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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é


O   n   l   i   n    e
JULHO DE 2006

IMAGO
ERNANI BUCHMANN
historiógrafo da bola, escriba de Curitiba

Por Aroldo Murá G. Haygert


Ernani Buchmann (Foto: Diego Singh)

O publicitário economiza palavras, corta excessos, fica com o substantivo; o ficcionista pode trair recursos usados em romances de cavalaria, ou, depois, escrevendo alguns tons acima da realidade, denunciar-se como alguém que leu muito García Márquez, Borges, Vargas Llosa, Bioy Casares. O repórter-historiógrafo redesenha traçados geopolíticos, identificando, a partir dos trilhos de trens, as paixões futebolísticas de cidades e dos ferroviários, ao lado de batalhas do Contestado e a devastação ambiental provocada com a implantação da ferrovia no Sul. O acadêmico, “imortal” da Academia Paranaense de Letras, é agora o entusiasta daquele espaço de debates literários; o curitibano-catarinense tem o domínio sem limites da cidade, sua alma, suas graças, suas contradições, seus cheiros, seus sotaques, seus sabores, seus tesouros escondidos em espaços insuspeitados, em heranças de Velho Mundo que se traem por falas e gostos docemente aculturados.

Ernani Buchmann tem todas essas faces. Para o grande público, a mais conhecida deve ser a do dirigente futebolístico que presidiu o Paraná Clube, de 1996 a 1997, anos em que o clube, sucessor de diversos outros, cuja origem foi o Ferroviário de Curitiba, sagrou-se campeão do Paraná. Foi um período em que as vitórias vinham com peso de muitas tensões, de quem tinha de avalizar, com patrimônio pessoal, salários de jogadores, funcionários e todas as transações financeiras do clube. O prazer, assim, tinha virado ônus e “contava os minutos para deixar o cargo”, diz.

Bacharel em Direito, pela Federal. (Arquivo)

Outra face notória é a do Ernani comunicador social, iniciado como narrador de futebol na equipe de Airton Cordeiro, na Rádio Clube Paranaense, em 1971. E que continuou numa sucessão de jornais, revistas, televisão. Hoje faz comentários de futebol, de segunda a sexta, na Rádio FM 91,3. Suas crônicas estão aqui em Idéias, já estiveram em muitos jornais e revistas, e na Getz Comunicação , dividida com o filho Marco. É o espaço a expor criatividade redobrada diante das tradicionais e das novas mídias, que não param de aportar, geradas pelo apetite tecnológico. Da agência são sócios também Adalberto Gonçalves, Lucia Venzella e Maurício Ramos.

É dono de itinerário em publicidade que o torna verbete definitivo da propaganda paranaense, com passagens pela Associados, de Arnaldo Del Monte; revisor da Editora Laudes, Rio [1972-73], LM Propaganda, SGB, dos Sirotski, com atuação em São Paulo, Rio e P. Alegre, e da qual, em menos de dois anos foi guindado a diretor de criação, aos 25 anos de idade; em sociedade com Hiram Pessoa; redator da Foco Propaganda; diretor também redator da P.A.Z., de Zeno José Otto; Múltipla Propaganda, trabalhando com Desidério Pansera, Dionísio Rodrigues e Gilberto Ricardos dos Santos; nessa Múltipla, um marco particular: redator ao lado de notáveis como Jamil Snege, Bira Menezes, César Marquesine.

O verbete Ernani Buchmann há de registrar sua passagem pela Exclam, de Hiram de Souza, na qual ficou por nove anos, e da qual depois se tornaria sócio, em 1982, com Antônio de Freitas e Rubens França. E tudo começou porque em pouco tempo criou e apresentou para um cliente exigente, a Volvo Internacional, uma campanha totalmente em inglês. E depois, outro traço biográfico precioso: criou com Antônio de Freitas a Master Comunicação.

