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O   n   l   i   n    e
OUTUBRO DE 2005

IMAGO
SERGIUS ERDELYI
artista, inventor, filantropo, semeador de araucárias

Por Aroldo Murá G. Haygert

Mesmo no chamado Primeiro Mundo ele será um tipo incomum, raro. Protetor da ecologia, inventor, administrador, artista visual, educador e filantropo, engenheiro-mecânico, poliglota, Sergius Erdelyi e a esposa Stefanie (dona Tutzi) doaram um amplo legado material e espiritual a uma universidade, a PUC-PR. E a universidade de cunho comunitário se comprometeu a ser a fiel (e o é) depositária dessa herança compromissada com a qualidade de vida presente e sobretudo a das futuras gerações.

A maior parte da doação desse austríaco de 86 anos metade de etnia húngara, pelo lado paterno, outra metade germânica, pela mãe, nascido na Sérvia, está distante 50 quilômetros de Curitiba, em Tijucas do Sul, numa área de cinco mil hectares, realidade concreta abrigada sob o nome de Vivat Floresta Sistemas Ecológicos. Trata-se de proposta de revitalização florestal de área degradada pelo uso incorreto do solo (queimadas, por exemplo), de preservação de flora e fauna silvestres, formação do Parque Ecológico com floresta mista, educação ecológica, preservação ambiental de um ponto de vista sustentável, cuidados com fontes, rios e riachos. Sem esquecer do amplo viveiro que produz milhares de mudas da Araucária angustifolia, de outras essências nativas (como erva-mate), e também de pinus, este para atendimento econômico da comunidade. Só de pinheiro araucária já foram plantadas 250 mil mudas pelo Vivat, em muitas partes consorciadas, lado a lado, com a erva-mate. E serão milhões de novas mudas, com o novo viveiro florestal que está nascendo.

Ágil, inquieto, curioso

Quem vê o engenheiro-mecânico Sergius Erdelyi movimentar-se com ampla desenvoltura nos domínios do Vivat Floresta cinco mil hectares distribuídos de forma contínua nos municípios de São José dos Pinhais, Tijucas do Sul e Agudos do Sul conclui que está diante de um homem familiarizado com o batente rural.

O preparo físico e psicológico de Sergius deve resultar, em parte, da natação diária na piscina de água quente, na casa de estilo e conforto húngaros, assentada em meio à floresta de 60 hectares, ali nos domínios do Vivat Floresta. É o espaço que divide com dona Tutzi (filha de mãe russa, o pai romeno), sua esposa, a maquinista, tal como Sergius a denomina. Ela é alegre presença daquele espaço, transbordando boas vindas aos visitantes.

Estão casados há 57 anos, mas se conhecem há 61 anos. A existência de Tutzi pode ajudar a explicar parte dessa personalidade de Sergius, encantadoramente bem-disposta, sublinhada por um permanente apostar na vida, o homem do trato sempre respeitoso com as gentes de muitos níveis sociais com que convive. Como os empregados domésticos que os acompanham, um deles há 43 anos, outra há quase 30.

Certamente o yoga, que pratica há 50 anos, também fornece a Sergius a seiva diária para a grande empreitada que o move hoje, e para a qual encontrou o parceiro maior na Associação Paranaense de Cultura, a mantenedora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Esta, Sergius identificada por primeiro no amigo e reitor Clemente Ivo Juliatto.


NO VIVAT FLORESTA o sonho de Sergius gerou definitivos compromissos como futuro do meio ambiente. E que estão em parceiros de trabalhos e pesquisas, como o CNPq (Foto: João Gilberto Borges)

E foi a descoberta e amizade solidificada ao longo de 16 anos do espírito empreendedor de Clemente Juliatto que levou o casal a tomar a seguinte decisão, nas palavras do próprio Sergius:

- Decidimos, eu e minha esposa, doar aos irmãos maristas os nossos bens para serem conservados e usufruídos pela irmandade mantenedora da PUC-PR, assim propiciando uma ampla área de atividade para os diversos cursos.

Mas as palavras que melhor sintetizam e traduzem com exatidão o sentido até transcendente da doação estão nesta outra afirmação de Sergius Erdelyi: "Daqui a 100 ou 200 anos poucos se lembrarão de nós. Mas muitos (gerações) nos agradecerão por termos preservado esta maravilhosa natureza em parques, com seus animais, riachos e esplêndidas florestas".

Quem mergulha na realidade física e espiritual do Vivat Floresta antevê o imenso parque ecológico que vai sendo definido na Região Metropolitana de Curitiba, pulmão verde que vai se plenificando a partir de ações simples e vitais. Uma delas, por meio do Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS).

