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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e
DEZEMBRO DE 2006

IMAGO
CARLOS ALBERTO PESSÔA
O que escreve “para bípedes”

Por Aroldo Murá G. Haygert


Carlos Alberto; o "Nêgo Pessoa" (Foto: Lina Faria)

Foi um piá como tantos outros de sua geração e de seu espaço geográfico, Irati, Sul do Paraná. A cidade foi o berço da grande família - ele e mais nove irmãos -, de classe socialmente privilegiada, resultado do trabalho do pai, farmacêutico universitário e múltiplo empreendedor comercial, e, depois, das folgas que o dinheiro dos Anciutti acabaria por propiciar. O lado italiano gerou particularmente as benesses materiais; o português, o dos Mattos Pessoa, a projeção cultural e social do velho Brasil.

O menino, cedo apelidado de “Nêgo”, cresceu naquele mundo que sempre foi diferente, permeado de nomes eslavos, os dos pequenos agricultores poloneses, de famílias ucranianas e os nichos italianos. Para contrabalançar tantas influências étnicas, havia a presença mineira, fechada, reservada, austera, contida, representada pelos padres vicentinos [ou da Congregação da Missão], cujo seminário inicial — depois, no final dos anos 1940, transformado no Ginásio S. Vicente de Paula, antológico celeiro intelectual — fora construído na maior parte com doações dos avós ricos, João Baptista e dona Madalena Anciutti, pais de dona Matilde. Dona Matilde Anciutti Pessoa e João de Mattos Pessoa são os pais da criança que iria se tornar o homem Carlos Alberto Pessôa, o Nêgo, o controvertido jornalista, crítico social, escritor de temas futebolísticos, ranzinza, loquaz, excêntrico, cinzelado por preferências aristocráticas e gostos refinados.

Personagem de Curitiba, conduz um espírito crítico que jamais entendeu o mundo fora da ótica dos valores da direita (ele assume a direita com equilíbrio, não racista, nada a lembrar Jean Marie Le Pen). Dele podem se queixar certos “leitores comuns”, considerando-o intelectualizado e de pensamento hermético. “Eu escrevo para bípedes”, devolve Pessôa, para quem “o bípede por excelência foi Roberto Campos”, cujos conselhos não foram até agora acatados, diz. Se o fossem — pensa —, teríamos um Brasil rico e um povo desenvolvido.

Personagem de um dos livros de Dalton Trevisan, Pessôa é parte de uma multidão de resistentes curitibanos, parecido com os dominantes naquela Curitiba que o recebeu em 1959.
Um produtor de idéias, Pessôa não se peja em dizer que entre a egalité e a liberté ficará sempre com a liberdade. Uma escolha à droite, acredita.

“Sou multimídia” Aos 63 anos, Carlos Alberto Pessôa se considera hoje um profissional exemplar. Faz rádio, na Clube Paranaense e na Lumen, emissoras da PUC-PR; até meses atrás estava na RIC de Curitiba, opinando num telejornal, e ocupava também até dias atrás um valorizado espaço no caderno esportivo da Gazeta do Povo. E em breve estará de volta à televisão.

“Sou um multimídia”, alegra-se. Passou por televisões, foi profissional de jornais como O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Mas também desprezou boas oportunidades que lhe foram abertas, como a de ser correspondente da revista Placar no início da revista e, depois, de trabalhar na redação do Jornal Nacional, no Rio, levado por Armando Nogueira.

Mas não foi sempre exemplar, boa parte de sua mocidade foi vivida no otium. “Com dignidade”, ele observa sem constrangimentos. E só deixou o ócio naquele dia, no final dos anos 1960, quando o antológico cirurgião Mário de Abreu — parente distante — foi atendê-lo numa enfermidade. O médico foi curto e certeiro: “Você precisa trabalhar”, como quem diz que esse seria o melhor remédio para o intelectual que gastava noites e dias em tertúlias e discussões peripatéticas pela cidade. Tudo ampliado pela imersão no mundo dos livros.

Do diálogo com Mário de Abreu vem a redefinição biográfica: começa a trabalhar...
— Mas eu não preciso trabalhar, tenho dinheiro, retrucou Nêgo a Abreu.

