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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
2ª QUINZENA DE JUNHO DE 2006

IMAGO
CARNEIRO NETO,
O comentarista enciclopédico

Por Aroldo Murá G. Haygert


Encontro com o Rei Pelé. Curitiba, 1974. (Arquivo)

O "piloto automático" está ligado, como quando comenta o tema-paixão de sua vida, o futebol. E ele vai dissecando tipos históricos que podem soar lendários ou muito distantes - quando não desconhecidos- para a maioria dos mortais. O passeio vai de homens e mulheres que construíram a História universal, em guerras, revoluções e cruzadas, no esplendor das cortes, na quietude de mosteiros, na simplicidade de casebres, no fausto de cenas palacianas ou nos campos de batalhas. Fala com didatismo, pronto a dirimir dúvidas dos interlocutores. Discorre sobre El Cid com o mesmo entusiasmo com que se embrenha nos episódios mais fascinantes da II Grande Guerra, incansavelmente perquirida. A ponto de ter ido in loco conhecer os espaços do desembarque Aliado na Normandia. Ou visitado o submarino Arizona, em Pear Harbor, cujo ataque detonou a reação americana. E de ter igualmente conferido, com minuciosa e redobrada atenção, o refúgio estratégico em que Churchill se abrigou no complexo de White Hall, quatro metros abaixo da terra, em Londres, para planejar os grandes lances bélicos contra o Eixo. Ali onde, com orgulho, Carneiro viu o mapa-múndi sobre a escrivaninha de Churchill assinalado com os três pontos de interesse dos Aliados num eventual desembarque no Estado do Paraná: a baia de Guaratuba, Paranaguá e o aeroporto Affonso Penna.

Copa do Mundo, Espanha, 1982: Carneiro, capitão Hidalgo e a equipe da Rádio Globo do Rio, com a dupla Jorge Cury e Waldir Amaral.

Antônio Carlos Carneiro Neto, 58 anos, jornalista há 32 anos, é daqueles profissionais que, na maioria, ia de cursos de Direito para as redações de jornais e cabines de rádio, homens quase sempre antenados em realidades culturais amplas. As dele incluem, na medida do possível, visitar o palco dos acontecimentos em que seus heróis preferidos viveram ou se expressaram. Por exemplo, na Itália, Pádua, por causa de Santo Antônio, mais que devoção cultivada carinhosamente, um capítulo especial do mundo hagiográfico que ele disseca com insistência e espírito crítico. Assim como o fantástico do bélico o levou a Washington para conferir os espaços em que atuou Franklin Delano Roosevelt, o deficiente físico que ganhou a II Grande Guerra a partir de sua cadeira de rodas.

Grande Guerra, uma paixão, inserção intelectual quase obsessiva, no que encontra poucos parceiros. Um deles, o ex-governador João Elísio Ferraz de Campos, capaz, como ele, de grandes deslocamentos geográficos para impregnar-se localmente da atmosfera de certos campos de batalha.

Com Rejane, união começada no Curso de Direito

Saldanha, Nelson Rodrigues...

São curiosidades e interesses culturais, esses da guerra, que não o deixam, no entanto, distante de realidades imediatas. Uma delas, a questão do exercício profissional no rádio, televisão e jornal: não é contra a promoção de ex-jogadores a comentaristas ou narradores esportivos, mas reclama cuidados com a qualidade profissional, o que só boa formação cultural e técnica jornalística podem dar...

"O jornalista, suas bases culturais, seu projeto de vida, sua acuidade e seus valores éticos, são insubstituíveis. Ele é essencial para o leitor na formação de sua visão crítica, assim como a do ouvinte e a do telespectador", opina.

Admite que os ex-jogadores tragam suas experiências de vida aos ouvintes, "mas que haja um equilíbrio entre jornalistas e antigos astros no mercado de trabalho da comunicação". Isto sem falar, esquecendo até, em cumprimento de leis que regulamentam a profissão.

E como que acentuando o inconformismo com a nova realidade entronizada, pergunta: "Que foi feito dos grandes debates, do esgrimir de inteligência, da sagacidade, do savoir dire e do agudo senso de humor que se tornaram antológicos na fala e na escrita de Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha? Na TV, por exemplo, dão-nos Falcão, Casagrande e companhias... Pode?".

