![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| |
|
|
|
|
|
|
|
IMAGO Por Aroldo Murá G. Haygert
Foi na Beirute castigada pela incruenta guerra civil que Bia e João Almino tiveram seu batismo de fogo, início de uma vida de prazerosa itinerância que se prolonga desde aquele ano de 1980. E não se imagine que a experiência do Líbano tivesse sido um ortodoxo exercício diplomático por parte do marido, e do qual a artista compartilharia. As bombas despejadas com certa freqüência nos jardins da casa do cônsul brasileiro, e nos arredores, constituíram, sim, um início de vida nada previsível. E que acabou sendo precioso na vida em comum, uma parceria afetivo-intelectual iniciada com o casamento, em 1979, em Paris. A experiência libanesa vivida sob fogo cerrado por dois anos foi para a filha dos lingüistas e catedráticos da Universidade Federal do Paraná, Miguel e Maria das Dores Wouk — professores de gerações no então notável cenáculo chamado Colégio Estadual do PR e na UFPR — um tempo fértil. Hoje vivendo em Miami, onde João é cônsul do Brasil, Bia acentua uma arte em que sempre foi cosmopolita. Tem público fiel internacional, conquistado nesses quase trinta anos fora do País. A Galeria de Arte Mexicana, por exemplo, na Cidade do México — endereço tradicional, e que revelou Frida Kahlo e expôs muitas obras de Diego Rivera —, é o grande passaporte que acolhe as pinturas e desenhos de Bia. Em novembro, tem individual de pintura marcada na requisitadíssima Galeria Rabelo, de Miami. Em São Francisco está no catálogo da Meridian Gallery, na qual expôs. Inteligência disciplinada, uma ponta de ironia à francesa nas análises que faz, Bia se reconhece como parte de uma geração de quem muito se exigiu. Geração que se revelou sob o clima repressivo do regime ditatorial. Mas que, no caso dela e Carlos Eduardo Zimmermann, amigo-irmão, significou um salto: em 72 — ela com 19 anos — já expunham na Bienal de São Paulo, incentivados e apoiados pelo pintor Fernando Velloso. A artista é grata pelo privilégio de ter tido o monitoramento rigoroso de seu trabalho, desenhos, nos primeiros tempos, por parte de Marc Berkowitz, Walmir Ayala, Roberto Pontual. Uma dádiva concedida pelo trio cuja importância não foi superada na crítica brasileira, influência decisiva na trajetória de Bia, que hoje exibe “uma pintura de desenhista”. Mostram suas amplas telas de 2m X 2m escritas que flutuam sobre o fundo e que são resolvidas com bastão a óleo, lápis de cor, caneta. No óleo sobre tela as escritas vão desde a impressão digital, até uma escrita que se organiza como um “texto” que, mesmo ilegível, tem coerência interna. É algo do exercício da palavra, de que jamais se afastou, e cuja decodificação semântica e peso ela aprendeu com as sentenças precisas dos pais, donos de rigor intelectual que não condescendia com deslizes, especialmente dos filhos (seu irmão é o doutor em Veterinária Antônio Felipe Wouk, ex-diretor do Curso de Veterinária da PUC-PR e membro do Conselho Curador da UFPR). Afinal, você, porventura, não se torna aquilo que contempla? Inverno curitibano Bia passou alguns dias deste julho em Curitiba, revisitando a cidade, procurando reencontrar paisagens que os quase trinta anos de exterior não removeram da retina e do coração: o Passeio Público e suas faunas nada comuns; a bucólica Travessa Ruy Leão, pertinho do Colégio Estadual do Paraná, no Alto da Glória, travessa do porto seguro onde se localizava a casa da família; a vizinha Rua da Glória, outrora elegante e charmosa, agora espaço comercial; os arredores do seu Colégio Sacré Coeur dos tempos juvenis, no Bacacheri, hoje apenas roteiro de recordações, já que o majestoso palacete com afrescos eloqüentes deu lugar a algo modernoso; a casa que foi do mestre da pintura do Paraná, Guido Viaro, mestre dela também...