Síntese sulista

Uma certeza ficará em quem se aproxima de Ernani e sua obra: está-se diante de uma boa síntese do homem do Sul, do curitibano em particular, dotado de contenção e senso de autocrítica às vezes exagerados. E não deixa dúvidas: ele está entre os que têm grande intimidade com a memória contemporânea de Curitiba, que decifra em seus contornos humanos e físicos irreplicáveis. Conhece os nomes e os sobrenomes de seu patriciado e os feitos dos personagens da cidade destes últimos 40 anos. Justamente o período em que a cidade, para o bem ou para o mal, perdeu o recato provinciano e tornou-se vertical, conquistou subúrbios e acolheu multidões que a mudaram. Para uns, foi quando se desfigurou; para outros, quando se modernizou.

Os heróis da Liberdade, O Ponta Perna de Pau,Onde me Doem os Ossos, Quando o Futebol Andava de Trem... (Arquivo)

De qualquer forma, ninguém como Ernani tem sabido cantar essa cidade. Tal como o fez no Onde me doem os ossos, livro indispensável [desculpas pelo chavão, mas é isso mesmo] para se entender a alma de Curitiba, os neurônios de sua gente, as vísceras de sua topografia humana e física, o DNA da outrora “aldeia sinistra” [como a apelidara o ator Baraúna de Araújo]. Trabalho enriquecido pelas ilustrações, capa e projeto gráfico do não suficientemente louvado Luiz Solda, com cuidados editoriais exemplares de Marcio Renato dos Santos.

Pois assim é Ernani, homem típico desse Sul que parece — lembrando expressão de João Paulo II sobre a cidade que o recebeu em 1980 — “uma radiosa manhã de pentecostes”: fala todas as línguas, constrói entendimentos, embora num aparente ensimesmar-se.

E como foi estruturado esse Ernani?

Do lado paterno, há os Buchmann, o trisavô alemão chegado ao Brasil em 1854, depois o bisavô Louis Buchmann, subindo a serra, instalando-se em Campo Alegre [SC] ao lado de São Bento, onde nasceu o avô Ernani, casado no melhor estilo folhetim, com direito a roubar a noiva, e fuga numa “tereza”.

O pai, Arino Buchmann, já morto, securitário, um expert em sua profissão, catarinense de Joinville. Foi mestre de Edmundo Lemanski, João Elísio Ferraz de Campos e Adolfo de Oliveira Franco Júnior, ao mudar-se com a família para Curitiba, no início dos anos 1960, para onde veio — com sólida reputação na área, adquirida na Companhia União do Comércio e Indústria, de Seguros Gerais, da qual era acionista.

Em Curitiba, Arino foi diretor da mais importante empresa de seguros paranaense daqueles tempos, a Comercial de Seguros, que entre outras empresas do ramo, adquiriria aquela catarinense de Joinville.

Falar de Ernani Buchmann escritor e comunicador, publicitário, jornalista, passa obrigatoriamente por dona Lucília [a dona Luli], a mãe, professora de inglês, ex-guia de turismo, mulher de apuradíssimo senso de humor. É uma aglutinadora, dizem os amigos da família. Sobretudo pela articulação verbal e escrita, boa amostra encontrada no livro Piadas Apimentadas. O título traduz um conteúdo de situações hilariantes. É apresentado pela artista plástica Do Carmo Fortes, amiga inseparável.

Ernani Buchmann nasceu em 1948, estudou na escola Germano Timm e depois no Colégio Bom Jesus [antiga Escola Alemã], em Joinville. Escolas que acabam ajudando a entender , na criança, que é o “pai do homem”, a formação do multifacetado Ernani. Em Curitiba passaria de 1960 a 1963 no Colégio Santa Maria. De 1964 a 1966, o Clássico é no Colégio Estadual do Paraná, numa turma que tinha Ernane Strobel, Edgard Távora Jr., Ruiy Cunha Sobrinho, Miguel Nassar, Vidal Vanhoni, Fernando Gama Filho, Heitor Valente, Henrique Gomm, Omar Camargo, entre outros. Gente com raízes numa uma elite cultural da época.

