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Aroldo Murá G. Haygert
jornalista

C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e
NOVEMBRO DE 2008

IMAGO
JORGE SAMEK
Senhor da Energia, dileto de Lula


Aroldo Murá G. Haygert


Jorge Samek

Tudo começou em 1919, quando o avô Miguel Samek, vindo de Gdanski, Polônia, a terra do Sindicato Solidariedade, mudou-se para Colatina, Espírito Santo, e ali ficou até ter o interesse despertado para o Paraná. O nosso clima ajudou a embalar a mudança. Em 1930, chegou a Foz do Iguaçu, onde se fixou na agricultura.

O outro avô, Jorge Lacki, também polonês, foi passar lua- de- mel em 1925 em Buenos Aires e acabou aceitando sugestão de amigos para conhecer os núcleos poloneses do Brasil. Resultado: mudou-se também para Foz, e logo estaria trabalhando em sua profissão de engenheiro, em serviços de topografia naquelas áreas imensas, férteis, promissoras,virgens.

Anos depois, nasceria o ramo Lacki-Samek, com o casamento dos filhos João Samek – morto há dois anos – e Cristina Lacki. E do ramo vieram os filhos Jorge, João e Marcos, todos nascidos em Foz.
Os ancestrais adotaram sem limites a nova pátria. E Jorge, a segunda geração Lacki-Samek, apenas “arranha” o polonês. É uma perda cultural significativa, mas bem demonstra a imersão da família, a partir do exemplo dos avós, na realidade brasileira.

“Ele parece, às vezes, um caboclo loiro”, define um velho colega da república em que Samek dividiu quarto com o irmão João, na Ubaldino do Amaral com Marechal Deodoro, em Curitiba, a partir de 1974. Foi quando se mudou para a Capital para cursar Agronomia, na Universidade Federal do Paraná, formando-se em 1978.

Hoje Jorge Samek, 53 anos, o paranaense de maior acústica junto ao presidente Lula, e diretor-geral da Binacional Itaipu, é o poderoso ordenador de um orçamento que anda pelos US$ 3,2 bilhões/ano, e pelo fornecimento de mais de 20% de toda a energia elétrica que serve o Brasil e 90% do Paraguai. Exerce enorme influência direta em 29 municípios do Paraná, na região da Bacia do Paraná III.
Só de royalties anuais, ela libera US$ 400 milhões.

“É o senhor das águas”, diz um ex-prefeito da região, abrigado em partido de oposição ao PT, para em seguida se corrigir: “Na verdade, Samek é hoje o gestor de grande parte de energia que movimenta o Brasil”.

Em 1978, a montagem do modelo agropecuário “Mas ele”, testemunham velhos conhecidos, como o radialista curitibano J.Agostinho, “continua o mesmo entusiasmado engenheiro agrônomo que conheci em 1980”. Tempos em que Samek foi dos responsáveis pela exaustiva concepção das diretrizes oferecidas ao MDB de Ulysses Guimarães e José Richa para a agropecuária e meio ambiente do país. Foi parte essencial na concepção das linhas mestras do MDB para a vida nacional, ao lado de Claus Germer, Cícero Bley, Paulo Furiatti, Nelton Friedrich, Antenor Bomfim, Osmar Dias, Luiz Felipe Haji Mussi, e o tio Poland Lacki – um engenheiro agrônomo que teve expressão continental e que atuou pela FAO no Caribe, além de ter dirigido a Emater e sua similar do Piauí –, dentre outros.

As reuniões do grupo das diretrizes eram na Avenida Cândido de Abreu, “a 150 metros do Palácio Iguaçu”, lembra Samek. Distância que provocava freqüentes brincadeiras do grupo: “já estamos perto do palácio”. Brincadeiras precognitivas.

Na verdade, o longo debate principiara antes, na sede da Associação de Engenheiros Agrônomos do Paraná, no décimo segundo andar do Edifício Asa, em Curitiba.

