
Antonio
Strano Vieira é professor
universitário; foi Coordenador do Curso de Jornalismo da PUC-PR
e do Núcleo de Ética e Legislação em Comunicação
Social da UTP-PR. Publicou "Quinze Passos Brancos", "O
Arquiteto Incompleto" e "Elegia da Festa do Divino";
prepara um estudo sobre as "Ordenações do Reino",
de Portugal.
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C o m u n i c a ç ã
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ENTRE A QUEDA E A GRAÇA,
O Testamento de Lúcio Cardoso - PARTE 4
(extra)
Antonio
Strano Vieira
A reflexão cinzenta
Os "Poemas Inéditos" -verdadeiro testemunho
póstumo da poética de Lúcio Cardoso, e através
dela do seu pensamento - foram divididos em cinco partes; e desse modo
servem bem para demonstrar as nuances e tendências de sua expressão: "Sonetos", "Em
Tom De", "Poesias Dedicadas", "Poemas Diversos" e "Prosa
Poética".
Essa divisão, realizada por Octávio de Faria, conduz o
leitor através de uma seqüência que prepara para passos
cada vez mais profundos na poesia de Lúcio Cardoso. Diríamos
que os "Poemas Inéditos" começam com alguns exercícios
e movimentos perfeitamente dominados, alguns inacabados, outros algo
leves e rápidos, nos "Sonetos", nos temas de
"Em Tom De", e nos "Poemas Dedicados", à semelhança
de um instrumentista - para usar a imagem lembrada por Oscar Mendes (18), a
propósito do livro de poemas de Federico Garcia Lorca - que afina e
brinca com o seu instrumento e a sua inspiração, para chegar
aos "Poemas Diversos" e mostrar a plenitude de sua arte.
Nos Poema denominados "Em Tom De", que antecipam o pintor que
ele seria de fato, notamos quase uma exibição de virtuosismo,
de frio domínio do seu material estético, a ponto de fazer
poemas sobre qualquer tema - a exemplo dos repentistas e dos músicos
de jazz - cor ou impressão que lhe seja proposto: rosa, azul,
chama, etc.
Exempla: "Em tom de rosa": "Rasga, tira, teu suavíssimo
esplendor./Rasga insone o teu veludo cor de sândalo,/antes que
a dura pauta enfureça/ao chegar do teu valor." "Em tom
de azul": "Ah clareiras , ah mundo,/ah coisas do acontecido/no
culto fundo." " Em tom de branco": "A cor não
existe./Somos o que inventamos./Passamos./Mas o nada insiste.
“Mas é nos "Sonetos" que percebemos o quanto na verdade
a preocupação com a forma é inútil para Lúcio
Cardoso, ou mesmo ela é indiferente quando existe autenticidade no que
se diz. É o que acontece no soneto "O Rio", por exemplo: " O
imenso rio, como um tigre/fechado em seu âmbito de fome,/depois de devorar
noturna sela/a própria espuma em si consome." E também em "Soneto": "Com
que coisa ardida morrer/esta inocente carne de verão -/o grande enterro
por acontecer/é do depois - depois por ser.”
A carga existencial imprimida por Lúcio Cardoso em quase tudo
que escreve é tão sincera que, ao vê-la em forma
de soneto - ou mesmo submetida à sujeição dos temas
externos como nos poemas de "Em Tom De" - ela parece conduzida,
limitada, amesquinhada. Lúcio Cardoso teria consciência
disso: uma febre tão alta não se organiza. Ela própria
conduz o seu ritmo.
No entanto, parece que esse foi um desafio enfrentado por Lúcio
Cardoso em poesia. Ele quis enfrentá-lo. E desafio duplo. Primeiro:
o desafio de colocar essa febre tão alta em sonetos. Segundo:
o de enriquecer possivelmente as revelações dessa febre
com as conquistas formais do soneto.
Em alguns, como na seqüência ainda de "O Rio", Lúcio
mostra que é possível, certas vezes, enriquecer uma febre
autêntica com os recursos algo artificiais do soneto: "Passar
talvez, que importa,/ não passar só é o persistir;/
se a flor se dobra ao vento/ é morte ficar ou insistir./ Passa,
que a cor é movimento/ e não resiste ficar, é só partir.."