Carneiro Neto agradeçendo à cidade e ao prefeito Roberto Requião, na inauguração da praça Desembargador Armando Carneiro, em 1987

Língua Afiada

Depois de tantos anos exposto à crítica e dissecando o mundo do futebol, Carneiro Neto deve ter angariado também desafetos. Muitos o consideram dono de "língua viperina", um demolidor de comportamentos e ações de amigos e eventuais inimigos. Para alguns, destina apelidos onomatopaicos. De outros - mesmo amigos diletos -disseca a moldura psicológica sem meias palavras ou condescendência. Mas em todos os casos, age sem rancores, deixando sempre portas abertas, pronto a dividir espaços de confraternização.

E foi assim que construiu uma carreira respeitável de repórter, apresentador de televisão, produtor de TV, narrador e, desde 1997, exclusivamente de comentarista. Alguém que não só conhece o caminho das pedras do futebol, mas, sobretudo os pecados veniais e mortais de jogadores e cartolas e o meandros dos grandes interesses [nem sempre defensáveis] que circundam craques e chuteiras.
Construiu mais que isso: teceu uma enorme e não mensurável rede de amizades, de respeito e acatamento profissionais. O que bem pôde ser avaliado nos lançamentos de seus cinco livros, todos esgotados, em que o futebol é o tema central [num deles, sobre Evangelino Neves, em parceria com Vinicius Coelho]. Numa das noites de autógrafos, um recorde: 1.500 entraram na fila dos autógrafos.

Um "pé-de-boi"

Há 20 anos mantém coluna diária na Gazeta do Povo,e agora comentário diário na CBN/Curitiba. Mas nada lhe caiu dos céus, sempre foi o que se chama de "pé-de-boi" para trabalhar. Começou em 1964, na Rádio Clube Pontagrossense, em Ponta Grossa, pelas mãos de Agostinho Mathias, aos 16 anos. E não mais parou: sofreu influências iniciais de Ney Costa, Barros Junior, Osires Nadal, Fernando Feddeger, Edemar Luiz, da equipe esportiva da rádio.

Para Curitiba veio de Ponta Grossa, com a família - o pai, desembargador Armando Jorge Carneiro, a mãe, dona Josephina Basso Carneiro, e os irmãos, José Renato e Armando Filho- em 1965. Fincou raízes na capital, percorrendo um amplo itinerário na mídia, trabalhando em jornais como O Estado do Paraná, Diário do Paraná [foi seu mais forte ponto de projeção,no início], Rádios Guairacá e Clube Paranaense, Televisão Iguaçu, TV Paraná Canal 6 e TV Paranaense Canal 12. Por anos atuou como garoto-propaganda da loja de seu amigo Maurício Frischmann, na televisão.

Também foi responsável pelo lançamento no rádio curitibano de gente de grande porte, como o hoje deputado e dono da Rádio Banda B, Luiz Carlos Martins, quando Carneiro dirigia a Rádio Clube Paranaense, a velha B-2, no início dos anos 1970.

Orgulhos? Tem um, pelo menos: o de ter por anos trabalhado até 14 horas por dia, revezando-se entre a venda de espaços comerciais para as jornadas esportivas que dirigia [comprava horário nas rádios], e uma agência de publicidade em que atendia clientes de porte, como Malas Ika [Segismundo Morgenstern] e FrischmannMagazine, Irmãos Thá, Lojas Unidas. Trabalhava também como assessor de imprensa da Secretaria de RecursosHumanos [governos Canet Jr., Ney Braga e Hosken de Novaes], com tempo para cursar Direito na acatada Faculdade de Direito Curitiba, de cuja turma, em 1976, foi orador. E onde conheceu Rejane de Conto Carneiro, a esposa, com que se lança a longas aventuras históricas internacionais em busca dos cenários que o conhecimento enciclopédico lhe revelou.

