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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
JUNHO DE 2005

IMAGO
WALDEMIRO GREMSKI
Decifrando os segredos de Deus

Aroldo Murá G. Haygert


(foto Diego Singh)

Waldemiro Gremski tinha tudo para repetir a rotina de vida dos 500 moradores de Serrinha, então distrito da cidade da Lapa, onde nasceu em 1945. O entorno físico e humano e a vocação familiar formavam o caldo ideal para o menino embrenhar-se no cultivo da terra, no que seu pai — um homem nascido no século 19, 1894 — mostrava-se tão íntimo. Era um médio agricultor, de posses, mas sobretudo um espírito arrojado para a época. O primeiro trator e a primeira colheitadeira da região, seu João Gremski os importara dos Estados Unidos em 1949. Uma revolução no campo.

Aquela pequena réplica da Polônia, Serrinha, hoje parte do município de Contenda, próximo de Curitiba, reservava outra atmosfera para o filho do casal João-Catarina (nascida em 1899). Naquele ambiente onde quase que só se falava polonês, roupas, usos e costumes também poloneses, os padres igualmente poloneses da Congregação da Missão (ou Vicentinos, ou Lazaristas, como queiram) iriam atrair Waldemiro, aos 11 anos de idade, para o seminário S.Vicente, de Araucária, que abrigava meninos do ensino fundamental. O seminário sintetizava a possibilidade de formar-se um futuro padre, sonho comum das famílias daquela sociedade agrária e fortemente dependente do sagrado.

Em lugar de sacerdote, o Brasil ganhou um educador e pesquisador superiormente diferenciado, na área das ciências biológicas, com doutorado e quatro pós-doutorados, e um currículo profissional em que aparecem dezenas de trabalhos acadêmicos publicados em periódicos especializados, a maioria em países de ampla tradição em ciência, como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha.

Diretor do Laboratório de Engenharia de Transplante Celular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), desde 2002, Gremski está contemplando os primeiros resultados com experimentos humanos.

Um deles foi o primeiro transplante realizado no Paraná pelo Núcleo de Cardiomioplastia Celular, daquele Laboratório, em 4 de maio deste ano na Santa Casa de Curitiba, pelo pesquisador e cirurgião cardíaco Paulo Roberto Slud Brofman. Foi a materialização da proposta de uso de células-tronco na cura de cardiomiopatias (insuficiência cardíaca, enfarte do miocárdio), com técnica própria da instituição. Sempre usando as próprias células do paciente para sua recuperação. O que evita os problemas decorrentes de rejeição.


Na quarta série do Seminário Menor de São Vicente de Paulo, em Araucária (dir.). À esquerda, com colegas de seminário em 1960

Aos domingos, o catecismo

Um rápido olhar no currículo de Waldemiro Gremski é convite a que se mergulhe no fascinante mundo das ciências biológicas, com o registro de pesquisas que realizou ou realiza em biologia molecular, bioquímica, citologia, biologia celular, matrix extracelular. Há um desfilar de teses de doutorado e pós-doutorados (foi dispensado de fazer mestrado, na USP, indo direto para o doutorado em histologia, de 73 a 76) que o mundo das ciências sabe avaliar e dar crédito. Tem história científica notavelmente diferenciada. E uma contribuição sem igual, ao desenvolvimento do ensino de pós-graduação e doutorado no País. E beneficiou sobremaneira a Universidade Federal do Paraná, de que foi pró-reitor, e a PUC-PR, onde implantou o mestrado e o doutorado mantido pela instituição, o de Ciências da Saúde.

Mais do que currículo, há a história do cientista Gremski, envolvendo pelo menos uma centena de pesquisadores que foram seus orientandos em mestrados e doutorados — médicos, farmacêuticos, veterinários, biólogos etc. — ao longo dos anos. Frutos que se espalham nos mais acatados centros de produção científica no Brasil, e alguns no exterior.

Quem, dentre os cientistas, não conhece o trabalho do Instituto Karolinska, de Estocolmo, que concede o Nobel de Medicina? Pois lá Gremski conquistou seu primeiro pós-doutorado, em 1977/78. E há mais dois outros pós-doutorados, pela University of Connecticut Health Center, UCONN, Estados Unidos (1984/1985 e 1988) e um obtido no Ludwig Institute for Câncer Research, LICR, Brasil, (1995/97).

