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IMAGO
Foi um piá como tantos outros de sua geração e de seu espaço geográfico, Irati, Sul do Paraná. A cidade foi o berço da grande família - ele e mais nove irmãos -, de classe socialmente privilegiada, resultado do trabalho do pai, farmacêutico universitário e múltiplo empreendedor comercial, e, depois, das folgas que o dinheiro dos Anciutti acabaria por propiciar. O lado italiano gerou particularmente as benesses materiais; o português, o dos Mattos Pessoa, a projeção cultural e social do velho Brasil. O menino, cedo apelidado de “Nêgo”, cresceu naquele mundo que sempre foi diferente, permeado de nomes eslavos, os dos pequenos agricultores poloneses, de famílias ucranianas e os nichos italianos. Para contrabalançar tantas influências étnicas, havia a presença mineira, fechada, reservada, austera, contida, representada pelos padres vicentinos [ou da Congregação da Missão], cujo seminário inicial — depois, no final dos anos 1940, transformado no Ginásio S. Vicente de Paula, antológico celeiro intelectual — fora construído na maior parte com doações dos avós ricos, João Baptista e dona Madalena Anciutti, pais de dona Matilde. Dona Matilde Anciutti Pessoa e João de Mattos Pessoa são os pais da criança que iria se tornar o homem Carlos Alberto Pessôa, o Nêgo, o controvertido jornalista, crítico social, escritor de temas futebolísticos, ranzinza, loquaz, excêntrico, cinzelado por preferências aristocráticas e gostos refinados. Personagem de Curitiba, conduz um espírito crítico que jamais entendeu o mundo fora da ótica dos valores da direita (ele assume a direita com equilíbrio, não racista, nada a lembrar Jean Marie Le Pen). Dele podem se queixar certos “leitores comuns”, considerando-o intelectualizado e de pensamento hermético. “Eu escrevo para bípedes”, devolve Pessôa, para quem “o bípede por excelência foi Roberto Campos”, cujos conselhos não foram até agora acatados, diz. Se o fossem — pensa —, teríamos um Brasil rico e um povo desenvolvido. Personagem de um dos livros de Dalton Trevisan, Pessôa é parte de uma multidão de resistentes curitibanos, parecido com os dominantes naquela Curitiba que o recebeu em 1959. “Sou multimídia” Aos 63 anos, Carlos Alberto Pessôa se considera hoje um profissional exemplar. Faz rádio, na Clube Paranaense e na Lumen, emissoras da PUC-PR; até meses atrás estava na RIC de Curitiba, opinando num telejornal, e ocupava também até dias atrás um valorizado espaço no caderno esportivo da Gazeta do Povo. E em breve estará de volta à televisão. “Sou um multimídia”, alegra-se. Passou por televisões, foi profissional de jornais como O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Mas também desprezou boas oportunidades que lhe foram abertas, como a de ser correspondente da revista Placar no início da revista e, depois, de trabalhar na redação do Jornal Nacional, no Rio, levado por Armando Nogueira. Mas não foi sempre exemplar, boa parte de sua mocidade foi vivida no otium. “Com dignidade”, ele observa sem constrangimentos. E só deixou o ócio naquele dia, no final dos anos 1960, quando o antológico cirurgião Mário de Abreu — parente distante — foi atendê-lo numa enfermidade. O médico foi curto e certeiro: “Você precisa trabalhar”, como quem diz que esse seria o melhor remédio para o intelectual que gastava noites e dias em tertúlias e discussões peripatéticas pela cidade. Tudo ampliado pela imersão no mundo dos livros. Do diálogo com Mário de Abreu vem a redefinição biográfica: começa a trabalhar... Assim o médico pode concluir a grande lição, ponto de partida para a redefinição biográfica de Pessoa: Coincidência: o conselho de Mário de Abreu atingiu-lhe em cheio quando o dinheiro da herança deixada pelo pai chegava ao fim.