Disciplina do juiz Nasceu em Wenceslau Braz, Norte do Estado, terra de dona Josephina, filha do genovês Guido Basso, industrial. Foi lá que o juiz Armando Jorge, e que depois chegaria a presidente do Tribunal de Justiça do Paraná, um tipo humano linear, dedicado ao Direito, oriundo de tradicional família curitibana - a mãe era a professora Hilda de Oliveira Carneiro,que foi professora de Bento Munhoz da Rocha Neto - conheceu a companheira, casaram e depois passaram a deambular por comarcas. Carneiro Neto, um admirador do pai, que chegou a ocupar o Governo do Estado, por um mês, em 1986, faz justiça ao magistrado: era um homem disciplinado, carinhoso, mas exigente, apegado ao trabalho e aos livros. Ao mundo de Dumas, de Camões, de Victor Hugo, Carneiro e os irmãos iam sendo por ele introduzidos nos intervalos da muitas mudanças. Exigência paterna. E o ler e o encaixotar livros para mudar de cidade quase viram diversão de infância, porta de entrada a um mundo de possibilidades sem fim. Pelo que o jornalista agradece. Hoje no bairro do Portão Curitiba homenageia Armando com uma praça, que leva seu nome.

No lançamento de um dos seus livros, com João de Pasquale e Bento Garcia Junior

E foi nas muitas andanças do juiz Armando Jorge que Carneiro descobriu, aos sete anos, o futebol que alimentaria seus sonhos e sua visão profissional. Começou no infantil do Grêmio Oeste de Guarapuava, time do qual seria campeão juvenil de futebol em 1961.
Mas em vez das chuteiras, escolheu o futuro como jornalista, e não se arrepende: tem sido dono das melhores remunerações na área, no Estado, e se transformou em globetrotter por causa do futebol. E entre seus lançamentos que deram certo cita Lombardi Junior e Ulisses Costa, além de Luiz Carlos Martins.

Só não esconde uma certa "pena" das novas gerações que fazem rádio, televisão e imprensa futebolísticos. Lamenta porque elas hoje são vítimas de uma atividade excessivamente controlada, na qual o furo acabou sendo substituído pelas informações em forma de "releases" oficiais, notas oficiais, comentários anódinos feitos em sites de clubes, entrevistas coletivas que inibem o contato com as fontes [no caso, os jogadores e dirigentes]. Enfim, uma certa assepsia da notícia garantida pelas assessorias oficiais de imprensa.

Tudo trabalha para impedir a notícia de primeira mão, não mais se estimula a competição na mídia especializada, diz.

A aventura do videotape

Foi coma implantação da Embratel, então estatal que centralizaria o grande link nacional de telecomunicações, que o futebol e suas relações com o público televisivo mudariam totalmente, em 72.

O antológico João Saldanha, no Parque Aquático do Atlético, em 1989, com o amigo Carneiro Neto

A título de exemplificação dos tempos heróicos que não se repetirão [felizmente], Carneiro Neto recorda: em 1968, por exemplo, com Silvio Ronald, foi a São Paulo, gravou o videotape do jogo Palmeiras versus Estudiantes, pela Copa Libertadores das Américas, numa quarta-feira. Mas só na noite de quinta-feira, com patrocinadores comerciais e sob muita expectativa, a fita seria exibida, na TV Iguaçu. Ponto para a dupla. Realidade inconcebível nos dias de hoje.

Não é preciso ser precognitivo -costuma dizer - para vislumbrar as grandes mudanças que vêm. O jornal, tão caro a Carneiro, terá, acredita, que ampliar sua presença na web, mediante assinaturas. E como imposição de novos tempos e as novas mídias baseadas em tecnologias surpreendentes, ele lembra o caminho já encontrado por jornais europeus: a distribuição gratuita, com a diminuição do tamanho das páginas [intermediário entre stan-dard e tablóide].

Neste ponto, aponta o pioneirismo do Jornal de Londrina, o primeiro diário brasileiro a assumir um caminho que "já é o futuro do jornal", que ganha mais elasticidade para a venda de publicidade e conquista de novos leitores, diz Carneiro.

O jornal vai em busca do terreno perdido, embora, reconhece, seja a mídia escrita a maior e mais respeitável produtora da informação jornalística, indispensável nas páginas da web vinculadas ou não à imprensa. A televisão, acha, vai convivendo com as novas realidades midiáticas até porque tem sabido equipar-se com novidades tecnológicas, como a digitalização, os aparelhos de plasmas, TV a cabo, pay-per-view, a mobilidade da cobertura jornalística. Agilidade que muitas vezes exige da TV estar no lugar em que a notícia acontece.