Tanto envolvimento e aprofundamento com a realidade científica não fez soçobrar o homem de fé, o seminarista que passou quase dez anos (incluídos os anos do Seminário Menor) ouvindo e apreendendo com sábios mestres poloneses (que vinham de ampla experiência internacional) em Araucária e também no antigo Seminário Maior, que os vicentinos mantinham na Rua Jaime Reis. Ali conviveu com colegas que depois se tornariam bispos, como Dom Ladislau Biernaski e Dom Isidoro Kosinski. Dom Domingos Wizniewski seria o primeiro padre brasileiro da congregação (parte polonesa; a outra província, chamada de Brasileira, é de maioria carioca e de mineiros) e também mestre de Waldemiro.

Deixou a vida religiosa em 1965 — não houve apelos femininos para a decisão. Foi a ampla visão propiciada pela filosofia a “alavanca” a encaminhá-lo à sociedade secular. E o jovem, despido das vestes talares e do ofício das horas, passaria daí em diante a dividir-se exemplarmente entre as duas cidades, a celeste e terrestre.

Hoje, dois domingos por mês, o homem que pesquisa células-tronco adultas (tem opinião segura sobre as embrionárias, e sua importância terapêutica) passa na Paróquia Nossa Senhora de Salete, em Higienópolis, Curitiba, dando aulas de catequese. Sua audiência é composta de adultos, em busca dos sacramentos do crisma ou do batismo católicos. O curso pode durar até dois anos, e dentre os alunos há um sexagenário.

Quando deixou a congregação dos vicentinos, em 1965, sentiu o choque entre o “mundo” e o aprisco seguro renunciado. O aprisco era só de certezas. Era casa, o seminário, em que jamais sentira limitações à discussão política, nem se defrontara com um index librorum. Havia lido, por exemplo, na biblioteca local, uma das obras mais sequiosamente ambicionadas pelos adolescentes e jovens da época, o romance A Carne, de Júlio Ribeiro, e os superiores não ofereciam resistências à liberdade de expressão política dos alunos, testemunha Gremski.

Do seminário partiu agradecido pela formação cultural e religiosa. Mas não ficou distante da grande árvore, foi ser uma espécie de caseiro (em tempo parcial) numa casa de religiosos no bairro Hugo Lange, ao lado da Igreja do Sagrado Coração, e onde viveu sete anos. A casa era o castelo forte para o vôo de sobrevivência material em que Gremski se embrenharia dali em diante. Na paróquia ao lado conheceria Lílian Cathy Mickus, com quem se casaria e teria quatro filhos.


O biólogo, na formatura, em 1969

O primeiro emprego foi como locutor da Hora do Ângelus, na Rádio Tingui (hoje Capital), dona da audiência nos melhores horários, com programas como A tarde é nossa, e líder absoluta na chamada jovem guarda.

Na rádio, a orientação amiga e precisa do radialista Luiz Antonio Barbosa o encaminharia para o pleno domínio do microfone. Com ele aprendeu a dicção correta, livrando-se do sotaque polonês, a língua materna, que falava com exclusividade, até os sete anos, quando foi para a escola de Serrinha.

E havia também os programas de auditório, com gritos histéricos das mocinhas e suas minissaias... Tudo a desvendar-lhe um mundo surpreendente, mas que soube enfrentar porque se achava equipado pela sólida educação familiar e a dada pelos vicentinos. Mater et Magistra, diz, repetindo que a Igreja fora a sua grande mãe e mestra.


Em 1966, no Centro Acadêmico da Faculdade de Filosofia da
PUC-PR (no centro)

Um “subversivo”

A placidez do seminário nas horas de recolhimento pouco tinha a ver com os dias que o futuro reservaria a Waldemiro a partir de 1966, quando ingressaria no Curso de História Natural (hoje Ciências Biológicas) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica do Paraná (hoje PUC). A liderança de um espírito singular, formado por mestres que dificilmente se repetem em grandeza e sabedoria — gente como frei Raimundo Viers e Frei Crisóstomo Arns, franciscanos, e padre Damek, sociólogo, ex-piloto da RAF na II Grande Guerra —, logo seria posta à prova.