No CETAS, animais e pássaros geralmente em situação de risco, feridos ou doentes, recolhidos pelo IBAMA e Polícia Florestal são tratados por equipes acadêmicas multidisciplinares. Biólogos, agrônomos, veterinários, zootecnistas da PUC e estudantes da instituição tratam de cuidar e devolver à natureza os animais, boa parte deles reintroduzida na floresta do Vivat. É uma ação única no Paraná, rara no Brasil, mais um trabalho, dentre tantos, que o Vivat e o Pró-Ação da PUC fazem juntos, unidos por alvos comuns.

Para entender o homem


Aos 86 anos e uma rica experiência de vida na Europa da Segunda Grande Guerra, Sergius Erdelyi é só ação: faz natação todos os
dias e pratica yoga há 50 anos. O Vivat é certeza de que sua
obra não passará
(Foto: João Gilberto Borges)

São muitos os registros no Vivat Floresta de um Sergius Erdelyi multiforme: se chegam estrangeiros para visitar o local, que abriga um dos Pró-Ação da PUC-PR (ofertando também atendimento médico, fisioterápico, odontológico e de enfermagem à população da área), lá estará Erdelyi para receber os visitantes. Será deles o guia em pelo menos oito idiomas, aprendidos ou em casa ou na escola de amplo espectro, a que teve acesso na antiga Sérvia, na Áustria, na Alemanha e na França; alguém quer conhecer uma creche modelar? Então Sergius guiará o visitante àquele mundo-oásis, um reino infantil de qualidade assistencial e pedagógica modelar. São 60 crianças de seis meses a seis anos assistidas gratuitamente no Lar da Criança e Creche São Francisco de Assis por 17 professores e atendentes. A obra é mantida pela Instituição Filantrópica Sergius Erdelyi e PUC-PR, com apoio de amigos diversos e empresas, além de cessão de professores pela Prefeitura de Tijucas.

No front russo

Mas afinal, como tudo começou? O casal veio para o Brasil em 1953. Não queria mais viver na Áustria, o clima era o de pós Segunda Guerra, a nação repartida entre Inglaterra, Estados Unidos, França e Rússia.

O jovem engenheiro havia experimentado vivências múltiplas, algumas chocantes, como a participação voluntária nas tropas alemãs, no front russo. Ele e o grupo de colegas seus, universitários de Zagreb, austríacos, em número de 104, foram feitos soldados, e enfrentaram o apocalíptico campo de batalha no front russo. Sobreviveram apenas quatro, tendo Sergius sido recolocado para trabalhar em assistência técnica na França.


Dona Tutzi é a companheira de 57anos, a maquinista de grandes decisões, como os milhares de hectares entreguesà PUC-PR. Neles, a preservação do meio ambiente compreende o Parque Ecológico (Foto: João Gilberto Borges)

Não deve ter sido fácil para Sergius desligar-se de uma história vivida por ele e seus ancestrais em domínios do que fora parte do Império Austro-Húngaro. A cidade em que nasceu, na Sérvia, é paradigmática do multiculturalismo local: é Neusatz (em alemão), ou Novi Sad (em sérvio) ou Ujvidek (em húngaro). Um caldeirão quase sempre fervendo, diz Sergius, recordando as históricas e enciclopédicas influências da região, marcada por culturas milenares, encruzilhada de romanos, godos, hunos, cruzados...

A vida dele e de Tutzi vale um romance, não há dúvidas. Mas do resumo a que os paranaenses, e particularmente os jovens do Terceiro Milênio já se beneficiam, é preciso recordar: Sergius, usina de idéias, foi inventor de soluções, como o aquecedor para as barrigas dos elefantes, tanques, nos terríveis invernos das estepes russas; trabalhou num dos últimos laboratórios de baixas temperaturas para materiais aplicados em foguetes; o engenheiro mecânico, depois, sob os intensos invernos vienenses pós-guerra, seria o inventor e em seguida implantador de três patentes registradas, operando equipamentos que permitiram aos russos utilizar uma das últimas fontes européias de óleo, exploradas até à exaustão, garante.

A história brasileira de Erdelyi passa por São Paulo, no Brasil recém-entrado na era da industrialização, a partir de 1957: dirige empresas industriais de grande porte, de fabricação de máquina de costura elétrica e portátil (utilizava patente de produto por ele inventado), dirige também empresas fornecedoras de múltiplos equipamentos para montadoras de automóveis; com um sócio, e já com nome consolidado no Brasil que importava na época São Paulo associa-se a uma multinacional de origem alemã, especializada em tratamento de carrocerias e linhas de montagem automotiva.