O texto final – propostas que seriam materializadas no Governo Richa – indicava um programa de governo que alterasse o modelo agrícola vigente, estabelecesse uma política de segurança alimentar e a preservação do meio ambiente,com nova visão de como conservar o solo. Foi quando, pela vez primeira, Samek colocou a cabeça para fora no mundo da política extra-universidade, impulsionado por raios de luz nos debates, em meio à ditadura, pelo final dos anos 70. Tempos de um ainda tímido alvorecer na vida nacional, com as algumas manifestações de massa, a volta dos exilados, os grandes diálogos universitários e políticos. Sinais importantes de uma redemocratização que se consumou só em 1985.

Passou pela Secretaria de Agricultura no Governo Ney Braga, (Reinhold Stephanes era o secretário), em 1980, trabalhando na fiscalização da defesa vegetal.

Jorge Samek


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Chefe de gabinete, secretário, vereador...

Com a vitória de Richa, em 1983 assumiu, aos 27 anos, a chefia de gabinete de Claus Germer na Secretaria de Agricultura. Tempos do avançadíssimo programa Paraná Rural, de que o hoje senador Osmar Dias e Claus Germer foram dois dos pilares mais notórios.
Em 1985, Roberto Requião foi eleito à Prefeitura, Samek virou secretário Municipal de Abastecimento. Promoveu grande mudança, de 180 graus, no sistema de produção e abastecimento na Região Metropolitana de Curitiba, a partir de seu chamado cinturão verde. Criaram-se hortas comunitárias, em dezenas de alqueires cedidos aos pequenos produtores, assim como outras ações de apoio aos pequenos ruralistas. Dos mais notáveis foram os programas de comercialização beneficiando a população das periferias. Criaram-se os mercadões populares – redes de abastecimento de hortifrúti, nos bairros, com produtos de qualidade e ótimo preço. Eliminava-se o intermediário: os verdes iam da horta para as mesas. E concebiam-se outros e definitivos programas, como as feiras noturnas, os armazéns da família, as compras diretas dos produtores, etc. Era o fim da intermediação que encarece os hortifrúti .
“Fiquei popular”, resume Samek, direto, apontando o resultado pessoal do trabalho criativo.

Em conseqüência dos bons resultados que conseguiu, Requião o quis vereador em Curitiba. Elegeu-se pela primeira vez em 1988, com 6.470 votos, e reelegeu-se por mais três vezes. Não mais parou nas urnas. Em 2002, com 114.659 votos, faz-se deputado federal, o mais votado em Curitiba e Região Metropolitana. Ficou menos de dois meses na Câmara, tempo suficiente para ter, mediante sorteio, o direito de ocupar o gabinete que fora do constituinte Lula. Um espaço muito ambicionado.
Em seguida, Itaipu.

A escolha para Itaipu foi assim: “Samek, você vai voltar para sua terra. Vai presidir Itaipu”, disse-lhe o presidente, no convite-convocação, numa das reuniões do grupo de transição de governo em Brasília, de que JS fez parte – por duas semanas -, junto com outro paranaense, o ministro Paulo Bernardo.

Samek jurou que não sabia de nada, tudo surpresa.
A amizade dos dois já era sólida, firmada em andanças da dupla por todos os quadrantes do Paraná, de carro, especialmente em 1993. E ampliada – garante Samek – também porque Lula, alma de insaciável curiosidade, teve o fascinante do Paraná e suas digitais traduzidos pelo engenheiro agrônomo: “Isso é nosso pinhão, come-se assim... ali, a erva-mate, tudo a ver com a cultura do Sul... a gralha azul, o café, a soja, as colônias polonesas de Cruz Machado, os ucranianos de Antônio Olinto, o Paraná português do litoral, os núcleos italianos, alemães, japoneses, o homem paranaense, sua fala, seus costumes”. A apresentação foi completa, sublinhada certamente pelo bom humor de Samek.

Foi a partir dessa “Caravana da Cidadania”, de dez dias, que o anfitrião
paranaense e o futuro presidente compreenderam os muitos sinais de homens ligados à terra que os unem: daí se sucederam os convites para o sítio de Lula e à sua casa em São Bernardo. No fundo, os churrascos, a comida feita em fogão a lenha, o cardápio com os invariáveis coelhos, polenta, frango, as pescarias e seus causos, a música sertaneja de raiz- tudo trabalhando para cimentar a amizade. “Tudo nos liga”, sintetiza Samek, que retribuía com convites para a fazenda da família, para férias na Ilha das Peças...

