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Antonio Strano Vieira é professor universitário; foi Coordenador do Curso de Jornalismo da PUC-PR e do Núcleo de Ética e Legislação em Comunicação Social da UTP-PR. Publicou "Quinze Passos Brancos", "O Arquiteto Incompleto" e "Elegia da Festa do Divino"; prepara um estudo sobre as "Ordenações do Reino", de Portugal.


C o m u n i c a ç ã o
d e  C i ê n c i a  e  F é

O   n   l   i   n    e

NOVEMBRO DE 2008

ENTRE A QUEDA E A GRAÇA,
O Testamento de Lúcio Cardoso - PARTE 4
(extra)

Antonio Strano Vieira

A reflexão cinzenta

Os "Poemas Inéditos" -verdadeiro testemunho póstumo da poética de Lúcio Cardoso, e através dela do seu pensamento - foram divididos em cinco partes; e desse modo servem bem para demonstrar as nuances e tendências de sua expressão: "Sonetos", "Em Tom De", "Poesias Dedicadas", "Poemas Diversos" e "Prosa Poética".

Essa divisão, realizada por Octávio de Faria, conduz o leitor através de uma seqüência que prepara para passos cada vez mais profundos na poesia de Lúcio Cardoso. Diríamos que os "Poemas Inéditos" começam com alguns exercícios e movimentos perfeitamente dominados, alguns inacabados, outros algo leves e rápidos, nos "Sonetos", nos temas de
"Em Tom De", e nos "Poemas Dedicados", à semelhança de um instrumentista - para usar a imagem lembrada por Oscar Mendes (18), a propósito do livro de poemas de Federico Garcia Lorca - que afina e brinca com o seu instrumento e a sua inspiração, para chegar aos "Poemas Diversos" e mostrar a plenitude de sua arte.

Nos Poema denominados "Em Tom De", que antecipam o pintor que ele seria de fato, notamos quase uma exibição de virtuosismo, de frio domínio do seu material estético, a ponto de fazer poemas sobre qualquer tema - a exemplo dos repentistas e dos músicos de jazz - cor ou impressão que lhe seja proposto: rosa, azul, chama, etc.

Exempla: "Em tom de rosa": "Rasga, tira, teu suavíssimo esplendor./Rasga insone o teu veludo cor de sândalo,/antes que a dura pauta enfureça/ao chegar do teu valor." "Em tom de azul": "Ah clareiras , ah mundo,/ah coisas do acontecido/no culto fundo." " Em tom de branco": "A cor não existe./Somos o que inventamos./Passamos./Mas o nada insiste.

“Mas é nos "Sonetos" que percebemos o quanto na verdade a preocupação com a forma é inútil para Lúcio Cardoso, ou mesmo ela é indiferente quando existe autenticidade no que se diz. É o que acontece no soneto "O Rio", por exemplo: " O imenso rio, como um tigre/fechado em seu âmbito de fome,/depois de devorar noturna sela/a própria espuma em si consome." E também em "Soneto": "Com que coisa ardida morrer/esta inocente carne de verão -/o grande enterro por acontecer/é do depois - depois por ser.”

A carga existencial imprimida por Lúcio Cardoso em quase tudo que escreve é tão sincera que, ao vê-la em forma de soneto - ou mesmo submetida à sujeição dos temas externos como nos poemas de "Em Tom De" - ela parece conduzida, limitada, amesquinhada. Lúcio Cardoso teria consciência disso: uma febre tão alta não se organiza. Ela própria conduz o seu ritmo.

No entanto, parece que esse foi um desafio enfrentado por Lúcio Cardoso em poesia. Ele quis enfrentá-lo. E desafio duplo. Primeiro: o desafio de colocar essa febre tão alta em sonetos. Segundo: o de enriquecer possivelmente as revelações dessa febre com as conquistas formais do soneto.

Em alguns, como na seqüência ainda de "O Rio", Lúcio mostra que é possível, certas vezes, enriquecer uma febre autêntica com os recursos algo artificiais do soneto: "Passar talvez, que importa,/ não passar só é o persistir;/ se a flor se dobra ao vento/ é morte ficar ou insistir./ Passa, que a cor é movimento/ e não resiste ficar, é só partir.."

