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Volnei
Garrafa:
- O que significa o anúncio do nascimento de um clone por parte de uma seita que mistura religião ao culto a extraterrestres? Volnei Garrafa - Essa seita não faz parte dos grupos que reconhecidamente fazem pesquisa de ponta nessa área. Não há sequer um protocolo dessa experiência em nenhum lugar dos EUA. Na verdade, é um grupo que surge praticamente do nada com essa notícia. Não há um histórico de pesquisa. Então, antes de mais nada, precisamos ter uma comprovação científica de que a clonagem de um bebê ocorreu mesmo. - E se a experiência for confirmada? - Acho que existe uma grande possibilidade de esse anúncio não ser verdadeiro. Mas se isso se confirmar, vou ficar assustado. Com bastante medo mesmo. Porque será a primeira vez que se faz uma reprodução sem a utilização dos dois sexos. E isso altera todos os nossos referenciais. Muda os parâmetros da geração da vida humana. - Supondo que a alegação da Clonaid seja verdadeira, quais seriam as conseqüências técnicas da experiência? - Do ponto de vista técnico, a primeira questão que se coloca é: o que aconteceu com os outros embriões humanos malformados? Para criar a ovelha Dolly, os cientistas fizeram 277 tentativas e descartaram muitos fetos aberrantes. A segunda questão é: como podemos garantir que os clones têm equilíbrio imunológico, biológico e genético? Eles podem nascer com falhas que impossibilitem a manutenção de nossa espécie. Podemos estar criando modelos fracos, incompatíveis com o mundo de hoje. Podemos estar inviabilizando a espécie humana. E essa cientista não tem procuração da Humanidade para brincar com a natureza. - No caso de esse bebê ser mesmo um clone da mulher que o trouxe ao mundo, ele é filho dela ou irmão? Até que ponto um anúncio desses altera as relações familiares? - São perguntas inimagináveis e a sociedade ainda não está preparada para respondê-las. Não há amadurecimento moral nem jurídico para termos um clone. O mundo não está preparado para ter um clone. Se essa notícia se confirmar, será absolutamente necessário mudarmos toda a legislação. As leis atuais não contemplam as novas situações de parentesco. O próprio conceito de família muda. Essa criança, a rigor, não tem pai. - O senhor acha que existe um elemento forte de vaidade na idéia de ser clonado? Que não se trata apenas de mais uma forma de reprodução? - Acho absolutamente egocêntrico. Mais do que vaidade, eu diria que há egoísmo. Acho que é algo que o Estado deveria controlar. A ONU precisa criar o quanto antes um estatuto da vida humana, a exemplo da declaração dos direitos do homem, que contemple essas questões e que seja fruto de uma construção democrática, coletiva. Isso não pode passar de 2003. - E o Brasil, ainda está muito atrasado nessa discussão? - Precisamos também, o quanto antes, começar os debates para criar uma comissão nacional de bioética e podermos discutir esses temas no Brasil. - Em sua opinião, de que forma anúncios como o da Clonaid podem prejudicar os avanços da clonagem terapêutica, que não tem por objetivo criar clones, mas sim buscar tratamentos para as mais diversas doenças? - Temo que esse tipo de anúncio possa gerar confusão em relação à clonagem terapêutica, o que pode ser extremamente nefasto. Pode acabar por impedir os avanços da clonagem terapêutica, que é muito importante para o futuro controle de diversas doenças. - Qual a sua opinião sobre clonagem reprodutiva? - Acho que,
em primeiro lugar, não há ainda segurança técnica
alguma para se fazer um clone humano. Só poderíamos pensar
em fazer isso depois de as experiências em animais se mostrarem
seguras, o que não ocorre. Em segundo lugar, não houve o
amadurecimento das discussões morais no sentido de convivermos
com um clone. Muito menos houve um amadurecimento do ponto de vista jurídico.
E vamos ter que normatizar isso tudo. Por último, acho que as pesquisas
no campo da reprodução assistidas estão longe de
ter atingido seu esgotamento. Ainda há muito a ser pesquisado antes
de partirmos para a clonagem. Por tudo isso, acho de uma irresponsabilidade
a toda prova a postura dessa empresa. |
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