Assim o médico pode concluir a grande lição, ponto de partida para a redefinição biográfica de Pessoa:
— E você acha que eu preciso...?

Coincidência: o conselho de Mário de Abreu atingiu-lhe em cheio quando o dinheiro da herança deixada pelo pai chegava ao fim.


Dona Matilde, com José Carlos (Jeca)
e Carlos Alberto, dois dos dez filhos

Primeiros passos Chegou em Curitiba em 1959, para cursar o Científico (de 1959 a 1961) no Colégio Estadual, viveiro de talentos. Morou em pensão, na rua Dr. Muricy, no predinho onde funcionava o Restaurante Tulo, perto da praça Zacarias, depois de ter dividido apartamento no Edifício Augusta, na mesma rua (esquina com a rua XV), e do qual saiu porque o inquilino titular, Orlando Carline,
fora despejado.

Em 1963, com a morte do pai, inaugura-se para Carlos Alberto Pessoa o longo período de confortos e atenções no apartamento da mãe, a exemplar dona Matilde, que escolhera morar ali, na Travessa Frei Caneca, porque ficava ao lado da Igreja do Senhor Bom Jesus, facilitando-lhe as práticas católicas.

— Mas Deus não me deu a graça da fé, explica Pessôa, com bom humor, parafraseando um dos seus escritores preferidos. Mas guarda — e respeita — boas lembranças de homens e mulheres de fé, personagens principais do cenário em que foi criado e indissociáveis na formação de sua fisionomia cultural. Homens como aqueles do Ginásio São Vicente de Paula: padres Rui, Motta, Lima, Nicolau, Marcello Carneiro (hoje em Curitiba), Chico, Vasconcellos (morte trágica, afogado no tanque gigante utilizado como piscina). Educadores tempo integral. Deles ficaram certezas: eram fortes na formação clássica, solidamente preparados pela escola do histórico Seminário do Caraça, de Minas Gerais, hoje abrigando um parque estadual de preservação ambiental. O Caraça que tem em sua história o registro de haver educado brasileiros ilustres, projetados na vida civil, como Juscelino Kubitscheck e José Maria Alckmin, entre tantos outros.

Do papel que aqueles professores exerceram na formação de uma elite cultural do Sul do Paraná, há 50 anos,
José Maria Orreda se ocupou, escrevendo um livro que faz justiça àqueles missionários da educação, cuja base pedagógica era francesa, fincada no Brasil por seus irmãos de batina da Congregação da Missão (ou vicentinos, também chamados de lazaristas) no século XIX. Os lazaristas de início se dedicavam mais à formação nos seminários, como o São José, de Curitiba. Ainda de Orreda: trata-se de admiração muito particular de Carlos Alberto Pessôa, que o aponta como um desses tantos talentos que o interior de um Estado de muitas faces — como o Paraná — acaba minimizando. Orreda, que foi membro do Conselho Estadual de Cultura, é o historiador do espaço Irati, intelectual. Dele Pessôa ouviu sugestões de leituras, introduzindo-o a autores essenciais.

E da mesma forma como padre Rui, o vicentino, o “descobriu” como “promessa” literária, na terceira série do antigo ginásio, outro passageiro daquele universo iratiense, Fued Castro Chammas, poeta de ampla aceitação nacional, deixou suas marcas em Pessôa. “Ele abriu-me a cabeça para poesia, com ele descobri som e cor das palavras”, recorda Nêgo. Fued foi a primeira porta aberta para chegar a autores como Rimbaud e Cecília Meirelles, de saída.


Na casa de Fábio Campana (D),ao lado de Jamil Snege;
na ponta Aroldo Murá Haygert. Grandes amigos

O mundo Curitiba Ao fantástico da metrópole em esboço o garoto de Irati seria introduzido, no começo dos anos 1960, por alguns bons representantes da fauna humana da cidade, como Luiz Geraldo Mazza, Adherbal Fortes de Sá Junior, Vinicius Coelho (afinidades fortes com ele, como a torcida pelo Fluminense), Paulo Leminski, Lélio Sotto Maior e, depois, Fábio Campana.

