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O   n   l   i   n    e

Ética e fé pública

Roberto Romano

É preciso lembrar: sem a fé pública, nenhuma sociedade, instância política, religiosa, artística e acadêmica pode sobreviver ou se expandir.

O Brasil atravessa uma das mais graves crises éticas e políticas de sua história recente. Desde a era Collor, as instituições públicas iniciaram, timidamente, sua recuperação junto à cidadania, com resultados importantes em termos de governabilidade.

Os vários episódios ocorridos no Parlamento nacional, sobretudo a violação do painel do Senado, levaram a uma obediência maior ao decoro e aos ditames morais, resgatando parte da confiança no regime democrático e no Estado de Direito.

Por falta de modificações estratégicas na condução do jogo político e sem reformas que definam, para tomar um exemplo, a estrita obediência dos representantes do povo aos programas dos partidos pelos quais foram eleitos, a luta eleitoral exibe, novamente, aspectos negativos do organismo político.

As denúncias contra a candidatura de Roseana Sarney exibem uma gama de problemas que ameaçam diretamente a fé pública. Olhos e ouvidos da cidadania são agredidos por atos e falas imprudentes que ameaçam, na campanha presidencial, os padrões éticos comezinhos. É preciso lembrar: sem a fé pública, nenhuma sociedade, instância política, religiosa, artística e acadêmica pode sobreviver ou se expandir.

A fé pública possibilita investimentos econômicos, incentiva o bom desempenho da indústria e do comércio, garante a circulação de riquezas. A fé pública solidifica o regime democrático, permite que o país seja viável e respeitado. Sem ela, a incerteza e a desesperança marcam o coletivo, os valores são corroídos.

A Universidade brasileira tem uma palavra em todo o drama que envolve a corrosão da República. A competência científica de seus quadros e a disciplina ética são os grandes elementos a definir. Deve se recuperar, no Brasil, a confiança do povo nos dirigentes.

Qualquer que seja o partido dos governantes a serem eleitos nos tempos próximos, todos precisam da fé pública e da colaboração universitária. Nossa pátria possui um patrimônio científico e tecnológico, humanístico e artístico gerado em Universidades e nos institutos de pesquisa.

Os campi não podem permanecer alheios à decisão sobre o destino do país. Minha vida pública é de constante empenho no combate aos desmandos éticos na sociedade civil e no Estado. Na cátedra, em livros e artigos, em conferências, nos jornais, defendo os padrões de trato ético na política.

Cheguei a ser processado (e absolvido por tribunais justos) por ter escrito, nesta Folha, contra políticos que defendiam o bordão que perverte a fé pública, o tristemente famoso ‘é dando que se recebe’.

Naqueles dias, tive apoio da Unicamp em todos os seus segmentos internos. Em duas décadas de atividade como publicista, sempre uni a busca da ética à defesa da Universidade pública.

Apesar do bom nível dos programas expostos pelos colegas que disputam a reitoria da Unicamp, a minha candidatura se caracteriza pelo vínculo essencial entre ética e restauração da fé pública. Justo por isso, fui convidado a ampliar meu compromisso com a vida nacional, na reitoria da Unicamp, uma Universidade respeitada pelos poderes do Estado e pela sociedade civil.

Como sempre, não permaneço silente na crise ética enfrentada por todos nós. Dessa vez, entretanto, o meu compromisso é o de coordenar a Unicamp no sentido de conduzi-la a um compromisso efetivo com o povo brasileiro.

A opção da Unicamp, nos próximos dias, irá além da escolha do seu reitor. Trata-se de seguir novas sendas a serem trilhadas. A palavra ‘reitor’ vem do termo latino ‘rector’, aquele que julga, corrige, indica os caminhos. Mas o termo também designa o ditador.

Ainda hoje, existem setores que defendem que o reitor, com os seus auxiliares, deve ditar os rumos da pesquisa, do ensino e da extensão universitários.

Diferentemente, penso que o mandato reitoral deve ser definido por uma pessoa que busca, com a comunidade, a estrada correta e, consciente das normas éticas, as aplica segundo a justiça.

Convencido pela mais íntima certeza da superioridade do regime democrático, afirmo que esta forma política é a mais eficaz para reger qualquer coletividade, inclusive a que se reúne nos campi. A democracia supera todas as outras formas que o gênio político ideou para reger os destinos humanos. Ela supera, sobretudo, as pretensões aristocráticas ou ditatoriais.

Acho, portanto, que está na hora de a Universidade refazer seu trato comunitário, isto é, de ela pensar sua inserção na sociedade e ampliar suas dimensões de Estado, diminuindo o peso do executivo em suas considerações. Que retome internamente a democracia plena.

Enquanto instituição de Estado, a Universidade pública -o que inclui a Unicamp- ainda não aplicou o seu potencial pleno para ajudar os poderes políticos a resolver os problemas gerados pela exclusão social. Além disso, na sua própria essência de instituição estatal, a Universidade deve servir a República, pondo ao seu dispor conhecimento científico, técnico e humanístico que permita produzir instrumentos para enfrentarmos as mais diversas crises.

Na atual campanha em prol da reitoria da Unicamp, retomo o apelo para que os meus pares, os funcionários, estudantes e técnicos, compartilhem o sentimento de indignação com o atual estado de coisas na República brasileira, ajudando-nos a solidificar, em nossa respeitada Universidade, a competência acadêmica e o rigor ético, em proveito de um povo que sofre, luta e deposita muita esperança na instituição que nos acolhe e sustenta.

Roberto Romano, 55, filósofo, professor titular de ética e filosofia da Unicamp, é candidato a reitor da Universidade. Artigo publicado na ‘Folha de SP, 15/3

 

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