Futebol de resultados

Se ansiava deixar a Presidência do Paraná em 1997, Ernani era nela, no entanto, um sucesso como administrador esportivo: além de nos dois anos ganhar dois campeonatos estaduais de futebol, foi também um primoroso construtor. Entregou o cargo com a amplíssima sede central administrativa erguida até à cumeeira, cinco outras sedes, finanças em dia.

Reconhece que o futebol sempre teve poder mágico sobre si. Fascínio despertado aos três anos, quando o pai o presenteou com um exemplar da Manchete Esportiva, bíblia futebolística nacional da época, além de um uniforme do Fluminense, esse especialmente comprado no Rio.

Com Tânia, socióloga, pós graduada em Artes, fotógrafa, ao tomar posse na Academia de Letras. (Acervo de Família)

Seu Arino era devoto futebolista, fora diretor do América de Joinville e comentarista esportivo na cidade.

O melhor exemplo de identificação de Ernani com a pelota é o livro Quando o futebol andava de trem. É uma empreitada de talento, tempo, paciência de pesquisador e coordenação de uma azeitada equipe de apoio. Com esses ingredientes Ernani gera trabalho de feições historiográficas, cadenciado pelo texto jornalístico, mapeando a existência de dezenas de times nascidos ou com o nome de Ferroviário ou simplesmente criados por estímulos da categoria ferroviária em todo o Brasil. Autêntica arqueologia do futebol. É um documento de notável qualidade, ímpar na bibliografia do futebol brasileiro. Com direito a incursões profundas, com Ernani nos revelando que, antes de Charles Miller, Mr. Hugh e Mr. John [simplesmente assim] terem ao lado das ferrovias que implantavam, semeado peladas entre os operários. Foram, diz, os semeadores do soccer e é aos dois britânicos, cujo nome completo só Deus sabe, que dedicou o livro. Uma preciosidade, dedicando referências a realidades paralelas como as escolas de arte ofício criadas pelos ferroviários e ferrovias, tão importantes quanto os clubes ferroviários no fortalecimento educacional, profissionalismo e unidade laboral da categoria.

Na Getz, onde é parceiro na sociedade de criação publicitária. (Foto Diego Singh)

Um perna de pau

Kiko Gemael, companheiro de infância e adolescência divididas com Ernani no jardim Centenário, assina a apresentação de O Ponta Perna de Pau, livro de causos do futebol e do seu entorno. Recorda ter Ernani, ao se formar em Direito pela Universidade Federal do Paraná, entregue o diploma a dona Olga Gemael [mãe de Kiko], amiga da família, irmã de Airton Cordeiro. Livrava-se assim de “um fardo”, conquistado para atender ao pai e à mãe, já que a vocação era mesmo para letras, jornalismo e comunicação em geral.

E embora recorde com satisfação os tempos divididos com colegas de classe da UFPR hoje expoentes no Direito — como a desembargadora Regina Portes, Wilma Rezende, Antonio Fernando de Barros e Souza, o procurador geral da República — Ernani tem certeza de que escolheu o melhor para si. Embora, uma vez, tenha defendido um acusado de assassinato. Ganhou o único júri que fez.

Estante da biblioteca doméstica: livros ajudam a entender o homem. (Arquivo)

O apartamento duplex na Ecoville, dividido com a companheira absoluta, Tânia Ávila Buchmann, é o refúgio seguro, com biblioteca especializada em futebol e em meio aos troféus conquistados em outras duas paixões/obsessões: a caça [sempre teve licença para caçar faisões e javalis em área privadas] e o truco.

Ah, finalmente falamos do truco, de cuja cadeira número 02 da Academia Paranaense de Truco o escritor é o titular. “A número 01 foi de Guilhobel Camargo, inesquecível companheiro”, lembra.

Fala do jogo de cartas lembrando que ele às vezes é pintado como naif, por óticas snobs. Para avalizar a dimensão multicentenária do truco, recorda: o padre Vieira o identifica em sua obra, já no século XV, e nem Borges o ignorou, até o analisou num ensaio precioso. Tem peso cultural, histórico. Sem esquecer que Mário de Andrade o coloca no antológico Macunaíma.