O rádio é uma espécie de primus inter pares na análise de Carneiro sobre o mass media. Para ele, o rádio é eterno, tem a mobilidade que nenhuma outra mídia oferece. É simples, grátis, introduz-se em qualquer ambiente e faz-se companheiro a ofertar ampla grade de programação sem qualquer ônus. Para a grande massa de consumidores é o veículo por excelência, cada vez mais segmentado e alternativa às programações dos pay-per-view e a inacessibilidade da mídia impressa [pela qual se paga]. Opiniões de quem é do ramo, e que lembra ser o horário de 5 às 9 horas da manhã o chamado horário nobre do rádio [ele se apresenta às 7 horas, na CBN].

Mais que a ONU

O mundo gira em torno da pelota e há mais países filiados à FIFA do que à ONU, repete Carneiro para examinar o envolvimento mundial com um esporte essencialmente democrático. Em tese, para praticá-lo primariamente, basta uma bola.

E nele o Brasil não é só o grande favorito. O futebol é o gerador de orgulho nacional, capaz de aumentar a auto-estima de uma Nação e projetar o país que parece destinado a ser o eterno país do futuro, de Stefan Zweig.

Não tem pretensões a ser analista definitivo do tema, acha que há sempre possibilidades de novas contribuições sobre o presente e o futuro do futebol e dos clubes profissionais. "Eles melhoraram, mas estão anos-luz atrás dos europeus", pontifica. Sabe que o Brasil, por motivos vários, parte o melting pot que compõe seu povo, é celeiro quase "natural" de grandes craques que, revelados, certamente migrarão para a Europa. Craques que nascem nas periferias, são pobres, negros, mulatos, caboclos, portadores de baixa escolaridade.

Raramente passam por escolinhas de futebol, as quais Carneiro não vê com entusiasmo, "são úteis apenas no papel didático de ensinar regras e dar disciplina aos meninos" . Craques, então, são basicamente resultado de DNA.

Se não titubeia em dizer que a fase romântica do jornalismo e radialismo futebolísticos acabou, também aceita, e não poderia ser o contrário, dada sua formação, a publicidade nos uniformes e na vida dos times. São realidades que o american way acabou, tal como no rugby, implantando no futebol, gerando renda, empregos, salários.
Para ele, as mudanças estão chegando mais rápido do que esperado, como o ponto eletrônico para os árbitros e as câmeras de alta definição que acabarão com dúvidas nos jogos e, até, com a estigmatização que pesa sobre os juízes, a quem se credita culpa por erros reais ou não. Ganham a honra dos juizes e a reputação de suas mães também...

Frequentemente Carneiro pode parecer com ar blasé, um certo enfado, próprio dos que dão a impressão de já ter visto de tudo, e não mais esperam novidades. Mesmo assim é assíduo freqüentador de grupos centrados em torno da boa mesa e do futebol, com encontros semanais e mensais em Ponta Grossa e em Curitiba. Um deles, na cocheira de Raul Trombini. Outro, Mesa Real, nesta partilhando de lembranças em ebulição, com Airton Cordeiro, Carlos Alberto Pessoa, Vinicius Coelho... Um total de 12 companheiros.
Planos? Fazer rádio até quando for possível, escrever novos livros, num compromisso de transmitir realidades históricas às novas gerações, como foi o volume da História do Paraná Club, que lhe foi encomendado pelo então dirigente Ernani Buchmann. Conta o itinerário de um clube resultado da fusão de sete outros, o Savóia, o Ferroviário, o Água Verde...

Enquanto isso vai pesquisando as intrigas provocadas pela amante de Luiz XIV, em Chambord, em seu confronto com uma rainha com cujo poder material a cortesã não podia competir. Ou se aprofunda no mundo de Agostinho, o bispo de Hipona, sustentáculo do cristianismo dos primeiros séculos.

Isto não diz respeito à busca de refinamentos culturais. É necessidade a que ele responde, essencial para o olhar maduro de uma geração de comunicadores como a sua. Gente que entendeu que jogar bola e falar dela e de seus craques deve ser muito mais do que mero exercício da fala ou da escrita telegráfica. É questão até espiritual, mexe com a alma das ruas, comum povo e seus totens mais sagrados.

Tendo consciência dessa realidade, foi assim que Carneiro Neto fez-se ouvido e, sobretudo, respeitado. Uma raridade.

Transcrito da Revista Idéias edição nº 45

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