Daquela pedagógica lição de Paraná – reforçada no ano seguinte com a candidatura de Samek ao governo do Paraná e de Lula à Presidência da República –, talvez tenha surgido o apelido que Luiz Inácio Lula da Silva deu a Samek: poita.

Para o dicionário Houaiss, poita quer dizer objeto pesado que faz as vezes de âncora em embarcações pequenas.
E os dois foram ampliando os laços familiares, com os muitos convites a Samek e Maria Olivia para fins de semana em Brasília, tempo para, por exemplo, o exame dos tanques de peixe de Lula. Daqueles peixes – pintados, pacus – alguns, acabam indo para o cardápio presidencial.
A propósito: Maria Olívia, personalidade forte, mulher solidamente politizada, é citação constante nas manifestações de Samek. Teve formação aristocrática dos colégios de freiras francesas do Rio.
Não é difícil ganhar-se a confiança dela, vencidas as primeiras impressões. É o alter ego de Jorge Samek.

Os dois sempre acharam tempo para os filhos Paulo César, Fernanda, Ana Carolina e Bruna, hoje profissionais universitários. E com vida independente.
A forte empatia de Lula, o líder carismático, com Samek, tem uma explicação na visão de Paulino Motter, um scholar, assistente do diretor de Itaipu e que com ele trabalhou já em 93, na campanha ao Iguaçu. Acha que o alto astral de Jorge Samek é a ponte que os une: “O presidente é um líder otimista e encontrou no Samek alguém com a mesma postura diante da vida e dos desafios inerentes à política”, explica.

No dia da formatura, com o pai, o legendário líder ruralista João Samek, anos 70

Chinês, árabe, guarani, turistas.
É a fronteira


Samek fez o primário e o ginásio em escolas públicas de Foz, o secundário em escolas técnicas agrícolas de sólida reputação, a “ Manoel Ribas” , de Ponta Grossa, e a “Getúlio Vargas”, de Palmeira. Montou lá as bases de preparo técnico-científico para a vida do campo. Esperava-se que fosse trabalhar na fazenda da família, as muitas terras e múltiplas frentes agropecuárias familiares em Foz. Comando que é da mãe e do irmão Marcos Tadeu. São mais ou menos 600 hectares, onde é aproveitado cada palmo de terra. Nada se perde: soja, milho, trigo, gado...

É uma pequena canaã, antes sob o comando onipresente e onisciente do pai, João Samek, morto há dois anos, aos 75. Era um senhor com viés à direita, que não quis permanecer em casa da fazenda quando Lula e a família ficaram pela primeira vez hospedados lá, em 1994, hóspedes de Jorge. Ser de esquerda era o que bastava, para que o homem de bom perfil cultural, autodidata, se distanciasse, educadamente, de personagens de bandeiras mesmo que levemente avermelhadas.
Segunda geração de brasileiros, Jorge Miguel Samek é um resultado genuíno de Foz, de seu entorno material, seu meio ambiente, sua herança cultural,suas nuances espirituais, com sutis traços das raízes polonesas. Um deles, o de até entender rudimentos de polonês.

Para resumir: é o homem da fronteira, por excelência, o das muitas curiosidades e inquietações, da inteligência antenada num universo que exige enxergar além das divisas físicas e exercitar a imaginação como essencial aos questionamento, em busca de respostas lógicas. Antenas para mundos de variados espectros, como os da cultura guarani – que está ali por perto –, as efervescências do espírito espanhol, o mix de novas fronteiras não materiais, como as trazidas pelas comunidades muçulmana e chinesa – novas realidades da Tríplice Fronteira.
Tudo isso sem esquecer o encontro diário com a babel representada por turistas de dezenas de nações que lá vão contemplar o espetáculo das Cataratas e conhecer a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia, Itaipu.