Feito presidente do Centro Acadêmico Jackson de Figueiredo, da Filosofia, Ciências e Letras, acabou enquadrado na temida Lei de Segurança Nacional (LSN). Foi a julgamento porque, com mais uma dúzia de estudantes — dentre eles, Carlos Marés, atual diretor do BRDE, e Carlos Cervi, professor de Botânica da UFPR — foi às ruas protestar contra o estado de exceção ao qual acusavam, dentre outras arbitrariedades, por sumiços de duas universitárias e a morte de Edson Luiz, no Restaurante Calabouço, no Rio.

A marca da LSN o acompanhou por 10 anos. Gremski foi despedido, apesar de concursado, da UFPR, do cargo de professor auxiliar, (em 1972) denunciado por colegas da própria Universidade que faziam parte da Assessoria de Segurança e Informação (um deles, uma mulher, filha de um general). Depois, convidado para fazer pós-doutorado, em 1977, no Karolinska, em Estocolmo, foi descobrir que a absolvição de nada valera. As marcas da Lei de Segurança Nacional perduravam, o DOPS não fazia “silêncio” em situações como a sua. Nas duas vezes, foi a interferência do general Airton Tourinho, primeiro como comandante da 5a Região Militar, depois como chefe do Estado Maior das Forças Armadas, em Brasília, que garantiu-lhe justiça e a abertura de caminhos, como a obtenção do visto para a Suécia e a recontratação na UFPR.

— Eu, comunista? Só fui conhecer comunistas depois, na Suécia — assegura o mestre, rindo da absurda acusação que fora peça central para sustentar seu calvário político.


Em 1990, Empossado diretor do Setor de Ciências Biológicas
da UFPR

O cientista, o educador

A reputação que o cientista e educador ganhou no mudo acadêmico decorreu da sólida formação do pesquisador. E muito lhe apoiou a fé cristã madura. É o que se conclui desta explicação de Gremski:

— Logo que entrei na Universidade, passei a me dedicar à pesquisa. Pesquisar significava penetrar nos segredos que Deus nos havia confiado, cabendo-nos o ônus de decifrá-los.


Em Estocolmo, 1978, no Instituto Karolinsnka,
aquele que concede o Prêmio Nobel de Medicina,
Gremski conquista um dos quatro pós-doutorados
obtidos na vida acadêmica

Resumindo o resumo, eis alguns pontos salientes da ação de Gremski: 1) Estruturou na UFPR o Curso de pós-graduação em Biologia Celular (hoje Biologia Celular e Molecular), em 1979, avaliado com nota 5 (o maior em nível nacional); 2) dentre os discípulos, Gremski destaca Sandro José de Souza, atual coordenador de bioinformática do Projeto Genoma do Câncer, diretor do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre Câncer. Ele ficou no laboratório de Gremski, na UFPR, durante quatro anos; 3) em 87, ao retornar de pós-doutorado nos Estados Unidos, assumiu o Centro de Microscopia Eletrônica da UFPR, que atende o PR e SC, unidade referencial no país; 4) de 1990 a 94, foi diretor do Setor de Ciências Biológicas da UFPR, abrangendo dez departamentos (Botânica, Genética, Zoologia, Bioquímica, Farmacologia, Fisiologia, Biologia Celular, Anatomia, Educação Física e Patologia Básica) com 220 professores à época, dez cursos de pós-graduação (hoje são 15, a maioria com doutorado). Tinha já 100% de seus docentes com mestrado e doutorado; 5) depois de mais um pós-doutorado realizado entre 95 e 97, assumiu a coordenação do programa de Pós-Graduação em Biologia Celular, de cuja reformulação surgiram os hoje mestrado e doutorado em Biologia Celular e Molecular da UFPR, avaliado com a nota máxima (cinco) pela CAPES; 6) a convite do então reitor Carlos Antunes, assume em 1998 a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPR, “um tempo dos mais produtivos de minha vida acadêmica”, resume Gremski. No período, a pós da Federal dá salto quantitativo: enquanto em 98 possuía 26 mestrados, em 2002 este número salta para 41; no mesmo período, os doutorados passam de 9 para 21. “Isto levou a Federal do Paraná — lembra Waldemiro Gremski — a tornar-se uma das dez maiores instituições em termos de pós-graduação no País, em qualidade e quantidade”; 7) sob a coordenação de Gremski funda-se o Conselho Paranaense de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação das universidades paranaenses. A instituição tem presença em todos os fóruns relacionados com ciência e tecnologia no Estado. O conselho é uma das três entidades que constitui legalmente a Fundação Araucária (e neste ponto, Gremski faz referências redobradas ao secretário de C&T da época, Ramiro Wahrhaftig, que apoiou integralmente a iniciativa).