Primeiros passos Chegou em Curitiba em 1959, para cursar o Científico (de 1959 a 1961) no Colégio Estadual, viveiro de talentos. Morou em pensão, na rua Dr. Muricy, no predinho onde funcionava o Restaurante Tulo, perto da praça Zacarias, depois de ter dividido apartamento no Edifício Augusta, na mesma rua (esquina com a rua XV), e do qual saiu porque o inquilino titular, Orlando Carline, Em 1963, com a morte do pai, inaugura-se para Carlos Alberto Pessoa o longo período de confortos e atenções no apartamento da mãe, a exemplar dona Matilde, que escolhera morar ali, na Travessa Frei Caneca, porque ficava ao lado da Igreja do Senhor Bom Jesus, facilitando-lhe as práticas católicas. — Mas Deus não me deu a graça da fé, explica Pessôa, com bom humor, parafraseando um dos seus escritores preferidos. Mas guarda — e respeita — boas lembranças de homens e mulheres de fé, personagens principais do cenário em que foi criado e indissociáveis na formação de sua fisionomia cultural. Homens como aqueles do Ginásio São Vicente de Paula: padres Rui, Motta, Lima, Nicolau, Marcello Carneiro (hoje em Curitiba), Chico, Vasconcellos (morte trágica, afogado no tanque gigante utilizado como piscina). Educadores tempo integral. Deles ficaram certezas: eram fortes na formação clássica, solidamente preparados pela escola do histórico Seminário do Caraça, de Minas Gerais, hoje abrigando um parque estadual de preservação ambiental. O Caraça que tem em sua história o registro de haver educado brasileiros ilustres, projetados na vida civil, como Juscelino Kubitscheck e José Maria Alckmin, entre tantos outros. Do papel que aqueles professores exerceram na formação de uma elite cultural do Sul do Paraná, há 50 anos, E da mesma forma como padre Rui, o vicentino, o “descobriu” como “promessa” literária, na terceira série do antigo ginásio, outro passageiro daquele universo iratiense, Fued Castro Chammas, poeta de ampla aceitação nacional, deixou suas marcas em Pessôa. “Ele abriu-me a cabeça para poesia, com ele descobri som e cor das palavras”, recorda Nêgo. Fued foi a primeira porta aberta para chegar a autores como Rimbaud e Cecília Meirelles, de saída.
O mundo Curitiba Ao fantástico da metrópole em esboço o garoto de Irati seria introduzido, no começo dos anos 1960, por alguns bons representantes da fauna humana da cidade, como Luiz Geraldo Mazza, Adherbal Fortes de Sá Junior, Vinicius Coelho (afinidades fortes com ele, como a torcida pelo Fluminense), Paulo Leminski, Lélio Sotto Maior e, depois, Fábio Campana. Instigante mundo do espírito e do co-gito, bem representado por outros tantos pesos pesados, como Walmor Marcelino, Aristides Vinholes, Luiz Roberto Soares... Dalton Trevisan... De Vinholes, um testemunho à parte: o livreiro marxista, ex-militar, era influência robusta na vida curitibana daqueles anos e dos seguintes; ele apontaria a Nêgo Pessôa a leitura dita pesada e essencial das teses políticas e econômicas, que o levaram a conhecer insubstituíveis pensadores e suas obras. Vinholes não fazia o gênero guru dos mantras ou dos “catecismos” de tarjas vermelhas. Era o que indica e explica caminhos: “Ele me ajudou a conhecer Proust, cuja Descoberta do Tempo Perdido li inteira, sete volumes”. Em tom sério, Pessôa arrisca: “Aposto que sou o único que leu e decodificou aquela obra de Proust por inteiro, no Brasil...”