Samek não tem a propalada franqueza rude do homem da fronteira. Pelo contrário, é diplomata, equilibra-se bem em meio a adversidades. O linguajar tem a modulação dos bem sucedidos não soberbos, um pouco de cacique que afaga, e muito do técnico que domina alguns setores complexos da atividade humana. Um híbrido, pois.
“É tudo pontuado por conhecimento técnico da área de energia”, diz um engenheiro e político do Sudoeste, conhecido por suas avaliações precisas de tipos humanos que estão na berlinda. “Agora”, diz, “ é a hora de Samek, espírito ecumênico, acima de partidos”.
Um exemplo concreto do clima de trabalho que gerou? Seu principal assistente é o engenheiro Antônio José Correia Ribas, que sucedeu Euclides Scalco na diretoria-geral brasileira de Itaipu entre abril de 2002 a janeiro de 2003.

Na verdade, Samek se ufana de ter uma política de portas abertas a seu gabinete. Sem burocracias, recebe desde a “tia” da faxina aos engenheiros e outros técnicos de nível superior. Exercita sem enfados a arte de escutar, um de seus lados mais visíveis.
Diplomacia que tem de conviver bem com a autoridade do diretor geral de Itaipu, manejando códigos lingüísticos essenciais da fronteira. O guarani, por exemplo, não é problema para Samek. É a língua das ruas, do povo e de muitos funcionários – graduados ou não – do lado paraguaio da binacional. Entende-se e faz-se entender no idioma e maneja bem o espanhol.

O diretor geral de Itaipu - que com a mulher, Maria Olívia, e ninguém mais, participou do jantar de transição, em 29 de dezembro de 2002, de Lula e Marisa Fernando Henrique e Ruth, no Torto – assim define sua imersão na binacional:

“Meu partido é o do setor elétrico”.

Encara a missão com redobrada importância, sempre lembrando que a única posse a que Lula compareceu foi a sua. De ninguém mais.
Na verdade, hoje, Samek está tão distante das arengas partidárias que se quisesse disputar um cargo no PT poderia não ter apoio partidário.
Claro que isso não significa rejeição ao PT, partido que adotou em 1991, e pelo qual foi candidato a governador, em 1994, competindo com duas cabeças coroadas, Jaime Lerner (vencedor) e Álvaro Dias. Aderiu inteiramente ao PT e de seu diretório nacional foi membro por quatro anos. Continua engajado petista. Mas quer dizer – com a declaração – que sua prioridade é para a área que Lula lhe entregou para administrar. Para ela, todo tempo e talento.

Com Lula, na Caravana da Cidadania: Paraná e suas Riquezas

“Tudo, menos a honra”, e
“nada mais que a verdade”


Há uma multidão torcendo por “aquele menino curioso de cabelo espetado” (leia artigo de Fábio Campana). Por outro lado, devem existir opositores de muitos níveis ao “polaquinho”. Mas poucos deles se manifestam. Um, em 2006, montou uma catilinária de supostas irregularidades na binacional, envolvendo Samek e seus antecessores. E depois, gente do mesmo grupo hostil – um deles mais tarde preso por arapongagem contra um juiz federal e outras maldades –, distribuiu supostos dossiês contra Itaipu a uma revista nacional que os publicou com ilações fantásticas. Tudo desmentido na seqüência, item por item.

A publicação foi condenada na justiça a dar a versão de Itaipu e o caluniador está até agora envolvido com a lei, tendo passado meses atrás das grades por muitas falcatruas. E cumpre agora prisão domiciliar.
O episódio revelou a capacidade de Jorge Samek de suscitar apoios: seus antecessores, Euclides Scalco (paradigmático líder tucano e notória reserva moral do Paraná), Antonio José Correia Ribas e Francisco Gomide, ex-diretores gerais de Itaipu, saíram em sua defesa e da empresa com manifestações públicas de apoio.

As calúnias não prosperaram, mas a ira santa de Samek mostrou até que ponto pode ir sua veemência para defender seu patrimônio moral. Dois artigos seus foram divulgados pelos jornais, em resposta. Um, “Tudo, menos a honra”, fala por si só no título; outro, “Nada mais que a verdade”, é uma peça de consistente proclamação de reta moral e vida pública sem descaminhos.

