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Evaristo Eduardo de Miranda
Escritor, doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, em Campinas (SP), e presidente da organização não-governamental Ecoforça –- Pesquisa e Desenvolvimento
C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e

Idéias
Harry Potter e o Genoma


Evaristo Eduardo de Miranda

Um fantasma ronda laboratórios e centros de pesquisa genética: o cientismo. Para essa ideologia, a ciência daria a conhecer as coisas como são, resolveria todos os problemas da humanidade, satisfazendo todas as necessidades legítimas da inteligência humana. Seus adeptos não admitem limites em suas pesquisas, nem orientação e, muito menos, oposição. Mesmo quando ameaçam princípios fundadores de nossa humanidade.

As utopias do cientismo acenam com o mito da sociedade reparadora. Afirmam, e a mídia propaga, que estudos genômicos eliminarão todas as doenças; manipulações de embriões garantirão seres eugenicamente sadios; transplantes de órgãos serão simples como compras em supermercado e até a morte poderá ser vencida. E não aceitam limitações às suas criações de embriões e manipulações de vidas humanas.

Na tradição grega, judaica e cristã, a razão é um princípio fundador da humanidade. A verdadeira razão é crítica. E, em primeiro lugar, de si mesma. Por isso é modesta. A razão livre é independente de príncipes, interesses particulares, genodólares e poder. A razão impõe limites estruturantes. Um pai não faz sexo com sua filha. A proibição do incesto, por exemplo, é uma limitação estruturante, própria do humano e não dos animais.

Para a mesma tradição, não existem graus de humanidade, como pretendiam nazistas urdindo raças inferiores e superiores, sub-homens e super-homens. Em Nuremberg, ao se condenar médicos nazistas e suas experiências "genéticas", proclamou-se a irredutibilidade da pessoa humana. Um deficiente mental é tão humano quanto um Nobel de física, como diz Guillebaud. Um índio mendigo é tão humano quanto um presidente. Ninguém pode decidir qual vida vale a pena ou não ser vivida. Seguridade e sanidade não podem eliminar a fraternidade.

Quando Estados Unidos, Europa e Brasil proíbem a clonagem humana, estão definindo as pesquisas que desejam ou não. Não cabe à ciência definir a sociedade. Cabe à sociedade definir a ciência que precisa e deseja, impondo limites, orientações e objeções a tudo que ameace a humanidade.

Se o cientismo entra pela porta, o irracional vem junto e ameaça a verdadeira ciência. No século 19, para alguns positivistas, a ciência ia resolver todos os problemas da humanidade. Enquanto isso, o irracional galopava em experiências sobre "magnetismo humano", mesas e copos que giravam, espiritismo, ectoplasma etc. Agora, no século 21, o cientismo proclama utopias enganadoras para justificar sua sede de dinheiro e poder, enquanto cresce o fascínio pelo irracional, pelos gentis Harry Potters hollywoodianos.

Laboratórios de genética não podem ser assombrados por esses velhos fantasmas. Um geneticista judeu dizia: nosso problema não é ter descoberto a Árvore da Vida, mas tê-la vendido a Wall Street. Fundados nos princípios de humanidade, cabe a todos defender as conquistas científicas frente ao irracional e aos desvios do cientismo, separando a ciência de sua ideologia.

Extraído da Revista Galileu nº 130, Editora Globo

 

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