. Essa outra face de Curitiba, não mais a estudantil, compreendia dividir o tempo na descoberta de personagens da cidade, como Jamil Snege, que primeiro Pessôa admirava à distância, “namoro intelectual”, cuja aproximação com lançamento de livro do Turco na então galeria da moda, no final da década de 1960, a Toca. “Eram dias em que eu e Fábio Campana amávamos platonicamente a mesma mulher, que amava, de fato, o Jamil”, recorda Pessoa. Ainda sobre sua introdução à cidade, não esquece o Colégio Estadual. Avalia que de lá surgiram os sólidos estímulos à leitura e ao trabalhar o texto. A vivência com mestres inesquecíveis repetiu e ampliou os efeito da “escola de Irati”. Pessoa cita entre tais influências o professor Miguel Wouk, rigoroso, carrancudo, gerando medos e sendo respeitado pelos alunos; Wouk, que na verdade era uma pessoa doce, mas de cara amarrada, o incentivou a escrever: “Você escreve bem”, foi elogio único, limitado e eloqüente, dado na turma de 40 alunos. Naquele cenário tinha sido compelido a estudar e a ter método, com outros notáveis, como os professores Germano Paciornick, Alcione Veloso, Isolde, Vítola, Rosala Garzuze. Conjunto de massa crítica que não mais se encontra em escola pública. Raridade mesmo nas escolas privadas de salgadas mensalidades. Wouk, lingüista, catedrático da UFPR, foi o iniciador do primeiro Atlas Lingüístico do Paraná. Dalton, Leminski, etc. O envolvimento com Dalton, Jamil Snege e Fábio Campana seria uma espécie de coroamento, sinal de que fora admitido na confraria de uma inteligentsia muito peculiar, a dos curitibanos de idéias, tivessem ou não nascido na cidade (caso dele e de Campana, natural de Foz do Iguaçu). Os delatores acabaram, pois, vítimas de suas próprias infidelidades fraternas... Pessôa ri ao lembrar que, à medida que supostos territórios secretos de outros muitos personagens curitibanos eram revelados ao contista — num trabalho de sucção psicológica —, Dalton os premiava. “Às vezes, nos gratificava com lanches na falecida Schaffer, outras, na também desaparecida Confeitaria Iguaçu”, garante Pessôa. Campana nega as retribuições em forma de guloseimas: “O Dalton? Ele não faria isso”, como que garantindo ser o escritor um comovente mão fechada. As andanças com Dalton, noite adentro, e as confissões sussurradas em mesas de confeitarias, adubando o imaginário do contista, geraram projetos. Como aqueles de Pessôa com Fábio, na Apolo Cinematográfica (produziam cinejornais). Projetaram fazer cinema, desenvolvendo o roteiro do conto A noite da paixão, de Dalton, que jamais passou de esboço. Assim como quiseram passar para a tela O Vampiro de Curitiba, que também ficou distante do celulóide. De Paulo Leminski nunca foi amigo próximo, e não faz atalhos: “O Catatau é ilegível, carrega invenções que são monstros verbais, fusões de palavras. E a poesia, que é aquilo Rio é o mar, Curitiba é bar?”. Sobre os haicais de Leminski: “Essa coisa engessada em língua ocidental é haicai?”. De companheiros essenciais há Luiz Roberto Soares, sulista como ele, natural de União da Vitória, devorador de livros, atleta do espírito. Por ele Nêgo foi introduzido à obra do sociólogo Guerreiro Ramos. No momento, estão “meio distantes”, assim como Pessôa esteve por meses distante do velho amigo Campana, com quem recentemente restabeleceu o convívio e também a dissecação nunca piedosa da alma da cidade e de seus personagens. “Ninguém lhes escapa, exceção dos que estiverem por perto”, garante um jornalista que com Pessôa e Campana convive há pelo menos 35 anos, e que também alega “já ter sido alvo” — ou vítima — de seus dardos e setas venenosos... “Sobrevivi”. O jornalista e publicitário Almir Feijó, no seu livro Descríticas, faz um amplo apanhado crítico da filmografia mundial. Ao analisar A Morte passou por perto, de Kubrick, cita Pessôa. Para ele, Carlos Alberto Pessôa é uma espécie de três mosqueteiros num só: texto irônico, clássico, consegue ser bem humorado, é crítico sagaz, tem carga cultural raríssima. O publicitário da RBA Propaganda não titubeia: “É dono de um dos melhores textos do Paraná, resultado de sua formação, que comporta muita leitura e reflexão, gosto pela música popular e clássica, teatro...”.