Mas tão eloqüente quando as manifestações de antecessores de Samek ao perfil do “menino de Foz”, como o chama um antigo colega de Agronomia da UFPR, é o testemunho do jornalista Bernardo Bittencourt. Esse veterano profissional da imprensa, que tem o Paraná na cabeça e na ponta da língua, tais os preciosos contatos e fontes de informação que cultiva, conta:

— Fiz a campanha de Saul Raiz ao Governo, em 1982, era funcionário licenciado da Secretaria de Estado da Agricultura. Perdida a eleição para Richa, alguém da nova ordem exigiu minha cabeça, minha demissão, justamente na hora em que nascia minha filha mais moça.
Samek não deixou que a demissão ocorresse; “deixem o nego em paz, ele é pai fresco, é um bom profissional”...

E Bittencourt depois, em outra frente de trabalho, como assessor da UDR no Paraná, cruzaria e se tornaria camarada de seu João Samek, então um dos diretores da influente Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP).

— O Seu João Samek era um homem de trato fino, inabalável em suas convicções de produtor, jamais um radical político. Seus excessos poderiam ficar por conta de louvores que fazia ao filho Jorge – “Jorginho” – então vereador, diz Bittencourt, completando:

— E o Jorge Samek jamais deixou de cumprimentar-me com a efusão de sempre, embora sendo eu assessor da União Democrática Ruralista, teoricamente um opositor. Coisas da marca pessoal de Samek.

Puma vermelho, um must dos 80

Quando começou a vida profissional no final dos 70, Samek desfilava num esportivo Puma vermelho, que logo ficou conhecido na Curitiba de pouca diversidade de marcas de carros. Não chegava a ser um playboy, desfrutava das folgas materiais da família. Mas “sem exageros”, garante um companheiro de mocidade de Samek, para quem, “ele já mostrava uma forte inclinação pelos temas políticos”. Foi quando começou a dar demonstrações de interesse pela cidade que escolhera para viver, em preocupações com a segurança alimentar e meio-ambiente, notadamente.

Interesses que materializou depois em dois livros , “Curitiba do terceiro milênio” e “Curitiba: entre o mito e a realidade”nos quais registrou idéias para o planejamento urbano, no começo dos anos 90, já vereador. Nos livros há sugestões inovadoras, muitas observações centradas no meio-ambiente, transporte urbano, habitação, uso do solo, medidas que sugeria para ampliar os programas que Lerner até então implantara na cidade. Faz projeções diante do novo milênio que se avizinhava. Tudo no tom de quem dá conta de sua verdade mas não fere os opositores. Até porque, no caso de Lerner, sempre pareceu respeitar a obra do urbanista, mesmo que dela divergindo em muitos pontos.

Samek é hoje olhado com lupa pela opinião pública. Afinal, ele é considerado – por bons avaliadores – como forte candidato do PT à sucessão de Requião em 2010, com as possíveis bênçãos de seu dileto amigo Luiz Inácio Lula da Silva. Campanha que poderá unir Roberto Requião e Lula em torno de Samek. O que obrigará o “polaquinho” a ampliar seu papel de algodão entre cristais no relacionamento do governador com o presidente. Mas nada intransponível.

É a mesma lupa que faz o homem público hoje de importância nacional ser olhado com admiração nos jogos do Atlético, paixão maior dele: vai direto para as gerais, torce mais do que os mortais comuns pela camisa. Não é jogo de cena, sempre fez assim, “por direito de nascença”, brinca um outro atleticano fanático. Por que seria diferente agora?
Do staff de primeiro escalão de Itaipu, um dos mais próximos de Samek é o jornalista Gilmar Piolla, 39 anos, dono de muita experiência em administrar ações difíceis. Está com Samek desde que era um teen e Samek, vereador iniciante na Câmara Municipal de Curitiba.

Alguns chamam Piolla de porta-voz, aquele que fala em lugar do chefe. Oficialmente é o superintendente de Comunicação Social da Binacional Itaipu, posição de natural importância. Para outros, ele é olhos e ouvidos do rei, “discreto e produtivo, feito na medida de Samek e Itaipu”, resume um técnico da casa.
Piolla foi por Samek encaminhado de forma lenta e segura para amplos vôos a seu lado, é o que parece. Faz parte do círculo íntimo de Jorge Samek.