Na vila de linhas húngaras onde mora, Sergius tem quatro ateliês: da arte cibernética a mosaicos transparentes. O artista já expôs na Bienal de São Paulo (Foto: João Gilberto Borges)

Bem-sucedido materialmente, depois de enfrentar alguns altos e baixos, Erdelyi resolve redescobrir raízes: opta por mergulhar nas atividades agro-industriais, tal como fizera seu avô paterno, senhor de grandes plantações de trigo, milho e dono de primeiro moinho a vapor da Iugoslávia. Ao recordar do avô, lembra que o ancestral e a avó saíram de mãos vazias, corridos, fugindo para a Áustria, perdendo tudo para a fúria titoísta de 1945.

A escolha do Paraná deu-se em 1977, depois de muitas procuras. A decisão foi por reflorestamentos e preservação de cinco mil hectares de terra, boa parte dela então abandonada depois de ter cedido a fertilidade à exploração exaustiva e às queimadas. Veio a criação de empresa de reflorestamento que, em última instância, acaba sendo apoio material substantivo para programas que deram início ao Vivat. O remanescente dos reflorestamentos dá empregos para centenas de obreiros rurais e suas famílias e abastece com madeira de corte legalmente permitido as pequenas serrarias localizadas a uma distância de até 30 quilômetros. Tudo em pequena escala mas essencial para o conjunto do projeto em que Sergius dá ênfase:


Tempus fugit: o relógio do Sol é gratificante mostra da criatividade artística, na entrada do Museu Sergius Erdelyi, no Pró-Ação da PUC (e Vivat Floresta), em Tijucas do Sul, a 50 quilômetros de Curitiba (Foto: João Gilberto Borges)

É preciso dar emprego para essa comunidade. Mesmo que forçando situações, tornando manuais, deixando de lado perspectivas de mecanização, como no estoque de madeira, e no descascar dos eucaliptos.

No princípio era o verbo

Foi um programa nacional da TV Globo que revelou ao Brasil o silencioso e eloqüente trabalho de Sergius Erdelyi na igreja matriz de Tijucas do Sul, os vitrais. São cenas bíblicas, religiosas, em que Sergius aplica a técnica de mosaico de vidro (mosaicos transparentes), por ele inventada. O livro No princípio era o Verbo, em sua primeira edição, apontado pela televisão na ocasião, e resumo daquela iconografia de forte impacto, significou o grande encontro com o reitor Juliatto e o seu fantástico desdobramento em benefício do meio ambiente e da educação superior.

Sergius não é fruto de promoção, pelo contrário, uma pérola de raro valor escondida, em grande parte. Isto a despeito de seu nome ser verbete no insuperável Dicionário de Artes Plásticas, de Roberto Pontual.


No lar da criança e Creche São Francisco de Assis, mantida pela Instituição Filantrópica Sergius Erdelyi e PUC-PR, 60 crianças ganham atenções e cuidados, alimentação balanceada e atendimento médico e pedagógico modelares (Foto: João Gilberto Borges)

A arte de Sergius foi exposta na Bienal de São Paulo, embora a maior repercussão, no País, esteja nos vitrais da Matriz de Tijucas do Sul e na Capela de São Francisco (em Lagoinha, na mesma cidade). Uma arte que levou o artista a mostras individuais em centros como Viena, Nova Iorque, Roma.

Para que não se escondam realidades indescritíveis, recomenda-se visita ao Museu Sergius Erdelyi, construção recente, no campus do Vivat, e aos quatro ateliês do artista localizados em sua casa. Neles estão à mostra a continuada fertilidade do artista e sua alma inquieta. Uma alma livre de qualquer intenção comercial, e que, repete: Só assim ela (a arte) recompensa a criatividade.

O acervo de Sergius inclui desde pinturas e desenhos com computadores a objetos construtivos, relógio de sol, objetos-construtivos gigantes.

Esse jovem octogenário, intelectual inquieto, é também espírito que sinaliza descobertas insuspeitadas, como uma certa fidelidade aos princípios do misticismo evolutivo de Theilhard de Chardin, à pedagogia da iconografia religiosa. Como aquela da Teo Tokos a Mãe de Deus, com a transparência de suas convicções cristãs, marca de uma grande conversão interior.


Na Igreja Matriz de Tijucas do Sul, os vitrais em mosaico transparente, técnica descoberta por Sergius. Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, saltou o Menino em seu ventre (Lucas, 1, 41)
(Foto: João Gilberto Borges)

Essa conversão pode estar gerando frutos inimaginados a partir da profusão de cores e luzes dos mosaicos de Sergius. É parte do milagre do Verbo. Neste caso dos mosaicos, como quer o filósofo Diniz Mikosz, se fazendo vidro e cor e luz.

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