Foi tempo também para rever sólidas amizades, como Zimmermann, Julio Pechman, Adalice Araújo, Maria Luiza Marques Dias, entre outros. Itinerância fértil Somos mesmo um Brasil diferente, avalia Bia, para quem o fato dela ter nascido no Sul “deu uma abertura internacionalizante”. Assim, quando começou o curso na Escola de Belas Artes de Paris, e também no Louvre, a jovem artista, em 1976, não apresentava as digitais de uma arte caricata. Nada a lembrar um tórrido tropicalismo que seria o mais previsível identificar num artista brasileiro. Na arte dela sempre existiu, isto sim, um jeito sulista de ver o mundo, particularmente influenciado pelas mixagens étnicas paranaenses (será clichê lembrar que o Paraná é terra de todas as gentes?). Um internacionalismo à Sul do Brasil, pois. O que, ao contrário de negar brasilidades, apenas torna visíveis realidades de um Brasil em tudo temperado, a começar pelo clima. E que sempre pede passagem aos estereótipos compostos de sambistas, baianas, índios, praias, favelas, mulatas, mulheres-peladas, penta campeões...
A hora e meia de academia, perto da casa incrusta da num aprazível bairro Coconutgrove é ritual diário e sagrado. Como sagradas são as cinco horas diárias em que some no ateliê, numa profunda imersão com as tintas, as telas, os lápis, as canetas. Nada a lembrar a jovem estudante de psicologia da PUC-PR, inquieta e instigante inquiridora do mundo ao derredor, a Bia “irreverente, metafórica, surreal”, como a vê — “e não a vejo há mais de 30 anos” — o jornalista e publicitário, crítico de cinema, Almir Feijó Junior. Almir, em 1972, quando trabalhava em O Estado do Paraná, foi dos primeiros a escrever sobre a surpresa causada a toda uma geração curitibana pelos traços da garota que estreava numa mostra, com Zimmermann, na Galeria do Interamericano.
Fábio Campana, diretor da Travessa dos Editores, foi colega de Bia na PUC. Aquilo que mais o impressionava em Bia era “sua inquietação intelectual e a facilidade com que transitava, com segurança, em diversas áreas do conhecimento. Suas análises por vezes cáusticas, eram sempre certeiras”, garante. A Bia de hoje se auto-classifica “meio eremita”. Afora as obrigações de agenda a que se vê obrigada a atender ao lado de João Almino, está centrada no trabalho. Sua produção é resultado de intenso labor. Cumpre uma jornada de disciplina e exatidões em Miami, assim como foi, primeiro em Paris, depois nas cidades em que viveu com o marido e as filhas (Letícia, 19 anos, estudante de Arquitetura na Columbia University, e Elisa, 15), em função da carrière de João Almino: Cidade do México, São Francisco, Washington, Lisboa, Londres, Brasília (ele foi diretor do Instituto Rio Branco, de 2001 a 2004). É incondicional admiradora da obra do embaixador João Almino*, 55, diplomata que entrou e saiu em primeiro lugar em sua turma no Itamaraty, doutor em Ciências Políticas, autor de obra clássica nesses domínios — Democratas Autoritários, sobre os partidos políticos brasileiros. Com ele Bia habituou-se desde o primeiro encontro a manter um diálogo fecundo, polivalente, num encontro de dois seres que dividem muito mais do que uma harmoniosa vida conjugal. Dona de opiniões seguras e profundas sobre temas que poderão ir das células-tronco à política internacional, Bia não titubeia em firmar posições. Com diplomacia, é certo.
Como também deixa claras as grandes influências intelectuais que reconhece sofrer: Cortázar, Borges, Proust, Machado de Assis. Autores que lê e relê, “não me canso, são minhas preferências”. Isto sem falar naquele currículo oculto, transferido pelos pais. Um exemplo: até os quatro anos, só falava francês em casa e, depois, adolescente, participava daqueles encontros familiares dos sábados à noite, espécie de disputatio publica em que os convidados, os anfitriões e os filhos da casa eram motivados a amplos debates sobre realidades físicas e/ou metafísicas. Eram momentos em que os sábios Maria e Miguel Wouk (ele começou a escrever o primeiro Atlas lingüístico do Paraná, nos anos 60) arbitravam, com polidez e sem diminuir ninguém, gincanas verdadeiramente intelectuais. Como não é de frases feitas, Bia Wouk, a certo ponto da entrevista, vai pacientemente ampliando a exibição do portfólio que registra seu trabalho. Mas bem que poderia repetir a emblemática resposta de um mestre da pintura: “Se tivesse de explicar minha obra, seria escritor...”.
Transcrita
da Revista Idéias edição 25, agosto de 2005 |
|