E é Piolla, com autoridade, que o descreve, em tom preciso: “Samek é a agitação ordenada em pessoa, a tudo pergunta, tudo quer aprender; absorve todas as informações ao mesmo tempo, fazendo a imersão total em temas áridos e essenciais – como os do setor elétrico”. E não economiza nas imagens: “Ele parece viver ligado a uma tomada de 220, elétrico, não falha na agenda, pontual nos compromissos...”
Vem do já citado Paulino Motter, doutorando em Educação em universidade norte-americana, esta observação: “Uma das facetas menos conhecidas de Samek é a de ser um executivo extraordinário. Sabe motivar as pessoas a seu redor pela capacidade de formar equipes”.
Paulino e outros que convivem com Jorge Samek diariamente na Itaipu garantem que o diretor geral é um detalhista: cobra informações precisas e completas de seus colaboradores. Mas é rápido nas decisões e tem aversão à centralização. Delega e cobra resultados. Raramente dá ordens de forma direta e peremptória, mas por manifestações claras de expectativas.

Unila, a universidade do
diálogo das Américas


Samek só tem mais 15 minutos para a breve entrevista. Está a caminho da enésima viagem a Foz. Ela é mais do que a cidade natal, é lugar de concretização de projetos que o mostram bem além de gestor da maior hidrelétrica do mundo.

Os novos marcos do Pólo Tecnológico de Itaipu, por exemplo, realizam alguns sonhos, em 60 mil m2 de área, com a recuperação velhos alojamentos. Ali surgem realidades com dimensão internacional, como o Centro de Hidroinformática, referência para a Unesco; a fábrica de software livre; incubadoras tecnológicas; a Universidade Aberta do Brasil – ensino a distância em convênio com o MEC –, com seu pólo presencial; unidades do mais importante centro tecnológico do país, o ITA; o programa de artesanato – Ñandeva – garantindo aulas de design industrial mundial por quadros da Benetton, Ferrari, Nokia.

Não há “filho” predileto de Samek em Foz. Mas alguns saltam aos olhos, como o megaprojeto de atualização das unidades geradoras de Itaipu, que será feito ali mesmo, no Parque Tecnológico, “para reter conhecimento”. Trata-se de empreendimento de US$ 350 milhões, desafio cuja resposta caberá aos cursos de Engenharia da Unioeste instalados no Parque, outro feito da binacional no apoio ao desenvolvimento tecnológico da região. O know how da ousada ação será depois transferido para a Hidrelétrica de Três Gargantas, da China.

Há quem garanta que “a menina dos olhos” de Jorge Samek é a Unila, a Universidade Federal de Integração Latino-Americana, criada pelo Ministério da Educação, e que abrigará em Foz 10 mil alunos, sendo 5 mil deles brasileiros, os demais, de diversos países.

A universidade surge em área de 42 hectares doada por Itaipu, com cursos devendo começar em 2009, também com sede no Pólo Tecnológico. Uma variedade curricular nas áreas da diplomacia, do turismo, do comércio exterior, de línguas estará em oferta na Unila. Tudo para ampliar laços e conhecimentos recíprocos entre os latino-americanos. De certa forma, é a consumação do projeto Universidade das Américas, concebido por Lerner.

Mas pode até estar acertando sobre quem é o primus inter pares dos sonhos de Jorge Samek se citar o programa “Cultivando Água Boa”, composto de 70 projetos e 96 ações que vão da recuperação de microbacias, proteção de matas ciliares e da biodiversidade e disseminação de saberes para formar o novo cidadão pró-meio ambiente.Buscas de respostas locais para o aquecimento global atingindo os municípios sob influência imediata da binacional.

Enfim, o “Cultivando Água Boa” é, junto com outras ações da mesma linha hoje realizadas por Itaipu, uma boa síntese da vida a obra de seu diretor-geral. Sinais evidentes de que os estudos e debates da Diretrizes do MDB dos anos 80 não foram em vão. Continuam movimentando a História.


Transcrito do Livro "Vozes do Paraná: Retratos de Paranaenses",
volume 1, Convivium Editora e Travessa dos Editores, 2008.

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