vida, como Malala Maciel, Júlio Pechman, Rodolfo Doubek, Vilma Slomp e Orlando Azevedo, Carlos Pedroso, Marcos Bertoldi, Jaime Bernardo, Dilva Busarello, Ana Letícia Virmond, Silvia Franzoni...

Zimmermann pede que não se mencionem nomes, tem medo de cometer omissões que, assim, ficam só por conta do jornalista.

A verdade é que o livro será um inventário de quem, embora em pleno vigor da maturidade, sente-se compelido a documentar realidades caras, momentos essenciais, até para não serem tragados pelo tempo.

Assim, pelas páginas do livro, ainda sem nome, Zimmermann registrará — até para a história das artes plásticas do Paraná — a importância de gente como Jorge Carlos Sade, cuja visão crítica do universo que nos cerca é freqüentemente confundida como exercício de “uma língua viperina”.
O Sade que fundou a Acaiaca e cujas pontes estabelecidas com os grandes centros culturais do País permitiram que sua galeria assumisse um papel notável no mercado de artes em Curitiba a partir dos anos 70.

Lá estarão também Ida e Anita, ousadas, criativas, que na galeria “Ida & Anita” expunham nos anos 70 Cícero Dias, Iberê Camargo, Chagal, Carlos Scliar, Reinaldo Fonseca, João Câmara...

Passagens contemplarão o papel exercido por Cristina Moro e Sarita Grupenmacher, na Momento Arte, outra galeria incorporada à história das artes no Paraná.

Colecionadores de todos os portes (como Cecílio Rego Almeida e Ângela), Zimmermann os tem anotados, e estão além de Curitiba, em Brasília, São Paulo e Rio, Porto Alegre... É apontado como o artista plástico paranaense com mercado consolidado. Aqui, a Noris é a galeria que expõe permanentemente seus trabalhos.


A técnica é assinatura definitiva, impõe-se, forte, sublinhando
sensibilidades. (no sentido horário: Take the best and leave
the rest (1982), Sem título, Embrulho Bege (1987), O espectador e
o ilusionista (1994)

Mundo compartilhado

Carlos Eduardo Zimmermann é impaciente com o egoísmo, só entende espaços e visões compartilhados. É uma escola de solidariedade que ele acredita ser a melhor saída para um mundo que ainda não entende “que é o amor, e não a vida, o contrário da morte”. E que “o medo, não a morte, é o contrário da vida”.

Talvez por isso mesmo Cida, a fiel guardiã, governanta, cozinheira exímia e porteira daquele espaço de criatividade, esteja lá há 18 anos. Ela se reveza com Zimmermann no ritual “automático” de regar o solo do jardim de entrada, onde repousam — sepultado com toda reverência — 12 gatos e cachorros, alguns trazidos por amigos para aquele domínio. Querem melhor expressão de vida?

Ali ele contempla o cantinho em que um dia enterrou Gorky, o amigo-cão da raça Borzoi, presente de Vilma Slomp.

Foi quando 1996 virou tormento, marco triste.

Dali, a poucos metros do lago do Parque Barigüi, o artista fica a captar o jogo de claros e escuros, de uma tarde cheia de nuvens.
Uma tarde da Curitiba, cidade com a qual mantém uma relação de respeito, paixão e, muitas vezes, perplexidade. Uma perplexidade que — sabe lá — pode ter seus fundamentos numa herança cultural de que ele mesmo (neto de árabes e alemães) é legatário. O que pode até explicar o fascínio pelo hiper-real pontilhando uma técnica perfeccionista que, no fundo, é solidamente curitibana.

Transcrita da Revista Idéias edição 19, fevereiro de 2005

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