Museu ao ar livre

De Tânia tem orgulho muito particular. Especialmente pela sensibilidade que demonstra em momentos como o livro de arte Estados Unidos de Cuba, que Ernani apresenta. Trata-se de ampla documentação fotográfica que ela fez daquele “museu de céu aberto” — como diz Ernani — que são as ruas de Havana. O livro capta em cores, com técnica e sensibilidade apuradas, o mundo de automóveis, marcas americanas dos anos 1940 e 1950. É uma sucessão de dodges, chevrolets, fords , frota histórica que leva as calçadas serem improvisadas em oficina mecânica. Tudo para dar sobrevida a carcaças e motores que, pela lógica, não poderiam mais trafegar. Mas que resistem ao tempo, dando cores de um mundo pós-Segunda Guerra.

Tânia forma a equipe de fotógrafas profissionais denominada Divinas Criaturas, com Charly Techio e Denise Bellani. Ela e suas companheiras ilustram o recém lançado A Camisa de Ouro, livro com que Ernani comemora o primeiro ano da sua Getz Comunicação. Nele disseca as participações do Brasil na Copa, desde 1930, com reprodução fotográfica de todas as camisas da seleção brasileira ao longo da história, outra preciosidade bibliográfica da arte/paixão brasileira chamada futebol.

Além do sócio Marcos, os outros dois filhos de Ernani são Fábio [tem o nome em homenagem ao padrinho, Fábio Campana] e Thaís, casada, mãe de Natália Buchmann de Almeida, moradora na Bahia. Jessica, de 15 anos, é filha de Tânia.

Para entender a alma curitibana, ler Ernani é essencial.
(Foto Diego Singh)

Trouxe Lula e FHC Ernani foi o responsável por reunir num espetáculo histórico Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Foi em 1979, dentro do projeto Parcerias Impossíveis, que ele comandava pela Fundação Cultural de Curitiba, da qual se tornara diretor “graças a complô de Fábio Campana e Nireu Teixeira”, assegura.

O prefeito era Jaime Lerner, e o Parcerias reunia habitualmente celebridades cuja obra e ação faziam contraponto. Assim foi o encontro do hoje presidente e do ex-presidente no Teatro Paiol [quiseram transferir o evento para espaço maior, o Guaíra, Jaime não deixou]. Lerner não se importou com os que vetavam a vinda de Lula, recorda Ernani. Pagou para ver.

Fim da noite histórica e alegre, em torno da mesa farta do Bar Palácio, com o metalúrgico e o scholar dividindo a comum oposição aos militares, recorda Ernani.

Tão bem foi o Parcerias Impossíveis que Lerner, ao contrário de outros programas, o manteve pelos quatro anos daquele mandato.

E marcou época, com nomes como Fernando Gabeira; Grande Otelo, Ziraldo, João Saldanha, Ademil da Fonseca, Paulinho Nogueira... A vocação de administrador cultural foi mais adiante: conseguiu implantar o projeto longamente trabalhado pelo arquiteto Rafael Dely, de restauração da Confeitaria Schaffer [parte da história de Curitiba, hoje abriga mais uma loja de confecções]. A Feira Nacional de Humor levou também a assinatura de Ernani, uma reunião de celebridades como Ziraldo, Zélio, Millor, em exposições e debates sobre humor e charges como fontes de expressão e crítica social.

De Ernani há muito mais a observar. Como o fato de que, sendo cidadão do mundo, é primeiramente curitibano, fala mesmo o “curitibês”, e promete para 2007 mais crônicas, com o livro Bogart Curitibano.

E dele são as palavras finais, que tomo como adequadíssimas para melhor retrata-lo, encontradas à página 36 de Onde me doem os ossos:

— Somos pessoas recatadas. Longe de nós o exibicionismo, o desfrute, as maneiras arreganhadas. Isso não nos transforma, porém, em matutos, seres rudimentares a primar pela ausência de neurônios no trato das questões fundamentais à sobrevivência do intelecto. Basta que saibam nos abordar, solicitando, em modos educados, que os levemos aos bem guardados segredos da velha civilização curitibana. Desconhecer isto é fatal para quem vá se dedicar a nos desvendar.

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