Mas para Lúcio Cardoso a preocupação com a forma, como dissemos, é um esforço desnecessário. Por isso, talvez são poucos os sonetos. Em outros momentos , têm-se mesmo a impressão que a sua angústia é tão acabada, tão pronta, que o soneto a deforma. Ainda , nos sonetos, passa a impressão de um recurso: o de transferir essa febre, essa angústia, para as coisas, os fatos, os substantivos. Os campos, a noiva, a vasa, a água, o rio. É, portanto, nesses momentos, uma angústia contemplada. E assim - apesar do eu surgir aqui e acolá - Lúcio Cardoso consegue um certo distanciamento para organizar, formalizar suas emoções.

Lembra Octávio de Faria as possíveis críticas à forma dos poemas. Entretanto, o melhor do livro póstumo é exatamente quando nos "Poemas Diversos" , onde Lúcio surge inteiro, o poeta encontra a sua forma. De dentro para fora. Se liberta daquela procurada nos sonetos.

É interessante notar , no entanto, que essa forma, aparentemente inacabada, é a mais adequada, porque a mais espontânea, a mais legítima, para a angústia madura, plena, da poesia de Lúcio Cardoso. Existe em Lúcio Cardoso, aquele primitivismo, aquela desorganização, que são os instantes definitivos do homem. Mesmo no interior de uma corpus de alta sofisticação, o poeta autêntico será sempre um homem primitivo. Um ser que não perdeu o contato com as emoções mais remotas. E que por isso é capaz das visões mais amplas e mais profundas. Como uma espécie de um animal luxuoso e místico - seja ele Goethe ou Dante - que fosse capaz de pensar na morte.

O próprio Octávio de Faria indica ainda seu estudo sobre Vinícius (o Marcus Vinícius Cruz de Melo Moraes) e Schmidt (o Augusto Frederico Schmidt), um pouco antes de conhecer a poesia de Lúcio Cardoso, vendo uma certa semelhança entre eles. A identidade de Lúcio, no entanto, é inconfundível, como se percebe, e ele mesmo, ao seu modo, indica, em "Confissão": "Sob o seu manto de relva,/uma ferida oculta./Sob o seu olhar de ação/um pensamento de crime./No seu coração de granito,/um pensamento que não morre./Ardente, a ferida sangra./Vermelho, o pensamento domina./De ferro, o coração já não dorme."

E, mais, em "Ode Perplexa" : " Deste instante é que devo partir sem náusea para esta longa viagem./Calada está a emoção dentro de mim/como um pássaro adormecido./Só esta radiação contínua e luminosa,/ esta presença aguda no seio do silêncio, / este existir solitário na pureza, / este sofrimento na própria contenção. / Sinto o sangue escorrer dentro de mim / como em vastos reservatórios um líquido pesado: / tudo em mim traça o limite e a forma, / vive autônomo como um animal cego/ na escuridão enorme e indiferente... "

Na verdade, a poesia de Vinícius, Schmidt e Lúcio Cardoso parecem ter um parentesco. Elas aparentemente são parentes. Mas só aparentemente. Na verdade, são completamente diferentes. Lúcio, sobretudo. Lúcio Cardoso é o ser envolvido com o ser. Reflete. Pensa. Sempre com febre. É uma reflexão cinzenta. Um colorido em que a sombra da existência está sempre presente. Não existe em Lúcio Cardoso, aquela fascinação pela sensualidade, aquela alegria mesmo pela natureza que há em Vinícius - com o lirismo exacerbado, como o dos atos do Novo Testamento, que prenunciam a crucificação - mas antes dela.

Nem mesmo o tom imemorial, aquela dicção quase profética, semelhante à que perpassa o Velho Testamento, desse, talvez, orgulhoso poeta pós-diluviano que, às vezes, podemos localizar em Schmidt. Lúcio Cardoso, como eles, também é uma espécie de ser alado, pela sombra e pela luz ; mas que sobrevoa os dois universos - e com perfil único.


NOTA

18 - Oscar Mendes (1902/1983); pernambucano radicado em Belo Horizonte, escritor, crítico literário,  professor de literatura; pensador na linhagem de Alceu Amoroso Lima, autor do ensaio "Charles Baudelaire, o cristão solitário", entre inúmeros outros; tradutor de Lorca e de Dostoievski; responsável pela coluna "A Alma dos Livros, em "O Diário" e no "Estado de Minas";  diretor e redator-chefe de "O Diário", jornal onde João Etienne Filho, em 1936,  foi por ele apresentado ao moço Lúcio Cardoso.

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O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 1

-"Neste jardim votado aos verões da carne"

O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 2

-O ser ao vento
-Uma angústia acabada

O TESTAMENTO
DE LÚCIO CARDOSO PARTE 3

-O retorno de uma metáfora
-A casa e as portas

 

 

 

 

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