Instigante mundo do espírito e do co-gito, bem representado por outros tantos pesos pesados, como Walmor Marcelino, Aristides Vinholes, Luiz Roberto Soares... Dalton Trevisan... De Vinholes, um testemunho à parte: o livreiro marxista, ex-militar, era influência robusta na vida curitibana daqueles anos e dos seguintes; ele apontaria a Nêgo Pessôa a leitura dita pesada e essencial das teses políticas e econômicas, que o levaram a conhecer insubstituíveis pensadores e suas obras.

Vinholes não fazia o gênero guru dos mantras ou dos “catecismos” de tarjas vermelhas. Era o que indica e explica caminhos: “Ele me ajudou a conhecer Proust, cuja Descoberta do Tempo Perdido li inteira, sete volumes”.

Em tom sério, Pessôa arrisca: “Aposto que sou o único que leu e decodificou aquela obra de Proust por inteiro, no Brasil...”. Essa outra face de Curitiba, não mais a estudantil, compreendia dividir o tempo na descoberta de personagens da cidade, como Jamil Snege, que primeiro Pessôa admirava à distância, “namoro intelectual”, cuja aproximação com lançamento de livro do Turco na então galeria da moda, no final da década de 1960, a Toca. “Eram dias em que eu e Fábio Campana amávamos platonicamente a mesma mulher, que amava, de fato, o Jamil”, recorda Pessoa.

Ainda sobre sua introdução à cidade, não esquece o Colégio Estadual. Avalia que de lá surgiram os sólidos estímulos à leitura e ao trabalhar o texto. A vivência com mestres inesquecíveis repetiu e ampliou os efeito da “escola de Irati”. Pessoa cita entre tais influências o professor Miguel Wouk, rigoroso, carrancudo, gerando medos e sendo respeitado pelos alunos; Wouk, que na verdade era uma pessoa doce, mas de cara amarrada, o incentivou a escrever: “Você escreve bem”, foi elogio único, limitado e eloqüente, dado na turma de 40 alunos. Naquele cenário tinha sido compelido a estudar e a ter método, com outros notáveis, como os professores Germano Paciornick, Alcione Veloso, Isolde, Vítola, Rosala Garzuze. Conjunto de massa crítica que não mais se encontra em escola pública. Raridade mesmo nas escolas privadas de salgadas mensalidades.

Wouk, lingüista, catedrático da UFPR, foi o iniciador do primeiro Atlas Lingüístico do Paraná.

Dalton, Leminski, etc. O envolvimento com Dalton, Jamil Snege e Fábio Campana seria uma espécie de coroamento, sinal de que fora admitido na confraria de uma inteligentsia muito peculiar, a dos curitibanos de idéias, tivessem ou não nascido na cidade (caso dele e de Campana, natural de Foz do Iguaçu).
Sobre Dalton Trevisan, Nego aponta o escritor como “um clássico, insuperável”.
O relacionamento do trio com Trevisan correu fácil, no começo dos anos 1970; amigável, talvez. Até que os três começaram a ser identificados como personagens em contos de um dos livros mais conhecidos do contista: O Pássaro de Cinco Asas.
E tudo teria começado, diz Pessôa, com eles alimentando o contista com histórias que depois iriam compor o rico universo de mistérios curitibanos de Dalton. E como parte das mútuas traições, cada um, em particular com o escritor, segredava-lhe supostas mazelas não visíveis a olho nu da personalidade de cada amigo do trio. Assim, teriam alimentado o conteúdo essencial dos contos de Os Pássaros..., situado entre o risível e o demolidor.

Os delatores acabaram, pois, vítimas de suas próprias infidelidades fraternas...

Pessôa ri ao lembrar que, à medida que supostos territórios secretos de outros muitos personagens curitibanos eram revelados ao contista — num trabalho de sucção psicológica —, Dalton os premiava. “Às vezes, nos gratificava com lanches na falecida Schaffer, outras, na também desaparecida Confeitaria Iguaçu”, garante Pessôa. Campana nega as retribuições em forma de guloseimas: “O Dalton? Ele não faria isso”, como que garantindo ser o escritor um comovente mão fechada.

