Frei
Betto
é escritor, autor de "Entre todos os homens" (Ática),
entre outros livros.
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Sementes de girassol
Frei
Betto
No próximo ano, fecharei a minha caixa de Pandora e farei passarinhar
todos os bons propósitos que desafiam a minha fé. Recolherei
num jardim de tulipas essa tristeza d¹alma que definha o meu ego
arrastado pela vaidade.
No próximo ano, soterrarei de perdões o meu mal-querer e
de afagos a sórdida tendência de apostar na desgraça
alheia. Erguerei a minha taça à vitória do outro
e brindarei de louvores as conquistas dos que invadem a minha reserva
de caça. Serei dom e não dor.
No próximo ano, fecharei as asas da ambição e, vazio
de desejos, cavarei túneis no mais profundo de mim mesmo para deixar
fluir as águas da plenitude.
No próximo ano, desviarei o olhar da lascívia que esgarça
o meu espírito e os ouvidos aos tambores que me impedem de dançar
na contramão. Não buscarei senão os odores suaves
da brisa matinal e darei ao meu paladar o que amarga a língua e
adoça o espírito.
No próximo ano, porei em prática sábias lições
de vida: pão que se guarda endurece o coração; a
cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário do medo
não é a coragem, é a fé. Sairei à rua
repleto de silêncio, grávido do ser que me transfigura em
morada divina.
No próximo ano, segredarei aos peregrinos os três aforismos
de meu bem-viver: Deus tem sabor de justiça; a vida trafega a bordo
do paradoxo; a morte é verbo e não se conjuga no presente,
é sempre pretérito ou futuro.
No próximo ano, espalharei em meu peito sementes de girassol e
cobrirei a cabeça com ervas aromáticas, para que a minha
pele transpire luz e a minha boca profira perfumes. Não me privarei
de suculentas alegrias e só darei a meu corpo o que empanturra
o espírito.
No próximo ano, cultivarei cada um de meus cabelos brancos, modelarei
de gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que
maquiam de sabedoria o meu rosto. Serei belo como o tronco nodoso de uma
velha castanheira que, retorcida de braços, abraça o Sol
para em seus pés irradiar sombras.
No próximo ano, tratarei o semelhante com a reverência dos
anjos e lavarei as portas de minha cidade para acolher em festa os que
trazem boas-novas. No contorno dos dias, amarrarei fitas brancas e escovarei
a boca da noite até limpar a garganta de sonâmbulas aflições.
No próximo ano, não permitirei à língua servir
de passarela ao mal-dizer, nem darei ouvidos a quem insiste em violar
meu silêncio. Voarei sereno como os albatrozes que, todas as manhãs,
impedem que o fragor das ondas fira a pele porosa das praias.
No próximo ano, não me deixarei iludir pelos profetas da
desgraça, nem me hipnotizar pelos que pincelam de cores vivas os
cemitérios. Ficarei atento ao olhar perplexo cravado no rosto encardido
dos que suplicam uma côdea de pão e um gole de paz.
No próximo ano, trocarei minhas horas preciosas por horas ociosas
e, recostado num banco de parque, darei milho aos pombos e cantarei laudes
com os mendigos que, deitados na grama, escarnecem da agonia do tempo.
Banharei a minha pele na lagoa pontilhada de moedas faiscantes de prata
e, boca aberta sob o chafariz, beberei até embriagar-me de insensatez.
No próximo ano, violarei todas as regras da civilidade torpe que
me engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder
horas em cuidados supérfluos. Arrancarei do pulso as algemas do
relógio que me escravizam ao ritmo implacável de minutos
e segundos.
No próximo ano, serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência
que recobre de fúria a minha excessiva fragilidade. Confessarei
a mim mesmo os meus pecados e, crucificado numa roda-gigante, ressuscitarei
com a inocência das crianças que sorriem prenhes de vertigens.
No próximo ano, serei cidadão de um país governado
por um cavaleiro que chegue montado num burrico e tenha as mãos
calosas como quem cavou as entranhas da terra. Não darei lugar
aos príncipes revestidos de palavras vãs, nem porei a minha
confiança nos arautos surdos ao clamor dos desvalidos.
No próximo ano, farei de Deus o meu pai e o meu pão, e abrirei
em laços o meu abraço, até transmutar solitários
em solidários. Amarei sobre todas as coisas, para que a minha riqueza,
despojada de bens, seja farta em afetos. Fecharei os olhos para ver melhor
e, ao crepúsculo, serei consumido e consumado pelas chamas que
ardem no lado avesso do meu ser.
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