Em 2001, com o então ministro da Educação, Paulo Renato
de Souza

Medicina do futuro

Gremski personifica o educador que sabe ouvir, mas firme nas suas posições. Do diálogo com ele, observam-se outras características de seu faciens psicológico bem montado, que nem a morte de uma jovem filha, em acidente automobilístico, em 2002, tirou do seu centro ou afastou dos grandes suportes cristãos.

Antes de voltar a abordar o Laboratório de Engenharia e Transplante Celular da PUC-PR — cujo nascimento, lembra, se deu com o professor Alberto Accioly Veiga e o secretário de Ciência e Tecnologia do Paraná, Ramiro Wahrhaftig, em 1999 —, fala de “uma das experiências mais fascinantes de minha vida”, a de ter trabalhado sob o comando de Cristóvão Buarque, de janeiro de 2003 a março de 2004, a convite do professor Carlos Antunes. Foi diretor do Departamento de Modernização e Qualificação do Ensino Superior, do MEC. Ali ajudou a elaborar a Lei de Inovação Tecnológica. No período, assumiu uma das vagas da CTNBio , responsável pelo controle e plantio, manuseio e pesquisas de qualquer organismo geneticamente modificado no país.

O menino de Serrinha tem todas as atenções voltadas para o Laboratório de Engenharia e Transplante Celular, composto de quatro núcleos. O primeiro (já citado, com Paulo Brofman), com pesquisas muito avançadas e com experimentos feitos em humanos. O segundo é o Núcleo Produtor de Insulina, coordenado pelo professor Miguel Riella. Ali as pesquisas objetivam tanto trabalhar com ilhotas de Langerhans, produtoras de insulina, transplantando-as em doentes diabéticos, como dominar “a tecnologia para diferenciar células-tronco em células beta do pâncreas para depois transplantá-las”. Esta última parte se encontra em fase experimental, observa Gremski, que aponta:

— É a medicina do futuro, tanto do ponto de vista preventivo como de uma medicina que irá utilizar recursos do próprio paciente (célula-tronco) para tratá-lo.
Ela irá, com toda a certeza, substituir os transplantes de órgãos, com todas as suas limitações — observa o coordenador geral do Laboratório da PUC. O terceiro núcleo é o de Válvulas Cardíacas, coordenado pelo Dr. Francisco Costa. O quarto, em fase de implantação sob a coordenação de Dra. Katherine, tem a ver com regeneração neural, visa a cura de doenças como Parkinson e Alzheimer. Bem como repovoar medulas segmentadas de tetraplégicos e paraplégicos.


Com orientandos, no laboratório de pesquisas de células-tronco da
PUC-PR

Contemporâneo do futuro

Waldemiro é a prudência personificada ao avaliar seu papel na direção no laboratório. Sabe que enfrenta um enorme desafio, a ser conduzido com todo cuidado profissional que a empreitada exige. No âmbito da PUC-PR é o condutor seguro das discussões em relação ao uso das células-tronco, incluindo as embrionárias, sobre as quais há ainda muita polêmica, nas esferas científicas e religiosas.E os recursos a serem obtidos para esse trabalho inovador no âmbito da biotecnologia, e que poderão garantir, no futuro, a cura de muitas doenças? Esta é outra preocupação de Gremski e da PUC-PR.

Alto, passos largos, sereno, polido, as palavras bem pronunciadas, Waldemiro vai-se comunicando com o mundo da ciência, em português, inglês, sueco, polonês, espanhol, francês, em busca de apoios ao projeto ao qual vota a fase mais fértil de sua catequese científica. Sinal de que, diz, em tom de blague, não há de que se arrepender de ter deixado o caminho do altar. Afinal, é um cura d’almas e de corpos, quando faz a catequese da Ciência ou ensina o Catecismo da Igreja...

— É uma outra forma de recitar o Salmo que fala do introibo ad altare Dei, entrarei no altar de Deus..., registra, com convicção, o catequista.

Uma prova irrefutável — assim como foi Newton Freire-Maia — de que religião e ciência podem conviver, têm dimensões próprias.

Transcrita da Revista Idéias edição 22, junho de 2005

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