As andanças com Dalton, noite adentro, e as confissões sussurradas em mesas de confeitarias, adubando o imaginário do contista, geraram projetos. Como aqueles de Pessôa com Fábio, na Apolo Cinematográfica (produziam cinejornais). Projetaram fazer cinema, desenvolvendo o roteiro do conto A noite da paixão, de Dalton, que jamais passou de esboço. Assim como quiseram passar para a tela O Vampiro de Curitiba, que também ficou distante do celulóide.
Com certa satisfação, Nêgo revela que Dalton certa vez perguntou-lhe, em tom de confidência: “Alguém ainda lê Homero? Estou me inspirando em situações descritas por ele...”. Uma revelação que pode ser entendida como “troco” por não ter Dalton poupado o nome santo de dona Matilde, no conto com que Nêgo foi contemplado, em O Pássaro de cinco asas.

De Paulo Leminski nunca foi amigo próximo, e não faz atalhos: “O Catatau é ilegível, carrega invenções que são monstros verbais, fusões de palavras. E a poesia, que é aquilo Rio é o mar, Curitiba é bar?”. Sobre os haicais de Leminski: “Essa coisa engessada em língua ocidental é haicai?”.

De companheiros essenciais há Luiz Roberto Soares, sulista como ele, natural de União da Vitória, devorador de livros, atleta do espírito. Por ele Nêgo foi introduzido à obra do sociólogo Guerreiro Ramos. No momento, estão “meio distantes”, assim como Pessôa esteve por meses distante do velho amigo Campana, com quem recentemente restabeleceu o convívio e também a dissecação nunca piedosa da alma da cidade e de seus personagens.

“Ninguém lhes escapa, exceção dos que estiverem por perto”, garante um jornalista que com Pessôa e Campana convive há pelo menos 35 anos, e que também alega “já ter sido alvo” — ou vítima — de seus dardos e setas venenosos... “Sobrevivi”.

O jornalista e publicitário Almir Feijó, no seu livro Descríticas, faz um amplo apanhado crítico da filmografia mundial. Ao analisar A Morte passou por perto, de Kubrick, cita Pessôa. Para ele, Carlos Alberto Pessôa é uma espécie de três mosqueteiros num só: texto irônico, clássico, consegue ser bem humorado, é crítico sagaz, tem carga cultural raríssima.

O publicitário da RBA Propaganda não titubeia: “É dono de um dos melhores textos do Paraná, resultado de sua formação, que comporta muita leitura e reflexão, gosto pela música popular e clássica, teatro...”.


Com Alexandre, o filho, que hoje tem 27 anos

Os livros e gente da bola Ele é garantia de sucesso de qualquer reunião em que a inteligência seja a peça de resistência. Seria uma espécie de encantador de salões? Sustenta-se na lógica e na graça. Especialmente se os campos abordados envolverem o ser humano e seu locus, e o calcio, o futebol, como assim o chamam os tetracampeões italianos.

Foi com uma pesquisa sobre a palavra calcio que Pessoa começou a escrever para a imprensa. Era 1966, o pedido de Cícero do Amaral Cattani exigia uma história completa do futebol e suas raízes, para a revista Panorama. O resultado foi um texto alegre, com a presença até dos mitos Adão e Eva.

Como escritor, Pessôa concentrou-se na publicação de obras sobre o esporte-arte: sobre seu ídolo maior, Adolfo [Russo] Milmann, craque do Fluminense de 1934 a 1944, depois supervisor da Seleção Brasileira, escreveu O Sábio de Chuteiras, cujo título é contribuição de Evandro Barreto.

Em 1970, com Walmor Marcelino, lançou A Copa e a Crise do Futebol Brasileiro; em 1994, a reunião de crônicas escritas na Gazeta do Povo ganhou o título De Letra, edição da Travessa dos Editores.
Foi processado por Mário Celso Petraglia, certa vez. Até por isso, sente-se à vontade para apontar o dirigente do Atlético como personagem sem paralelo entre os cartolas do Paraná. “Ele transformou o Atlético na realidade de hoje, com a Arena, o mais moderno estádio do Brasil e o clube só acumulou títulos, inclusive o brasileiro”, afirma, em tom apaixonado.