Mas para Lúcio Cardoso a preocupação com a forma,
como dissemos, é um esforço desnecessário. Por
isso, talvez são poucos os sonetos. Em outros momentos , têm-se
mesmo a impressão que a sua angústia é tão
acabada, tão pronta, que o soneto a deforma. Ainda , nos sonetos,
passa a impressão de um recurso: o de transferir essa febre, essa
angústia, para as coisas, os fatos, os substantivos. Os campos,
a noiva, a vasa, a água, o rio. É, portanto, nesses momentos,
uma angústia contemplada. E assim - apesar do eu surgir aqui e
acolá - Lúcio Cardoso consegue um certo distanciamento
para organizar, formalizar suas emoções.
Lembra Octávio de Faria as possíveis críticas à forma
dos poemas. Entretanto, o melhor do livro póstumo é exatamente
quando nos "Poemas Diversos" , onde Lúcio surge inteiro,
o poeta encontra a sua forma. De dentro para fora. Se liberta daquela
procurada nos sonetos.
É interessante notar , no entanto, que essa forma, aparentemente inacabada, é a
mais adequada, porque a mais espontânea, a mais legítima, para
a angústia madura, plena, da poesia de Lúcio Cardoso. Existe
em Lúcio Cardoso, aquele primitivismo, aquela desorganização,
que são os instantes definitivos do homem. Mesmo no interior de uma
corpus de alta sofisticação, o poeta autêntico será sempre
um homem primitivo. Um ser que não perdeu o contato com as emoções
mais remotas. E que por isso é capaz das visões mais amplas e
mais profundas. Como uma espécie de um animal luxuoso e místico
- seja ele Goethe ou Dante - que fosse capaz de pensar na morte.
O próprio Octávio de Faria indica ainda seu estudo sobre
Vinícius (o Marcus Vinícius Cruz de Melo Moraes) e Schmidt
(o Augusto Frederico Schmidt), um pouco antes de conhecer a poesia de
Lúcio Cardoso, vendo uma certa semelhança entre eles. A
identidade de Lúcio, no entanto, é inconfundível,
como se percebe, e ele mesmo, ao seu modo, indica, em "Confissão": "Sob
o seu manto de relva,/uma ferida oculta./Sob o seu olhar de ação/um
pensamento de crime./No seu coração de granito,/um pensamento
que não morre./Ardente, a ferida sangra./Vermelho, o pensamento
domina./De ferro, o coração já não dorme."
E, mais, em "Ode Perplexa" : " Deste instante é que
devo partir sem náusea para esta longa viagem./Calada está a
emoção dentro de mim/como um pássaro adormecido./Só esta
radiação contínua e luminosa,/ esta presença
aguda no seio do silêncio, / este existir solitário na pureza,
/ este sofrimento na própria contenção. / Sinto
o sangue escorrer dentro de mim / como em vastos reservatórios
um líquido pesado: / tudo em mim traça o limite e a forma,
/ vive autônomo como um animal cego/ na escuridão enorme
e indiferente... "
Na verdade, a poesia de Vinícius, Schmidt e Lúcio Cardoso
parecem ter um parentesco. Elas aparentemente são parentes. Mas
só aparentemente. Na verdade, são completamente diferentes.
Lúcio, sobretudo. Lúcio Cardoso é o ser envolvido
com o ser. Reflete. Pensa. Sempre com febre. É uma reflexão
cinzenta. Um colorido em que a sombra da existência está sempre
presente. Não existe em Lúcio Cardoso, aquela fascinação
pela sensualidade, aquela alegria mesmo pela natureza que há em
Vinícius - com o lirismo exacerbado, como o dos atos do Novo Testamento,
que prenunciam a crucificação - mas antes dela.
Nem mesmo o tom imemorial, aquela dicção quase profética,
semelhante à que perpassa o Velho Testamento, desse, talvez, orgulhoso
poeta pós-diluviano que, às vezes, podemos localizar em
Schmidt. Lúcio Cardoso, como eles, também é uma
espécie de ser alado, pela sombra e pela luz ; mas que sobrevoa
os dois universos - e com perfil único.
NOTA
18 - Oscar Mendes
(1902/1983); pernambucano radicado em Belo Horizonte, escritor, crítico
literário, professor de literatura; pensador na linhagem
de Alceu Amoroso Lima, autor do ensaio "Charles Baudelaire, o cristão
solitário", entre inúmeros outros; tradutor de Lorca
e de Dostoievski; responsável pela coluna "A Alma dos Livros,
em "O Diário" e no "Estado de Minas"; diretor
e redator-chefe de "O Diário", jornal onde João
Etienne Filho, em 1936, foi por ele apresentado ao moço
Lúcio Cardoso.
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O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 1
-"Neste jardim votado aos verões da carne"
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 2
-O ser ao vento
-Uma angústia acabada
O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 3
-O retorno de uma metáfora
-A casa e as portas
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