Os livros e gente da bola Ele é garantia de sucesso de qualquer reunião em que a inteligência seja a peça de resistência. Seria uma espécie de encantador de salões? Sustenta-se na lógica e na graça. Especialmente se os campos abordados envolverem o ser humano e seu locus, e o calcio, o futebol, como assim o chamam os tetracampeões italianos. Foi com uma pesquisa sobre a palavra calcio que Pessoa começou a escrever para a imprensa. Era 1966, o pedido de Cícero do Amaral Cattani exigia uma história completa do futebol e suas raízes, para a revista Panorama. O resultado foi um texto alegre, com a presença até dos mitos Adão e Eva. Como escritor, Pessôa concentrou-se na publicação de obras sobre o esporte-arte: sobre seu ídolo maior, Adolfo [Russo] Milmann, craque do Fluminense de 1934 a 1944, depois supervisor da Seleção Brasileira, escreveu O Sábio de Chuteiras, cujo título é contribuição de Evandro Barreto. Em 1970, com Walmor Marcelino, lançou A Copa e a Crise do Futebol Brasileiro; em 1994, a reunião de crônicas escritas na Gazeta do Povo ganhou o título De Letra, edição da Travessa dos Editores. O presente e o futuro do futebol no Estado estariam focados basicamente no Atlético e no Coritiba, por suas torcidas, pelo número de vitórias, por serem celeiros de talentos, admite Pessôa. Futebol no Brasil é “uma bênção”, pensa Nêgo, que credita à natureza dadivosa, miscigenação racial, à variada cultura brasileira sermos esse berço de craques. Garante que a classe média ingressou de corpo e alma no futebol e encaminha seus filhos para a carreira que até agora tem sido predominantemente de mulatos e negros pobres, “a boa média do Brasil”. Zico, Kaká, Sócrates, Tostão, Falcão seriam exemplos desse envolvimento da classe média com a bola, incentivando seus filhos a adotarem profissão “de homem e rendosa”.
“Orgulho-me dos livros que li...” Nunca influenciou o filho Alexandre, que escolheu a profissão de professor de Educação Física. Assim como nunca cogitou seguir os passos de tios notáveis, como o pediatra-símbolo de gerações de curitibanos, Plínio de Mattos Pessôa; ou Miguel, desembargador; Luis, engenheiro; Sara, educadora. Projeto liberal Acompanhou muitos eventos em que Carlos Lacerda era o astro. Nêgo não esconde ter todas as identificações com os velhos udenistas, nem as frustrações com Jânio Quadros e Collor. Este, recorda, tinha até assumido o projeto de Roberto Campos para governar (desestatizar, descentralizar, desburocratizar, e a abertura da economia). Também não mantém ilusões sobre Fernando Henrique Cardoso: “O projeto liberal de FHC é sacanagem”. Não titubeia em dizer que os tucanos deixaram “tudo no meio do caminho: aumentaram a carga tributária de 24% para 36% do PIB, com o agravante que a dívida continuou a crescer”. Hoje, então, “é uma loucura”, com a dívida chegando a 40% do PIB, o Estado sem poder investir. Remédios à vista? Mais liberalismo, mais democracia, reformas profundas, mais capitalismo — aponta as fórmulas. Ave rara no País, mais raro ainda é nos domínios de sua grande paixão, o futebol. Acha que tem que continuar catequético, chamando a atenção para modelos de países que deram certo, como os Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, os asiáticos. “Os que não deram certos foram Cuba, Bolívia, Venezuela”, aponta. E sem medo de estar cometendo alguma heresia conceitual opina que “boa polícia é melhor que professor”. Declaração que soa premonitória, feita dias antes de o PCC ter feito São Paulo refém do crime organizado. |
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