O presente e o futuro do futebol no Estado estariam focados basicamente no Atlético e no Coritiba, por suas torcidas, pelo número de vitórias, por serem celeiros de talentos, admite Pessôa.
Se parece incondicional admirador do Atlético, nada o estimula a admitir haja a exposição no país de futuras gerações de craques. Acha que aqui não ficarão novos astros, enquanto o Brasil não crescer a taxas como as experimentadas até 1982, de 7% ao ano. O destino, então, será sempre a Europa, cobrindo as propostas financeiras. Culpa, diz sempre, da social democracia subdesenvolvida no ar desde o governo Collor, embora reconhecendo que “Collor chegou a ter um ministério de primeira, com Hélio Jaguaribe, Celso Lafer e Marcílio Marques Moreira”.

Futebol no Brasil é “uma bênção”, pensa Nêgo, que credita à natureza dadivosa, miscigenação racial, à variada cultura brasileira sermos esse berço de craques. Garante que a classe média ingressou de corpo e alma no futebol e encaminha seus filhos para a carreira que até agora tem sido predominantemente de mulatos e negros pobres, “a boa média do Brasil”. Zico, Kaká, Sócrates, Tostão, Falcão seriam exemplos desse envolvimento da classe média com a bola, incentivando seus filhos a adotarem profissão “de homem e rendosa”.


Os Pessôa, na remodelação da Farmácia Pessôa,
em 1950. Nêgo está ao lado de Jeca e do padre Lima

“Orgulho-me dos livros que li...” Nunca influenciou o filho Alexandre, que escolheu a profissão de professor de Educação Física. Assim como nunca cogitou seguir os passos de tios notáveis, como o pediatra-símbolo de gerações de curitibanos, Plínio de Mattos Pessôa; ou Miguel, desembargador; Luis, engenheiro; Sara, educadora.
Orgulha-se dos livros que leu, de autores ilustres desconhecidos para a maioria absoluta dos letrados, mas que compõem seu universo de íntimos. Nomes como o de Otto Maria Carpeaux, o austríaco que escolheu o Brasil da II Guerra Mundial, autor da História da Literatura Universal, cuja primeira edição foi “mastigada” por Pessôa; os liberais modernos — Raymond Aron, crítico do grande fracasso da engenharia social; os austríacos Misse e Hayeck, “que desmontaram as pretensões das esquerdas e mostram a pureza do regime de mercado. Mercado que não é invenção de intelectuais, é como a linguagem com suas imperfeições”; Karl Popper, que “mostra a incongruência lógica dos historicismos de planejamento”.

Projeto liberal Acompanhou muitos eventos em que Carlos Lacerda era o astro. Nêgo não esconde ter todas as identificações com os velhos udenistas, nem as frustrações com Jânio Quadros e Collor. Este, recorda, tinha até assumido o projeto de Roberto Campos para governar (desestatizar, descentralizar, desburocratizar, e a abertura da economia).

Também não mantém ilusões sobre Fernando Henrique Cardoso: “O projeto liberal de FHC é sacanagem”. Não titubeia em dizer que os tucanos deixaram “tudo no meio do caminho: aumentaram a carga tributária de 24% para 36% do PIB, com o agravante que a dívida continuou a crescer”. Hoje, então, “é uma loucura”, com a dívida chegando a 40% do PIB, o Estado sem poder investir. Remédios à vista? Mais liberalismo, mais democracia, reformas profundas, mais capitalismo — aponta as fórmulas.

Ave rara no País, mais raro ainda é nos domínios de sua grande paixão, o futebol. Acha que tem que continuar catequético, chamando a atenção para modelos de países que deram certo, como os Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, os asiáticos. “Os que não deram certos foram Cuba, Bolívia, Venezuela”, aponta.
Soluções para o Brasil são simples, não simplistas, admite. Mas devem obrigatoriamente definir como primeira tarefa do Estado “a segurança pública e justiça”, pois a educação deveria concentrar-se numa primeira etapa mais no seio das famílias, opina.

E sem medo de estar cometendo alguma heresia conceitual opina que “boa polícia é melhor que professor”. Declaração que soa premonitória, feita dias antes de o PCC ter feito São Paulo refém do crime organizado.

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